4 de mai. de 2009

Sobre fatos.

I

Vai o sujeito andando pela rua. É um rapaz de bom-humor. Deve ter saído da casa de um amigo, do apartamento da namorada. De qualquer forma, vem tendo um dia bom, pois anda olhando firme e a passos largos, como é normal das pessoas confiantes e bem-humoradas. Teve um dia bom, porque seu humor está aguçado e sente-se a si uma pessoa boa, tem ares de carismático. Caminha para casa por ruas paralelas à grande marginal: é início de outono, apesar do calor sufocante, fora do comum, e a essa hora (batem dezessete horas nos sinos de alguma igreja dali de perto) a luz é engraçada por essas ruelas. Bate, mas não bate. Luz preguiçosa de outono, como é em todos os cantos que beiram o Trópico de Capricórnio. Vai andando e percebe, encostado à calçada, um carro conhecido. O rapaz de bom-humor, não se pode esquecer dele.


II

O carro pára no sinal vermelho. O sujeito conversa com a esposa ou cliente no telefone celular. Nem percebe quando é aberta a porta do seu carro. Ao seu lado, um homem que não consegue identificar como é: não o enxerga. Sente somente algo que cutuca sua barriga, do lado direito, logo abaixo das costelas e uma voz que diz impaciente: “Vai, vai, vai!!!”, e o sujeito anda, assim que o sinal abre. Nem devagar nem rápido. Suas pernas tremem. A essa altura, o homem já lhe tirou o celular das mãos e o pôs na pochete que traz na cintura. O homem perto de casa — mais cinco ruas adiante, dobra à esquerda que vai dar num bairro tranqüilo, nem centro nem bairro, perto do banco, do hospital e da padaria, mas longe do barulho. Com o raciocínio difícil de quem encara um situação difícil, o sujeito pensa que não poderia chegar em casa com o homem a seu lado: estupraria sua esposa e sua filha, torturaria o filho mais velho, quebraria os móveis de design italiano e sujaria o tapete persa novinho, comprado em liquidação. Duas quadras antes de casa, o sujeito pára o carro a pedido do homem que lhe havia seqüestrado. O homem lhe pede o relógio e a carteira, que ele entrega com dificuldade. Só não lhe pede a arma porque não sabe que há uma arma debaixo do banco do motorista. Se soubesse, talvez nunca tivesse entrado nesse carro, mas em outro, com pessoas desprotegidas. Pois que, falando em arma, agora o sujeito motorista lembra dessa. Sabe que consegue pegá-la, já que fez este exercício pelo menos uma centena de vezes, mas não tem coragem. Sabe que conseguiria dobrar o assaltante e meter-lhe uns tiros na fuça, mas não tem coragem. Por poucos não urina nas calças: lembra do banco de couro. O homem assaltante deixa o carro e diz para o sujeito motorista não fazer qualquer movimento com o veículo, que ele volta correndo e lhe tira ainda o carro e a vida. O sujeito motorista obedece. Fica ainda um tempo esperando depois que o homem some do reflexo de seu retrovisor. Engata a primeira — as pernas tremendo — e acelera pela rua paralela à marginal. Chora. Chora como uma criança, e não é senão por isso que ele não consegue mais dirigir. Pára o carro. Agora mais perto de casa. Pára o carro sobre a calçada, na diagonal, como alguém que quisesse estacionar e estancou no meio da manobra. Chora ainda, mas menos. Agora pega a arma. Pega e põe de volta umas vezes, para lembrar do que deveria ter lembrado na hora do assalto. O que não é um homem com o orgulho ferido. Segura firme a arma. Pensa que deve ir atrás do seu algoz, o maldito filhadaputa que lhe fez quase cagar-se de medo. Este que paga os impostos, que paga um bom colégio para seus filhos, que nunca fez mal a ninguém. Enche-se de hombridade, engatilha a arma, vê que consegue segurá-la com firmeza. Mais uma crise de choro, agora encenando o ridículo do orgulho ferido, ele que era a vítima que não tinha quem o desse a mão. A cabeça pendendo contra o peito, o peito pendendo contra o volante, a arma segurada com as duas mãos entre as pernas entreabertas.


III

Vem o sujeito-moço, andando bem-humorado por causa do entardecer de outono e, longe, percebe o carro conhecido. De bom humor e seguro de si, já cumprimentou quatro pessoas desconhecidas pelo caminho de volta de onde estava e só não recebeu o cumprimento de volta de um homem, o último com quem cruzara, que lhe encarou com raiva de gente medrosa. Vê o carro parado, reconhece a placa, diminui o passo. Dentro dele, um homem sentado meio de lado e com a cabeça baixa. Vê, pelo lado esquerdo, que o vidro do lado direito, o vidro do motorista, está aberto. Inclina-se para frente e caminha a passos leves, como que para evitar ser percebido. Quando chega ao lado da janela, levanta-se e grita sorrindo: “Pai!”, enquanto que o homem sentado dentro do carro, com uma arma engatilhada e as mãos firmes que a seguram, sem tempo para pensar, medir, equacionar, despeja-lhe o carrossel de cinco balas. No rosto.

Em 10 de agosto de 2008.

24 de abr. de 2009

O Luiz de Laura.

Laura nasceu por aqui ou por ali. Na verdade, não interessa de onde vem. E tudo aconteceu pelo ano de... não, não importa quando tudo começou. Importa, sim, saber de Laura.

No rádio a pilha, instalado na pequena cozinha do casebre de madeira, o rádio. No altar, o rádio. Nenhum santo na casa, somente o aparelho que trazia ruidosas canções de longe, informações pouco importantes de lugares desconhecidos, pessoas que não se sabia se existiam, tragédias que não afetavam Laura nem um pouco.

Nunca tinha visto índio de perto. Negro também não. Índio e negro eram duas pessoas muito feias, muito distantes, que viviam para além das montanhas ao norte, para além das montanhas ao sul. De qualquer forma, também pouco se importava, embora a curiosidade por saber o que havia mais ao norte e mais ao sul lhe corroesse as noites de bom sono.

Essa é a história bonita de Laura, menina-moça de algum interior onde se tinha de caminhar quilômetros atrás de pilha pro rádio, o pai que mandava buscar.

Uma tarde, depois do almoço, a barriga cheia, Laura deitou na rede. O rádio ligado, os ruídos aos quais se acostumou lhe ninando a sesta. Não mais que de repente, o silêncio. Laura pensou, me disse anos mais tarde, que tivessem acabado as pilhas. Deu de ombros.

Não, não eram as pilhas que tinham acabado. Nem era a mãe que o tinha desligado, aquele barulho dia e noite, nem se entende nada que fala essa merda. Apenas não havia mais ruídos e dali, da caixa com alto falantes de onde saiam todas aquelas vozes roucas, as notícias desinteressantes, as músicas fanhas, começou a sair uma voz...

Uma voz, sim. Não. A voz. A voz que a merda do rádio velho nunca permitira que fosse ouvida com tanta nitidez, com tanta beleza. Eram palavras de caramelo — assim me descreveu Laura — e a respeito das quais não tinha o que dizer simplesmente porque não as entendia. Problema no rádio, chama o pai, mãe me ajuda. Não. Não eram palavras tortas.

A voz grave e profunda do homem que cantava fez Laura molhar-se de suor e excitação. As lágrimas que lhe caíam dos olhos eram desejo e eram raiva da vida pequena que vivia (entre os morros do norte e os morros do sul), eram paixão à primeira ouvida.

Devia ser da cidade. Mas para onde? Um dia foi levando trezentos mangos ou menos, não soube me dizer. Foi loucamente para a Cidade. “Aonde fica?”, “Pra lá, Laura!” E foi. Descobriu o asfalto, soube o que eram os prédios, assustou-se com os automóveis. Ia voltar logo. Precisava trazer um pedaço daquele homem, do tal Luiz de sobrenome impronunciável.

Quanto custava chegar à Cidade? Quanto custava retornar? E o disco de Louis Armstrong, quanto custava? Soube, afinal, do que se tratava um homem negro. Lambeu os lábios ao vê-lo retratado na capa do LP. “Onde mora ele? Muito longe, filhinha”. Deu os dinheiros que tinha no bolso, não contou.

Isso aconteceu muitos anos atrás, não vale a pena contar quantos. Mas de repente, Laura pede pra me mostrar um tesouro. Sorrio, eu, constrangido, a minha boca contrastando com a boca de poucos dentes de Laura. E ela abre uma caixa de madeira, desembrulha de entre lençóis e jornais o quadrado sagrado pelo qual entregara sua vida. Ali, a foto do grande homem de voz profunda.

Não ousei perguntar se a história era mesmo verdadeira. Mas quando Laura me mostrou a fotografia do cantor, os olhos cheios de lágrimas, não pude duvidar.

— Acredita, moço, que eu nunca coloquei pra escutar? Que não deu uma volta esse meu disco?
— Acredito sim, Laura. E mato quem disser que não.

8 de abr. de 2009

Soltura.

Andei lembrando de umas coisas, maninha. De um tempo bem tempo atrás, onde não existia morte — deve ter passado a existir logo depois disso, porque não lembro. Era eu e eu e o mundo. Tudo era grande, quase tudo era bonito.

Havia proibições, mas o que fazer com elas naquela altura da vida? Dentro de uma gaveta, eu lembro, papai guardava seu trabalho: uma tesoura de tecelão, um dedal e os tapadores de ouvido. Trinta anos de trabalho naquela máquina, maninha, que ele chamava de a minha máquina. Tapa na mão quando abria aquela gaveta (o trabalho era ainda tão distante) e um grunhido: nem palavras havia ainda.

Tu devias ser um colo, uma mão a passear os dedos pelos meus cabelos loiros, uma nuvem na cabeça, aquele fios brancos e amarelos que escureceram e me fizeram feio. Maninha, descobri tanto tempo depois que bonito era ter a cabeça branca daquele jeito. Mas tu devias estar por lá, quando era tudo bonito e eu jamais te perguntarei se era bonito também para ti: essa beleza é só minha, só minha!, e é um caminho de dominós emparelhados: tocas o dedo e desmorona.

Tudo desmorona. Sinto falta do cão de que nunca vi. Deves tê-lo chamado Ron, porque ele ronronava ron ron ron perto de ti, mas acabou que papai um dia foi chamá-lo e não soube dizer (tu sabias que ele não sabia dizer?) Ron e disse Rão. Engraçado, né, porque com pão ele também não consegue e diz pón até hoje.

Não sei de ti naqueles tempos, maninha. Sei de pouca coisa. Não havia sobre minha cabeça mais do que nuvens que apareciam às vezes: a nuvem da fome, a nuvem do sono, a nuvem negra de umas palmadas que levava — nessa época fazia arte no melhor sentido: era puro prazer.

Depois vieram os passos melhores, traquinagens maiores, e tudo ficou muito vago. Tu nunca me viste escalar a pia da cozinha e buscar, em cima do armário embutido, um cigarro Campeão que papai fumava naquela época. Tu nunca me viste fazer muita coisa. Havia um tempo em que não havia muito que se fazer. Era tão bom. Tu te lembras, maninha? Não me incomodo se disseres que não.

6 de abr. de 2009

Santana, um homem.

Santana morava a duzentos metros do cemitério. Tinha uma mulher. E não era esposa. Era só sua mulher mesmo: Augusta, que não gostava do cemitério por onde tinha de passar todas as noites na volta do trabalho. Brigavam todos os dias por causa deles, do Santana e do cemitério. Por ele, pelo Santana, Augusta brigava porque, dizia, ele não tinha o menor respeito por ela, se a roubassem ele nem notaria etc e tal. Pelo cemitério, porque essa história toda dava mesmo uma boa briga e Augusta sabia disso. Mas o Santana trabalhava um tanto. Ô, se trabalhava! Era o mecânico-chefe de numa oficina que tinha em sociedade com um amigo. O amigo administrava e o Santana trabalhava com um ajudante.

Mas nada disso vem ao caso, agora. Acontece que o Santana, cansado de tanta frieza e maldade por parte da esposa, resolveu procurar por um calor de mulher de verdade. Foi pra zona. Ele com outro, a convite dele, o Pereira, seu ajudante na oficina. Santana bebeu, bebeu, tonteou, fumou, fumou e, salário no bolso, enfiou a cabeça nos peitos de uma puta, a Marluce. Se esbaldou nas coxas gordas, nos seios fartos, nos beiços caramelados de batom. Apaixonou-se.

Três dias sem brigas em casa. Três dias de zona. Santana, homem que era, ao entrar na casa de perto do cemitério, falou bravamente do que tinha feito, de quanto gastou e do quanto havia gostado.

Augusta ouvia.

Indiferente, ouvia. Depois de minutos de silêncio, uma voz firme:
— Então, a partir de hoje, moro sozinha nessa casa de merda!

Santana bateu forte com a mão na parede. Olhou macho para a mulher. Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Balançou a cabeça prum lado, depois proutro, começou a chorar de mansinho, depois uivou como um gato e irrompeu num choro profundo e triste que diz, quem já viu, é o choro dos pais de natimortos que gastaram o que tinham no enxoval do bebê.

Chorou sério e o choro durou sete dias e sete noites. No última dia, na última hora, depois de apelos, promessas, carinhos e o pagamento de uma dívida de quatrocentos reais que ele lhe devia, Augusta permitiu que ficasse. Se mudasse, Claro.
E Santana mudou.

Nunca se viu marido mais atencioso e companheiro. Querido por todos como o respeitável esposo da Dona Augusta. E até eram felizes.

Um dia, Santana sofreu um acidente no trabalho (um carro caiu do elevador sobre as suas pernas, coisa horrível!, muito sangue) e ele tornou-se um imprestável. Foi morar de volta com a mãe, velhinha, e vivia de encosto na previdência social.

Augusta, essa se deu bem. Casou-se novamente com um tal de Pereira. Homem caprichoso! Homem homem mesmo! Não levava desaforo pra fora de casa. Morava na mesma casa de perto do cemitério com a Augusta e, da primeira vez que ela reclamou que ele não ia esperá-la na parada de ônibus, a coitada foi dormir toda roxa.

Em junho de 2007.

2 de abr. de 2009

Paola.

Acordo pensando que não pode ser, mas é. 6:30. O banho quente, o café rápido, o cigarro rápido, passos rápidos como se pode: o ônibus.

7:05. O ônibus, o motorista que me cumprimenta com o sorriso de um velho conhecido. No fundo é, mas ele não sabe disso. Um lugar no ônibus para sentar e ler. Todos os dias, sentar e ler, como uma compulsão, como a pressa de sair do subúrbio, fugir das caras marcadas pelo subúrbio; a minha própria. Mas há pessoas em volta.

A mania compulsiva de encará-las, olhar em volta à procura de quem, talvez, perdeu o horário hoje, acordou mais cedo e não veio agora porque já foi. A moça magérrima, linda, que não pode falar porque perde a beleza. O rapaz com quem ela conversa, de quem tenho ciúmes, queria estar eu a falar com a moça. Não. Queria que o rapaz não estivesse ali para que ela simplesmente não falasse: personagens.

Assim: mais adiante, a índia mexicana. Dezoito, vinte anos. Saberá sua própria beleza? A pintura que carrega no rosto pesa nos meus olhos. Tons róseo-azulados que me fazem somente querer vê-la nua, sem maquiagens, sem retoques. E me faz supor que trabalha numa relojoaria, numa loja de roupas para pessoas que precisam se sentir bonitas.

Enfim, o trabalho, depois da leitura cansativa de um Scliar que escreve para adultos como se fôssemos adolescentes, tratando de Kafka como um nome, apenas. O trabalho: aonde se encontra mais família do que na própria família. Onde se divide, como se fosse família, o que na verdade não se chega realmente a ter. Onde se almoça junto.

Personagens, personagens, como dizê-los?, como dizer-lhes? O bar, a vendedora, o motorista, a menina que caminha rápido, eu os sei. Eu os vejo e os acompanho: sinto falta de encontrar quem me aparece no dia-a-dia. Como dizer que não sentem a minha falta? Afirmo que não, não pode ser, mente fértil a tua.

Um vestígio: uma voz, um olhar, um não-olhar-porque-ele-está-olhando. Quem dera, um nome! Um nome para completar o círculo. Um nome para pensar no nome, não na imagem. Não mais somente na imagem. A fotografia é um arquivo sempre mais pesado do que o texto. Também aqui. O texto do nome: o início da história do nome, da história do meu personagem.

Hoje, sexta-feira, toda a semana percebendo que a índia mexicana de três meses de companhia (qual companhia? Vontade de dizer bom dia e sorrir cúmplice, ouvir o seu lamentar) não apareceu. Deve ter errado na maquiagem. A menina magérrima, linda, começou a namorar: não havia aliança ali há dois dias. Hoje, sexta-feira, entrar no ônibus e descobrir que trocaram de motorista, é assim mesmo, demitem-se pessoas. Mas e eu?

A rotina, o desconhecido. Minha simpatia por pessoas que não têm nome, que acompanho sem querer: me invadem o mês, a viagem, a espera: tornam-se parte dela sem eu querer, sem que possa optar por quem vou acompanhar na semana que vem, por quem desperdiçarei algum tempo pensando: cadê?, quem é?, por quê?, será? Minha simpatia por pessoas que não tem nome. Paola agora tem.

27 de mar. de 2009

(Silêncio).

— E quanto a nós?
— É isso, horas.
— Isso, só?
— Depende. Pode ser muito, até.

(Silêncio)

— Falo de amor, sabe?
— Amor é muito grande pra isso.
— Pra isso?
— É, pra gente.

(Silêncio)

— Mas tu está apaixonado, pelo menos?
— Não.
— E sexo sem paixão, o que é?
— É isso que acabamos de fazer.
— Seu cretino.

(Silêncio)

— Não entendo. Não me ama nem está apaixonado. Duvido.
— Não te amo e paixão não existe.
— Como assim? Claro que existe. As pessoas se apaixonam.
— Paixão é uma forma irresponsável de estar junto. Pra não dizer que ama, porque não pode ou não consegue, porque soa sério, se diz que está apaixonado. É uma forma de enganar e ser enganado sem precisar assumir isso.
— Isso?
— Isso de ser enganado.
— Não se fica junto de verdade sem amar, tu quer dizer?
— Sim.
— E por que a gente está junto?
— Desde quando?

(Silêncio)

— E quanto ao amor?
— Não sei.
— Não sabe o quê?
— Se existe.
— E se eu te provar.
— Não consegue.
— E se tentar?
— Não precisa.
— Vou embora.
— Fecha a porta, por favor.

(Silêncio).

24 de mar. de 2009

Desberto.

Desberto mora num casebre construído na beira de um barranco onde perto passa um rio longe de todo e qualquer conforto urbano. Ele mais as crianças, sete, a mulher, vez por outra um primo que vem do sítio procurar emprego, acaba ficando, bebe a pinga do Desberto e vai embora sem porra de emprego nenhum e deixa o homem enciumado.

Desberto trabalha na obra, porque disseram que pagava bem. Pobre coitado, carrega cimento pra cima e pra baixo, levanta ferro na corda, empunha com sacrifício a tora do alicerce. Da obra, só ganhou calo na mão e pele morena do sol. Oito anos de moreno de sol.

Desberto tem os filhos, a mulher, um passarinho pego na armadilha e um cachorro pulguento. Não tem máquina de lavar nem televisão. Tem ali um rádio a pilha onde houve rádio AM no domingo de manhã.

Nada espera do mundo, o Desberto. Rico nunca vai ser, bonito nunca foi, homem só sabe que é porque tem mulher e ela emprenha vez atrás de outra. Desberto espera, na segunda-feira, que chegue logo o sábado, que chegue logo o domingo. De repente, um vizinho mata um porco e trás pra ele, pro Desberto, um pouco de morcilha, uns pedaços pro feijão.

Nem ler, nem escrever, mal contar. Alegria sem sorriso, porque pouco dente na boca e alguma vergonha do vazio na boca aberta. Tristeza misturada com raiva do velho lazarento que lhe arrebentava a cara quando era moleque. Não chamava de pai, chamava de lazarento mesmo.

Mas um carinho da esposa. Carinho cheirando a cloro da mão da Maria faxineira que limpava casa de rico quinze dias por semana. Carinho tímido do filho mais velho que tem vergonha do pai Desberto porque tem esse nome e porque não tem nada no seu nome, só esse filho mais velho mais seis.

Não se pode dizer, no entanto, que Desberto é um homem infeliz. Não sabe o que é ser feliz, isso sim. Aliás, não sabia. Quando soube, era tarde.

Desceu do ônibus, era escuro. Era escurecendo. Viu longe, vindo do morro, nuvem de fumaça. Nem deu atenção. O vizinho ia mesmo queimar lixo lenha matagal. Foi chegando perto, ninguém na rua, um outro correndo morro acima, direção da moradia do Desberto.

Chegou perto, viu a cena: o casebre labareda alta o fogo comendo a madeira e o papelão. Perguntou se a mulher estava, disseram que sim. Perguntou dos filhos, também estavam. Do cão não perguntou, nem do passarinho: certamente que estariam.

Lembrou do velho lazarento lhe esbofeteando a boca, a cabeça, a barriga. Lembrou da promessa da obra, do dinheiro da obra que nunca veio, do dinheiro que nunca veio nem nunca virá pra gente como Desberto. Pensou na mulher, no cheiro de cloro na mão da mulher e soluçou. Tentou lembrar dos nomes dos filhos, não sabia de cor. Sua família.

Um passarinho que cantava e já não canta, virou cinza. Um cão amigo que não late nunca mais. Desberto morto, não sabiam o que ia fazer, pensaram que ia chegar perto, chorar perto do fogo, tentar salvar uma madeira, uma mesa, um colchão. Desberto no meio do fogo sem gritar, sem chorar e sem sorrir. Apenas no meio do fogo, queimando rapidamente a lentidão da chama que lhe abrasava a vida sem nenhuma pressa.

22 de mar. de 2009

Seu nome: Jorge.

Fazia muito tempo que o Jorge tinha decidido passar a corda no pescoço e pular da cadeira. Compartilhou sua certeza de que não valia a pena com a psicóloga, que armou pra ele: contatou a família e prescreveu seis semanas na clínica. Buscaram Jorge em casa e ele nem se alterou. “Camisa de força?”, perguntava sorrindo, “não será necessário”. Entrou na ambulância com a certeza de que jogaria o jogo deles pelo tempo que fosse necessário.

Ao sair da clínica, tudo meio nebuloso por causa dos remédios, decidiu que ficaria quieto, não provocaria e não daria a eles conta de suas insatisfações, de sua visão pessimista da vida, da sua e da deles. Voltou a ter com a psicóloga, de quem ouvia conselhos e que parecia não ouvir o que Jorge realmente dizia, porque mentia, claro está, e ninguém se dava conta do tamanho do embrulho de presente com que Jorge abraçava sua vida.

Foi ter com o padre. Talvez que a Igreja desse conta do vazio que o atingia em cheio, da boca ao ânus. Do senhor asséptico que lhe falava, Jorge anotou considerações importantes: uma família, uma casa melhor, um carro melhor, um emprego que deixe para os filhos um pouco de si, um futuro, se não brilhante, ao menos promissor.

E Jorge foi a fundo perseguindo suas novas metas. Sua seriedade enganava: ninguém percebia que Jorge nunca sorria. Até que alguém notou: “Olha, o Jorge não sorri”. A resposta, direta e seca: “Quem tem objetivos não perde tempo a mostrar os dentes”. A resposta coube, porque nunca mais perguntaram a respeito. E nunca mais alguém se incomodou com o fato de Jorge alcançar seus sucessos e, nem por isso, parecer uma pessoa feliz.

Fez tudo direito: encontrou uma esposa, fez três filhos nela. Formou-se, finalmente, na universidade. Abrira sua própria empresa há poucos dois anos e já era líder no seu segmento. Mesmo sem sorrir, Jorge conseguiu o respeito da família, dos amigos, do padre e da terapeuta. E de sua família: ali estavam as três crias, eram a sua cara, e talvez que não compartilhassem com o pai o sofrimento surdo que o fazia emudecer, no meio da manhã, pensando no silêncio que não se encontra por estes mundos de cá.

Tivesse acontecido dez anos atrás, talvez que seus pais sofreriam por muito tempo a perda bruta de quem morre porque quer morrer. As vizinhas, conselheiras da vida alheia, escreveriam teorias de crochet sobre a vidinha do Jorge: faltou amor de pai, faltou amor de mãe, faltou Jesus no coração, sobra revolta nessa juventude louca.

Tivesse acontecido dez anos atrás, não sentiriam tanto a sua falta. Em volta do corpo flácido, sustentado por uma cabeça desfigurada e oca, cartas calmamente escritas a seus destinatários. Para a esposa, para cada um de seus filhos, para o pai, para a mãe, para cada um dos irmãos, para um e outro amigo, para o padre, para a terapeuta.

Todos chocados, visivelmente chocados, devem ter entendido, cada um à sua maneira, que adiar
o inevitável é somente motivo para sofrer por mais tempo, por mais dez anos, como sofrera o Jorge. Devem ter entendido, sem dúvida, porque daquele dia em diante, nunca mais se falou uma palavra a respeito. Um orgulho indecente fazia com que se calassem cada vez que fossem pronunciar o seu nome: Jorge.

8 de mar. de 2009

Poeminha.

Fotografia é a arte de guardar memórias desenhadas em papel.

Nostalgia: saber-se um porta-retratos.

5 de mar. de 2009

Boletim de Ocorrência.

Antônio dormia profundamente. Muito profundamente.

Dona Vera chama uma vez, duas vezes, o Antônio nada de responder. Chama de novo. Cutuca, belisca, sacode; o Antônio dormindo. Dona Vera vai pra cozinha preparar o almoço, o esposo deitado na rede, dormindo profundamente. Põe o arroz a cozinhar, frita uma bisteca gorda, corta direitinho a salada. E chora. Dona Vera sabe que Seu Antônio já não vai bem, que ela própria não vai bem e que chega o dia de cada um.

Não tem coragem de chamá-lo pra almoçar. Põe, catolicamente, os dois pratos na pequena mesa, humilde. Arruma os talheres, os guardanapos. Vê-se espelhada na panela de inox: as rugas, os cabelos ralos, brancos, as mãos que tremem pela idade e pelo Antônio, que dorme.
Termina o almocinho triste e vai acordar o Antônio. Chama, chama de novo, fala mais alto, grita desesperada: “Antônio, meu Antônio morto, meu amor Antônio, Antônio meu de meu Deus!” O velho inerte. Verinha ao lado dele: o coração parado enquanto as lágrimas não se paravam de rolar.

***
Luiz é motorista de funerária. Não gosta de trabalhar em domingo, detesta trabalhar à noite. Ali atrás, o carregamento (chama de carregamento, não quer ter outro contato com o que leva, e ele mesmo disse: só carrego, não ponho a mão). Domingo, as ruas vazias. A rua escura ilumina-se quando Luiz, motorista experiente, mete noventa na Amadeu da Luz. À sua frente, um carro atravessado que Luiz não teve tempo de identificar qual era.
Para quem viu, um susto: ferro retorcido, vidro estilhaçado, sangue na cara de um e de outro. Ninguém reparou na calçada. Lá longe, o que parecia um embrulho, uns dois sacos de linhagem, atordoou quem passava. Na verdade, aquele montinho de pele e ossos queria se fazer notar. Quando se soube do que se tratava, teve gente que correu, teve gente que fugiu.
***
Um rastro de flores. Cheiro intenso de crisântemo e cravo. Madeira espalhada aqui e ali. A surpresa: sobre a calçada, metros adiante, dois corpos flácidos, deitados como dormindo, jogados como num gozo e abraçados como pra sempre.

Ali, mais adiante, Seu Antônio abraçava Dona Verinha. E Dona Verinha, que morreu de amor, era toda do abraço dele. Não virou notícia, não quiseram fotografar.
Mas eu sei, porque eu vi. De alguma forma, estava lá. Sorrindo.

3 de mar. de 2009

Título.

Penso que eu deveria viajar de verdade. Penso também que eu deveria mudar de hábitos, de companhias e de vida. Mudar mesmo: acordar borboleta amanhã, depois de amanhã lagarta e no terceiro dia subir ao céu como outro bicho que eu deixarei pra pensar depois. Também deveria parar de fumar. O problema não é cuspir sangue, definitivamente, mas o desconforto de ter de escarrar quando menos convém a qualquer uma das partes, a eles e a mim. Se alguém acha que me importo em causar-lhes desconforto, respondo-lhes que há muito tempo não conheço um colchão de espuma. Foi quando decidi – vontade própria, eu insisto – dormir sobre os pregos que não me importei mais com o mal que eu pudesse lhes causar. Desde então estamos bem delimitados: eles terminam onde eu os atravesso e versa, sem vice nem nada.

Aos poucos descobri que os fantasmas não existem. E bem se poderá dizer que essa conclusão é comum a todos os que abandonaram a fé cristã e se entregaram ao entretenimento simples do dia-a-dia: acordar, trabalhar, jantar, trepar e dormir. Não está mais na moda assistir à televisão depois da janta. Apenas sinto uma pequena culpa por dormir assistindo a filmes que as pessoas cultas assistem, mas eu tenho que trabalhar, me perdoem.

Pelo menos agora eu consigo evitar as pessoas que não suporto por perto. Aprendi a nobre tarefa de agüentá-las a fim de espantá-las: fico quieto, acendo um cigarro e suspiro umas duas ou três vezes. Só levanto os olhos do chão quando sinto que estou sozinho e se não me presenteio com uma nobre gargalhada é porque rio alto e não cairia bem se fosse desvendada a minha técnica de camuflagem: visto minha roupa de paisagem urbana bem comum e logo sou esquecido.

Mas eu não me esqueço. Decidi que nunca mais me perder por aí. É sempre uma tarefa cansativa, porque burocrática, encontrar-me. Do boletim de ocorrências às constantes visitas aos Achados e Perdidos da cidade, o que poderia ser rápido, fácil e simples (poderiam me expor por onde passa meu ônibus, por exemplo, pois cada um tem mesmo a cara do itinerário que segue para ir pra casa, cada um tem o cheiro do seu bairro) acaba por tornar-se árduo e quase sempre triste. Se nunca desisti, é porque me preciso, de verdade. Se assim já é difícil passar os dias e não chamar a atenção dos transeuntes, penso como seria chamativo se eu não me tivesse. Diriam “Olha lá, vai sem si” e ririam os mais engraçadinhos, as mães tapariam os olhos dos filhos e as velhas ficariam vermelhas de vergonha.

Outro dia li sobre mim numa dessas revistas de literatura e culinária. Dizia o articulista que a culpa de eu ser assim é do tempo em que me insiro, do contexto histórico e da realidade social de uma sociedade apolítica e socialmente desequilibrada. Senti-me importante: era a primeira vez que me notavam e me tratavam com respeito. Chamaram-me homem pós-moderno, pós-homem, moderno, desumano.

Em 6 de julho de 2006.

26 de fev. de 2009

Texstículo.

Acordou nauseado. Abraçando a privada, pensava na última refeição: há quanto tempo não comia? Sim, estava digerido, nos intestinos talvez. Por que, então, aquele vômito liso? Cambaleou até a cozinha: a cozinha o enojava; por cima da pia, a louça engordurada lhe causava arrepios. De onde isso, agora?

À tarde, enquanto Roberto Carlos cantarolava no rádio a pilha, uma saudade exagerada causada por fotografias antigas. Chorou sinceramente. Abraçado às almofadas, chorava e ria, ria e chorava, os soluços se acumulando na boca que deixava escorrer saliva, nos olhos que não se envergonhavam das lágrimas.

No entardecer, o espelho. De frente, de perfil. O coração acelerado. Um arrepio que lhe percorreu a espinha causando mais riso, mais lágrima e alguma verdadeira comoção. E se fosse? Não podia ser. Afinal, nunca soube de nada parecido. Mas estava ali, na sua frente.
Acariciou o ventre. Estava grávido, tinha certeza! Jamais se permitiria entender como. Jamais ousaria se indagar do porquê.

16 de fev. de 2009

Remorso.

Horas depois, diante do delegado, pensou que talvez houvesse uma saída, não aquela. O próprio delegado entendia o caso, mas era obrigado pela sua função a prender o assassino. Uma mulher, dois homens, chegou a pé, o carro quebrado na esquina — não fez barulho, por isso nenhum cuidado a mais foi tomado pela sua chegada. Houvesse o ruído longínquo da Brasília subindo o morro, punha os dois pra correr, nada se saberia.

Um grito. Dois homens tentando vestir as calças — não se corre de marido traído com as calças na mão. Na dúvida, enfrentar o corno. A mulher lambuzada de porra pelos cabelos gritando que não, não fizesse, não matasse. Vestidas as calças, daí sim, correr. Lourenço, homem bom, trabalhador, que nunca segurou na mão uma arma de fogo, as mãos calejadas, encontrou pelo caminho a foice de limpar arbusto. Limpou a honra na carne mole da mulher amada.

***

Vitório, que se tinha esse nome por analogia, ficava na analogia mesmo. Homem mendigo, sentado tomando pinga com um outro, contava sempre histórias, uma à qual sempre retornava: um setembro, primavera ou não, parecia ser, o dia claro. Arrumou uma trouxa de roupa, levou consigo os cobres dos velhos. À cidade! À cidade! Que só lá se podia ser feliz: trabalhar duro, arrumar uma moça, construir uma casa.

Um dia, a pinga: a moça embora, o trabalho pesado, a casa difícil. A pinga e a vontade de viver no sítio, criar gado, plantar aipim batata feijão e milho. Acordar cedo, dormir cedo, baile no final de semana com sanfona e cantoria. Talvez não devesse ter roubado os velhos: a pinga era o castigo. Lembrança da mãe morta, do pai morto, saudade do pai e da mãe. Vinte anos de pinga. Se tivesse esperado um pouco, se não tivesse feito a trouxa de roupas ralas, se tivesse pensado melhor.

***

A fronteira: calor, mosquitos, umidade, calor. Sair dali, ir pra São Paulo, conhecer o Rio de Janeiro. Um pouco estudado, funcionário público. Lurdinha grávida, os maiorzinhos sabendo a televisão. A proposta: deixar passar o carregamento, uns trocados no bolso. Mais um carregamento, mais uns trocados. O mato em volta o ouvia: “nessa merda de Amazônia, quem vai saber de mim? Quem quer saber de mim? Vou-me embora!”

Lurdinha chorando em casa: o dinheiro, gastava na zona. Nunca batera nela, agora soco e tapa de mão aberta. Maldito que cheira a aguardente e a doença venérea. Ela mesma deu um jeito de avisar os soldados. Soldado sofre mais, não permite que alguém se safe. Quando começou a apanhar, disse que a culpa era do calor, aquele verde todo, nenhum sinal de cidade em milhares de quilômetros. Meteram-lhe a baioneta no cu e ele respondeu em castelhano: “Hijos de la puta!” Lurdinha, coitada, os cinco filhos, lembrava do Ernesto morto: saudade do safado na barriga doída de vazia.

12 de fev. de 2009

Feira livre.

Quinta-feira. Nenhuma data importante, mas como diz o gerente da seção, todos os dias são realmente muito importantes. Pela janela, podia-se ver que amanhecia. Poderíamos ver, se ali estivéssemos. Ele, por enquanto, dormia. Quinta-feira era dia de auditoria na seção; papéis seriam requeridos, papéis seriam encontrados, papéis seriam analisados e arquivados. E era essa, exatamente, a sua função: cuidar dos papéis. A cidade acordava. Aos poucos, cada um seguiria atento para suas responsabilidades e ele teria, como era quinta-feira, um dia de muita responsabilidade.

Acordou. Nem um movimento mais, a não ser o dos olhos, que se abriram rapidamente, assustados, e procuraram pelo despertador — que não somente o acordava, mas lhe lembrava que a rotina é necessária, que os compromissos estão aí para serem cumpridos e que cada um tem a vida que merece. Merda de despertador. Procurou-o. Todos os dias, essa necessário de buscá-lo, porque cada vez colocava o relógio em um ponto diferente do quarto. Assim, não corria o risco de desligá-lo com a mecanicidade com que batia o cartão-ponto todos os dias, por exemplo.

Todos os dias acordava moribundo. Da mesma forma, levantava, punha água para esquentar e dirigia-se para o banho. Moribundo. Cansado, isso sim. Melhor dizer de saco cheio. Todos os dias era preciso que o despertador lhe lembrasse da necessidade de ser responsável, do quanto é preciso lutar e sofrer para conseguir algum tipo de estabilidade nessa vida de merda. O despertador e o chefe da seção, no fim, eram a mesma pessoa, mas com carcaças diferentes. Debaixo daquelas peles — uma de plástico, a outra recoberta de musgo — habitavam seres exatamente iguais, com a mesma função em suas vidas ditas úteis. Quanta reflexão interessante consegue ter uma pessoa normal ao acordar.

Nessa quinta-feira, não levantou, não pôs água para esquentar nem se dirigiu ao banho. O despertador tocava, mas como havia mesmo se acostumado com tanta irritação, dia após dia, por que não conseguiria se acostumar com o ti-ti-ti do relógio? Agüentava o chefe da seção e essa era a maior prova de paciência que poderia ter conseguido para demonstrar a forma surpreendente como se acostumava com a vida que levava.

Da mesma forma como havia conseguido com o despertador, com o chefe da seção, com os ônibus lotados — de manhã e à noite — e com a Voz do Brasil, haveria de encontrar uma forma de lidar com sua cama e seu quarto, de onde não sairia nos próximos dias. Hesitou. Se seria mesmo capaz de não se mover, isso era de se descobrir. Mas já que agüentava os ônibus lotados, o chefe da seção, a fila do café e o despertador, conseguiria sim se acostumar com o ócio, a falta de movimentos mecânicos, a ausência de companhias desagradáveis, os cheiros todos que lhe lembravam de um tempo que não tinha certeza se já havia passado ou ainda estava por vir.

Sem mover qualquer músculo, se não os responsáveis pela órbita dos olhos, observou atentamente, através da fresta na cortina, que o sol já ia alto. Perdia o ônibus, o horário de entrada no escritório e, por ser quinta-feira e não ter comparecido — ainda mais sem uma justificativa muito convincente — perderia também o emprego.

Fechou os olhos e fez um último movimento notável: virou-se para o lado e voltou a dormir.

9 de fev. de 2009

Olheiras postiças

3:51. Se não dormiu até agora, não é agora que vai dormir. Tudo em que pensa confunde-se com o barulho da chuva e com os roncos esparsos de um e outro veículo que a essa hora visitam a solidão da cidade.

“Meu pai”, pensa, “cobrando essa merreca de trezentos paus. Vou dizer pro velho ‘Porra! trezentos paus, choramingando isso? E se eu for te cobrar os vinte anos? Vinte anos!’ Não vou dizer. Mas devia. E devia dizer mais. Devia fazer o velho chorar por mim como chora pelos outros”.

“O aluguel, a gente devia combinar melhor: paga quanto acha que deve. Esse mês, por exemplo, não tenho grana. Não quero pagar nada. Não tenho como, por isso não quero. O pouco que consegui juntar é pra comida. Arroz, feijão, azeite, sal e lingüiça defumada. Não vão me deixar sem a lingüiça. E tem os trezentos paus do meu pai. E se eu disser pra ele que não tenho como pagar, que fico sem comer?”

Tenta acordar a mulher que dorme ao seu lado. E se conseguir? Poderia contar uma piada. “A essa hora só se ri sozinho, só assim”. Não conta para si a piada, já conhece o final. E não pode ligar o rádio. Não tem como telefonar, o telefone cortado. “Pra quem eu ligaria? Pra um 0800, conversar com a telefonista. Bom dia, moça, qual é o teu nome? Não, não tem problema nenhum aqui, não tenho código de assinante. Não, não sou cliente. Ela desligaria, eu discaria de novo o 0800 e já seria outra pessoa do lado de lá: bom dia, moça, tudo bem?”

“Mamãe pareceu triste ontem. Acho que por causa do emprego, digo que não quero ficar, não nasci pra isso. Sempre me culpando, a velha. Eu digo: sou assim, assim me fizeram, passo fome só às vezes, querem o que de mim? Não dou despesa nenhuma. O aluguel que paga, paga porque quer. Se me desalojarem, morre de medo que volte eu para casa.”

“Só pode ser isso. Puta merda: o relatório do chefe. Diabo de insônia! Aquilo era jeito de falar? Claro que ia esquecer. Esqueci por gosto. Ou esqueci porque esqueci mesmo. 'Arruma essa merda e me traz corrigido!'. Vou dizer que perdi o arquivo. É capaz de ele acreditar. Vou fazer melhor: não vou trabalhar e outro trouxa vai levar a culpa. Acho que ele nem sabe o meu nome. Vai na mesa do lado da minha, se confunde, chama outro de incompetente. Apareço semana que vem, arrumo um atestado”.

“Mês que vem pago o pai. Eu que pedi, a culpa é minha, sou eu quem tem de pagar. Vou ligar logo cedo pra dizer que não vai dar agora, que fico sem a lingüiça, ele vai entender”.

“Essa coisa de acordar cedo é um vício cristão”, pensa. “Acordar cedo pra que se possa aproveitar o dia, almoçar ao meio-dia com a família, trabalhar durante o dia pra dormir à noite, tranqüilo. Acordar cedo pra que todos sejam felizes: Deus, patrão, pai, mãe: tudo vício, todos viciados. Acontece que hoje não vou trabalhar. Foda-se. Os trezentos que devo pro pai, pago quando puder. Foda-se mesmo. Bando de viciados”.

Às 5:57 desliga o despertador para não acordar a mulher. São mais comuns os carros passando. A cidade acorda. Sonolenta, limpa a remela da noite — nevoeiro — e procura espaço para receber o sol. 6:10: Roberto, o rabo enfiado entre as pernas, lava o rosto sem se olhar no espelho. Na ponta dos pés, adentra no quarto, pega as roupas cuidadosamente dobradas de sobre a cadeira, veste-se, beija a testa da estranha ao seu lado e vai trabalhar. As olheiras bem poderiam ser postiças, as retiraria quando não fossem necessárias, quando não combinassem com a roupa que usa ou com o sol de lá fora, que começa a aparecer.

As olheiras bem poderiam ser postiças, mas não são.


Na gaveta desde julho de 2008.

6 de fev. de 2009

Dona Santinha

— Lê pra mim, Zenaide. Como é o nome?
— Dormilex, Dona Santinha. Dor-mi-lex.

Santinha, a vizinha do lado da casa de Zenaide, não sabe ler nem o próprio nome. Decorou o desenho e, letrinha por letrinha, o nome não lhe falta à necessidade de escrevê-lo. Santinha não dorme, a coitada, por isso precisa dos remédios. Sofre de saudade do marido morto, que falta faz o falecido. Sofre pelo filho bêbado que lhe rouba os trocados da pensão. Sofre pela boa nora, que apanha, e é pele e osso, a coitada.

Zenaide é auxiliar de enfermagem. Veste branco, é doutora.

Santinha todo dia no médico. “Angústia no peito, doutor”, reclama. “Dor no peito, doutor”, suspira. E nem Dormilex faz Santinha dormir. “É uma angústia, Sileide, essa vida!”. O coração fraco, a saúde que se vai com o tempo, tudo é tristeza e mágoa. Dona Santinha, os olhos cansados, pergunta à amiga:

— An-gus-ti-ol! Angustiol! Lembra a angústia? Remédio pra angústia!”, ensina Zenaide. Santinha repete e repete e já sabe todos os nomes. De fórmulas nada entende, mas confia na amiga.

“Flexitonazol!”.
“Artimioziopã”.

Zenaide vê mais, doutora que é. Assim pensa a Santinha. Um dia, aparece com pílulas brancas, sem desenho nem letra em cima.

— Pra que servem?, pergunta Santinha.
— Pra tudo, reflete Zenaide.
— De onde vêm?, indaga Santinha.
— Roubei do hospital, é muito caro, não tem pra comprar na farmácia nem em hospital de pobre.
— Resolve?, anseia Santinha.

Santinha, enfim, dorme. Acorda mudada, limpa a casa, arruma um cachorro por companhia. Abre as janelas, rega as flores. Põe o filho pra fora de casa, chama a nora para morar consigo, arruma namorado no baile. Toda semana, Zenaide traz os comprimidos. Santinha segue a receita: um para acordar, um para dormir. Zenaide sabe, aprendeu de ouvir enfermeira falar. Farinha, água, pitada de açúcar, pitada de sal.

Santinha, vida nova, todo dia agradece à amiga. “Café hoje à tarde, Zenaide?”. Da angústia, não se lembra. Da insônia, mal se recorda. Esquece o nome do remédio, bate à porta da amiga:

— Zenaide, como é mesmo o nome?
— Por que, vai ao médico de novo?
— Não, minha filha, é só pra ter guardado, pra agradecer a Deus.
— Placebo, Dona Santinha. Pla-ce-bo.
— Esse é mais fácil.

Zenaide anota o nome no papel que Santinha dobra e guarda dentro da Bíblia que nunca leu, que nunca lerá.

5 de fev. de 2009

Acidente

“Putaquepariu!”, foi o que tive tempo de exclamar, e já era encontrado pelo carro que vinha em minha direção e que não tive tempo de reconhecer a marca. Assim que voei, não sei o que passava pela minha cabeça, mas tive a impressão de que tinha feito merda e que, se estava mesmo voando, não queria saber do meu pouso. Rápido, claro que sim, já estava caído no asfalto, todo arranhado e possivelmente sangrando. Podia, com minha racionalidade, facilmente presumir que me encontrava todo quebrado. Mas não tive tempo de concluir esse pensamento, não. Desmaiava em seguida.

Segundos antes, eu acabava de sair de uma encrenca. E feia. Não sou casado, mas ela é. Porra!, casamento não é isso! Onde já se viu uma mulher trabalhar tanto, ser tão atenciosa com a família, tão cuidadosa com os filhos e não receber amor do marido? Foi aí que entrei, com o amor. Não faz muito tempo, questão de meses. E uma mulher que passa a ser realmente amada, muda. Ela mudou a ponto de o marido estranhar: sorria. Ontem eles discutiram, ele disse o que pensava, do que desconfiava, deu três tapas na cara dela e foi dormir.

Hoje foi que nos encontramos. Fiquei muito irritado quando vi seus hematomas e virei macho, de verdade. Disse a ela que largasse aquela tralha toda; família, marido, os moleques, o cachorro, tudo!, e viesse ser feliz ao meu lado. Bem que eu queria mesmo que ela dissesse não. Apesar do exagero da hora, penso que não estou preparado para ter esposa e me incomodar com essas histórias de morar junto. E a resposta foi mesmo negativa. Para não perder a pose, disse a ela que procurasse outro para despejar em cima suas mágoas de mulher insatisfeita, que eu tinha mais com o que me preocupar, que nunca mais me procurasse e essas coisas todas que são ditas em horas nervosas. Entrei no carro e saí, a mil. Mais por pose do que por pressa. Olhei rapidamente para trás para ver se ela me seguia, mesmo que com o olhar, mas não, já tinha sumido. Quando voltei a olhar a estrada é que apareceu aquele imbecil, que atravessou sem olhar para os lados.

— Dá um beijinho, Paulinha!

Faz tempo que estou nessa com a Paulinha. Como diz o Guto, essa é comestível e intocada. E gostosa, muito gostosa. E eu, volta e meia trago, ela aqui pra praça pra me dar aulinha de inglês. Qualé! Meus pais me tiveram em Londres e eu cresci no Canadá; aulinha de inglês? Quero mesmo é vê-la pronunciando thanks, thought, think; lingüinha entre os dentes, oh coisa maravilhosa. Quando eu deixei de ficar safado com ela, Paulinha começou a me dar atenção. Fiquei duas semanas sem falar em aula de inglês, pra ver se ela me chamava — e me chamou.

Era o que eu esperava. Pois que nem falamos de inglês, coisa nenhuma. Batemos papo lá por umas duas horas. Quando o papo esfriava e eu tinha a chance de me aproveitar do silêncio, sentei mais perto da Paulinha e pedi um beijinho. Foi o tempo de fecharmos os olhos lentamente para abri-los com espanto. Não vi o cara ser atropelado, mas vi ele rolando no asfalto. Paulinha começou a chorar e lá se foi uma tarde inteira perdida.

Caetano nunca foi supérfluo. Lá pra mulher dele, até pode ser. Porque, amigo, a gente sempre gosta mais do que família. E eu gostava de Caetano como um irmão, justamente por que não era meu irmão. A gente se conheceu por aqui, pela pracinha, quando ainda era novo. Ele mais novo que eu. Ensinei muita coisa ao Caetano: jogar xadrez, escapar da patroa, discutir política. E foi o que a gente fez bem uns quarenta anos. Pois que, um dia, engracei com uma senhora, viúva como eu, e não tinha mais tempo pro Caetano. Paixão é assim que é. O pobre caiu na tristeza profunda, de dar pena, foi o que disseram. Então, depois, ele se atirou lá da varanda dele, do apartamentinhozinho que ele tinha, chegaram a falar que era por causa da muita idade e da aposentadoria pouca. Mas eu não acredito, porque falei com a viúva dele, que me disse que ele se atirou foi de solidão. Não tinha mais amigo, que era eu, pra jogar conversa fora, falar mal da vida e do governo, e nenhum filho dele sabia jogar xadrez.

Atirou-se, eu fiquei sabendo do pessoal aqui da vizinhança, com a cabeça na calçada que trincou o osso e saiu muito sangue. Por isso eu fiquei tão magoado quando vi o rapaz caído atrás do carro. Lembrei do Caetano, meu amigo velho, que se estrebuchou também, aqui mais pra frente, não tem nem um mês ainda.

4 de fev. de 2009

Efemerismo.

Quando quiseres
dizer que amas,
quando aprenderes.

Quando quiseres
compartilhar os
teus prazeres.

(Àquela hora
da noite que evita
ser dia)

Terás tanto pra dizer
Pra falar do teu sentir.

Já todos terão ido dormir.


Pinheira, 3 de janeiro de 2009.

3 de fev. de 2009

O lado B dela. E o meu.

- Me deu vontade de ler.

- Só quem sabe - ou já soube - pode ler assim dessa forma tão… chorosa como li teu texto. Belo e verdadeiro. Gracias! (…) Outch! Doeu fundo isso.

- Pensei em 456 coisas pra comentar aqui enquanto lia pela primeira, segunda ou terceira vez. Até que conclui que para histórias tão parecidas com a vida real, comentários são irrelevantes perto de vivências. Do cacete, literariamente.

- Sim, Marina, concordo contigo quanto à irrelevância de comentários relacionados a textos, por assim dizer, tão reais. É por isso que, se me magoar tão profundamente como hoje, te lendo, vou atacar a autora, não a autoria. Muito bom te ler.

- Te deixo magoado, ameaças me atacar e ainda assim dizes que é bom me ler? E depois nós complicamos as coisas…

- As coisas são complicadas por si só. Primeiro, como disse, recebi duas raquetadas no mesmo dia vindas de uma autora que, felizmente, não conheço: sou de fazer fiasco quando sinto a ordem do meu dia perturbada. E se foi assim, se doeu, é porque foi bom ler. Não é tão complicado assim…

- Se as raquetadas foram dignas de fiascos, doeram e essa dor fez sentir uma perturbação no seu dia, fico feliz. Essa mesma felicidade que você deve sentir por não conhecer a autora das raquetadas. (No final, todo mundo é complicado. Mesmo porque esse pingue-pongue da vida não deixa simplicidade alguma durar pra sempre).

- Sim, é pra tu te sentires feliz por ter me perturbado: chegaste lá. Agora não posso dizer que me acalma não te conhecer, porque certamente vou desviar de pessoas na rua (nunca se sabe aonde está a raquete) com medo de apanhar de novo, numa quinta-feira quente e úmida ou num domingo de sol e vento.

- Ritmo gostoso de se ler. Quanto a desviar de pessoas na rua, se acalme. Quase todas elas escondem suas raquetes de um jeito tão especial, que acabam por nem lembrar que elas existem. Só malucos saem tentando acertar os outros, já que na maioria das vezes se encontra só o vento e nenhuma cara pra bater.

- Por isso mesmo essa coisa de tensão: não quero me desviar das pessoas: quero me desviar de ti- ou não, claro está, porque acabo me tornando realmente curioso em saber sobre quem consegue fazer isso assim, com ou sem raquetes, querendo ou não usá-las.

- Olha, interessante. Acho que é a primeira vez que um ilustre desconhecido me fala sobre querer (ou não) desviar de mim na rua. Minhas raquetes (ou o que quer que elas sejam) começaram a fazer efeito em pessoas que eu não conheço e não só nas que evitam as conversas mais delicadas comigo na vida real, palpável. De qualquer forma, hoje não tentarei te atacar e acredito que não vamos nos cruzar por aí. Ande tranquilo.

- Devo me sentir seguro, então? Acho que conseguir fazer efeito em desconhecidos pode ser vantajoso - desde que desconhecidos permaneçam. Uma pena que hoje não aconteça nada grandioso: tirei o dia de folga em busca de. Mas andarei tranquilo, sim. Tranquilo e curioso.

- Curioso?

- Por querer saber quem é que essa pessoa que me diz pra andar tranquilo porque - hoje - não vai tentar me atacar, tampouco cruzar comigo por aí.

- Se te consola, mesmo a que tenta te acalmar sabe exatamente quem ela é.

- Sei? Sabe? (…) Um dia a gente se esbarra e mato a curiosidade. Ou ela me mata: a curiosidade ou a raquetada? Enfim.

- E o mais engraçado é que eu já passei por você.

- Injusta!

- Qual é a injustiça?

- Eu não saber te reconhecer é uma.

- É o meu lado A. Você também pode achar que uso vestidos e trançinhas. Mas é bom, me sinto menos perigosa. Ou pelo menos escondo bem o perigo.

- Desculpa, mas não te creio de tranças. E eu talvez não quisesse conhecer o teu lado A. Esse é sempre tão fácil de se saber. Mas esse perigo me chama atenção. Uma pena não te saber, sutil desconhecida.

- Um dia nos encontraremos e o problema estará resolvido, ilustre desconhecido. Ou, quem sabe, na próxima vez que estiveres sentado a escadaria e eu passar, você seja o primeiro a me reconhecer pelo Lado B.

- Que assim seja. Lado B, sim: lá estão sempre as melhores músicas.


Uma longa curta história que começou por lá, no Invisível Particular, da Marina Melz, continuou por aqui, depois se enrolou e assim se fez.

2 de fev. de 2009

Resoluções de ano-novo a partir da Praia da Pinheira.

Para Ligia.

Voltar a ver o mar logo; vê-lo no inverno também.

Esquecer fulana e beltrana: se acumulam com o tempo.

Dizer o que tiver de ser dito a quem realmente tiver ouvidos.

Não entristecer à toa, não me entristecer à toa.

Aprender a viver sozinho, verdadeiramente sozinho.

Abrir mão de comemorar datas tristes.

Aprender a comer.

Aprender a dormir.

Evitar lembrar os nomes que se esquecem de se esquecer.

Achar alguém pra dormir junto.


Pinheira, 3 de janeiro de 2009.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...