20 de nov. de 2009

Demônios de pedra.

Sentado no primeiro banco do lado direito, ali na praça da matriz, relembrava: “Foi aqui que a vi? Não teria sido do outro lado?”

O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”

Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:

— Sabes que dia é hoje?

— Terça-feira?

— Não, amor: um outro dia, um dia especial…

Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.

Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:

— Vamos embora, tá ficando escuro.

— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?

— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.

— As gárgulas?

Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.

Calafrio!

Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.

Calafrio!

Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.

Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.

Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.

Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”

Publicado antes no Duelo de Escritores.

27 de out. de 2009

O meu nome.

perguntei uma vez sobre os nomes, esses nomes, marcos, ligia, marcelo e a resposta foi tão bonita, marcos e lígia vieram do quo vadis?, dos tempos de colégio sagrada família, quando mamãe lia ainda alguma coisa que não fosse cristianismo barato. e marcelo, bem, marcelo veio, assim, era moda, não soube dizer a novela da época, decerto que havia um desses.

mamãe outro dia disse não haver um labes que preste, vejam só, lígia uma vez foi lima, marcos tem em si vinicius, certamente que o nome vale, posto que são tanto, marcelo é só labes, os labes não prestam, papai falou cuida que não há labes que se salve, eu sei, o rosto vermelho de vergonha e pressão alta, os olhos vagos, o álcool. eu diria: não tenho necessidade de beber, mas de provar que não tenho necessidade, logo bebo pra mostrar que não preciso; ninguém entenderia, talvez nem eu.

labes é uma incógnita desvendada, eu disse com entusiasmo NÃO SOU ALEMÃO, ninguém riu, sou francês excomungado, pastorzinho luterano de merda brigou com o rei católico francês, disse vai embora, e ele disse eu vou, foi pra alemanha. essa tristeza, essa melancolia de imigrante faminto, imigrante fedendo a merda de anos e anos a fio remoendo a certeza que na europa era melhor, eu nunca fui à europa mas a tristeza parece ser a mesma. acontece que se isso aconteceu no século dezesseis e há mais de quinhentos anos o pastorzinho fiel a nosso senhor jesus cristo e independente do poderio de roma mudou-se pra alemanha, não adianta esconder que, sim, eu lamento, ich bin deutsch, honey, e nada posso fazer contra isso.

dissoa, contrasta, fere meus ouvidos, talvez que haja um ponto da língua que prende, os dentes são tão bonitos, tão bonitos, dizia doutora rosa, a dentista que me dava mais atenção do que qualquer mulher jamais me daria, eu não fumava. enfim, deve ser uma questão de língua nos dentes o soar feio desse encontro de r com c com elo mar-ce-lo, ligia me chama de mar e eu olho o mar e penso no quanto há de distância semântica entre nós.

se eu fosse menina, devia ter sido, teria outro nome, seria estéfani, stephany, nie ou qualquer coisa que o valha, marcelo não soa ruim, poderia ser rafael, talvez tenha sido, há quem diga que tenho cara, rafael pelo menos é nome de anjo, será?, marcelo é o diminutivo de marcos, sempre dou o exemplo, ânus é anel, anelus é anelzinho, marcos é martelo, marcelo é isso aqui, o latim é que explica.

marcelo labes, esse aqui, isso aqui, acabou esse espaço de escrever, tentar outra coisa, falar da vida alheia novamente, escrever poeminhas novamente, lançar livro, beber livros vendidos, encontrar nova forma de presentear as pessoas, eu não sei dar presentes, o livro pelo menos ajuda, não vou repetir, podia mudar a dedicatória, melhor outro livro então.

talvez que algum filho, se filhos houver, um filho de um amigo, um sobrinho, bem mais provável, um dia pergunte ao então carcomido do que tu te lembras? e eu direi, sinceramente, pensei hoje tão claramente - como quando deus morreu, foi simples, bonito, colorido como é para quem não tem daltonismo, olhei e disse não há deus e nunca mais houve. assim simples eu pensei nos domingos de manhã, o abrir dos olhos, a tontura, sempre a náusea e a mão fria da ressaca sobre meus olhos, nunca mais faço isso, nunca mais me torturo, cansei do estrago, larguei essa vida, o que eu disse?, o que eu fiz? eu direi a quem perguntar do que tu te lembras? eu direi, simplesmente:

eu me lembro de ter esquecido.

25 de out. de 2009

Três poemas de reencontro.

LAMPEJO #20

Os olhos azuis dele

Azuis os olhos dela

Os dele tão azuis

Era o céu e eram os olhos

Que me olhavam sem temor.



LAMPEJO #21


Éramos dois ou três.

vieram os anos

(tantos anos, um atrás

do outro, incrível).

Éramos quatro ou cinco,

éramos tantos!

No reencontro,

partes do mesmo

e intenso vazio.



LAMPEJO #22


Se eu soubesse antes

do antigo gosto do beijo

(o cheiro, os cheiros)

não teria nunca desperdiçado

em tantos cantos

meu nariz.

8 de out. de 2009

Pai morto.

o pai não tá bem, acordei assustado, som de corpo caindo no piso em seco a gente nunca precisa ter ouvido pra saber como é, então que eu sonhava com alguma coisa interessante porque era exatamente o momento do sonho em que não se pode acordar, não se quer acordar, som de corpo caindo, o pai não tá bem, caído na frente da porta do meu quarto, eu nunca soube quanto pesa uma vida, isso lá é pergunta que se faça quanto pesa uma vida, eu não conseguia levantá-lo, eu não conseguia, EU TINHA ACABADO DE ACORDAR, PORRA! como que faz pra carregar o peso morto, meu pai morto, o peso da minha vida, só restou puxar pelo
pé e colocar o velho na cama: agora dorme, eu disse e saí.

lembrar é isso e se eu dissesse que esqueci estaria mentindo mais do que eu costumo geralmente mentir, mas não esqueci, acontece de a gente não lembrar todo tempo, agora lá vou eu e chorei sorrindo pensando no abraço de dover, o mesmo abraço, tantos anos, o mesmo abraço e o mesmo sorriso, eu preciso de tempo, me dê somente um dia pra eu observar atentamente os dentes, como eles são, a cor das gengivas, os dedos das mãos e o olhar de sono, os detalhes que sempre perseguem, não adianta, não lembro, preciso de um dia e nenhum mais.

eu lembrei como era, um dia, eu lembrei, era loira e de olhos azuis, muito loira e olhos azuis que me engoliam e um sorriso com um aberto entre os dentes, sabe?, os dentes da frente separados e nunca soube o que aconteceu, éramos somente crianças, dois anos de internato o que se pode fazer é comer mesmo e se masturbar no meio da praça, ninguém via, ela com a mão dentro
da minha cueca, o pau assando. e até outro dia nunca tinha havido outra, nunca mais, a gente acha que sabe quando encontra a mulher da nossa vida e eu tinha certeza até o momento em que não tive mais. eu lembrei justamente pra esquecer depois de ter bebido tanto tempo a perda da mulher da minha vida que não era, nem eu era homem pra ela, e não era loira, nem alta e os
olhos não eram azuis, embora fôssemos crianças ainda.

eu cantei quatro discos do engenheiros do hawaii com tudo que eu tinha de voz somente pra ver com antecipação a paisagem que é morada, é lar, coração de mãe, colo de namorada, o sol se pondo no guaíba, ninguém perguntou se é um veio de merda, o sol se pondo e a gente lembrando de uma outra primavera, os meus olhos sempre se enchem de lágrimas e eu não tenho vergonha
nenhuma disso.

não é a decolagem, não é o pouso, meu medo de avião é que de repente eu me perceba no avião, nunca aconteceu, a hora em que eu olho para os lados e quero sair e não tenho como sair quem vai me segurar, tomara que baixe logo a pressão e eu desmaie. para manter o humor talvez que eu lembre da canção do belchior, não vai haver aeromoça bonita, eu sei.

lembrar é isso, a gente não tem como evitar e o que acontece é de repente ouvir a música que toca inocentemente no rádio e ser transportado pra anos atrás, ver a mesma luz, fazia luz quando pedro colocou o dois do legião urbana pra tocar, ouvimos juntos, foi a primeira vez que aconteceu de eu saber que aquele momento seria guardado para sempre. lembrar e esquecer, não
preciso comer, não preciso de sapatos novos, mas que deus sempre me dê dinheiro para comprar desodorantes nívea de cor vermelha na frente, adriano cheirava a isso, eram bons tempos.

quantos abraços, quantos abraços, quantos beijos e quanta saudade. lembrar porque é necessário e é bonito e faz querer viver mais não para reviver por pura nostalgia mas para poder lembrar por muitos anos ainda aquelas tardes de ócio e alegria, era domingo, mate e violão na praça central. eu sempre lembro mas queria esquecer do som de corpo caindo no piso, o pai não tá
bem, eu não adiaria minha viagem nem pra ir ao seu velório.

30 de set. de 2009

Saideira.

eu nunca ganhei um salário tão alto e não tenho dinheiro para beber, o que somente me faz pensar que a merda é mesmo a vontade, como diz raquel, a vontade que a gente deixa de saciar e disfarça com qualquer outra coisa e se eu não bebo o que posso fazer é me masturbar continuamente até cair no sono porque amanhã eu não acordo cedo, baby, e posso pensar em qualquer besteira até o dia já estar bem clarinho e eu imaginar de forma perversa que os meus companheiros de ônibus de todos os dias não vão ter a minha companhia nessa quinta-feira de merda e de céu nublado e chuva que chove e não molha quando o trânsito às seis horas da tarde vai fazer qualquer pessoa sensata e cansada de um dia inteiro de trabalho lamentar que algum dia tenha havido algum alemão feliz no mundo.

falar de sacanagem é melhor do que fazer a tal da sacanagem porque escrevendo dá pra imaginar que se vai supor CARALHO!, será que ele fez mesmo isso ou imaginar que se dirá eu sabia! eu sabia! ou somente irá dizer mau gosto esse texto do marcelo labes e quem é marcelo labes, isso lá é nome de gente.

acontece que eram dois estudantes e eles se disseram que iam comer alguém, era quarta-feira e eles iam comer alguém, a garrafa de cachaça debaixo do braço andando pela general lima e silva a caminho do parque farroupilha mais conhecido como parque da redenção na cidade do paralelo trinta e eles iam comer alguém quando se aperceberam sentados no banco da praça o carro rodeando a praça e fazer o quê se a gente vai comer alguém que seja então um veado e aconteceu de irem ao apartamento do veado que era velejador e falava inglês fluente, as três bichas fodendo na cama. me contaram que o veado era bonito, eu não sei. mas nunca me arrependi do beijo na perimetral às sete e meia da manhã.

eu tinha pensado na cena da mãe e do filho, sim, a mãe segurando o filho, dava um conto interessante, a mãe segurando o filho quando me encarou a última vez e eu pensei na mãe excitada e como deve ser a mãe sendo mãe segurando o fato de ser mãe no colo sentir molhar no meio das pernas com uma vontade de dar e se comer que não se explica nos arautos da moralidade, acontece que se ela desse eu comia.

seguindo então essa necessidade de escrever sem lei nem regra nem tesão, somente escrever, porque personagem, meu filho, é pra gente grande, e tem gente que não cresce nunca, ainda mais depois que inventaram os empregos onde somente se precisa ser responsável oito horas por dia com plantões raros em finais de semana, duramente responsável, ar de autoridade, eu nunca desprezei ninguém. ainda mais depois que inventaram o fácil acesso a qualquer traficantezinho que te entregue cinquenta reais de pó e os bares, sim, depois que inventaram os bares, o pó e os filmes pornôs ninguém precisa realmente ser adulto se não quiser, basta se concentrar nas olheiras segunda-feira de manhã e tomar café, muito café, eu te garanto.

saudade é uma palavra que existe mais na teoria do que na prática, a gente é que segundo ana dramatiza e traumatiza conforme a necessidade do dia, quando ela me falou chovia e a gente de carro, era frio, a gente no carro e ela me dizendo que essas coisas a gente dramatiza e traumatiza conforme a necessidade, não falou de saudade, mas coube muito bem o que ela quis dizer. o coração bate forte e não há explicação alguma, eu que olhei para os meus dedos e pensei que eles ficam melhores com as unhas roídas, são dedos tortos de qualquer forma, roer as unhas tanto que faz, o importante é escovar os dentos e cortar os pêlos do nariz.

uma hora eu paro com tudo com o álcool com o pó com as unhas com as manias de querer amar quando amar nunca pôde acontecer de verdade, é só uma vez na vida que se beija um beijo com gosto de boceta e pau e cerveja e tabaco. somente uma vez e que aconteça a todo homem beijar assim, nunca mais sentirá nada parecido e vai parecer que alcançou o nirvana. uma hora eu prometo parar com tudo com o álcool o pó as unhas aquele beijo e essa merda de escrever nada que possa realmente interessar a alguém.

21 de set. de 2009

Segunda-feira blues.

quanto pesar pode haver e caber em mim, eu não sei onde me perdi ou quando, mas certamente que não há um momento certo, a gente vem se perdendo desde sempre e até que alguém nos olha e diz com pena: tá perdido. eu sei, eu é quem me digo isso e assim e com cara e voz de pena que a gente emenda quando vai encarar nos olhos um mendigo. eu não sei qual o tamanho da esmola que eu preciso, mas sei que fome e frio não me caracterizam: embaixo do cobertor, suado, eu me lembro e tremo de frio.

segunda-feira é o dia de se dar conta. bebi demais, dormi demais, o nariz corroído de novo. tudo bem, eu lamento, não deveria ter dito aquilo daquela forma. segunda-feira é o dia que mais demora a passar, tem o tamanho das promessas que a gente se faz quando diz que vai parar com isso e com aquilo e vai ser melhor, vai viver melhor. segunda-feira é um dia interminável mas só até o momento em que é terça-feira e já nos preparamos para errar tudo exatamente igual àquilo que tínhamos jurado nunca mais fazer daquela forma.

ela tinha pena de mim e por isso me olhava daquela forma. sabia já de antemão dos erros que eu cometeria e por isso tinha pena, sabia que teria de ir pro outro lado em breve, em breve e deve ter demorado muito pra ela; pra mim, passou voando. acontece que só agora eu pude ver a falta que faz quem está longe e a gente queria ter por perto. tantas vezes vou ter de vomitar bile pra poder me fazer crer que consigo viver sem eles, sem ela.

meu pai chorou depois de muitos anos na minha frente. e eu o consolei enquanto me dizia como a cabeça da gente é fraca, e eu dizendo pois é, pai, pois é, a nossa cabeça é fraca mas não disse. quem tinha chorado antes era eu, quinta-feira de manhã o pai veio ter comigo, eu ainda bêbado e sentei e chorei e ele perguntou o que acontecia e eu disse saudade dela, pai, saudade dela e ele não disse nada, não sabia do que se tratava.

outro dia eu explicava da verborragia, de novo o assunto de não precisar mais pensar numa história e num nome de personagem pra transvestir a minha vontade de contar. eu falo de mim mesmo ou eu falo de literatura ou eu sou personagem ou eu quero que somente ela leia os meus textos e me diga que vai voltar. e eu dizia que não me doía escrever assim desse jeito e aqui porque tanto faz, na verdade, que gostem ou não de tanta letra e de tanta palavra. o escritor parece querer que se apartem dele sempre e cada vez mais seus leitores e por isso inventa. acontece de alguém gostar, o que se pode fazer, tem louco pra tudo.

quanto pesar pode haver. então eu queria poder voltar a ler, mas sempre falta tempo, é preciso beber e acordar e trabalhar e voltar correndo pra casa e ligar a tv e dormir. tanta coisa importante - ligar a tv e dormir - que a gente esquece de tudo aquilo que parece dar cor à vida e que cor a vida tem se não o clichê do cinza e do amarelo esmaecido. quantas cores a vida já teve e nunca mais terá, maninha, te acostuma com a tua vida assim, nem branco nem preto somente o cinza.

15 de set. de 2009

Acabou setembro então.

não adianta falar de setembro, da própria vida, porque não é vida ou porque não é texto, dizia outro dia que não se trata de meu querido diário, melhor falar da vida própria do que da alheia e acho que ninguém me entendeu. a gente senta a bunda na cadeira e pensa mais no nome do personagem do que em como vai fazer pra contar nele uma história que aconteceu com a gente mesmo e esse tipo de literatura não me faz mais muito sentido por enquanto. a gente pensa o nome do personagem porque quer dar a ele o nome parecido da mulher que a gente amou, do amigo que teve coragem de pular a janela e do parente que não se aguenta ter por perto porque a presença dele fede - mas mudar muito o nome faz com que a gente fale de uma outra pessoa: eis o conflito.

não adianta falar de setembro, melhor falar de literatura, hoje eu vi: os livros, os livros tomando conta do meu quarto e ontem mesmo, antes de ontem, eu disse ao beatles que estava cansado dessa merda de ler, a gente tem a própria vida, disse ao beatles porque escrevi aqui a respeito disso, eu pensava em outras coisas. e os livros que não foram escritos, esses a gente empilha na lista dos que mais deseja ler embora não se possa dizer com exatidão do que poderiam falar.

isso de escrever livros, de escrever blogs, de escrever nas paredes do quarto. isso de escrever metáfora pra disfarçar o que tem na ponta da língua. cansei, cansei de passar na frente do prédio onde eu morei e lembrar que era ali, lembrar de quando o caminhão estava passando e eu tinha sete anos e o filho da puta freou, porque eu tava na mira dele, eu lembro, depois conversa com a mamãe e a psicóloga, eu desenhava e me divertia até ela perguntar do caminhão. isso porque eu fiquei esperando o caminhão chegar, não sobrava nada, nem pedaço de gente pra encher o caixãozinho - ia ser um caixãozinho branco e de anjo eu já não tinha mais nem o olhar.

acontece de ter tanto pra dizer e não ter pra quem e não ter coragem. porque o meu dinheiro acabou antes do tempo e tenho de esperar quinze dias pra encher de novo a cara e, ah, me encher de verdade e compreensão e outro dia eu disse a ele no meio de toda a gente que eu precisava conversar e constrangi a todos pelo meu estado triste de quem se enche de vontade e se esvazia de vergonha e fala com a língua reta sobre assuntos dos quais nunca se lembra quando se está, como dizem, consciente.

acabou setembro. acabou setembro e o desejo sincero de salvar o mundo. ontem eu ri da minha vontade de reler ismael e hoje ri na cara de um imbecil com boina do che que me veio pedir ajuda pra salvar o mundo quando o brasil quer comprar cinquenta e sete bilhões em armas e eu disse tá brincando, meu velho, pra que atrasar o que não vê a hora de acontecer.

chegar aos quarenta me dizem que será uma vitória. tinha passado cinco semanas limpo e contando nas pontas dos dedos o quanto faltava pro estrago quando eu concordo com o amarante que eu gosto é do estrago e é exatamente por isso que eu proclamo aos que me dizem que chegar aos quarenta é fácil quando custo a chegar em outubro. e não me digam os meus queridos que a coisa tá feia e que tenho o mesmo olhar do amigo que se arrebentou de moto atrás de uma f1000 porque achava que era o dono do mundo.

eu sou o dono do meu mundo de sadismos e bizarrices assim e se eu lembro de quem, lembro porque eu quero. eu sou o dono do meu mundo, mãezinha, eu sou o dono do meu mundo, meu amigo, e nada se pode fazer contra isso. nem a favor. porque não adianta achar que se pode atrasar o que sempre esteve a ponto de acontecer, entende?

9 de set. de 2009

Parabéns.

só pra provocar, eu consigo: pedro do outro lado da porta, há quanto tempo. café na minha primeira casa, a garagem, veio todo mundo, o pai veio também. edward e eu quase morremos de moto no outro ano, caímos na estrada de terra, pura sorte, fosse no asfalto carro passava em cima. a gente sobrevive.

e eu esperava que até o cobrador do ônibus me apertasse a mão e me dissesse parabéns, tudo de bom, felicidades nessa tua vida parca, ele não diria parca, mas devia. feliz ou infelizmente, nem todos guardam as datas, eu mesmo nunca guardo e havia uma data em julho que sempre se confundia e eu não fazia questão de lembrar porque lembrar data na data errada é miséria. talvez fosse agosto.

uma vez por ano, pelo menos, a gente trata de rever a vida e decidir pra onde andar nos próximos dias, eu não sei pra onde ir, então eu vou quando ou como, nem sei. eu sei: não é a data, é a comoção. minha mãe me acordou cantando parabéns e eu tinha passado a noite em insônia o coração saindo pela boca pensando em quanto se perde com o tempo e já lá se vão tantos anos que algo aconteceu, onze anos, eu não sei, não lembro o que era que me fez perder o sono.
haverá então parabéns, felicidades nessa tua vida parca, não dirão parca, eu é que ouvirei felicidades nessa tua vida tão cheia do contrário, do obtuso e do cinza. e os olhos se encherão de lágrimas porque eu sou uma criança mimada que não quer uma parte, eu sempre quero o todo, eu sempre quero que todo mundo que eu quero apareça nesse dia, mas eu não lembro de datas e não espero que lembrem. porém.

pensar no nome de quem se sente saudade e pensar que seria boa hora pra aparecer, onde anda isabel, professor ivo, chico, tanta gente que a gente deixa pra trás com os anos, não tem porque reencontrar, foram-se as palavras que deveríamos ter trocado enquanto era tempo e ficamos todos um pouco mais mudos com o passar dos dias.

há quantos anos e quantos mais. e quantos mais. e quantos anos mais se terá o prazer de sentir que o tempo passa. vê? não temos mais a idade que temos e como parece fácil e simples e por isso soa tão triste ver o tempo passar assim, sem pena, foda-se, que a gente não sabe mesmo o que fazer com o tempo que tem.

houve um tempo bem tempo atrás em que era tudo tão simples. hoje vai ter bolo, aquela coisa toda, gabriel me dará o abraço mais sincero do mundo e quantas lágrimas serão necessárias pra expressar o quanto uma criança - o quanto eu mesmo criança nele - pode fazer a gente feliz.

hoje vai ter bolo e toda aquela coisa de família, festa sofrida, a gente sorri porque deve. o amigo que resolver me salvar e aparecer para o bolo, que pelo menos leve um trago forte, por favor.

26 de ago. de 2009

A minha parte.

eu fiz a minha parte, abri aqui o bloco de notas pra escrever sobre o quê, sobre quem e quando. faz muito tempo e faz exatamente um ano. eu fiz a minha parte e no fim das contas não tenho mérito, eu só preciso do silêncio, não me telefonem, não me escrevam, pra que pedir se é isso mesmo que acontece sem que eu tenha realmente controle.

faz sol aqui e lá, ela me disse, faz sol, a manhã é bonita lá e é bonita aqui, sem mágoa, tristeza ou lembrança triste de quantos anos ou um ano atrás, talvez uma saudade, várias saudades, enfim. faz sol mesmo, não há como negar, olha ali e me diz se não é mesmo um dia branco. mentira. são nuvens. tomei café com meu pai ontem e ele me disse que o tempo ia durar, ia ficar sol, ia ficar assim, lá filho, olha as estrelas. eu olhei, pai. eu olhei. e faz sol só pelo pai. quem ver vai dizer que tá cinza e não erra.

eu meço o tempo em quilômetros.

grande coisa, eu fiz a minha parte, abri aqui o bloco de notas pra escrever compulsivamente sobre alguém que no fim sou sempre eu mesmo, grande coisa isso de escrever, teorizava sábado que é preciso apartar, mas personagem não sente, moço, personagem é a máscara que tu pões nos teus desejos, entende? moço, personagem é brincadeira de criança, ficar dizendo a ele o que fazer contigo mesmo, era tu que querias matar teu pai, comer tua irmã, rasgar teu pescoço com os cacos daquele vidro mais antigo.

não consigo mais ler porque a literatura é essa merda de a gente ficar vivendo uma outra vida. a vida da personagem. queria tomar café com o mirisola hoje pra acabar de uma vez com todas com isso de admirar. não reconheço mais nada, joyce é cansativo e só se lê pra colocar numa espécie de currículo que bem poderia ser quem tem o pau maior e é quem conseguiu ler mais vezes o ulisses ou qualquer outro da mesma estirpe.

preciso fazer mais pela gente porque não tenho o que fazer comigo, entende?

ela me disse que faz sol lá e isso me basta por um dia inteiro. e eu sorrio por um dia inteiro pensando no sol que ela é.

18 de ago. de 2009

Setembro.

eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e refrigerante e talvez chapeuzinhos, havia balões, sempre houve balões que eram enchidos para serem esvaziados com o tempo, a tristeza que é um balão esvaziando, sinal de que não foi estourado na festa porque não houve festa.

as pessoas viriam, as pessoas viriam e eu esperava sentado na calçada olhando a estrada, elas fariam uma curva à direita e eu reconheceria os carros, é para isso que são feitos convites e é por isso que se sonha na noite anterior com os presentes que a gente vai ganhar, acho que por essa época eu sonhava com um forte apache ou era mais tarde e já havia o comando cobra, embora eu sempre jogasse do lado dos mocinhos.

sempre houve essa angústia pelas pessoas que viriam e depois de horas e horas e horas as pessoas iam embora arrotando salgadinhos e refrigerante de laranja e eu continuava esperando as pessoas que viriam, não estava mais sentado na calçada, estava com caganeira de tanto brigadeiro enfiado güela abaixo, de tanto bolo de morango, cagando e esperando ainda as pessoas que viriam que iam embora naquele momento, que estiveram ali e nunca vieram.

as pessoas então viriam e eu sempre esperei angustiado como ontem ainda, não ontem, é figurativo, ontem eu sorria conversando com ela, ontem outro ontem, pra não especificar, ontem eu escrevia a maria, escrevia à maninha, escrevi há muitos anos ao meu pai e meu irmão tem um poema só pra ele, e eles nunca leram, nunca leram e eu digo pra não reparar, outro dia disse pra minha irmã não te angustia se ler, não leu, óbvio, mas o texto era para ela em sinal do repúdio e amor que somente família pode proporcionar.

por isso hoje o estômago revirado, náusea, náusea, esperando pra vomitar tantos quilos de salgadinhos, tantos litros de coca cola que me enfiaram sem eu poder decidir se era isso ou se era um abraço, um carinho mais de perto no colo de quem, talvez que tenham morrido alguns dos que vinham ou simplesmente desapareceram, o que também é uma forma de morrer.

dez anos atrás ou nove, não sei precisar, acordei antes da hora, saí do quarto do internato e pedro fazia qualquer enfeite na minha porta com papel higiênico e era para ser bonito e eu me puni por ter aberto a porta cedo demais, e logo ganhei um abraço, pedro era um irmão mais novo. um ano depois chorei como criança por não poder passar o último aniversário feliz da minha vida com quem realmente se importava com ele, pedro, dover, edo, gerber, aonde andarão essas pessoas que tanto amo.

as pessoas que viriam nunca vieram, estavam lá e nunca vieram, quanto tempo faz e quantas vezes escreverei sobre isso. o colo de meu pai, meu irmão não apareceu ou chegou tarde e minha irmã. chorei ao apagar as velas, tem foto disso, ainda não sabia, o pai me segurando no colo. hoje chamo de inferno astral o que é só tristeza e lá se vão tantos anos e quantos mais virão e a sombra de setembro chegando será sempre punição. porque quanto mais desejos a serem realizados, menos pedidos há a serem feitos.

vai ser diferente, agora. ela vai me escrever e eu vou sorrir chorando por estar tão longe. em setembro os ipês florescem e a saudade é uma flor amarela que mastigo sem pensar.

6 de ago. de 2009

T.

eles discutiam sobre os descaminhos e recaminhos e eu ficava olhando pra saber o que dizer e não dizia nada, olhava pra porta e não pensava em nada. eu tinha sono e fome e uma vontade sincera de vomitar e meu nariz escorria e eu funguei três vezes traumatizado e traumatizante, aquela porra corroendo meu nariz.

eles discutiam e eu pensava no maior livro que já tinha lido, os livros grandes cansam mais do que a vida porque se estendem sempre muito longe. então sorri pensando que lerei mais quantas vezes puder o cem anos desde que eu passe os olhos pelo primeiro parágrafo onde diz que o capitão ou tenente aureliano buendía etc e tal.

acordei sozinho e o chão era gelado. talvez que meus rins doessem ou talvez eu só quisesse ter acordado numa cama quente de um quarto quente que tivesse aquele cheiro sincero dos cabelos dela. acordei sozinho e pensei que o melhor de sentir falta é justamente a falta que faz, ninguém lamenta o que tem por perto.

eu olhava a porta e as pessoas discutiam. eu mesmo discutia, embora não tivesse palavras. falávamos de literatura e do meu lado estava um amigo muito querido e do outro lado estava um amigo muito querido e em volta só havia estranhos e eu ficava olhando pra porta esperando que aquele olhar chegasse em mim e me dissesse calma, fica bem, estou aqui.

falávamos de quanto mede, de quanto mediu, o que se escreveu e chegamos aos cálculos, pois havia livros com muitas palavras e de repente se criaram os espaços eletrônicos onde se escrevia com poucas palavras e agora inventaram essa máquina de cotidiano onde somente se pode escrever cento e quarenta caracteres, não meçamos, serão muito poucas palavras, não contemos.

e eu pensando no quanto se pode dizer com tão pouco e quase propus que não escrevêssemos mais literatura, que nos contentássemos com o signo, somente o signo como num ideograma que não tivesse idéia que teria muito mais idéia porque seria somente o signo e percebi que não poderia explicar minha necessidade de não dizer.

lamentava-se que agora o texto se resumisse aos cento e quarenta caracteres e eu disse que se pode escrever muito bem em cento e quarenta caracteres e que havia um microconto que falava ao mesmo tempo de amor e de estocolmo e só uma mulher balançou a cabeça quando falei de estocolmo para mostrar que estava entendendo o que eu dizia.

eu pensei que não precisaria de tantas palavras como nos livros grandes que dóem como dói a vida nem das poucas palavras que dizem o que se pretende dizer em poucas palavras e que no fundo se entende nem mesmo dos cento e quarenta caracteres de cafezinho. eu precisaria somente de um signo, somente uma letra para dizer como os dias podem ser quentes, como os dias podem ser iluminados e como se pode sorrir nessa quinta-feira nublada quase fim.

eu escreveria somente t para dizer. t para abreviar o gosto. t para passar o dia. t para lembrar como se chama. eu escreveria somente este t de tatiana.

24 de jul. de 2009

Entrevista.

“Tava acabando comigo, sabe moço? Não tinha mais vida, dormia e acordava pensando nela, dormia com ela, né, acordava abraçado, sufocado não, sufocado sim, mas eu não via.

“Começou assim, uma vez, outra vez, de repente todo dia, de repente toda hora. A gente deixa de viver, moço, como é triste. Tudo em função dela, tudo pra ela. Dos amigos a gente se esquece, com o trabalho a gente não se preocupa. Me largaram os amigos e o trabalho, moço, a coisa tava difícil.

“Dizem que é vício e agora eu concordo. No começo é bom, a gente se sente forte, se sente homem quando usa. Depois, moço, quando o bicho pega, tu é largado sozinho com ela. A gente vê o mundo como ele não é. Foi assim comigo, é assim com muito homem.

“Um dia a gente acorda pra vida, né! Comigo foi assim: quando eu tava me afogando na merda, decidi que era hora de mudar, de criar coragem e mudar. Ela tomava a minha vida, moço. Tudo que eu era, era dela. Criei coragem, respirei fundo e fui adiante.

“Hoje tá tudo melhor, né. Hoje eu consigo comer direito, dormir direito, tô bem do corpo e da cabeça. Se eu sinto falta? Não, moço, não sinto falta não. Mas às vezes eu fico pensando. Penso tanto que chego a suar. É como se viesse a vontade de novo, sabe? Mas daí eu penso que eu enfiei a faca na barriga dela foi pra me ver livre de tudo isso. E mesmo aqui, moço, mesmo preso eu sou o homem mais livre desse mundo”.

20 de jul. de 2009

Cálculos.

eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesmo, porque eu toco no assunto e meus olhos brilham e eu nem tenho certeza se existem mesmo esses três ou quatro amigos a quem sempre recorro quando vou contar uma história que valha a pena.

são tudo cálculos e, vê: já são dez anos de rio grande do sul e esse irritante sotaque gaúcho que a psicóloga gostosa - aquela mesma - disse que em metade do tempo que eu tinha passado no internato já deveria ter sumido e eu calculei ansioso que em um ano e meio isso deveria me deixar, mas já se passaram seis anos e meio e o sotaque continua aqui, ainda mais forte quando raquel telefona. saudade.

são tudo cálculos e eu morri em hum mil novescentos e noventa e quatro e depois morri em hum mil novescentos e noventa e nove e morri de novo em dois mil e um para somente morrer outra vez ano passado, ou seja, dois mil e oito. eu precisava pagar o aluguel e para isso tinha que vender livros, mas como não queria vender livros, acabei sem o dinheiro do aluguel e esqueci de contar quantos degraus havia entre a porta do apartamento e a porta da rua, porque eu exatamente morri em cada degrau, em cada passo, enquanto eu descia, e chovia aquela noite e novamente eu morri a cada degrau enquanto subia para dormir intranqüilo numa cama grande demais.

mas isso já faz tempo, só queria exemplificar os cálculos, porque fizemos mil quilômetros de motocicleta até o bar, isso quer dizer que foram quinhentos quilômetros sóbrios e ansiosos e quinhentos quilômetros com a noite ganha, ou seja, vendo tudo andar em torno de um eixo imaginário, tudo rodando, como sempre.

são tudo cálculos e depois de ontem eu vi que de fato nunca é tarde pra se morrer de novo, porque enquanto meu pai se suicidava lentamente, lá estava eu também morrendo, observando atentamente como se morre quando o que de fato se quer é morrer.

então hoje eu cadastrei duas mil e treze infrações de trânsito na maldita planilha do excel que me fez ter dor nas costas, mais ainda doeram as minhas costas porque eu não consegui almoçar e, por fim, me dei conta de que toda a dor nas costas é em função de um peso que eu não quero mais levar mas que é evidentemente prático carregar algo nas costas para que elas simplesmente doam.

pensei então: vou chegar em casa e vomitar na cara de todo mundo ou de ninguém as minhas verdades, as minhas mentiras, as ojerizas e os desejos, mas estavam todos dormindo e eu fiquei sem todo mundo e sem ninguém, apenas com este espaço eletrônico que eu supunha literário, mas é merda nenhuma, porque não pode ser literatura eu sentar aqui e escrever compulsivamente enquanto penso num final que simplesmente não me aparece, O FINAL SIMPLESMENTE NÃO ME APARECE!, e por isso talvez eu termine como as meninas escrevem nos diários, dizendo boa noite diário ou talvez eu termine assim, simplesmente.

8 de jul. de 2009

Três poemas de despedida.

LAMPEJO #18

De dia de sol
e das coisas da vida
eu sempre disse que
nada soube.
(Também pudera:
quanto mais ali
havia que não se
esclarecia em palavras,
somente no exercício
dos dias).


LAMPEJO #19

Vê-la ir embora
(outra, não ela,
tão parecidas!)
com um fio
de lágrima nos
olhos, com esboço
de sorriso no rosto...
Vê-la ir embora
(outra, não ela)
é sentir o doce gosto
de ontem,
o perfume dourado
do agora.


LAMPEJO #20

Maria,
eu simplesmente te
diria que a vida é
isso e tá aí pra
ser vivida.

[não fossem, claro,
a saudade e a agonia
dois pratos tão baratos]

Maria, então eu
te digo:
é isso!
Vida não vale
a pena se não tiver
sacrifício.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...