26 de ago. de 2009

A minha parte.

eu fiz a minha parte, abri aqui o bloco de notas pra escrever sobre o quê, sobre quem e quando. faz muito tempo e faz exatamente um ano. eu fiz a minha parte e no fim das contas não tenho mérito, eu só preciso do silêncio, não me telefonem, não me escrevam, pra que pedir se é isso mesmo que acontece sem que eu tenha realmente controle.

faz sol aqui e lá, ela me disse, faz sol, a manhã é bonita lá e é bonita aqui, sem mágoa, tristeza ou lembrança triste de quantos anos ou um ano atrás, talvez uma saudade, várias saudades, enfim. faz sol mesmo, não há como negar, olha ali e me diz se não é mesmo um dia branco. mentira. são nuvens. tomei café com meu pai ontem e ele me disse que o tempo ia durar, ia ficar sol, ia ficar assim, lá filho, olha as estrelas. eu olhei, pai. eu olhei. e faz sol só pelo pai. quem ver vai dizer que tá cinza e não erra.

eu meço o tempo em quilômetros.

grande coisa, eu fiz a minha parte, abri aqui o bloco de notas pra escrever compulsivamente sobre alguém que no fim sou sempre eu mesmo, grande coisa isso de escrever, teorizava sábado que é preciso apartar, mas personagem não sente, moço, personagem é a máscara que tu pões nos teus desejos, entende? moço, personagem é brincadeira de criança, ficar dizendo a ele o que fazer contigo mesmo, era tu que querias matar teu pai, comer tua irmã, rasgar teu pescoço com os cacos daquele vidro mais antigo.

não consigo mais ler porque a literatura é essa merda de a gente ficar vivendo uma outra vida. a vida da personagem. queria tomar café com o mirisola hoje pra acabar de uma vez com todas com isso de admirar. não reconheço mais nada, joyce é cansativo e só se lê pra colocar numa espécie de currículo que bem poderia ser quem tem o pau maior e é quem conseguiu ler mais vezes o ulisses ou qualquer outro da mesma estirpe.

preciso fazer mais pela gente porque não tenho o que fazer comigo, entende?

ela me disse que faz sol lá e isso me basta por um dia inteiro. e eu sorrio por um dia inteiro pensando no sol que ela é.

18 de ago. de 2009

Setembro.

eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e refrigerante e talvez chapeuzinhos, havia balões, sempre houve balões que eram enchidos para serem esvaziados com o tempo, a tristeza que é um balão esvaziando, sinal de que não foi estourado na festa porque não houve festa.

as pessoas viriam, as pessoas viriam e eu esperava sentado na calçada olhando a estrada, elas fariam uma curva à direita e eu reconheceria os carros, é para isso que são feitos convites e é por isso que se sonha na noite anterior com os presentes que a gente vai ganhar, acho que por essa época eu sonhava com um forte apache ou era mais tarde e já havia o comando cobra, embora eu sempre jogasse do lado dos mocinhos.

sempre houve essa angústia pelas pessoas que viriam e depois de horas e horas e horas as pessoas iam embora arrotando salgadinhos e refrigerante de laranja e eu continuava esperando as pessoas que viriam, não estava mais sentado na calçada, estava com caganeira de tanto brigadeiro enfiado güela abaixo, de tanto bolo de morango, cagando e esperando ainda as pessoas que viriam que iam embora naquele momento, que estiveram ali e nunca vieram.

as pessoas então viriam e eu sempre esperei angustiado como ontem ainda, não ontem, é figurativo, ontem eu sorria conversando com ela, ontem outro ontem, pra não especificar, ontem eu escrevia a maria, escrevia à maninha, escrevi há muitos anos ao meu pai e meu irmão tem um poema só pra ele, e eles nunca leram, nunca leram e eu digo pra não reparar, outro dia disse pra minha irmã não te angustia se ler, não leu, óbvio, mas o texto era para ela em sinal do repúdio e amor que somente família pode proporcionar.

por isso hoje o estômago revirado, náusea, náusea, esperando pra vomitar tantos quilos de salgadinhos, tantos litros de coca cola que me enfiaram sem eu poder decidir se era isso ou se era um abraço, um carinho mais de perto no colo de quem, talvez que tenham morrido alguns dos que vinham ou simplesmente desapareceram, o que também é uma forma de morrer.

dez anos atrás ou nove, não sei precisar, acordei antes da hora, saí do quarto do internato e pedro fazia qualquer enfeite na minha porta com papel higiênico e era para ser bonito e eu me puni por ter aberto a porta cedo demais, e logo ganhei um abraço, pedro era um irmão mais novo. um ano depois chorei como criança por não poder passar o último aniversário feliz da minha vida com quem realmente se importava com ele, pedro, dover, edo, gerber, aonde andarão essas pessoas que tanto amo.

as pessoas que viriam nunca vieram, estavam lá e nunca vieram, quanto tempo faz e quantas vezes escreverei sobre isso. o colo de meu pai, meu irmão não apareceu ou chegou tarde e minha irmã. chorei ao apagar as velas, tem foto disso, ainda não sabia, o pai me segurando no colo. hoje chamo de inferno astral o que é só tristeza e lá se vão tantos anos e quantos mais virão e a sombra de setembro chegando será sempre punição. porque quanto mais desejos a serem realizados, menos pedidos há a serem feitos.

vai ser diferente, agora. ela vai me escrever e eu vou sorrir chorando por estar tão longe. em setembro os ipês florescem e a saudade é uma flor amarela que mastigo sem pensar.

6 de ago. de 2009

T.

eles discutiam sobre os descaminhos e recaminhos e eu ficava olhando pra saber o que dizer e não dizia nada, olhava pra porta e não pensava em nada. eu tinha sono e fome e uma vontade sincera de vomitar e meu nariz escorria e eu funguei três vezes traumatizado e traumatizante, aquela porra corroendo meu nariz.

eles discutiam e eu pensava no maior livro que já tinha lido, os livros grandes cansam mais do que a vida porque se estendem sempre muito longe. então sorri pensando que lerei mais quantas vezes puder o cem anos desde que eu passe os olhos pelo primeiro parágrafo onde diz que o capitão ou tenente aureliano buendía etc e tal.

acordei sozinho e o chão era gelado. talvez que meus rins doessem ou talvez eu só quisesse ter acordado numa cama quente de um quarto quente que tivesse aquele cheiro sincero dos cabelos dela. acordei sozinho e pensei que o melhor de sentir falta é justamente a falta que faz, ninguém lamenta o que tem por perto.

eu olhava a porta e as pessoas discutiam. eu mesmo discutia, embora não tivesse palavras. falávamos de literatura e do meu lado estava um amigo muito querido e do outro lado estava um amigo muito querido e em volta só havia estranhos e eu ficava olhando pra porta esperando que aquele olhar chegasse em mim e me dissesse calma, fica bem, estou aqui.

falávamos de quanto mede, de quanto mediu, o que se escreveu e chegamos aos cálculos, pois havia livros com muitas palavras e de repente se criaram os espaços eletrônicos onde se escrevia com poucas palavras e agora inventaram essa máquina de cotidiano onde somente se pode escrever cento e quarenta caracteres, não meçamos, serão muito poucas palavras, não contemos.

e eu pensando no quanto se pode dizer com tão pouco e quase propus que não escrevêssemos mais literatura, que nos contentássemos com o signo, somente o signo como num ideograma que não tivesse idéia que teria muito mais idéia porque seria somente o signo e percebi que não poderia explicar minha necessidade de não dizer.

lamentava-se que agora o texto se resumisse aos cento e quarenta caracteres e eu disse que se pode escrever muito bem em cento e quarenta caracteres e que havia um microconto que falava ao mesmo tempo de amor e de estocolmo e só uma mulher balançou a cabeça quando falei de estocolmo para mostrar que estava entendendo o que eu dizia.

eu pensei que não precisaria de tantas palavras como nos livros grandes que dóem como dói a vida nem das poucas palavras que dizem o que se pretende dizer em poucas palavras e que no fundo se entende nem mesmo dos cento e quarenta caracteres de cafezinho. eu precisaria somente de um signo, somente uma letra para dizer como os dias podem ser quentes, como os dias podem ser iluminados e como se pode sorrir nessa quinta-feira nublada quase fim.

eu escreveria somente t para dizer. t para abreviar o gosto. t para passar o dia. t para lembrar como se chama. eu escreveria somente este t de tatiana.

24 de jul. de 2009

Entrevista.

“Tava acabando comigo, sabe moço? Não tinha mais vida, dormia e acordava pensando nela, dormia com ela, né, acordava abraçado, sufocado não, sufocado sim, mas eu não via.

“Começou assim, uma vez, outra vez, de repente todo dia, de repente toda hora. A gente deixa de viver, moço, como é triste. Tudo em função dela, tudo pra ela. Dos amigos a gente se esquece, com o trabalho a gente não se preocupa. Me largaram os amigos e o trabalho, moço, a coisa tava difícil.

“Dizem que é vício e agora eu concordo. No começo é bom, a gente se sente forte, se sente homem quando usa. Depois, moço, quando o bicho pega, tu é largado sozinho com ela. A gente vê o mundo como ele não é. Foi assim comigo, é assim com muito homem.

“Um dia a gente acorda pra vida, né! Comigo foi assim: quando eu tava me afogando na merda, decidi que era hora de mudar, de criar coragem e mudar. Ela tomava a minha vida, moço. Tudo que eu era, era dela. Criei coragem, respirei fundo e fui adiante.

“Hoje tá tudo melhor, né. Hoje eu consigo comer direito, dormir direito, tô bem do corpo e da cabeça. Se eu sinto falta? Não, moço, não sinto falta não. Mas às vezes eu fico pensando. Penso tanto que chego a suar. É como se viesse a vontade de novo, sabe? Mas daí eu penso que eu enfiei a faca na barriga dela foi pra me ver livre de tudo isso. E mesmo aqui, moço, mesmo preso eu sou o homem mais livre desse mundo”.

20 de jul. de 2009

Cálculos.

eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesmo, porque eu toco no assunto e meus olhos brilham e eu nem tenho certeza se existem mesmo esses três ou quatro amigos a quem sempre recorro quando vou contar uma história que valha a pena.

são tudo cálculos e, vê: já são dez anos de rio grande do sul e esse irritante sotaque gaúcho que a psicóloga gostosa - aquela mesma - disse que em metade do tempo que eu tinha passado no internato já deveria ter sumido e eu calculei ansioso que em um ano e meio isso deveria me deixar, mas já se passaram seis anos e meio e o sotaque continua aqui, ainda mais forte quando raquel telefona. saudade.

são tudo cálculos e eu morri em hum mil novescentos e noventa e quatro e depois morri em hum mil novescentos e noventa e nove e morri de novo em dois mil e um para somente morrer outra vez ano passado, ou seja, dois mil e oito. eu precisava pagar o aluguel e para isso tinha que vender livros, mas como não queria vender livros, acabei sem o dinheiro do aluguel e esqueci de contar quantos degraus havia entre a porta do apartamento e a porta da rua, porque eu exatamente morri em cada degrau, em cada passo, enquanto eu descia, e chovia aquela noite e novamente eu morri a cada degrau enquanto subia para dormir intranqüilo numa cama grande demais.

mas isso já faz tempo, só queria exemplificar os cálculos, porque fizemos mil quilômetros de motocicleta até o bar, isso quer dizer que foram quinhentos quilômetros sóbrios e ansiosos e quinhentos quilômetros com a noite ganha, ou seja, vendo tudo andar em torno de um eixo imaginário, tudo rodando, como sempre.

são tudo cálculos e depois de ontem eu vi que de fato nunca é tarde pra se morrer de novo, porque enquanto meu pai se suicidava lentamente, lá estava eu também morrendo, observando atentamente como se morre quando o que de fato se quer é morrer.

então hoje eu cadastrei duas mil e treze infrações de trânsito na maldita planilha do excel que me fez ter dor nas costas, mais ainda doeram as minhas costas porque eu não consegui almoçar e, por fim, me dei conta de que toda a dor nas costas é em função de um peso que eu não quero mais levar mas que é evidentemente prático carregar algo nas costas para que elas simplesmente doam.

pensei então: vou chegar em casa e vomitar na cara de todo mundo ou de ninguém as minhas verdades, as minhas mentiras, as ojerizas e os desejos, mas estavam todos dormindo e eu fiquei sem todo mundo e sem ninguém, apenas com este espaço eletrônico que eu supunha literário, mas é merda nenhuma, porque não pode ser literatura eu sentar aqui e escrever compulsivamente enquanto penso num final que simplesmente não me aparece, O FINAL SIMPLESMENTE NÃO ME APARECE!, e por isso talvez eu termine como as meninas escrevem nos diários, dizendo boa noite diário ou talvez eu termine assim, simplesmente.

8 de jul. de 2009

Três poemas de despedida.

LAMPEJO #18

De dia de sol
e das coisas da vida
eu sempre disse que
nada soube.
(Também pudera:
quanto mais ali
havia que não se
esclarecia em palavras,
somente no exercício
dos dias).


LAMPEJO #19

Vê-la ir embora
(outra, não ela,
tão parecidas!)
com um fio
de lágrima nos
olhos, com esboço
de sorriso no rosto...
Vê-la ir embora
(outra, não ela)
é sentir o doce gosto
de ontem,
o perfume dourado
do agora.


LAMPEJO #20

Maria,
eu simplesmente te
diria que a vida é
isso e tá aí pra
ser vivida.

[não fossem, claro,
a saudade e a agonia
dois pratos tão baratos]

Maria, então eu
te digo:
é isso!
Vida não vale
a pena se não tiver
sacrifício.

30 de jun. de 2009

Conversa.

Você deve entender. Eu digo você porque a gente não se conhece e quando é assim não se pode tratar por tu. E tu é muito pessoal. Nunca tinha reparado, até que me disseram. Então agora eu digo a você que é fácil entender. É fácil porque não é difícil, de fato, você tem razão.

Eu sonho, entendeu? E sonho acordado, geralmente. Geralmente quase sempre, pra falar a verdade. Na verdade, só acordo na exata hora de dormir ou no final do mês quando vejo que não vou ter como pagar o aluguel ou comprar o café da manhã. A insônia e o final do mês são dois grandes relógios despertadores de madeira que badalam todas as horas existentes. Sabe como é? De madeira, na parede, badalando irritantemente.

Você há de entender quando eu silenciar. O silêncio é insuportável, convenhamos. Mais irritante do que as badaladas do relógio na parede. Mas é inevitável, convenhamos. Como é irritante no rock inglês quando vai explodir, mas não ainda, ainda não, e o mesmo acorde na guitarra seca, todo mundo sabe que vai explodir, o mesmo acorde. É irritante. Quando explode, quando a música se multiplica, a irritação dá lugar ao prazer. Por isso eu silencio. Não estou pensando em nada, não. Me deixa quieto e por aí vai.

Não é difícil se apaixonar por você. Sua pele. Posso te chamar de tu? Tua pele, então. E teus olhos. E teu sorriso. E tua voz ancestral — não sabe? Parece que falas há muito mais tempo: soa bem.

Então tu tens que entender que não é difícil eu perder o sono por tua causa. Não, não me fizeste nada. Não conseguirias me fazer nada, na verdade. Eu é que me faço. Eu é que penso demais, vou longe demais, vôo.

E tu vais ter de entender quando eu quiser falar de mim. Se eu gosto de te ouvir? Claro que sim! Nunca te disse? Te ouvir é a minha oportunidade de falar sem falar. Sim, as frases se completam sozinhas, sem eu intervir.

Quer dar um passeio? Me leva contigo. Não importa pra onde, só me leva. Tá aqui a minha mão, o meu braço. Tô aqui eu todo. Vamos?

(...)

Sorri. “Vamos?”, pergunta. Sorri mais aberto, mais sorriso. “Vamos, então?”, insiste. “Não quer mais ir? E se não quer, por que não?”.


No espelho, o reflexo mudo aguardando a resposta que não virá.

25 de jun. de 2009

Surpresa!

Estou surpreso, sim. Pelo susto, pela manobra. Vamos escrever?

Um enorme carinho pelos escritos que vem nascendo pelas letras da DDa Silveira, do Bom Dia Borboletas e por mim no www.pincelecaneta.blogspot.com.

Vamos escrever, porque a palavra, o que é? Enxovia ou pingoteava?
Até segunda ordem, vou pensando em perguntas e respostas e anseios e cansaços.
E sumo daqui por uns momentos.

20 de jun. de 2009

Cinco poemas calados.

LAMPEJO #13

Tem um grito surdo
que sai do meu estômago
e me diz que a vida é bonita.
Sabe como é?


LAMPEJO #14

— E o que eu escrevo aqui?
— Não escreve nada, vai.
— Mas ela quer saber.
— Então diz que eu sou confuso e fiquei ainda mais confuso por ela ser tão brilhante.
— E...?
— E que eu tenho medo de me apaixonar.
— (...)
— E que não quero sofrer e essa coisa toda.
— Tá pegajoso esse email. Muda a pauta.
— Então diz que eu sou viado e pronto!


LAMPEJO #15

— Muda de vida, pô!
— Mas como?, diz chorando.
— Pára de beber desse jeito. Vai se acabar em nada.
— Pára de me encher o saco!, diz entre soluços.
— Por que tu faz isso contigo?
— Porque dói, entende?


LAMPEJO #16

“Tá com medo de mim?”
Eu era casado, na época, e nem por isso tinha do que me arrepender. Deitado no sofá, ela ali do lado. Não foi pelo sexo, foi pela cama quentinha. Dez dias com dor no corpo mastigado. Me comeu direito, aquela puta.



LAMPEJO #17

Minha mãe me dizendo pra eu não ser tão eu quando encontro com mulheres. Pra ser mais normal, não vomitar por aí meus insights*. Minha mãe dizendo, num conselho amigo, que pensando como eu penso não chego a lugar nenhum.
— E essas coisas que tu diz, meu filho, espanta qualquer uma!
Não é de hoje, mãe.

*Mamãe nunca soube o que eram insights, o que torna essa imagem meramente ilustrativa.

15 de jun. de 2009

sem título.

Vem comigo, baby, que eu te levarei pra longe e correremos até não ter forças e haverá um gramado, um jardim?, como quiser, então será um jardim e deitaremos um sobre o outro e falaremos de coisas infinitas e eu te deixarei uma marca de mordida no ombro. Te darei a minha mão e, constrangido, sorrirei assumindo minha ansiedade, mas os joelhos não estarão infantilmente tremendo e nos meus olhos tu verás quanta graça ainda há que o uísque não conseguiu me tirar. Vem comigo, mas te deixa vir. Sim, eu sei que há sonhos, eu mesmo moro no mundo da lua. Ou me deixa ir contigo. Vamos colorir o mundo, baby, arrancar de nossos corpos estas roupas coloniais; vamos inventar bem outro mundo, por que não? Lá haverá sorrisos que jamais chegarão a amarelos. E eu te chorarei minhas penas, tu me chorarás tua insônia. Adivinharei teus sorrisos em abraços de travesseiro. E os verões serão luz como nunca se viu. E não sentirei mais tanto frio no inverno. Sim, deixo de lado meus cigarros pra sentir o perfume do teu cabelo. Cansados, não tomaremos providências: o almoço esperará até a janta. Até lá dormiremos nus, dormiremos com leves sorrisos no rosto, sorriso sacana de quem dorme domingo à tarde. Vem agora, baby. Alô? O quê? Precisa desligar? Mas e...? Tudo bem, te ligo amanhã. Até.

10 de jun. de 2009

email engasgado.

Cansei da Filosofia e acho sinceramente que só a Literatura poderá salvar o mundo ou a minha vida. Ler mais do que escrever, obviamente, porque quando a gente se cansa de ser perverso começa a curtir a perversidade dos outros. Tanto faz.

Imaginei uma cena romântica ao meu modo: te levava para ler sob o sol que banha o parque nos finais de semana. Acontece que tu lerias Nietzsche e eu te leria Mirisola nos ouvidos. Também é Marcelo, ele — nunca acreditei num escritor com esse nome — e leria voluptuosamente putas e paus e bucetas e cus, mais por charme do que por necessidade. E quem sabe eu te lambesse a orelha e isso te excitasse. Enfim.

Conhecer a obra desse cara foi o que me salvou a vida. Estou escrevendo um romance sobre bem outra coisa, simplesmente por inveja: se ele pode, eu também posso, mesmo que muito menos. E te conhecer foi bonito. De qualquer forma.

Outro dia tava afim de sexo e escrevi um poeminha bonitinho — com gosto de anis ou tutti-frutti com látex — pra comer ninguém. Mas eu te recomendaria esse poeminha bonitinho e ordinário como um exemplo do bonito e sórdido que eu consigo ser. Mas para ti seria apenas o bonito. O sujo ficaria nas entrelinhas. Como sempre.

Não sei das tuas amarras, mas suponho. E te entregarei nos lábios quantos LM tiveres coragem e vergonha de fumar. O cigarro é um símbolo fálico pra quem acredita na psicanálise, e eu sei que tu acreditas até em Deus, então porque não entrar na onda e pensar com prazer nos meus cigarros. Pois é.

Eu sou sim um babaca, mas com todo o sentido do mundo. Não te lambi a orelha e certamente não lamberia se não soubesse que devia. E não te beijaria loucamente com intenções claras de te levar pra cama se não me convidasses antes. Prefiro beber, como agora, mas na tua frente e falar quantas asneiras melodramáticas e ególatras me vierem à cabeça. E te ver sorrir com isso. Feliz ou não.

É isso. Té mais.

5 de jun. de 2009

Pessoas.

Sandra masturba-se com frutas; prefere banana quente.
Cláudio veste-se de mulher para satisfazer a esposa.
Luisa escova os dentes com escovas roubadas.
Antônio coleciona peças de acidentes automotivos.
Victor realiza abortos em adolescentes.
Valda excita-se com a presença do seu filho.
Ramón crê ser um super-herói.
Antunes trabalha como limpador de fossa. Ama o que faz.
Beto faz amor com vira-latas.
Vitória chora ao ver um obeso.
Douglas nunca dorme.
Amanda bebe.
Suzana crê.
Marcelo apaixona-se vez ou outra.

4 de jun. de 2009

Poema para acabar com todos os poemas.

.
.
.
O amor é um sentido que invade e enraíza.
O amor é filho da puta.
Filho da puta que te pariu.
.
.
.
Encontrado por acaso no blog Bom Dia Borboletas, de DDa Silveira - e acrescentado aqui num arroubou, como num roubo, de propósito.

27 de mai. de 2009

Três poemas metalingüísticos.

LAMPEJO #10

A gente escreve,
escreve,
e faz chegar a tantos lugares.
Mas quem escreve
tem sempre ali
a bunda sentada
na cadeira.


LAMPEJO #11

Abres teu livro:
suspiras, sorris,
não sei.
Depois outro,
depois outro.
E um dia te crês
personagem capaz de
aventuras!

Ao apito do relógio,
sentes a máquina dos dias.


LAMPEJO #12

— Eu teria escrito isso.
— Assim tão bem?
— Muito melhor, imagino.
— E por que não escreve, então?
— Preguiça filha da puta.

25 de mai. de 2009

Três poemas hospitalares.

LAMPEJO #07

O hospital inteiro na minha frente,
monumental.
Janelas.
Onde é a UTI? Janelas tristes.
E o Centro Cirúrgico? Janelas tristes.
Onde que morre mais gente?
Pensando, pensando
até concluir que ali, aos poucos,
como eu, esperando
o tempo passar,
esperando o cigarro acabar.
Esperando.


LAMPEJO #08

— E o que ele disse?
— Que não era nada.
— Eu achava que era coração.
— Coração?
— É, coração.
— Partido?
— Não. Ingênuo mesmo.


LAMPEJO #09

— Não dá. Tá perdido. Desenganado mesmo.
— Falou alguma coisa?
— Não quer ver ninguém.
— Esse filho da puta. Que pelo menos deixe avisado que me deve.

13 de mai. de 2009

Três poemas para a quarta-feira.

LAMPEJO #04

De tanta saudade
que sentia,
até parecia que
se tinham amado
pelo menos
por um dia.


LAMPEJO #05

Um cigarro,
mais um,
mais um outro:
só mesmo fumaça
pra entreter
quando o tempo
não passa.


LAMPEJO #06

Não dormia
sem perder algum tempo
exercitando-se diante
da ousada fotografia.

8 de mai. de 2009

Três poemas para a sexta-feira.

Chamarei-os lampejos, porque foi como aconteceram.

LAMPEJO #01

E é assim, maninha:
a gente pensa numa
coisa bem triste
e outra, muito bonita
— sem sequer se ter
pensado nela —
aparece.


LAMPEJO #02

Olhar-se no espelho
e pensar:
“Taí, boas lembranças”.
E achar que o trapo
agarrado a elas nem
é tão trapo assim:
renderia num brechó.


LAMPEJO #03

Um roquezinho
no café,
um roquezinho
no almoço;
(pra dormir bem,
só o som do telefone).

4 de mai. de 2009

Sobre fatos.

I

Vai o sujeito andando pela rua. É um rapaz de bom-humor. Deve ter saído da casa de um amigo, do apartamento da namorada. De qualquer forma, vem tendo um dia bom, pois anda olhando firme e a passos largos, como é normal das pessoas confiantes e bem-humoradas. Teve um dia bom, porque seu humor está aguçado e sente-se a si uma pessoa boa, tem ares de carismático. Caminha para casa por ruas paralelas à grande marginal: é início de outono, apesar do calor sufocante, fora do comum, e a essa hora (batem dezessete horas nos sinos de alguma igreja dali de perto) a luz é engraçada por essas ruelas. Bate, mas não bate. Luz preguiçosa de outono, como é em todos os cantos que beiram o Trópico de Capricórnio. Vai andando e percebe, encostado à calçada, um carro conhecido. O rapaz de bom-humor, não se pode esquecer dele.


II

O carro pára no sinal vermelho. O sujeito conversa com a esposa ou cliente no telefone celular. Nem percebe quando é aberta a porta do seu carro. Ao seu lado, um homem que não consegue identificar como é: não o enxerga. Sente somente algo que cutuca sua barriga, do lado direito, logo abaixo das costelas e uma voz que diz impaciente: “Vai, vai, vai!!!”, e o sujeito anda, assim que o sinal abre. Nem devagar nem rápido. Suas pernas tremem. A essa altura, o homem já lhe tirou o celular das mãos e o pôs na pochete que traz na cintura. O homem perto de casa — mais cinco ruas adiante, dobra à esquerda que vai dar num bairro tranqüilo, nem centro nem bairro, perto do banco, do hospital e da padaria, mas longe do barulho. Com o raciocínio difícil de quem encara um situação difícil, o sujeito pensa que não poderia chegar em casa com o homem a seu lado: estupraria sua esposa e sua filha, torturaria o filho mais velho, quebraria os móveis de design italiano e sujaria o tapete persa novinho, comprado em liquidação. Duas quadras antes de casa, o sujeito pára o carro a pedido do homem que lhe havia seqüestrado. O homem lhe pede o relógio e a carteira, que ele entrega com dificuldade. Só não lhe pede a arma porque não sabe que há uma arma debaixo do banco do motorista. Se soubesse, talvez nunca tivesse entrado nesse carro, mas em outro, com pessoas desprotegidas. Pois que, falando em arma, agora o sujeito motorista lembra dessa. Sabe que consegue pegá-la, já que fez este exercício pelo menos uma centena de vezes, mas não tem coragem. Sabe que conseguiria dobrar o assaltante e meter-lhe uns tiros na fuça, mas não tem coragem. Por poucos não urina nas calças: lembra do banco de couro. O homem assaltante deixa o carro e diz para o sujeito motorista não fazer qualquer movimento com o veículo, que ele volta correndo e lhe tira ainda o carro e a vida. O sujeito motorista obedece. Fica ainda um tempo esperando depois que o homem some do reflexo de seu retrovisor. Engata a primeira — as pernas tremendo — e acelera pela rua paralela à marginal. Chora. Chora como uma criança, e não é senão por isso que ele não consegue mais dirigir. Pára o carro. Agora mais perto de casa. Pára o carro sobre a calçada, na diagonal, como alguém que quisesse estacionar e estancou no meio da manobra. Chora ainda, mas menos. Agora pega a arma. Pega e põe de volta umas vezes, para lembrar do que deveria ter lembrado na hora do assalto. O que não é um homem com o orgulho ferido. Segura firme a arma. Pensa que deve ir atrás do seu algoz, o maldito filhadaputa que lhe fez quase cagar-se de medo. Este que paga os impostos, que paga um bom colégio para seus filhos, que nunca fez mal a ninguém. Enche-se de hombridade, engatilha a arma, vê que consegue segurá-la com firmeza. Mais uma crise de choro, agora encenando o ridículo do orgulho ferido, ele que era a vítima que não tinha quem o desse a mão. A cabeça pendendo contra o peito, o peito pendendo contra o volante, a arma segurada com as duas mãos entre as pernas entreabertas.


III

Vem o sujeito-moço, andando bem-humorado por causa do entardecer de outono e, longe, percebe o carro conhecido. De bom humor e seguro de si, já cumprimentou quatro pessoas desconhecidas pelo caminho de volta de onde estava e só não recebeu o cumprimento de volta de um homem, o último com quem cruzara, que lhe encarou com raiva de gente medrosa. Vê o carro parado, reconhece a placa, diminui o passo. Dentro dele, um homem sentado meio de lado e com a cabeça baixa. Vê, pelo lado esquerdo, que o vidro do lado direito, o vidro do motorista, está aberto. Inclina-se para frente e caminha a passos leves, como que para evitar ser percebido. Quando chega ao lado da janela, levanta-se e grita sorrindo: “Pai!”, enquanto que o homem sentado dentro do carro, com uma arma engatilhada e as mãos firmes que a seguram, sem tempo para pensar, medir, equacionar, despeja-lhe o carrossel de cinco balas. No rosto.

Em 10 de agosto de 2008.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...