12 de jan. de 2016

A luta de Martin

Sobre a visita ao Museo de las Memórias - Dictadura y Derechos Humanos de Asunción, que foi publicado no site do Instituto de Estudos Latino-Americanos -IELA, e que pode ser conferido aqui.

8 de jan. de 2016

O filho da empregada.

O filho da empregada chegou ao fim. Definitivamente. Para quem quiser experimentá-lo, segue seu texto completo. Lançaremos tão logo o ano comece - para lançamentos de livro, evidentemente, porque para as empregadas e empregados domésticos do Brasil, ele já começou antes mesmo de se encerrar 2015.



a poesia
esporádica
catártica
sintomática
e voraz

deveria ser
caminho de
paz,

mas não.

o poema
é vento
que
antecede
a tempestade.

o poema
é sombra
para toda
e qualquer
verdade.

a poesia
de vez em
quando,
como quem
diz não
mas quer
sempre
mais.

14 de dez. de 2015

o poema
pra existir
necessita
desse
silêncio.

o poema
necessita
do hiato
que se forma
quando pára
finalmente
de chover.

o poema
para haver
necessita
desse porão
acinzentado
que a gente
leva consigo
por onde quer
que se ande.

o poema
necessita de mim
e de ti

nunca
n
e
cessa
r
ia
mente
nessa
mesma
ordem.
um abraço de pai
como quem diz
"meu filho",
mas não diz.

dialeto que se
encerra em si
mesmo: tenho
vontade de dizer
que vai dar tudo
certo, mãe.

não poderei nunca
ser pai,
eu tão órfão de
mim mesmo.

faz dezembro,
faz verão,

mas é como se
não fosse.

3 de dez. de 2015

o mundo,
não se
podia dizer que
era grande.

tudo acontecia
no bairro:
o vô e a vó,
os tios e as tias,
os primos, as primas
e as tristezas,

tudo acontecia
tão perto.

só era grande
quando a gente
se aventurava
a tomar banho
de rio e tu
me levavas.

"não conta nada
pra mãe".

nunca contava,
mas igual a mãe brigava
- a roupa molhada,
vinícius. a roupa
molhada no varal
era o que nos
delatava.

mas tudo mudou tanto!
mudou e deixamos
os dois de ser
meninos.

mudou e deixamos
de nos aventurar
pelos estradas
de terra com
aquela bicicleta
vermelha e amarela
que não se sabe mais
onde está.

o mundo ficou
tão grande que a
gente nem se
encontra mais.

a roupa no varal,
vinícius.
esquecemos de novo
a roupa no varal.

paus.e.pedras

- ela apanhou porque
mereceu.

- enrabei o magrelinho
que além de veado
era ateu.

- coisa melhor do
que ter seu próprio
macaquinho
de estimação?

[eles falavam tanto
de classe,
fazer levantar as massas,
fazer a revolução

- o branco, mais uma vez;
o homem que a si
se vê como seu o pau
lhe garantisse redenção]

paus e pedras,
paus e pedras.

na primavera das datas,
mais do que arco-e-flecha
havia ali um silêncio
trancado.

(não se interrompe
silêncio, não se
amarra, não se
dissipa)

na primavera das datas,
se estava ensaiando,
em silêncio, o grito
que ouvirás daqui uns dias.

ele te dirá que te dispas
de todas tuas verdades,
de todas tuas mentiras.

ele te dirá que é tarde
para ti e tua latrina
(a boca pela qual falas
em nome dos pretos,
dos indígenas,
dos meninos e
das meninas).

se já não sabes mais
em qual direção,
o precipício.

ou será pra sempre
isso:

paus e pedras,
paus e pedras.

segunda.a.segunda

Se os iguais são
indiferentes
e os diferentes
estão desiguais,
é preciso urgente
encontrar caminhos,

mas quais?

Será que por aqui
mesmo?

[entre acerto e desconcerto,
injustiças e polícias,
políticas e mentiras]

Para a frente
sempre,
nunca pra trás!

proposta.poética

Por uma poética que
leve em conta
mais acertos que
desenganos,
queiramos:

muito mais sul
do que norte,
muito mais luta
que sorte,
cores que vão
além da trinária
bandeira de
Estados Unidos.

Porque a vida
um dia acaba
e estamos mortos;
vivos, valemos
mais - juntos,
assim mesmo distintos,
assim mesmo tortos
- e latinos.

Porque a vida
se vive até que
se acabe -
mas a nossa
latinidade estará
sempre viva
como sobrevivem
feito ferida

os torturados,
os mutilados,
os esquecidos
e os desaparecidos.

pura.retórica

Façamos um trato
definitivo:
paremos de nos
matar
(mesmo que
tenhamos motivo).

Contrato assinado,
só um aviso:

não olhe pro lado!

[As crianças não
compreendem o
idioma estrangeiro,
tampouco tem tempo
de descer a escada]

Estampido ligeiro.

Fecha-se a cortina
de fumaça.

esboço.para.uma.ciranda

eles queriam amar,
apenas.

ela queria ser feliz,
feliz, feliz.
ele queria viajar
ou mesmo ficar
parado:
[decidiria no
exato momento
incerto em que as
decisões são
tomadas ].

ela queria voar,
ele queria saber,
ela queria sonhar,
ele sonhava ainda
com deixar de fumar.
ele vivia a esmo,
ela pedia a deus
que os dias fossem
leves.
ele queria ver a neve.
ela queria um mundo
finalmente justo.
ele ansiava pelas cores,
ela reverberava dores,
eles todos se viam
a si mesmos como
a promessa de um
algo novo.

eles queriam apenas
amar,
mas o fogo
já lhes queimava
as canelas.
É preciso deixar
que a noite chegue
para sentir a tua falta,

para olhar a estrela
mais alta e pensar que
estamos sozinhos aqui:

o telefone não toca,
ninguém baterá na porta
e as cartas, desesperadas,
se perderam por aí.

O scuro de que foge este
Mastroianni maduro, sou eu mesmo
quando me vi no Paradiso deserto.

De perto, toda distância é segura.

É preciso deixar que a noite chegue
para nos esquecermos de dormir.

11 de nov. de 2015

Poema de(sa)finados


dia três
e a vida continua:
cada vez mais vida,
cada vez mais crua.

dia três e as flores
estão nuas.

ontem paramos
[não paramos]
lembrando nossos
mortos.

hoje, saímos às ruas
sob chuva,
muita chuva.

e a vida continua
cada vez mais vida,
cada vez mais dura.

até que.

Poema-receita de bolo-estragado

uma receita de bolo
mais perversa do que
aquela descrita em ratos:

os amigos nunca mais vistos
nem nunca revisitados;

os livros não lidos
junto dos lidos e
nem um mais:
romances me deixam
quase esgotado;

olhar adiante - ou
quase um instante,
dá na mesma:
passado é passado
e nunca se sabe
se vai realmente
amanhecer;

pitadas de insônia
com cheiro de incenso
barato;

contatos, contatos,
e os abraços, cadê?;

eu durmo sorrindo
se sonho acordado;

a música inspira
pouco, um pouco mais
e cantaremos as mesmas
canções, aquelas canções
de quantos anos atrás;

eu choro baixinho com
propagandas de pai & filho,
fico lembrando aquela
antiga, de gelol;

se sustenido ou bemol,
já não estaremos mais vivos
quando o eclipse voltar,
quando o cometa passar,
quando finalmente o asteróide;

saudade existe em português
muito antes de a gente dizer
xará;

se café ou chá,
se chimarrão;

perdi muitos, já -
não encontrei mais
meu irmão;

faz tempo que choro
meu pai;

clóvis, quando se foi,
deixou mais dúvidas
que certezas,
mais perguntas
que desenhos,
só não deixou angústias,
que dessas já tenho
os bolsos cheios;

aquela nossa leveza era
bebida,
por isso os pés tão pesados,
por isso os bolsos furados,
por isso a gente não lembra
nunca se foi antes ou se foi
apenas no ano passado;

a gente nunca sabe realmente
de onde foi que a gente veio
e quando percebe, é cortado
pelo meio - alguma certeza
que se tinha, onde se vai
encontrar a essa hora da noite?;

há um poema debaixo de cada
travesseiro, não importa
qual seja o andar -
e se o elevador quebrar,
quais serão os monstros
que nos tomarão no colo?;

evite perguntas em poemas,
me disseram;

evite palavrões em poemas,
me aconselharam;

fale da vida como um todo,
não cite nomes nem datas,
faça um poema frio como a
bebida barata que engolimos
sem sentir o gosto.

o meu rosto, não reconheço,
mas sei exatamente em que
cantos escuros dessa cidade
escura chafurdei com a cara
na lama;

a cama hoje tá grande
e a ilha, e a ponte,
estão tão do lado de lá;

um poema mais perverso
do que ratos, eu queria
e não consegui escrever
nada que não coubesse
nesse dia.

mas diria ainda:
meu amigo,
fiz as pazes comigo
- e dum jeito bem
difícil de desacertar.
Se os poemas ao menos
nos dissessem o que
a gente cresce sem nem
desconfiar:

que a vida é dura
e é toda tua
e que não perdes
por esperar:

[a gente só perde
e senta, espera
perde, senta e
espera]

Se os poemas ao menos
dissessem que a gente
nunca chega, de fato,
a ganhar.

Então os poemas
seriam sinceros.

[E já não haveria
mais que escrevê-los].
Que o poema
fale por si.
Que os poemas
deem a si mesmos
algum significado.
Que os poemas nos
deixem dormir,
cada um prum lado.
Que os poemas nos
cobrem menos,
andamos tão atarefados.
Que não exijam demasiado,
que tenham em si a leveza
daquele dia em que eu sorria.

Por que poemas?,
volta e meia me perguntam.
(Eu me faço essa pergunta
todo dia).

Antes de mais nada
Antes que tudo
(o início do início
do início de tudo):

o ponto-chave,
o x da questão:

recantar a comida
requentar a vida.

25 de set. de 2015

Un poema sin fronteras.

Las Malvinas, se dice,
dejarán de ser Falkland
para volveren su ojos
a la bandera argentina.

Bolívia, mi querida,
de tanto que ha escuchado
el sonido del mar,
podrá pronto bañarse
en el oceano que le han
usurpado.

La gran pátria guarany
volverá, un día, a respetar
los indígenas
que se levantarán
bajo la luz
de los mártires de
Caraguaty.

Desde Honduras
se puede escuchar
gritos que piden libertad.

Los amigos de las montañas
bajarán a sus pueblos
con las manos abiertas,
sin más muertes,
sin más muertos.

Los niños muertos en
El Salvador,

los niños muertos en
Nicarágua,

los niños muertos en
Guatemala

están vivos como viven
los estudiantes desaparecidos
de Ayotzinapa:

en el corazón y en la memória
del pueblo:

una fuerza más grande que todo
el sentimiento de miedo
que nos han hecho sentir.

Puedo seguir hablando a respeto
de todos los pueblos 
sobre los que he leído,
pero no puedo

[não posso escrever um poema
sobre o famoso Brasil-brasileiro
quando se matam indígenas em braseiros,
quando só se pode viver por aqui
desde que não seja negro,
desde que não seja estrangeiro]

É impossível um poema
em português que não aponte
o Rio de Janeiro
ou o Rio Grande do Sul
como enormes prostíbulos
onde brancos chafurdam em sangue
afro-brasileiro;

este país onde as contas não fecham,
mas que tem abertas as fronteiras
para que entre o escravismo e nos
levem o dinheiro.

[Em todo território nacional
estão proibidos os poemas
por tempo indeterminado].
"Podem existir significados
da palavra "significado"
que tornem o significado
de uma teoria
i-n-t-e-i-r-a-m-e-n-t-e
dependente das palavras
utilizadas em sua
formulação".

(Popper)

Sendo assim:

os répteis
os raptos
tudo mergulhado
no azul
dum oceano
índigo

(pterodáctilos roubariam
a cena
neste domingo
so fucking blue).
trânsito forte
teríamos sorte se
evitássemos a
encruzilhada?

engarrafadas
a vida e a alegria
numa garrafa de
bebida barata

na contramão
de direção
um outro de mim
que se parece
em nada

com aquele que
te falava
que a vida não vale
a pena
que a vida não vale
nada

sinal vermelho:
sigo na estrada.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...