aqui jaz um
poema
com todas suas
mazelas
sujo como uma
janela
que chuva alguma
daria jeito
de limpar.
aqui jaz um
poema-cela
que seprendeu
a si mesmo
- porta trancada
por fora
que não vale
a pena arrombar.
19 de fev. de 2016
9 de fev. de 2016
6 de fev. de 2016
dona miranda
alugou um quarto
para carminha,
de quem cuidava
como se fosse filha,
conta hoje minha
mãe.
[anos depois,
uma tarde fria,
visitaríamos seu velório
com tristezas e
ave-marias]
um dia - a luz do
século XX ainda
reluzia - dona
miranda encontrou
um companheiro,
nome já esquecido,
que construía uns
instrumentos de madeira
com suas próprias
mãos.
numa visita, encantado
que fiquei com o instrumento,
ganhei de presente o meu
próprio protótipo de violão.
em hum mil novescentos
e noventa e hum,
num colégio pobre de
meninos pobres,
subi ao palco para cantar
uma nuvem de lágrimas,
de chitãozinho e xororó.
não sabia fazer direito,
não sabia cantar direito,
não sabia tocar o instrumento
que me haviam presenteado.
dona miranda, de certa
forma, teria sido indiretamente
responsável pela minha
primeira vergonha.
por todas as outras ,
até hoje e pra sempre,
eu me responsabilizo.
alugou um quarto
para carminha,
de quem cuidava
como se fosse filha,
conta hoje minha
mãe.
[anos depois,
uma tarde fria,
visitaríamos seu velório
com tristezas e
ave-marias]
um dia - a luz do
século XX ainda
reluzia - dona
miranda encontrou
um companheiro,
nome já esquecido,
que construía uns
instrumentos de madeira
com suas próprias
mãos.
numa visita, encantado
que fiquei com o instrumento,
ganhei de presente o meu
próprio protótipo de violão.
em hum mil novescentos
e noventa e hum,
num colégio pobre de
meninos pobres,
subi ao palco para cantar
uma nuvem de lágrimas,
de chitãozinho e xororó.
não sabia fazer direito,
não sabia cantar direito,
não sabia tocar o instrumento
que me haviam presenteado.
dona miranda, de certa
forma, teria sido indiretamente
responsável pela minha
primeira vergonha.
por todas as outras ,
até hoje e pra sempre,
eu me responsabilizo.
do lado de casa
havia uma horta
uma casa humilde
um homem solteiro
de cabelo liso e
grisalho
profissão e nome:
alfaiate.
quantas tardes
quantas chuvas
quantas perguntas
foram feitas sobre
a vida.
(explicações sobre
outros mundos,
sobre outras coisas,
explicações que ele
tirava tempo para
inventar e contar
como se fossem
verdade).
fazia café num
fogão sujo,
o café tinha gosto
de sujo,
mas eu aprovava.
às vezes, muitas vezes,
eu-criança-entediada:
"por que as
mulheres estão
peladas na revista?"
havia uma horta
uma casa humilde
um homem solteiro
de cabelo liso e
grisalho
profissão e nome:
alfaiate.
quantas tardes
quantas chuvas
quantas perguntas
foram feitas sobre
a vida.
(explicações sobre
outros mundos,
sobre outras coisas,
explicações que ele
tirava tempo para
inventar e contar
como se fossem
verdade).
fazia café num
fogão sujo,
o café tinha gosto
de sujo,
mas eu aprovava.
às vezes, muitas vezes,
eu-criança-entediada:
"por que as
mulheres estão
peladas na revista?"
"vai pra casa",
ele me dizia.
"não vem mais aqui",
ele reclamava.
passavam os dias,
eu não conseguia;
eu voltava.
alfaiate foi
meu primeiro
desafio
e minha primeira
saudade.
ele me dizia.
"não vem mais aqui",
ele reclamava.
passavam os dias,
eu não conseguia;
eu voltava.
alfaiate foi
meu primeiro
desafio
e minha primeira
saudade.
31 de jan. de 2016
vejo tua casa,
daniel,
onde o quintal
o futebol
as conversas
onde enterramos
aquele pássaro
e coroamos a
terra com flores.
vamos lembrar
onde ele repousa?
queria crer que todos
vão pro céu
(até os pássaros).
queria crer que a gente
supera nossos fracassos,
nossos passados.
naquele tempo a
vida ainda era longa
e a gente nem pensava
nisso.
naquele tempo a gente
enterrava os pássaros
e ainda não sabia que
iria enterrar os amigos.
daniel,
onde o quintal
o futebol
as conversas
onde enterramos
aquele pássaro
e coroamos a
terra com flores.
vamos lembrar
onde ele repousa?
queria crer que todos
vão pro céu
(até os pássaros).
queria crer que a gente
supera nossos fracassos,
nossos passados.
naquele tempo a
vida ainda era longa
e a gente nem pensava
nisso.
naquele tempo a gente
enterrava os pássaros
e ainda não sabia que
iria enterrar os amigos.
A classe média
sofre com a escolha
dos candidatos
(fora barbudos,
fora bandidos,
eles dizem).
Não se enxergam
nos seus próprios
espelhos quebrados.
A classe média
sofre, mas com
o preço do vinho
importado,
com a escolha
das louças do
lavabo,
com o papel de
parede pro quarto,
com o mármore da
cozinha
(melhor marrom ou
azulado?).
A classe média
sofre com o destino
do cruzeiro de férias
(o Caribe não sabe onde
fica e Bu enos Aires é
tão manjado!)
Sofre quando entra
em avião cheio de pobre
assalariado.
A classe média
sofre quando a escola
pública apresenta
bons resultados
e não consegue
conceber que os muros
de seus colégios
não protegem do
fracasso.
A classe média
sofre com a recente
alta do dólar
e já repensa o que
fazer no feriado.
A classe média
que sofre com o
preço da gasolina
não dá vez para
o ônibus lotado de gente
que vai pro trabalho
todo dia de manhã.
"Mas e eu ,
eu não trabalho?",
surge a questão.
Trabalha, claro que sim.
Mas trabalha menos
que sofre.
Porque a classe média
vive do seu mais famoso
tormento:
não enriquece porque
não consegue;
se estabelece e faz
desse o seu sustento:
de tanto qu e sofre,
a classe média
faz do sofrer o seu
mais saboroso alimento.
A TV noticiou o
ar pesado,
mas não falou do
cheiro ruim,
cheiro de sofrimento
barato,
parcelado no cartão,
com juros no crediário.
A TV noticiou
e a classe média
fez que sim:
"Dá um pedaço pra mim,
tô de sofrimento atrasado".
A classe média sofre
é de um mal ocidental,
há tanto tempo repetido,
aprendido e ensinado.
A classe média sofre
de não conseguir
olhar pro lado.
sofre com a escolha
dos candidatos
(fora barbudos,
fora bandidos,
eles dizem).
Não se enxergam
nos seus próprios
espelhos quebrados.
A classe média
sofre, mas com
o preço do vinho
importado,
com a escolha
das louças do
lavabo,
com o papel de
parede pro quarto,
com o mármore da
cozinha
(melhor marrom ou
azulado?).
A classe média
sofre com o destino
do cruzeiro de férias
(o Caribe não sabe onde
fica e Bu enos Aires é
tão manjado!)
Sofre quando entra
em avião cheio de pobre
assalariado.
A classe média
sofre quando a escola
pública apresenta
bons resultados
e não consegue
conceber que os muros
de seus colégios
não protegem do
fracasso.
A classe média
sofre com a recente
alta do dólar
e já repensa o que
fazer no feriado.
A classe média
que sofre com o
preço da gasolina
não dá vez para
o ônibus lotado de gente
que vai pro trabalho
todo dia de manhã.
"Mas e eu ,
eu não trabalho?",
surge a questão.
Trabalha, claro que sim.
Mas trabalha menos
que sofre.
Porque a classe média
vive do seu mais famoso
tormento:
não enriquece porque
não consegue;
se estabelece e faz
desse o seu sustento:
de tanto qu e sofre,
a classe média
faz do sofrer o seu
mais saboroso alimento.
A TV noticiou o
ar pesado,
mas não falou do
cheiro ruim,
cheiro de sofrimento
barato,
parcelado no cartão,
com juros no crediário.
A TV noticiou
e a classe média
fez que sim:
"Dá um pedaço pra mim,
tô de sofrimento atrasado".
A classe média sofre
é de um mal ocidental,
há tanto tempo repetido,
aprendido e ensinado.
A classe média sofre
de não conseguir
olhar pro lado.
12 de jan. de 2016
A luta de Martin
Sobre a visita ao Museo de las Memórias - Dictadura y Derechos Humanos de Asunción, que foi publicado no site do Instituto de Estudos Latino-Americanos -IELA, e que pode ser conferido aqui.
8 de jan. de 2016
O filho da empregada.
O filho da empregada chegou ao fim. Definitivamente. Para quem quiser experimentá-lo, segue seu texto completo. Lançaremos tão logo o ano comece - para lançamentos de livro, evidentemente, porque para as empregadas e empregados domésticos do Brasil, ele já começou antes mesmo de se encerrar 2015.
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...
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eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e ...