25 de nov. de 2011

Poema de edredon.

Gosto de sono
na tua boca.
Gosto de sonho
em ti toda.

Voz de edredon e
domingo.
Olhos de quem vive
para amanhã.
- a vida que será vivida
não à toa -

(nunca à toa)

Essa, eu deixei
numa curva
quando se podia
dizer que era boa.

Mas esse teu gosto
de vida
faz da vida que
não se vive
em vida que se voa.

10 de nov. de 2011

Poema desentalado.

I

E se eu te dissesse
palavras mais severas?
Mais do que tanto já disse
(logo me vou,
a vida é um fiasco,
de que vale a pena,
vamos nos amar).

E se te dissesse
entre tantas verdades
somente mentiras torpes
me irias acreditar?

Ah, se eu somente calasse
- o tanto que há pra calar -
e me permitisse apenas o toque
- do que tanto que há por tocar -
talvez que enfim te dissesse
e me permitisse falar
as tais das palavras severas
que em nada parecem com aquelas

doces,
soltas,
francas

que os lábios ensaiam
inquietos,
gagos - os lábios gagos.

Seria frio ou seria ensaio?

II

Mas nada - nada há de
equilibrar essa distância
(se fossem somente os anos,
se fossem somente os planos
desfeitos) -
essa distância mesquinha entre
céu e mar.

Aquilo que vês, bebê, não passa
de ilusão de ótica:
não se tocam nem nunca vão
se tocar.

Então por que isso de ser gente
e imaginar?

III

Eu vi mais de três vezes.

(disse um amigo que é do que
precisa um homem, três amores
em que chafurdar)

Eu vi, eu vi!,
eu vi que se acaba em quase nada
isso de se querer,
isso de no que se apoiar.

No entanto
(porém, eu diria)
no entanto se diz
que viver é a busca,
ainda que brusca,
dum querer bem,
ir sem voltar.

IV

Mas sei que já não cabe
(nunca coube -
acontece -
está-se por estar).

falar as palavras confusas
que nos exige a poesia,
as garatujas e a cinefilia;
e ainda a política
que distancia pra aproximar.

V

As palavras.

Há ainda palavras
que digam e possam dizer?
Há ainda sentido quando
no meio do caminho
(quando no meio do
caminho etc e tal e...
assim que se faz poesia,
Drummond?) -
haverá?

VI

Há a poesia e o
poeta
- a curva, a subida,
o contrário e a reta -

mas o que sobra é o que
se verá

(sempre e sempre e sempre
e...):

a alma desnuda e o
coração cheio;
a pele opaca
e muito receio.

No meio disso,
nada há.

VII

Mas tu sabes de tudo
que não viste
(tens nos anos que
não viveste toda a
arrogância que subsiste
no fato de seres tu mesma).

E quem te põe a mesa
não pensa que és tão triste;
vês mais do que teus olhos
míopes,
a língua rachada diz mais.

É assim que se vive,
penso.

VIII

Tanta lisergia pra quê?
Não há momentos sinceros
nisso de se querer?
a si?

Nisso de se querer pra si
tanto que o mundo quer dar
- e não se pode assumir a dádiva -
(a esmola que se quer apanhar
e é extremamente proibida.

Exercer então o quê na bebida
e no escuro dum quarto-sofá;
numa esquina qualquer escura,
do lado, no meio da rua,
aonde se encostar.

IX

Vive-se bem no Brasil,
donde a puta que nos pariu
- o recheio: a pátria, o sonho,
a alma dum brasileiro -
tanto faz:
vive-se bem por inteiro
ou pelo meio.
Vive-se sem reclamar
disso que é tão feio:
isso de ser brasileiro,
ter boca e não saber falar.

Ouvi! Ouvi!

(não eu, é um reclame na segunda
do plural)

O vexame já se engoliu.

X

Há afinal uma história
e um escrever sem memória -
registro para lembrar.

Há, sem querer,
um limite.
Quem pensar ser gente,
acredite:

por mais longe que se vá
(campo, metrópole, mar)
nunca se chega distante
de onde se quis estar.

XI

Se eu te dissesse palavras
mais severas,
me irias acreditar?

Se te dissesse, ao acaso,
que procurei por mais palavras
do que pelo que dizer;

Que andei por mais distâncias
por onde não quis chegar;

Que cantei canções distantes
que a voz não quis cantar;

Que perdi o sono à noite
pra não ter que acordar;

Que rimei rimas tão toscas.



28 de out. de 2011

Barone.

A propósito dos dez anos do Palanque Marginal.

foi no banho, onde mais teria sido? pensando em barone, no tanto que tu és, foste, quem sabe ainda seja, tanto tempo distantes, pensando em escrever de verdade, isso de fluxo de consciência que a academia certamente abomina, mas tanto que eu abomino a academia, ora, onde já se viu, mas tanto faz.

acontece que depois de muito pensei em vinícius procurando respostas, talvez.de quando?, ora, um som dos paralamas que eu conheci antes de tanto, corria hum mil novecentos e noventa e oito, acontecia o nove luas, um som que dizia que da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste etcetera e tal até que então fosse dito que era tudo igual igual igual igual igual.

foi aí ou no cassete do legião urbana, vinte e nove vezes, por que vinte e nove, só por hoje eu saberia. acontece.

mas sempre mais perguntas que respostas, um dia um caminhão e eu pensando que se fosse, seria interessante, o caminhão na minha direção, eu no meio da rua, não foi por medo que eu parei: foi por tesão.

e eu querendo saber de vinícius, de onde a calma. o meu quarto, barone viu, o meu quarto-museu que foi pintado enquanto eu tentava uma vida-teatro em porto alegre, eu já não era mais criança, mas ainda era somente o mesmo, um tanto-faz disfarçado de gente, uma vez fui ator, noutras fui poeta. o tanto-faz veste sempre a roupa da vez.

e a calma. eu pensava: há que ser forte. por quê? forte pra quem? há que ser forte para aguentar a vida, o peso, a tensão, as mulheres que fazem as malas e repetem uma cena de nichols em que se diz eu não te amo mais, como se a cena em si recompensasse a perda, como se a vida fosse cinema: vinícius foi sempre real demais!

e a ânsia das perguntas nunca feitas: não dói, vinícius, ser sóbrio? não dói amar somente uma mulher? e te ver num pequeno, teu filho, e ver ali teu pai também, como é? vinícius que recusou lobo antunes pelo peso que eu sei que é imponente e me devolveu o cus de judas dizendo que não fazia lá seu estilo, prefere leituras mais práticas.

ah, a poesia. eu que já fui poeta, já fui casado, já fui veado, já fui cantor de cabaré (?). eu que somente escrevo porque somente o texto pode fazer sentido e sinto que somente a literatura pode fazer ruir a alma dum homem sadio. a poesia é a grande verdade dos fracos que ali se apóiam e ali se fazem – o que realmente gostariam e não podem ser.

mas onde eu queria chegar com tudo isso? ah sim. dizer que o texto é necessário. não faz o menor sentido, mas é necessário. a academia já morreu há tanto tempo, a literatura decompõe-se tão lentamente, sente o cheiro?, mas isso de ser gente continua, isso de se mostrar assim nu, assim homem mulher o que seja, isso não para. e se escrever é a masturbação de quem se sabe, ler seria afinal o quê? a continuidade sem sentido algum de coisa nenhuma? pois é.

no entanto (ah, no entanto, sempre um porém), escrever-se para si e se ler no outro é o que nos faz humanos, nos faz sabidos, nos faz o que tanto lamentamos ser mas de onde nunca fugimos.

conheci barone antes de mirisola, quase ao mesmo tempo em que sartre, camus, pra nizan vir tão depois e tantos outros. mas nenhum deles pessoalmente. melhor assim: nenhum de verdade.

então percebo: é necessário dar nó nessa corda, enfrentar o final de um texto escrito sem dúvida a contragosto. não sei lidar ainda com o tempo e com as marcas do tempo – dez anos – mas termino dizendo assim:

procurei em vinícius uma resposta, sempre procurei. e por que falo dele aqui? porque ele me responde. quanto a ti, meu amigo, tu és incapaz de fazê-lo e, tenho certeza, vem daí a glória deste palanque marginal: a interrogação necessária, um contínuo abrir de olhos, uma fraternidade fora dos eixos.

sem sentido como a poesia. esta que pra nada serve. esta que é reflexo da vida. e por isso mesmo, fundamental.

13 de out. de 2011

Poema duma quinta-feira chuvosa.

Eu queria ter o poder de pedir
para deixar de tirares meu sono.
Eu queria ter.

Eu queria ter a vergonha de
te falar do tanto da falta que
eu sinto.
Eu queria.

Mas quando me vem teu sorriso
(o clichê do sorriso, eu penso,
sempre se fala em sorriso)
de Curinga pueril;
os olhos de pantera que
parecem não ser teus

Quando enfrento o travesseiro
e me acordo dum sono febril,
me levanto e escrevo um poema
(o clichê do poema, penso eu)
pra tentar resolver o dilema

de quem és tu.
do que sou eu.

4 de out. de 2011

Poema só para ela

A ferida de debaixo
do teu queixo,
A ferida de debaixo
dos teus olhos
Já pararam
- tanto tempo -
de sangrar.

Mas o que te sangra
bem aí, bem dentro
(que é grito, dor, amor,
tesão, tormento)
como faço pra
parar de machucar?

24 de ago. de 2011

Sobre isso de dez anos.

eu bem poderia fazer novamente o que vim fazendo todo esse tempo, agora eu sei quanto custam dez anos de uma vida vivida em função de datas, de nomes, de lembranças a que ninguém dá o devido valor, eu gastei toda a minha mirrada fortuna interior de pensamentos pensando, pensando, se tivesse investido mais além, quem sabe estivesse rico. de mais lembranças.

as fotografias e os dilemas. poema dia-sim-dia-não para dizer o quê, para quem, tanto faz. nunca fez sentido isso de futuro próspero que nos fizeram engolir, dias idos, com pão e café com leite, uma mesa de oito lugares em que se repartia a comida, em que se repartia partes de vidas, em que não se repartia nada mais do que o ar que se respirava.

acontece que não adianta tentar escapar para a europa de lá ou para a europa que nos enfiaram cu adentro aqui mesmo, não há escapatória, a não ser abstrair, mas abstrair como - se tudo sempre nos remete a. e há quem não canse de ouvir o que aconteceu nos idos de hum mil novescentos e noventa e nove, nos idos do ano dois mil, minhas histórias repetidas das noites de bebedeira, há quem não canse de ouvir não por interesse. por pena.

era uma cidade, era uma escola. a escola sempre foi maior do que a cidade e caminhar pelas alamedas e fitar as árvores e se recostar no gramado era sentir-se abraçado pela realidade que inexiste por incapacidade de existir. o mundo, aqui, não é o mundo que aprendi. nunca me refiz da perda: oito pessoas por mesa, doze mesas no refeitório, um pedaço de carne para cada um, aos sábados cachorro-quente.

como merda, quando se pisa nela, quando se escorrega nela, quando se come. fede. o mundo, este mundo, não nos permite, nunca me permitiu repetir a irmandade fabricada, as amizades que surgiam para aplacar a dor de uma separação inevitável e nunca antes experimentada até que finalmente acontecesse. aconteceu. o resto são cacos.

tenho aqui esse saco velho - esse corpo que se assemelha a um saco velho - onde guardo os cacos, dez anos se passaram e acumularam-se os cacos. não há mosaico capaz de remontar. não há como remontar-me a mim próprio.

reencontro para assomar ao desencontro. solidariedade para com a minha solidão. eu ainda caminho pelas alamedas, eu ainda deito nos gramados, eu ainda beijo uma adolescente excitada sob as árvores de uma pequena praça. eu ainda abraço o abraço dos irmãos que não tive, que então tive e que enfim perdi. eu ainda abaixo os olhos diante do alemão opulento e torto e vermelho que me torturava a vida por eu ser um menino triste.

eu sou apenas um menino triste se que esqueceu de crescer. e sempre retorno àqueles tempos, sem querer. menos quando o conhaque queima.

até mesmo quando o conhaque queima. assim.

7 de ago. de 2011

Pra descrente ver.

Tentar a ciência,
e eloquência,
a transparência,
seja o turvo que for.

Tentar a família,
a partilha,
o amor...

Amar uma vez e,
se der,
tentar amar novamente.

Tentar ganhar dinheiro
ou viver sempre por um triz.

E se nada de nada der certo,
enfiar Jesus rabo adentro
e, sorrisinho no rosto,
espalhar aos quatro ventos
que é feliz.



6 de jul. de 2011

Férias desse Blog.

já não é mais possível escrever, como outrora não era possível se afogar, há um tempo para tudo nessa vida e esse tempo, parece, terminou aqui.

quando de falações, nenhuma surpresa: enojei-me. tenho ainda setecentos exemplares encaixotados e um débito junto ao fundo municipal, mas o livro existe, não roubei o dinheiro para pagar o aluguel. por que não roubei o dinheiro para pagar o aluguel? talvez que tudo estivesse certo e não mais onde isso vai dar.

então voltar ao blog - blog foi o primeiro caderno de muita gente, eu tenho dois cadernos onde escrevi até a última página, era início dos anos 00, quase ninguém lembra - para exercitar e promover (?) e fazer pensar, porque a gente precisa viver junto / a gente precisa sofrer junto / a gente tem mesmo é que se foder.

mas porque simplesmente não dá. saio de casa com um romance engatilhado, volto para casa com mais cinco livros que talvez eu leia, talvez nunca mais, queria saber dos livros que não estão aqui, promover um assalto às bibliotecas, por que não? voltaire, eu repito, é um bundão, mas consegue ser exemplarmente interessante. há quem não consiga ser, como eu.

por exemplo: não, sem exemplos. mas para escrever há que se ter consigo aquela calma do artesão. eu tenho somente o medos dos últimos minutos do soldado na trincheira, como se a qualquer momento bam!, e lá se fosse minha vida, toda minha juventude e os mistérios que ela trouxe consigo.

é diferente escrever poesia de escrever canção, mesmo que me venham gargalhar que caetano isso e etc e tal. gessinger fez muito bem com o que fez e renato russo só queria mesmo era compartilhar angústia. muito obrigado: tomei grandes goles dessa tua náusea.

agora pensar no que tanto faz, porque ninguém mesmo pensa ou tem alguma paciência para pensar junto, mas vamos aos fatos: meus heróis não morreram de overdose, nenhum deles, aonde foi que cazuza buscou esse verso frouxo? eram tempos de abertura e de blitz e ser viciado era ser diferente? olha a minha bandeira, que bonita!

escrever canções que cheguem a ser ouvidas, é o que importa. porque não acredito em one men bands nem tampouco em violão e voz, não acredito no caetano cantando sozinho enquanto eu me arrebentava de chorar: uma grande mentira.

escrever canções e tentar cantá-las, porque se a voz não embarga são as mãos que tremem, é a boca que seca, é a minha dança de vaga-lume que quer voar mais alto, mais alto, aprendi a dançar somente com os braços; as pernas já carregam peso suficiente. não o meu, o da minha culpa.

limites territoriais e desacertos: quando te encontro? só por acaso, de surpresa, com sorrisos amarelos e falta do que dizer, muito o que dizer, um olá distante, um abraço equivocado, é assim que as coisas são, o mundo anda para não se sabe onde.

mirisola há de morrer também. talvez que o leiam depois disso. eu queria encontrá-lo como quis um dia encontrar com o amarante, um churrasco na casa de quem sabe. mas mirisola há de morrer e talvez que lhe dêem alguma atenção e talvez que eu consiga alguém para conversar sobre ele, mirisola, o maior autor vivo que caminha por aí, come, caga e peida e ainda tem tempo para a literatura.

eu cansei da literatura porque, acho, ela cansou antes de mim. ainda, sim, poema ou outro e textos para ninguém entender.

melhor o silêncio.

5 de jul. de 2011

Tango.

eu me lembro. quanto tempo faz? não faz tanto tempo. aconteceu e foi assim: éramos nós e o mundo, éramos dois contra o mundo, eu e tu, tu e eu, em que momento isso mudou? éramos dois, éramos nós, quando o tu deixou de ser tu porque já não cabia, encheu. em que momento?

sabe-se muito sobre o mundo ao andar sobre o mundo utilizando-se de muletas. eu ganhei de presente um par de novas, muletas novas, quem diria.

eram-se outros tempos, ainda que eu possa ter inventado isso: eram-se. afinal: pois bem. mas eram e acontece que embora magro e cada vez mais velho e cada vez mais perto e cada vez mais frio, ainda assim continuo o mesmo - eu tinha quatro anos? eu tinha cinco anos? o caminhão vindo na minha direção e eu esperando ali, de propósito, o fim? -, as mesmas manias pueris: compor, cantar, trepar, viver.

escrever. eu disse que não podia. que não podia. e eu não posso. ninguém pode mais. voltaire, o enrustido, que fale por mim: tão cristão, o coitado: fodam-se os egípcios. é assim?

acontece que acontece que acontece que. parece pato fu. documentário de daqui a vinte anos: banda lado b que vez sucesso, banda lado a que não vingou (embora ninguém mais leve a sério os lados, eles existem, e cedê eu chamo de disco). ouvi o mesmo sobre biquini cavadão. mas o biquini toca ainda daniela.

um recado: não adianta esquecer de esquecer. não se esquece nunca. melhor não falar a respeito. melhor não escrever a respeito. melhor nem chegar a pensar no assunto: vive-se mais assim. vive-se mais do que quem nunca viveu. vive-se mais do que eu.

21 de mai. de 2011

Geni, aquela puta!

acabaram-se todos os assuntos, acabou-se todo e qualquer texto, o que mais poderia haver são as mentiras prodigiosas do jornal local e o desmentimento investigativo e oportunista dos vermelhos de plantão. a esquerda cada vez mais festiva e eu sem convite para a festa. aonde foi parar a tal da luta?

teoria: humberto gessinger é muito mais lutador do que chico buarque ou qualquer um desse tempo em que os militares - a gente sabe muito bem. porque é fácil caetano gravar podres poderes quando já ninguém mais lutava contra nada: tempos de abertura. e a banda passou há muito tempo. por que não reverenciar o de hollanda pelas canções que faz pra comer essa ou aquela bronzeada de copacabana? renata maria é uma bela duma música dum disco belíssimo que ninguém ouviu, porque estão todos chorando a geni enquanto o zepellin faz questão de abastecer-se com combustível estrangeiro, que a gasolina aqui anda pela hora da morte.

mas seguindo a teoria: baseio-me numa só canção do dito, o gessinger, roqueiro aposentado. ramil, ao menos, sempre foi velho e sempre foi jovem ou sempre foi as duas coisas: maduro e moleque. gessinger vai perdendo os dentes, mas cantou um dia em terceira do plural, que é uma música essa sim que deveria se ouvir prestando atenção, cantou falando de obsolecência programada, fé de quem te patrocina e tantos outros termos que sujeito acostumado com a banda vai ter de buscar no dicionário.

caetano fez um disco inteiro baseado num maracatu fora de série. ele declama navio negreiro por inteiro, POR INTEIRO, TÁ ME OUVINDO?, mas ninguém mais sabe de navio negreiro nem de castro alves. estão pensando na geni.

alguém aí já ouviu falar de jorge mautner?

tom zé ia tocar pra universitário esquerdinha num fusca velho. até que aquele um lá descobriu a genialidade do sujeito. virou pop-esquerdinha, cult-maluquete. hermeto pasqual, o cegueta, deve estar vendendo pastel na feira, porque nunca viu la color de la plata.

teoria número dois: o amor nunca acaba. clichê: se acabou, não era amor. mas eu tenho uma mão cheia de amores dos mais bonitos, dos mais a la roberto freire (falando nisso, devolve meu livro?), que não se acabam porque são estreitos e seguem em linha reta rumo a (um mugido, essa coisa lembra curral) - rumo ao futuro oblíquo destinado a quem ama. às vezes se sofre, às vezes não. às vezes se é por inteiro, às vezes se é somente em parte e por aí vai. acontece que tenho já o suficiente, uma mão cheia de amores intermináveis e não há mais espaço, me perdoe quem achou possível: é cansativo lidar unilateralmente com tanta dor de cotovelo.

eu dizia: acabaram-se todos os assuntos. o triste é: lemos kafka, ele morto; lemos sartre, também morto; nizan, dostoiévski, camus - todos mortos. se sabia desde o começo que teria ali aqueles livros para ler e mais, talvez, uma montoeira (ratoeiras) de livros sobre os livros que lemos, o que não deixa de ser uma sacanagem editorial. mas temos paulo coelho, de quem ninguém aguenta mais ouvir falar, nem reclamar, nem ver numa daquelas aparições no fantástico, em domingo à noite. mas saramago morreu, era onde eu queria chegar. o que resta? ler lobo antunes? preferia saramago.

lição do dia: o tempo passa e já não há assuntos novos, apenas novas abordagens sobre os assuntos de sempre.

isso porque me entristeceu o fato de só agora ter me dado conta de que nunca mais será lançado um saramago novo, que se continuará chorando a cadela da geni e que humberto gessinger, ao contrário de vitor ramil, precisa encomendar dentaduras postiças.

11 de abr. de 2011

Amnésia.

acho que já disse, não custa lembrar, andei pensando: eu não esqueço. de nada. e não adianta insistirem que a retrospectiva dois mil e agora, dois mil e quantos da rede globo de televisão venha para terminar o ano e permitir que dali se caminhe para outro: eu não esqueço.

isso da retrospectiva. acontece assim: mataram doze crianças numa escola do rio de janeiro. há uma semana? mataram quatro milhões de índios no brasil e mataram aquelas mulheres num parque, tinha o tal do maníaco do parque, e houve também uma menina, isabela ou isabella, e sempre haverá, sempre houve, quem se lembra?

mas vem a retrospectiva nos dizer que passou, vamos adiante, temos um ano inteiro pela frente para montar outra retrospectiva e o ano passará na tela da tua televisão de plasma em uma hora ou uma hora e meia, depende da audiência, de repente a gente edita e tira o que não importa.

o que não importa?

eu esqueci as escadas, sem esquecer as escadas. eu esqueci o telefonema no meio da noite sem nunca jamais ter esquecido o telefonema. eu esqueci a hora de entrar no carro, eu não queria entrar, eu entrei no carro, e isso já faz tanto tempo, eu não esqueço.

eu não esqueço de nada e não vou mendigar tratamento para esquecer, porque não existe, porque é roteiro de filme americano, porque deve haver um romance que trata disso, o mesmo que se utilizou pra fazer o filme americano, tanto faz.

acontece que eu não esqueço, mas não quero lembrar. quero ser inocente. quem lembra não o é. não que eu não queira esquecer, eu só não quero lembrar. talvez seja essa a síntese ou talvez eu tenha pensado numa síntese da qual não consigo recordar agora.

12 de fev. de 2011

Insanimadamente.

eu tentei, juro que não quis, quando cada um me vem com a sua própria teoria, tu foi violentado quando criança, passou muita fome, teus pais eram ricos e empobreceram, as drogas que tu consome, muita televisão, um amor que não acaba mais porque nunca houve. nada de nada. eu escrevo porque sim. e só isso.

e eu canto porque sim, caminho porque sim, trabalho pra ter dinheiro para o porque sim e para não precisar responder a perguntar de assistente social. eu falo, não respondo perguntas. por isso me evado e se fores conversar comigo verás que dou trinta e sete voltas e te levo para onde jamais pensaste em pôr os pés, mas te levo para lá porque me é fácil levar quem eu quiser para onde eu bem entender - sem responder a pergunta nenhuma, pelo contrário.

é sempre um círculo, um ciclo, um círculo cíclico? a tensão pré-menstrual, as fases da lua, as idades da gente e o meu humor. estagna, caminha, sobe sobe sobe, pula lá de cima, cai pra baixo do abaixo, ergue-se e recomeça, descansa (estagna) e recomeça a caminhada.

outro dia expliquei que num outro dia alguém me disse que foda, foda escrever isso, foda pensar isso, foda pensar para escrever como se tivesse vivido isso e eu disse me promete segredo e alguém disse que prometia segredo e eu disse eu vivo tudo isso e os olhos da pessoa brilharam e eu pensei que era muito feliz por viver uma mentira tão digna, tão limpa, tão dúbia: eu vivo ou escrevo isso ou faço os dois ao mesmo tempo ou somente vivo e escrever é um pequeno reflexo? trúbia? não existe a palavra, acabei de inventar, caibam-me os créditos.

tem gente que canta a própria música. eu canto minhas próprias músicas nu, na frente do espelho - que é uma parede branca porque não gosto tanto de espelhos de verdade -, mas é que numa parede branca tu te vês ainda mais fundo do que de fato te vês e eu me via na parede branca cantando a música que eu compus e depois cantando a música que outra gente compôs e de repente não sabia mais se era eu o outro e continuei cantando. achou que eu pararia?

mas não chega perto disso. tu compões, tu cantas, tu ensaias, tu cantas, tu suas, tua boca seca, porque afinal as pessoas estão vendo-te, não outra pessoa, estão vendo tu cantares a tua música e a música soa, a voz soa, tu danças e balanças e a voz soa e te sentes muito longe dali, num lugar neutro, livre, onde estás alimentado e sadio e febril e doente, onde tudo definitivamente não passa de uma grande mentira que nunca poderá/deixará de ser - verdade.

eu caminho pelo meu texto, é só o que é. gostei mais de dostoiévski do que deveria e acho que dodô de fato matou a velha e somente não se entregou para poder escrever sobre a fraqueza de meu querido rodka, ah bátiuchka, por que fizeste isso e não nos livraste de anos de penas? - porque pagamos por ti há anos os anos de trabalhos forçados na sibéria. consegue compreender? por isso que saramago nunca ousou, porque somente pensava, mas dodô matou a agiota, tenho certeza, e era por isso que bebia. um chá? mete conhaque dentro!

a gente somente caminha, isso é fácil de ver. quando percebe, já não é... mas sempre a vontade insana de voltar a ser ou de somente ser, o que dá no mesmo.

eu não me escrevo aqui. eu nunca me escrevi aqui. o texto que me escreve. e eu aqui estou do avesso. porque, afinal, tem gente que nasce para. eu nasci não sei pra quê.

8 de jan. de 2011

Diálogos.

#01

- a astrologia mudou a minha vida!
- a coca mudou a minha.

- tu não acha bonito viver a vida assim, intensamente?
- que vida?

- eu te amo!
- se tu diz...

- não entendo: tu não te sente feliz com a vida inteira pra viver, as milhões de possibilidades, os erros, os acertos, tudo isso que é tão maravilhoso?
- não.

6 de jan. de 2011

22 de dez. de 2010

Texto pré.

eu não queria ter um nó na garganta, eu não queria ter de pensar em passados, há quanto tempo que a gente caminha pro lado errado. eu não sei.

há uma só chance na vida, há uma só chance de saber que há uma só chance na vida, aprender é que é difícil, quando descobres desmoronas. eu nunca soube.

foram três ou quatorze pedidos para que eu não repetisse meus feitos de menino maldito, o porquê de eu ter insistido é um mistério, se ela não se tivesse ido eu nunca teria acreditado que um dia ela iria. mas foi. como eu saberia?

voltar a escrever sobre o mesmo. já usei todas as palavras que sabia, já fiz todas as misturas que podia, já dei tantas voltas sobre a mesma linha torta para dizer palavras que eu simplesmente - PARA DIZER PALAVRAS QUE EU NÃO CONSIGO EXPRESSAR!

eu não sei, eu nunca soube, como é que eu poderia saber?

sem menos nem mais, a gente se morre.

15 de dez. de 2010

Outros poemas do Caderno Azul.

#10

O cigarro,
acendi na chama
do incenso.
(A metáfora cansativa
do sândalo, tu sabes).
Não sabes?
Te explico.
Quando restar um pouco
mais da minha vida
no teu tempo.


#11

E quantas vezes
mais
(quantas vezes)
esquecerei do quanto houve
em garrafa e meia
de gin?

E com quantos
homens,
quantos mais outros
e em quantas camas,
quantas casas,
em quantos corpos mais
buscarás o que
sabes em mim?


#12

Eu te vi!
(Mentira, não vi.
Nem sei mais como
é o teu rosto).
Não te vi,
não sei como podes
ser hoje.
Mentira!
Se desse pra esquecer
o teu gosto...

30 de nov. de 2010

Mais três poemas do Caderno Azul.

#07

Mulher, onde foi que
se perdeu o sonho?
Cabe num disco de DVD
que fabricaram em massa
(Há legendas: sonha-se em
qualquer idioma)
Ou está nas esquinas sendo
vendido a 50 reais a grama?
Mulher, onde foi que me deixaste
de sonhar?
E quando é que voltarás a?

Avisa-me! que o tempo já demora.


#08

Amanhã não haverá
amanhã
porque hoje também
não era.

O teu pé atrás,
outro pé e é
um passo.

(apelas, rezas, pedes
toda noite):
não se volta,
é nunca mais.

Uma simples recordação:
abrias a porta e sorrias
o sorriso mais lindo!
Abrias a porta e sorrias
teu sorriso lindo de todos
os dias.


#09

Que houve com a poesia?

Ou melhor: onde foi que deixei
de viver os meus dias?

26 de nov. de 2010

Vamo que vamo.

vamos morrer hoje, exatamente hoje, o que nos resta? não há nada atrás da porta, não há nada atrás de amanhã, o que era pra ser já foi. tu duvidas?

vamos embora daqui, vamos embora de lá, vamos todos embora pra onde. quem sabe?

ela foi-se embora e não telefona, ele foi-se embora e não telefona, todos foram-se embora e não telefonam. pra que isso?

ontem era um dia tão bonito. ontem era um dia tão bonito. ontem era um dia tão bonito. que houve com ontem?

vamos morrer hoje. vamos dormir hoje. vamos foder hojer. quem se habilita?

21 de nov. de 2010

Mais que apontamentos sobre uma viagem a Buenos Aires, para dentro de mim mesmo.

¡Suerte, suerte! foram as últimas palavras inteligíveis que disse antes de deixar a cidade. As disse enquanto caminhava pela calle Bolívar, creio que à altura da Estados Unidos, a um homem que atravessara a rua ­­– às cinco da manhã, escuro, rua deserta, ele se aparta de um outro, que o acompanhava e se quedara, nesse instante, estático e curioso do outro lado da rua – para me pedir fogo.

Caminhava rumo à parada de ônibus para dali adentrar no colectivo 8 e seguir para Ezeiza. Um trajeto, em ônibus, de duas horas. Vinte minutos de espera na avenida Independência para tomar o colectivo que – me assegurara um músico da noite com o instrumento nas costas – não deveria demorar mais do que dez. O ônibus chega, o ônibus pára, os dez quilos da mochila nas costas, digo ao motorista “¡A Ezeiza, hasta el aeropuerto!”, ao que ele rebate que não vai parar Ezeiza e eu pergunto “¿Como no?”. A resposta é sutil, cansada, como se há anos estivesse a dizer a turistas que não vai porque não vai, não é seu destino, mas sem a disponibilidade para dizer que há vários colectivos 8 e que há vários itinerários percorridos. Um motorista dando de ombros e eu sem moedas (nos colectivos, só aceitam moedas), meio que desgostoso, levantando-me para deixar o ônibus e ele me diz “Yo te dejo allá, donde pasa el otro 8”. Eu humildemente agradeci.

El Aeropuerto Internacional agora, depois de uma semana, parece menor e mais simples. Pensei: “Fodam-se os Mcdonalds da vida, vou comer uma medialuna o um sándwich aqui mesmo, nesse café aconchegante e simples”. Cinqüenta pesos. Ainda tinha grana, não muita, o suficiente para pedir o resto em cigarros, por favor. Sabia que precisaria muito dos meus amigos fumáveis...

Duas horas numa aeronave tão grande quanto velha – para quem tem gosto de saber no que está voando, era um B 767-300, a bordo do qual, supus, Colombo sobrevoou pela primeira vez a América – para chegar em São Paulo, Guarulhos, fumar três ou cinco cigarros e pensar: PORRA! O QUE ACONTECEU COMIGO?

Chegar em Buenos Aires foi fácil. Com o mesmo colectivo 8, depois das tais duas horas, cheguei à Paseo Colón con Cochabamba, de onde teria que caminhar por mais três quadras para finalmente pôr os pés na Bolívar, 1291. Sob a 25 de Mayo, portentosa autopista que cruza a cidade, a simpatia do jornaleiro que me indica o caminho. Não fosse o mendigo que nesse exato momento começou a caminhar na minha direção (eu-brasileiro, sulista, tenho obrigação de me cagar de medo de mendigos; ele não me seguia, apenas caminhava na mesma direção) tudo teria saído conforme o planejado. Apertei o passo, adrenalina estalando e ali estava meu endereço. Pela primeira vez, creio, talvez, horas de internet tiveram sua devida validade: reconheci espacial, fotográfica e geograficamente o lugar onde estaria hospedado por uma semana. Mas... e aí?

O andarilho que me veio pedir fogo tinha na mão um toco de cigarro que certamente ajuntara do chão. Pediu fogo. A carteira com dinheiro incomodando meu saco (não havia melhor lugar para guardá-la), um vento frio, úmido, desconfortável – ele só veio me pedir fogo. Dei-lhe dois cigarros e me afastei dizendo “¡Suerte, suerte!”, enquanto ele dizia que me devia dois cigarros, que qualquer dia...

Em Buenos Aires fala-se castellano, claro. Só não supunha que de tantas maneiras diferentes. Conversar com Osvaldo, o chileno; Daniel, o equatoriano; Javier, o boliviano; Carolina, a brasileira. Há várias formas de se falar o castellano como há várias formas de se falar o português. Dadas as condições espaciais e geográficas, claro. Seria igual se não fosse totalmente diferente.

Certa vez ouvi que se fala bem um idioma estranho quando se faz um falante desse idioma rir. Fiz rir a Daniel, a Javi, a Osvaldo, a Matias e a pessoas que não recordo os nomes (mas cujas feições não me perdoarei por esquecer) e ri mais com eles. Os vinte e poucos anos de falava Fábio Jr. quando eu ainda não tinha nascido, de que falaram os Raimundos quando eu era ainda um guri de bosta, un pibe de mierda – os meus vinte e poucos anos eu estava a protagonizar naquele momento.

Não pude ir ao Caminito, tampouco a Palermo ou ao Delta do Tigre, conforme planejado. Acontece que na quinta-feira tinha um encontro marcado com las Madres de la Plaza de Mayo. Marcado há quatro anos e realizado como se fosse sonho. Tendo deixado meus fantasmas junto aos do Cementério Recoleta e tendo ainda inspirado vida no Museo Nacional de Bellas Artes (um dia escrevo somente sobre isso, sobre o encontro atônito com Picasso, Toulouse-Lautrec, Modigliani, Renoir e De La Veja), passeio realizado no dia anterior, quinta-feira era dia de ir à Plaza de Mayo ver com meus próprios olhos do que se tratava a marcha das mães que foram, avós e bisavós se lhes tivessem permitido serem.

Kirchner, o ex-presidente, havia morrido fazia pouco mais de uma semana. Não sei porque lamentei sozinho, ainda no Brasil, a perda de um líder tão importante. Enfim: Hebe de Bonafini, a mulher por quem me apaixonara quatro anos antes, estava novamente na minha frente, ainda mais jovem, ainda mais forte, dizendo que Néstor não estava morto, mas ali naquela praça com todos os filhos e filhas desaparecidos (os que lutavam por um mundo mais justo) a lhes guiar o caminho dali pra frente. A vista da Casa Rosada, a bandeira tremulante, as lágrimas nos meus olhos, que ao se defrontarem com uma das madres a me olhar, somente puderam chorar mais. Quinta-feira.

Há 33 anos as madres marcham naquela praça. Há quatro anos eu sabia disso. Em uma hora e meia tive que deixar de lado fantasia de turista bobo e me refazer homem: Lula, Dilma, Néstor, Cristina, Serra, Machri, Evo, Hebe, Fidel, Chávez, América Latina, Latinamerica. O que foi mesmo que aconteceu com o Chile?

Conheci mais pessoas do que podia supor. Foram o presente da minha viajem e, agora eu via, conhecê-las foi o principal motivo de ter-me ido à Argentina. Em nada – mas em nada mesmo – se pareciam com os universitários brasileiros do interior, da universidade que nunca valeu o valor do investimento, mas muito menos com os estudantes do interior que, de uma hora pra outra, depois de vinte anos de ignorância, e daí em diante, ainda não percebem que existe uma história para ser descoberta, criticada, entendida, discutida, reinventada.

Fato número um: Diós está em todos lados, pero atende en Capital Federal, escrito a punho por Georgi, minha querida, no finito caderno azul. Fato número dois: depois de três horas de conversa madrugada a dentro, sentados perto da fonte da Plaza del Congreso, ouvindo a história recente da República Argentina, tenho um sobressalto: “Ok, é como se Perón tivesse sido o Getúlio Vargas brasileiro: mesma herança fascista, mas mais do que um populista vendido, um homem apaixonado por sua pátria. Esse não foi o sobressalto. Essa foi a análise naquele momento. O sobressalto foi ter feito o vínculo – Vargas e Perón – e saber que, chegando ao Brasil não teria com quem compartilhar nada de nada.

Quinta-feira. Da Plaza de Mayo caminhei com os estudantes da Universidad Popular de las Madres de la Plaza de Mayo até sua sede. Quem me guiou foi David. Encabeçávamos uma fileira de seis, oito pessoas. Atrás de nós, mais estudantes. Falávamos de política, economia, costumes.

Na Universidad Popular, as pessoas cumprimentam-se com um beijo no rosto. É a forma de se manifestarem companheiros, creio. E todos têm os olhos brilhantes (assustadores aqueles olhos) que enxergam um futuro para seu país com justiça e igualdade; uma economia forte e saudável... E eu ali, sem entender nada do que diziam. Foram necessários dois dias de atenção e correções maiores para que eu pudesse começar a falar de fato. Comecei dizendo que não era brasileiro, mas do sul do Brasil, onde tanto se pretende ser europeu que a brasilidade acaba suspensa, calada, enclausurada. E que estávamos próximos: diante das críticas à classe média estatizante, à burguesia interesseira, à parcela burramente interessada – tanto tanto tanto – en la plata. Não, não havia muitas distancias.

Soube, então, quem fora Kirchner, o Néstor, e quem estava sendo Kirchner, a Cristina, para aqueles jovens de olhos brilhantes. E me senti extasiado: porque afinal tínhamos a mesma idade média, tivemos acesso a praticamente as mesmas infâncias (com o porém de nós ovacionarmos Xuxa enquanto eles, em meio à recessão econômica e a abertura política, contavam seus trinta mil desaparecidos), somos todos latinoamericanos!

Nada! Quando percebi onde havia me metido, já tanto fazia que conhecesse o Delta do Tigre, Palermo: já não interessavam em nada os pontos turísticos. Explicação simples: o Caminito continuará lá e o Museo de Arte Latinoamericano também. Sérgio, Marisa, Georgi... onde estarão numa próxima visita minha à cidade? E quem serei eu, então? Abdiquei do meu roteiro turístico porque, a partir daquela quinta-feira, deixei de ser turista para ser aluno; deixei de ser um estranho numa cidade estranha para me tornar gente: gente que aprende com gente.

Foram muitas histórias contadas, muitas histórias ouvidas, muitas cervejas abertas, muitos olhares de cumplicidade. Em algum momento percebi que a América Latina que eu forjei em meu pensamento sob as imagens de Hebe, Chávez, Morález, Correa, Lula e as leituras aleatórias sobre Jango, Brizola, os militares brasileiros de fato existia. Entretanto, percebi também que nossos vizinhos vivem essa América Latina, mas que para o brasileiro tanto faz. Para nós, parece, é que como se fossem todos um único país, onde se fala um idioma diverso e cujos habitantes vem para nosso litoral no verão ou, de um ângulo mais habitual, para onde se pode ir sem gastar muito dinheiro. Porque temos uma economia forte e bem podemos nos aproveitar desses rincões excêntricos.

Não existe apenas uma barreira lingüística entre o Brasil e os países vizinhos, como diriam os defensores de um suposto americanismo. Temos limitações que os 8.000 quilômetros de costa nos impuseram. Olhar adiante, sempre adiante, para o horizonte, a necessidade de espelhar o colonizador, forjar um desenvolvimento digno de ser respeitado em todo o mundo. Às favas! O interesse próprio sempre e religiosamente antecedendo o coletivo. É como se o português-brasileiro fosse ensinado nas escolas a partir dos pronomes possessivos. “Eu quero!”. Mas todos, afinal, querem. Ou por de fato quererem, ou por terem sido ensinados a sobretudo querer. “O quê?”. Isso não importa. Querer é a primeira lição. Saber o quê ou saber, simplesmente, deixamos para a próxima aula.

Mas estávamos lá, até as cinco da manhã, Georgi explicando-me Evita, Perón, os Kirchner. Com uma suavidade e uma dramaticidade autênticas de quem quer conquistar o interlocutor. Eu, que me envergonho por sempre confundir a ordem dos presidentes militares, ouvia sobre o maior presidente argentino (até então) da ascensão ao exílio, do retorno à morte, da economia pró-Argentina à recessão. Onde ficam as Malvinas?

“¡Suerte, suerte!” disse ao andarilho que me agradecia os dois cigarros ganhos em plena Bolívar, às cinco da manhã. Porque precisa de sorte, claro, todos precisamos. Mas lhe dizia “suerte, suerte!” com força, com otimismo. Não porque a Argentina vá mal; pelo contrário. Georgi me disse: quanto tempo demora uma árvore para crescer? E quanto tempo é necessário para cortar uma? Com o tempo – e com o brilho dos olhos daqueles jovens, não pode não dar certo. Vai adiante, vai para a frente, vai para cima!

Vi o dia ir-se, aos poucos, em Puerto Madero. O coração na mão, evidentemente. Precisei de uma semana para ver que tinha encontrado meu lugar no mundo. Mas como? Por quê? Domingo, anoitecia, a confusão que chegara devastando tudo que podia pensar de concreto. As luzes que apontavam para a Puente de la Mujer e a luz que emitia a mulher ao meu lado iluminando-me por dentro e por fora. Não queria ter voltado ao Brasil. Não queria ter soltado sua mão, não queria ter deixado o abraço que aquela cidade gigantesca me dava. Nem o abraço dela, pequenino. Uma semana numa cidade estranha, idioma estranho, para chegar ao Brasil com sotaque porteño, com a dor de ter deixado amigos de anos e anos, com a cabeça cheia de conclusões sobre tantas coisas. Não me senti senão provocado e a provocação ainda existe: eu quero a cidade e não sei se a cidade me quer. Podemos negociar?

O coração confuso, a cabeça mais confusa ainda. Domingo, noite alta, não conseguia mais falar o castellano, tampouco o português, não queria pensar em nada que não fosse voltar e viver por completo aquela película felliniana que havia começado sete dias antes. Eu voltarei. Sim, eu voltarei pra ficar. Ainda não sei como, nem quando. Os porquês estão todos na ponta da minha língua que não pode mais ficar calada. Eu quero ir, eu preciso ir-me embora e, do zero, fazer tudo novo, ser finalmente o eu que descobri haver aqui dentro.

“¡Suerte, suerte!” foram as últimas palavras inteligíveis que disse antes de deixar a cidade. Mas não foram as últimas pensadas. Enquanto me afastava do andarilho que tinha me pedido fogo, a quem eu tinha dado dois cigarros e que agora me agradecia e prometia devolvê-los quando nos víssemos novamente. Depois de ter me despedido dela e de ter visto o táxi evaporar-se pela Independência, depois de ter dado o suposto último beijo e de caminhar, agora, mochila nas costas e banho tomado, pela Bolívar, para dali deixar Buenos Aires, enquanto me afastava do andarilho eu somente podia dizer-me, enquanto ria, os olhos cheios de lágrimas: “Quien precisa de suerte, mi amigo, soy yo”.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...