6 de fev. de 2016

paralelamente
aos fatos:
do outro lado
deste espelho
quebrado
escondem-se
verdades,
expandem-se
cidades,
recolhem-se
os cacos.

paralelas não
se cruzam,
é verdade.

pra sair do
outro lado
do mundo,
não basta
cavar um
buraco.
felicidade?
fica sempre
um pouco
mais pra
la r.

31 de jan. de 2016

de todas partes
se escutam ecos
do que nos restou
daquelas velhas
tardes.

já ultrapassamos
o que nos doía,

restam apenas
algumas verdades.
viu que não
apareceu o sol?

nos consultórios
nas fábricas
nas repartições
nas escadas
nas fileiras
nas estradas
nos laboratórios

tudo se resolverá
sob lâmpadas
fluorescentes.
Andamos muito
antes que
explicassem-nos
o quão redondo
esse mundo era.

em linha reta

sem fim
nem fundo.
vejo tua casa,
daniel,
onde o quintal
o futebol
as conversas
onde enterramos
aquele pássaro
e coroamos a
terra com flores.

vamos lembrar
onde ele repousa?

queria crer que todos
vão pro céu
(até os pássaros).

queria crer que a gente
supera nossos fracassos,
nossos passados.

naquele tempo a
vida ainda era longa
e a gente nem pensava
nisso.

naquele tempo a gente
enterrava os pássaros
e ainda não sabia que
iria enterrar os amigos.
A classe média
sofre com a escolha
dos candidatos
(fora barbudos,
fora bandidos,
eles dizem).
Não se enxergam
nos seus próprios
espelhos quebrados.

A classe média
sofre, mas com
o preço do vinho
importado,
com a escolha
das louças do
lavabo,
com o papel de
parede pro quarto,
com o mármore da
cozinha
(melhor marrom ou
azulado?).

A classe média
sofre com o destino
do cruzeiro de férias
(o Caribe não sabe onde
fica e Bu enos Aires é
tão manjado!)

Sofre quando entra
em avião cheio de pobre
assalariado.

A classe média
sofre quando a escola
pública apresenta
bons resultados
e não consegue
conceber que os muros
de seus colégios
não protegem do
fracasso.

A classe média
sofre com a recente
alta do dólar
e já repensa o que
fazer no feriado.

A classe média
que sofre com o
preço da gasolina
não dá vez para
o ônibus lotado de gente
que vai pro trabalho
todo dia de manhã.

"Mas e eu ,
eu não trabalho?",
surge a questão.

Trabalha, claro que sim.
Mas trabalha menos
que sofre.

Porque a classe média
vive do seu mais famoso
tormento:

não enriquece porque
não consegue;
se estabelece e faz
desse o seu sustento:

de tanto qu e sofre,
a classe média
faz do sofrer o seu
mais saboroso alimento.

A TV noticiou o
ar pesado,
mas não falou do
cheiro ruim,
cheiro de sofrimento
barato,
parcelado no cartão,
com juros no crediário.

A TV noticiou
e a classe média
fez que sim:
"Dá um pedaço pra mim,
tô de sofrimento atrasado".

A classe média sofre
é de um mal ocidental,
há tanto tempo repetido,
aprendido e ensinado.

A classe média sofre
de não conseguir
olhar pro lado.
eu vi a gente
e parece que sempre
e parece que tanto
e parece que sempre
mais.

eu vi a gente
num retrato antigo
que eu trago comigo
- vi a gente e muito
mais:

nunca futuro,
nunca certeza,
divide a mesa
com teu irmão.

eu vi a gente
e parece que fomos
muito mais do que somo s
- vi a gente,
não vejo mais.

12 de jan. de 2016

Poderei dizer
que a vida
me foi boa
e má na mesma
medida.

Qual medida,
poderão
me perguntar,

eu direi somente:

não sei.

E continuarei:

poderei dizer
que a vida
me foi boa
e má na mesma
medida qualquer.

A luta de Martin

Sobre a visita ao Museo de las Memórias - Dictadura y Derechos Humanos de Asunción, que foi publicado no site do Instituto de Estudos Latino-Americanos -IELA, e que pode ser conferido aqui.

8 de jan. de 2016

O filho da empregada.

O filho da empregada chegou ao fim. Definitivamente. Para quem quiser experimentá-lo, segue seu texto completo. Lançaremos tão logo o ano comece - para lançamentos de livro, evidentemente, porque para as empregadas e empregados domésticos do Brasil, ele já começou antes mesmo de se encerrar 2015.



a poesia
esporádica
catártica
sintomática
e voraz

deveria ser
caminho de
paz,

mas não.

o poema
é vento
que
antecede
a tempestade.

o poema
é sombra
para toda
e qualquer
verdade.

a poesia
de vez em
quando,
como quem
diz não
mas quer
sempre
mais.

14 de dez. de 2015

o poema
pra existir
necessita
desse
silêncio.

o poema
necessita
do hiato
que se forma
quando pára
finalmente
de chover.

o poema
para haver
necessita
desse porão
acinzentado
que a gente
leva consigo
por onde quer
que se ande.

o poema
necessita de mim
e de ti

nunca
n
e
cessa
r
ia
mente
nessa
mesma
ordem.
um abraço de pai
como quem diz
"meu filho",
mas não diz.

dialeto que se
encerra em si
mesmo: tenho
vontade de dizer
que vai dar tudo
certo, mãe.

não poderei nunca
ser pai,
eu tão órfão de
mim mesmo.

faz dezembro,
faz verão,

mas é como se
não fosse.

3 de dez. de 2015

o mundo,
não se
podia dizer que
era grande.

tudo acontecia
no bairro:
o vô e a vó,
os tios e as tias,
os primos, as primas
e as tristezas,

tudo acontecia
tão perto.

só era grande
quando a gente
se aventurava
a tomar banho
de rio e tu
me levavas.

"não conta nada
pra mãe".

nunca contava,
mas igual a mãe brigava
- a roupa molhada,
vinícius. a roupa
molhada no varal
era o que nos
delatava.

mas tudo mudou tanto!
mudou e deixamos
os dois de ser
meninos.

mudou e deixamos
de nos aventurar
pelos estradas
de terra com
aquela bicicleta
vermelha e amarela
que não se sabe mais
onde está.

o mundo ficou
tão grande que a
gente nem se
encontra mais.

a roupa no varal,
vinícius.
esquecemos de novo
a roupa no varal.

paus.e.pedras

- ela apanhou porque
mereceu.

- enrabei o magrelinho
que além de veado
era ateu.

- coisa melhor do
que ter seu próprio
macaquinho
de estimação?

[eles falavam tanto
de classe,
fazer levantar as massas,
fazer a revolução

- o branco, mais uma vez;
o homem que a si
se vê como seu o pau
lhe garantisse redenção]

paus e pedras,
paus e pedras.

na primavera das datas,
mais do que arco-e-flecha
havia ali um silêncio
trancado.

(não se interrompe
silêncio, não se
amarra, não se
dissipa)

na primavera das datas,
se estava ensaiando,
em silêncio, o grito
que ouvirás daqui uns dias.

ele te dirá que te dispas
de todas tuas verdades,
de todas tuas mentiras.

ele te dirá que é tarde
para ti e tua latrina
(a boca pela qual falas
em nome dos pretos,
dos indígenas,
dos meninos e
das meninas).

se já não sabes mais
em qual direção,
o precipício.

ou será pra sempre
isso:

paus e pedras,
paus e pedras.

segunda.a.segunda

Se os iguais são
indiferentes
e os diferentes
estão desiguais,
é preciso urgente
encontrar caminhos,

mas quais?

Será que por aqui
mesmo?

[entre acerto e desconcerto,
injustiças e polícias,
políticas e mentiras]

Para a frente
sempre,
nunca pra trás!

proposta.poética

Por uma poética que
leve em conta
mais acertos que
desenganos,
queiramos:

muito mais sul
do que norte,
muito mais luta
que sorte,
cores que vão
além da trinária
bandeira de
Estados Unidos.

Porque a vida
um dia acaba
e estamos mortos;
vivos, valemos
mais - juntos,
assim mesmo distintos,
assim mesmo tortos
- e latinos.

Porque a vida
se vive até que
se acabe -
mas a nossa
latinidade estará
sempre viva
como sobrevivem
feito ferida

os torturados,
os mutilados,
os esquecidos
e os desaparecidos.

pura.retórica

Façamos um trato
definitivo:
paremos de nos
matar
(mesmo que
tenhamos motivo).

Contrato assinado,
só um aviso:

não olhe pro lado!

[As crianças não
compreendem o
idioma estrangeiro,
tampouco tem tempo
de descer a escada]

Estampido ligeiro.

Fecha-se a cortina
de fumaça.

esboço.para.uma.ciranda

eles queriam amar,
apenas.

ela queria ser feliz,
feliz, feliz.
ele queria viajar
ou mesmo ficar
parado:
[decidiria no
exato momento
incerto em que as
decisões são
tomadas ].

ela queria voar,
ele queria saber,
ela queria sonhar,
ele sonhava ainda
com deixar de fumar.
ele vivia a esmo,
ela pedia a deus
que os dias fossem
leves.
ele queria ver a neve.
ela queria um mundo
finalmente justo.
ele ansiava pelas cores,
ela reverberava dores,
eles todos se viam
a si mesmos como
a promessa de um
algo novo.

eles queriam apenas
amar,
mas o fogo
já lhes queimava
as canelas.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...