25 de set. de 2015

"Podem existir significados
da palavra "significado"
que tornem o significado
de uma teoria
i-n-t-e-i-r-a-m-e-n-t-e
dependente das palavras
utilizadas em sua
formulação".

(Popper)

Sendo assim:

os répteis
os raptos
tudo mergulhado
no azul
dum oceano
índigo

(pterodáctilos roubariam
a cena
neste domingo
so fucking blue).
trânsito forte
teríamos sorte se
evitássemos a
encruzilhada?

engarrafadas
a vida e a alegria
numa garrafa de
bebida barata

na contramão
de direção
um outro de mim
que se parece
em nada

com aquele que
te falava
que a vida não vale
a pena
que a vida não vale
nada

sinal vermelho:
sigo na estrada.

31 de ago. de 2015

se até a fé
se até o café.

porque a fome
não pode se
alimentar de si,
então come.

mas não come-
se a si:
devora o outro

[mastiga-mastiga
engole e digere
pouco a pouco].

se até o espelho,
se até os joelhos
rangem mais
que dobradiças.

se até a justiça
ou muito pior
se as injustiças.

se a miséria,
se a cobiça.

seria séria
a minha vida
não fossem as
interpretações
das notícias?

se até nós mesmos,
se até nós juntos:
faltariam mundos
se vivêssemos mesmo.
hoje não há espaço
para poesia -
não seria possível
fugir do clichê e rimar
amor com dor
e azia.

não há espaço
para nada
que não caiba
no hoje
- neste hoje,
neste dia.

qualquer poema
soaria estranho
: pisada em falso
e me emaranho
nas cores tortas
da fotografia
deste dia.

24 de ago. de 2015

letra.de.música

|Sim, a gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Faltará fôlego ou dinheiro;
Será frio de mais em junho
e calor em janeiro.
E o peito congelado
como um coração parado
que não bate nunca mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Qual será a nossa idade?
(Me pergunto o ano inteiro)
Todos sonhos que sonhamos
vomitados no banheiro.
E a promessa indigesta
de sobreviver um ano mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai...

De repente, março
se confunde com o outono.
E brotará um sorriso
na tua cara de sono.
E de repente a gente
vê que o Havaí e o Paraguay
são aqui.
terra à vista,
se dizia.

terras de santa cruz,
de pau-brasil,
de brasília.

hoje se sabe
a verdade:

esta terra
não pode ter nome,
a não ser que se chame

terra-que-nunca-foi,
mas ia.
tô indo te ver
porém a cada passo dado
é como se distanciasse.

tô indo te ver:
o tempo corre invertido
o caminho é mais comprido
a ilha é mais distante
o vale mais comprimido

gvidero.
rada ze

os pés pisam em falso
neste mais-tempo-que-espaço.

os pés pisam em falso
na saudade.

de qualquer demolição
resistirá o construído

fantasma de maquete
se sonhando concretado

sirene de alerta
5 minutos
botão vermelho
disparado

agora poeira:
vento soprado
passado antigo
poema pensado
e não escrito

agora destroços,
agora detritos.
somos riacho
que ignora
a correnteza

: criamos atalhos
destruindo pontes


refazemos a margem
à margem de onde
andávamos antes

certeiramente
destroços.

16 de jul. de 2015

poema sobre o tema duma canção de françois.

quantos serás
quantos serões
quando virás
verás
voraz
quantos verões


vivivificadamente
um banho

anti-quanti-loquazmente
estranho

: paradoxal

[(há um insistente silêncio
que sempre diz mais)

(há alguns tormentos lentos
duns anos atrás)]

: animal

quem serás
quando a primavera
chegar?

8 de jul. de 2015


o alemão foi atrás
de solução e encontrou
a forca:

esqueceram-se os seus
que deixou seu país à força,
nem faz tanto tempo assim
que se deu sua chegada por aqui
meio herói,
meio fugido,


com as mãos abanando vento
e o coração pedindo asilo.

fodido e mal pago.

de herói, virou caçador
de índio;
de assassino de homem e
matador de menino,
de pequeno agricultor
e criador de suínos,
tornou-se empreendedor:

ah, se a pátria me visse
edificando no meio da mata!

ah, se o império me desse
a chance de a soberba
me ser inata!

a primeira fabriqueta e
o primeiro ordenado!
o patrão que tem a honra
de ser a cara do empregado.

quanta satisfação!

que nunca ninguém tenha
perguntado como o imigrante
faminto se tornou poderoso
empresário,
não passa de coincidência.

o sobrepeso da consciência
e os deslimites da justiça,
lavaremos com chopp e linguiça:

os chiqueiros não esvaziam e já
há quase mais porcos que crianças.

a herança repartida entre
os filhos vivos dará
conta de estender nossos domínio
até quem sabe qual geração:

- porque o povo alemão se orgulha
de ser nascido sob a sombra
de seu brasão!

nunca importou quantos
tenham caído
(em contradição)

esta terra varreu as palmeiras
e os habitantes originários
para, à luz de um futuro incerto,
reinventar o seu passado:

preencheu com torpes virtudes
uma história de agravos.

não é por quase não haver mais fábricas
que não se escutam seus apitos.

que não se pense que por sermos
desmascarados,
nos afastaremos do mito

que somos naturalmente superiores!
que somos tão nobres
que tudo são flores
por onde escolhemos pisar.

para o alto!, para adiante!,
há muitas terras por conquistar,
ímpios por catequizar
nas fabriquetas enclausurantes.

voltemos, portanto, à pureza,
aos anos dourados da glória,
voltemos para reescrever a história:
retornemos ao antes.

19 de jun. de 2015

Porque sim não é resposta no Expressão Universitária!

Nota  que saiu na edição de Junho de 2015 do jornal Expressão Universitária, do Sinsepes. Aqui, link para o jornal completo (que muito precisa ser lido).

(Clique na imagem para ler)

4 de mai. de 2015


Sebastianamente falando,
não conseguimos aceitar
(e tanto que acreditamos!)
que o rei não virá nos libertar,
que não figuramos em seus planos.

Onde foi mesmo que erramos?

8.000 quilômetros de costa,
ilhas, serras, campos, matas
e essa mania insensata
de nos dizermos irmãos
até mesmo de quem nos tortura,
nos estupra e nos destrata.

Do you speak english, mermão?
Sprichst du Deutsch, ô alemão?

Se tua pele é morena,
se esses teus olhos de índio,
se teu sotaque latino,
que identidade pequena!

Acontece que estamos indo
fortes, enormes e lindos
em busca - talvez - de nós mesmos
e do tão merecido quinhão
de riqueza e de proteção
que nos negam há tantos anos.

Pois que engulas os teus planos
e nos deixes, que da contramão
bem entendemos
(se até aqui chegamos,
quem sabe até onde iremos?).

Toma a frente do teu exército,
toma teus santos, toma teu cetro,
volta pro teu Portugal incerto:

Vade retro, Sebastião!
Vejamos a poesia:
veio comigo do pó
e não me larga do pé.

Não adianta o quanto eu dê a ré,
ela vai adiante;
magrela, banguela e tapada.

Tão desengonçada, coitada,
que nem merece atenção.

A não ser, é claro,
que me vista de literato
[o dedo em riste
e o pau na mão],
e saia correndo pelado
pela rua Quinze, na contramão!

Mas então não será o poema
o que estará em questão:
será o insano desfeite,
será o tirano deleite
do jornaleco da televisão.

Poesia é outra coisa, parece.
Uma história, uma praga, uma prece.
Destino que se cumpre
e envelhece.

Sem senão.
A linguagem está morta!
Já não há mais como explicar
o que carece de sentido:
a infância degolada,
a comida atrasada
e aquele teu novo emprego
que em nada se difere
do antigo.

Abolimos a linguagem
para que não peçamos desculpas
(nem tampouco façamos justiça)
aos jovens mortos por tiro,
vítimas do seletivo-tão-antigo
jogo da cor
[preto, moreno, bandido]?
Como for!

Evitamos a palavra
para que se impeça o reparo
aos mortos das propagandas,
às vítimas da eterna dança
da velocidade e do carro.

Engolimos a palavra
para que não hajam mais feridos
entre aqueles que encontram com Deus
através de seus próprios livros,
através da palavra cantada.

Já não é mais possível dizer
se já não se pode viver:

de agora em diante, grunhidos!
de agora em diante, mugidos!

Ou o definitivo silêncio
- que assuma com todo seu peso
o controle de nosso desprezo,
a falência da palavra.

(...)

Essas nossas mãos sujas de sangue,
lavaremos todos
na mesma fonte
com a surpresa trivial
de quem sabe que é culpado
e carrega, consigo e calado,
o brutal peso da morte,
a banalidade da sorte,
toda arrogância do mau.

Somos todos culpados!

Todos os dias, todas as férias,
todo retorno de feriado;

de manhãzinha,
quando a tarde finda,
nas noites de lua-cheia:

não seremos perdoados.
São 3 anos de
estágio probatório,
mas logo chego a seis;
logo chego aos dezesseis,
e em breve aos 60 anos
- para então começar
a fazer planos,
começar a viver
e a desenganar
essa vida inteira
de enganos.

(...)

Estudei muito
pra chegar até aqui.
Aqui onde?
Exatamente aqui.
Exatamente onde?
Aqui, bem aqui!
Mas onde?
Aqui, porra,
não tá vendo?
Não enxerga o meu
ascenso e minha
postura social?
Olha aqui o meu diploma,
olha aqui o carteiraço:
graduado e pós-graduado
em arrogância colonial.

(...)

Meu avô trabalhou aqui,
assim como meu pai.
Eu também trabalho aqui,
mas pra sustentar os meus filhos,
que logo terão seus filhos
e todos trabalharão
nesse mesmo tear antigo,
sob a poeira da fiação,
alimentando os filhos dos
filhos e os pais dos pais
do meu patrão.

(...)

Vou viver da minha arte!
Ser vendido de parte em parte
para garantir o meu nome,
para garantir o meu pão.
E esperar que o aluguel seja pago
com o que é suor, é trabalho,
mas também pode ser chamado
simplesmente de inspiração.

(...)

E assim a vida caminha
calma e serenamente
evitando qualquer desconforto
pra quem
r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e
se mente.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...