3 de dez. de 2015

pura.retórica

Façamos um trato
definitivo:
paremos de nos
matar
(mesmo que
tenhamos motivo).

Contrato assinado,
só um aviso:

não olhe pro lado!

[As crianças não
compreendem o
idioma estrangeiro,
tampouco tem tempo
de descer a escada]

Estampido ligeiro.

Fecha-se a cortina
de fumaça.

esboço.para.uma.ciranda

eles queriam amar,
apenas.

ela queria ser feliz,
feliz, feliz.
ele queria viajar
ou mesmo ficar
parado:
[decidiria no
exato momento
incerto em que as
decisões são
tomadas ].

ela queria voar,
ele queria saber,
ela queria sonhar,
ele sonhava ainda
com deixar de fumar.
ele vivia a esmo,
ela pedia a deus
que os dias fossem
leves.
ele queria ver a neve.
ela queria um mundo
finalmente justo.
ele ansiava pelas cores,
ela reverberava dores,
eles todos se viam
a si mesmos como
a promessa de um
algo novo.

eles queriam apenas
amar,
mas o fogo
já lhes queimava
as canelas.
É preciso deixar
que a noite chegue
para sentir a tua falta,

para olhar a estrela
mais alta e pensar que
estamos sozinhos aqui:

o telefone não toca,
ninguém baterá na porta
e as cartas, desesperadas,
se perderam por aí.

O scuro de que foge este
Mastroianni maduro, sou eu mesmo
quando me vi no Paradiso deserto.

De perto, toda distância é segura.

É preciso deixar que a noite chegue
para nos esquecermos de dormir.

11 de nov. de 2015

Poema de(sa)finados


dia três
e a vida continua:
cada vez mais vida,
cada vez mais crua.

dia três e as flores
estão nuas.

ontem paramos
[não paramos]
lembrando nossos
mortos.

hoje, saímos às ruas
sob chuva,
muita chuva.

e a vida continua
cada vez mais vida,
cada vez mais dura.

até que.

Poema-receita de bolo-estragado

uma receita de bolo
mais perversa do que
aquela descrita em ratos:

os amigos nunca mais vistos
nem nunca revisitados;

os livros não lidos
junto dos lidos e
nem um mais:
romances me deixam
quase esgotado;

olhar adiante - ou
quase um instante,
dá na mesma:
passado é passado
e nunca se sabe
se vai realmente
amanhecer;

pitadas de insônia
com cheiro de incenso
barato;

contatos, contatos,
e os abraços, cadê?;

eu durmo sorrindo
se sonho acordado;

a música inspira
pouco, um pouco mais
e cantaremos as mesmas
canções, aquelas canções
de quantos anos atrás;

eu choro baixinho com
propagandas de pai & filho,
fico lembrando aquela
antiga, de gelol;

se sustenido ou bemol,
já não estaremos mais vivos
quando o eclipse voltar,
quando o cometa passar,
quando finalmente o asteróide;

saudade existe em português
muito antes de a gente dizer
xará;

se café ou chá,
se chimarrão;

perdi muitos, já -
não encontrei mais
meu irmão;

faz tempo que choro
meu pai;

clóvis, quando se foi,
deixou mais dúvidas
que certezas,
mais perguntas
que desenhos,
só não deixou angústias,
que dessas já tenho
os bolsos cheios;

aquela nossa leveza era
bebida,
por isso os pés tão pesados,
por isso os bolsos furados,
por isso a gente não lembra
nunca se foi antes ou se foi
apenas no ano passado;

a gente nunca sabe realmente
de onde foi que a gente veio
e quando percebe, é cortado
pelo meio - alguma certeza
que se tinha, onde se vai
encontrar a essa hora da noite?;

há um poema debaixo de cada
travesseiro, não importa
qual seja o andar -
e se o elevador quebrar,
quais serão os monstros
que nos tomarão no colo?;

evite perguntas em poemas,
me disseram;

evite palavrões em poemas,
me aconselharam;

fale da vida como um todo,
não cite nomes nem datas,
faça um poema frio como a
bebida barata que engolimos
sem sentir o gosto.

o meu rosto, não reconheço,
mas sei exatamente em que
cantos escuros dessa cidade
escura chafurdei com a cara
na lama;

a cama hoje tá grande
e a ilha, e a ponte,
estão tão do lado de lá;

um poema mais perverso
do que ratos, eu queria
e não consegui escrever
nada que não coubesse
nesse dia.

mas diria ainda:
meu amigo,
fiz as pazes comigo
- e dum jeito bem
difícil de desacertar.
Se os poemas ao menos
nos dissessem o que
a gente cresce sem nem
desconfiar:

que a vida é dura
e é toda tua
e que não perdes
por esperar:

[a gente só perde
e senta, espera
perde, senta e
espera]

Se os poemas ao menos
dissessem que a gente
nunca chega, de fato,
a ganhar.

Então os poemas
seriam sinceros.

[E já não haveria
mais que escrevê-los].
Que o poema
fale por si.
Que os poemas
deem a si mesmos
algum significado.
Que os poemas nos
deixem dormir,
cada um prum lado.
Que os poemas nos
cobrem menos,
andamos tão atarefados.
Que não exijam demasiado,
que tenham em si a leveza
daquele dia em que eu sorria.

Por que poemas?,
volta e meia me perguntam.
(Eu me faço essa pergunta
todo dia).

Antes de mais nada
Antes que tudo
(o início do início
do início de tudo):

o ponto-chave,
o x da questão:

recantar a comida
requentar a vida.

25 de set. de 2015

Un poema sin fronteras.

Las Malvinas, se dice,
dejarán de ser Falkland
para volveren su ojos
a la bandera argentina.

Bolívia, mi querida,
de tanto que ha escuchado
el sonido del mar,
podrá pronto bañarse
en el oceano que le han
usurpado.

La gran pátria guarany
volverá, un día, a respetar
los indígenas
que se levantarán
bajo la luz
de los mártires de
Caraguaty.

Desde Honduras
se puede escuchar
gritos que piden libertad.

Los amigos de las montañas
bajarán a sus pueblos
con las manos abiertas,
sin más muertes,
sin más muertos.

Los niños muertos en
El Salvador,

los niños muertos en
Nicarágua,

los niños muertos en
Guatemala

están vivos como viven
los estudiantes desaparecidos
de Ayotzinapa:

en el corazón y en la memória
del pueblo:

una fuerza más grande que todo
el sentimiento de miedo
que nos han hecho sentir.

Puedo seguir hablando a respeto
de todos los pueblos 
sobre los que he leído,
pero no puedo

[não posso escrever um poema
sobre o famoso Brasil-brasileiro
quando se matam indígenas em braseiros,
quando só se pode viver por aqui
desde que não seja negro,
desde que não seja estrangeiro]

É impossível um poema
em português que não aponte
o Rio de Janeiro
ou o Rio Grande do Sul
como enormes prostíbulos
onde brancos chafurdam em sangue
afro-brasileiro;

este país onde as contas não fecham,
mas que tem abertas as fronteiras
para que entre o escravismo e nos
levem o dinheiro.

[Em todo território nacional
estão proibidos os poemas
por tempo indeterminado].
"Podem existir significados
da palavra "significado"
que tornem o significado
de uma teoria
i-n-t-e-i-r-a-m-e-n-t-e
dependente das palavras
utilizadas em sua
formulação".

(Popper)

Sendo assim:

os répteis
os raptos
tudo mergulhado
no azul
dum oceano
índigo

(pterodáctilos roubariam
a cena
neste domingo
so fucking blue).
trânsito forte
teríamos sorte se
evitássemos a
encruzilhada?

engarrafadas
a vida e a alegria
numa garrafa de
bebida barata

na contramão
de direção
um outro de mim
que se parece
em nada

com aquele que
te falava
que a vida não vale
a pena
que a vida não vale
nada

sinal vermelho:
sigo na estrada.

31 de ago. de 2015

se até a fé
se até o café.

porque a fome
não pode se
alimentar de si,
então come.

mas não come-
se a si:
devora o outro

[mastiga-mastiga
engole e digere
pouco a pouco].

se até o espelho,
se até os joelhos
rangem mais
que dobradiças.

se até a justiça
ou muito pior
se as injustiças.

se a miséria,
se a cobiça.

seria séria
a minha vida
não fossem as
interpretações
das notícias?

se até nós mesmos,
se até nós juntos:
faltariam mundos
se vivêssemos mesmo.
hoje não há espaço
para poesia -
não seria possível
fugir do clichê e rimar
amor com dor
e azia.

não há espaço
para nada
que não caiba
no hoje
- neste hoje,
neste dia.

qualquer poema
soaria estranho
: pisada em falso
e me emaranho
nas cores tortas
da fotografia
deste dia.

24 de ago. de 2015

letra.de.música

|Sim, a gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Faltará fôlego ou dinheiro;
Será frio de mais em junho
e calor em janeiro.
E o peito congelado
como um coração parado
que não bate nunca mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Qual será a nossa idade?
(Me pergunto o ano inteiro)
Todos sonhos que sonhamos
vomitados no banheiro.
E a promessa indigesta
de sobreviver um ano mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai...

De repente, março
se confunde com o outono.
E brotará um sorriso
na tua cara de sono.
E de repente a gente
vê que o Havaí e o Paraguay
são aqui.
terra à vista,
se dizia.

terras de santa cruz,
de pau-brasil,
de brasília.

hoje se sabe
a verdade:

esta terra
não pode ter nome,
a não ser que se chame

terra-que-nunca-foi,
mas ia.
tô indo te ver
porém a cada passo dado
é como se distanciasse.

tô indo te ver:
o tempo corre invertido
o caminho é mais comprido
a ilha é mais distante
o vale mais comprimido

gvidero.
rada ze

os pés pisam em falso
neste mais-tempo-que-espaço.

os pés pisam em falso
na saudade.

de qualquer demolição
resistirá o construído

fantasma de maquete
se sonhando concretado

sirene de alerta
5 minutos
botão vermelho
disparado

agora poeira:
vento soprado
passado antigo
poema pensado
e não escrito

agora destroços,
agora detritos.
somos riacho
que ignora
a correnteza

: criamos atalhos
destruindo pontes


refazemos a margem
à margem de onde
andávamos antes

certeiramente
destroços.

16 de jul. de 2015

poema sobre o tema duma canção de françois.

quantos serás
quantos serões
quando virás
verás
voraz
quantos verões


vivivificadamente
um banho

anti-quanti-loquazmente
estranho

: paradoxal

[(há um insistente silêncio
que sempre diz mais)

(há alguns tormentos lentos
duns anos atrás)]

: animal

quem serás
quando a primavera
chegar?

8 de jul. de 2015


o alemão foi atrás
de solução e encontrou
a forca:

esqueceram-se os seus
que deixou seu país à força,
nem faz tanto tempo assim
que se deu sua chegada por aqui
meio herói,
meio fugido,


com as mãos abanando vento
e o coração pedindo asilo.

fodido e mal pago.

de herói, virou caçador
de índio;
de assassino de homem e
matador de menino,
de pequeno agricultor
e criador de suínos,
tornou-se empreendedor:

ah, se a pátria me visse
edificando no meio da mata!

ah, se o império me desse
a chance de a soberba
me ser inata!

a primeira fabriqueta e
o primeiro ordenado!
o patrão que tem a honra
de ser a cara do empregado.

quanta satisfação!

que nunca ninguém tenha
perguntado como o imigrante
faminto se tornou poderoso
empresário,
não passa de coincidência.

o sobrepeso da consciência
e os deslimites da justiça,
lavaremos com chopp e linguiça:

os chiqueiros não esvaziam e já
há quase mais porcos que crianças.

a herança repartida entre
os filhos vivos dará
conta de estender nossos domínio
até quem sabe qual geração:

- porque o povo alemão se orgulha
de ser nascido sob a sombra
de seu brasão!

nunca importou quantos
tenham caído
(em contradição)

esta terra varreu as palmeiras
e os habitantes originários
para, à luz de um futuro incerto,
reinventar o seu passado:

preencheu com torpes virtudes
uma história de agravos.

não é por quase não haver mais fábricas
que não se escutam seus apitos.

que não se pense que por sermos
desmascarados,
nos afastaremos do mito

que somos naturalmente superiores!
que somos tão nobres
que tudo são flores
por onde escolhemos pisar.

para o alto!, para adiante!,
há muitas terras por conquistar,
ímpios por catequizar
nas fabriquetas enclausurantes.

voltemos, portanto, à pureza,
aos anos dourados da glória,
voltemos para reescrever a história:
retornemos ao antes.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...