19 de nov. de 2016

A memória
é a parede.
Eu sou o rato.
Se me afasto,
me perco.
A eternidade
é do tamanho
do pátio.
Meu carinho pelos exilados
despatriados
fugitivos
refugiados
que recorrem à terra natal
para explicar sóis poentes
para cantar à maneira deles
os ancestrais

Daqui de onde falo
não há linha imaginária
ou fronteira
só saudade de casa

Mas aquela casa
naqueles anos
que nem a memória
ou as fotografias

que nem as receitas
as lembranças
e a poeira nos móveis
poderão refazer algum dia.

O país sou eu
sem linhas aduanas
e fronteiras

e os exilados
queria todos aqui
para soluçarmos de rir
enquanto o domingo avança.


sei que não sou só eu
que atravesso a noite
na chuva
mirando poças à espera
de que sejam tanto ou
mais profundas do que
minha altura.

sei que não sou só eu
que tenho a ossada
cansada
de carregar a carcaça
de carregar as páginas
reviradas
de um livro que nunca será
escrito.

trago comigo, de alguma forma,
deus enfiado nos bolsos
(quando derrete, molha as calças
feito mijo)

assobio sempre a mesma
canção quando me deparo
com o carro vindo
pois sei que no fim haverá o desvio

o maior desafio é permanecer
parado.
Era 1989, 1990, 1991... Fomos com a mãe e o pai (será que com o pai também?) para o centro da cidade. Naquela época, o Progresso era ainda mais distante do centro - e assim, dizíamos que íamos para a cidade, porque era lá que havia asfalto, haviam prédios. No Progresso não havia nada disso. Era zona rural antes de ser subúrbio. Entramos nas Lojas Americanas da rua 15 de novembro - uma espécie de shopping mesmo antes de haver shopping na cidade - para comprar algum presente, alguma coisa importante (suponho) e me perdi entre as gôndolas com Vinícius, meu irmão do meio.

Tinha levado comigo uma caixa de carrinhos de metal. Fundo de plástico, embalagem de papelão, tinha seis ou sete carrinhos em miniatura. Havia ganhado de um padrinho, eram a coisa mais importante do mundo naquele momento. Levei comigo porque não podia me separar do presente. Levei porque queria mostrar a todo o mundo que eu havia ganhado um presente tão bonito. Eram seis, sete carrinhos de metal.

Hora de ir embora, a mãe pergunta (ou Vinícius, nunca está claro neste terreno fértil que é a memória): "Cadê teus carrinhos?" E a gente sai a procurar, Vinícius e eu, entre as prateleiras das Lojas Americanas. Andando. Correndo. Nunca os encontramos. Devo ter chorado, naturalmente. O coração na mão, naturalmente. A incerteza diante do impossível: não reaveria o brinquedo e, como nunca me perdoei pela perda, trato de nunca esquecer o esquecimento.

Não lembro suas cores, os modelos que representavam, mas eram seis, sete carrinhos de metal que Roni me havia presenteado. Ou talvez não tivesse sido ele. Talvez não fossem nem mesmo de metal, mas de plástico. Mas tenho quase certeza que eram carrinhos, quase certeza que eram de metal e quase, quase tenho certeza de Vinícius ter me advertido antes de sairmos de casa: "Cuidado pra não perder isso aí".

Era 1989, 1990, 1991... e eu já exercitava perdas com minha surdez diante do conselho alheio. Dali em diante somente seria pior.
as lembranças de infância
as traições recordadas
aquele tempo de desemprego
lavando carros
tapando buracos
tudo excepcionalmente
cinza

juntando moedas
costurando idéias
ignorando prazos
cinza

como as esperanças
cinza

como a parede branca
vencida pela fuligem
cinza

os lençóis em que não
me deito por respeito
e por saudade
cinza

como os pulmões depois
de fumar tantos anos
e a fumaça sem me prometer
absolutamente nada
cinza

também esse céu de outubro
que desengana a primavera
anunciada, comemorada
mas ainda
cinza

como se não houvesse
outra cor no mundo.

5 de out. de 2016

Parado como a fronte do lago
antes que a criança atire a pedra
e forme ondas ondas ondas

Parado completamente parado
como de susto com cachorro brabo
como os doentes em coma

Parado como um porta-retratos
de alguém que já não se lembra
mas ocupa espaço na sala

Parado como as mãos
como a respiração os olhos
como o coração do morto.

3 de out. de 2016

Exatamente como os móveis
e aquela lembrança muito antiga
sobre a estante da sala:
se não mexer, não se vê a poeira
em volta.

Exatamente como nós, um dia
daqui muito anos:
se não mexer, ninguém verá a
poeira em volta.

E já que ninguém vai limpar,
melhor deixar assim mesmo.
Adiante
o dia exige contratos e promessas.

Adiante
os quatro elementos
(suor, sangue, porra e merda)
são discutidos para que se eleja
qual deles o mais importante.

(Ali atrás daquele morro
fica a infância,
mais um pouco e verás um
cemitério onde os mortos
conversam em alemão dialetal.

É preciso nunca voltar lá.)

Pois que adiante,
um pouco mais,
uma lagoa estoura e leva
consigo um bairro inteiro.

Mais adiante e já é
janeiro.

Quem de nós morrerá primeiro?
Quem será?
Fazem tudo que podem
para comprar automóveis
e não perder a fila das
seis da tarde.

A baixa do cigarro foi
mais comemorada que o
lançamento de antologias
reeditadas de poetas
mortos por cirrose.

Se é golpe ou não,
quem ainda se lembra
dos desconhecidos enterrados
na vala comum de Perus?

A propósito,
a cinza das horas, naquela canção
de Calcanhoto, é o nome do primeiro
livro de Bandeira, no ano em que
a Rússia fervia,

mas nenhuma relação
entre estes fatos é possível
quando a madrugada
se anuncia novamente território
ocupado

- e os refugiados,
não se sabe onde é que se vão
instalar.
Aos poetas da Academia
estão garantidos ingressos
para os shows de compositores
muito velhos que há muito
não apresentam músicas novas.

Aos cantores de canções
muito antigas estão garantidas
as entradas para talk shows de
apresentadores empoeirados,
autores de best-sellers
e pilotos de kart aos domingos.

Aos atores de décadas atrás
se garantem releituras de Shakespeare
encenadas por crianças muito novas,
mas muito bem treinadas.

Em casa, a arte se varre
de sobre a mesa da sala
de jantar para
servir o húmus abobalhado
da folhagem artificial.

...enquanto os livros na estante
soam derrubados por clichês
de apresentadores de auditório,
paquitas e chacretes e atrizes pornô
são chicoteadas, numa jogada cenográfica,
por um playboy perverso
que nunca descalça o sapatênis.
De uma pequenas lista de prazeres cotidianos
tão pequena que só aparece um
o de chegar em casa, abrir a porta
do prédio, subir o lance de escadas e não
encontrar ali o elevador parado, as portas abertas
me dizendo "vem, vamos subir, vamos pra casa,
vem descansar, tomar um banho, bater punheta,
comer salgado descongelado, fumar cigarro na
janela, acender incenso de rosas vermelhas,
dormir cedo pra acordar cedo e ir trabalhar,
como todos os dias".

Onde o prazer habita? Em chegar em casa,
subir o lance de escadas e não encontrar
ali o elevador parado, as portas abertas,
as frases de sempre que ele sempre me diz
do primeiro ao sexto andar.

Abro a porta, subo o lance de escadas
e se o elevador não está, aperto o botão [do foda-se
afinal não escalar seis andares a pé]
e tenho, sei lá, 15 segundos para encontrar no molho de
chaves a chave certa, a que abre
a caixa de correspondências [todos os dias
a chave errada e se a chave certa, o lado errado
da chave, como uma auto-sabotagem
como necessidade de prolongar esse momento
enquanto o elevador vem descendo]
e eu procuro a chave dentre as chaves
para abrir a caixa de correspondências
na esperança vã de encontrar ali uma carta
que traga novidades, que traga notícias tuas
notícias deles, nossas notícias de anos atrás
onde estaremos daqui uns anos
esperando uma carta apenas, ou um livro
dedicado, enviado de muito longe
com promessas de reencontro, com promessas
de leituras, de poesia para além da vida.

Então todos os dias eu entro em casa
[depois da primeira porta e do primeiro lance
de escadas] e se o elevador não está
aperto o botão e procuro a chave da caixa
de correspondência
(um prazer inominável, aqui, um prazer grande pra caralho!)
e se me deparo com a conta de luz, com o aluguel
com o condomínio, com a conta de internet
penso que tudo bem, vamos pagar as contas
e ouvir o que diz o elevador nesses seis andares
de encontro e conversa,
mas amanhã a mesma coisa
abrir a porta, subir o lance de escadas e
se o elevador não estiver, procurar dentre as chaves
a chave que abre a caixa de correspondências
onde poderia haver uma carta, mas nunca há.
Aceitemos nossa pequenez disposta no eterno terror de estarmos diante de tudo isto: o futuro, o amor, a morte e as consequências de seres homem e acordares todos os dias de manhã para seres esposo, noivo, amante, filho e depósito virtual de trivialidades e coisas pequenas, confissões e promessas, glórias e apuros - por que não lágrimas? Se aceitas, não fica mais fácil, nem mais leve, é certo - mas podes conseguir pagar no cartão de crédito aquela viagem que prometes a tua amada para a tão sonhada lua-de-mel.
Só agora foi que me dei conta
que a boca torta de Noel Rosa
não pode ser comparada àquele
espaço somente encontrado
entre os dentes separados de Elton John

- o branco negrificado
inglês colonizado
em cujo espaço entre os dentes
caberia o cadáver acidentado de Lady Di
os cadáveres injustiçados das Malvinas
a menina negra de Segredos e Mentiras
que Mike Leigh talvez tivesse querido
ter encontrado entre as gôndolas de uma
videolocadora num domingo cinza como este,
exatamente como este,
quando o cinza do céu não hesita
tocar as antenas, o Morro da Cruz,
o chão,
não hesita tocar a gente dentro
até os ossos
e provocar esse desconforto
que poderia ser solidão
mas não se trata disso agora.

Por isso digo que a boca torta
de Noel Rosa significaria muito mais
a dor de mastigar e engolir
um pedaço de carne mal passada
ou recitar um poema de Piñero
ou silabar Carmina Burana
desde que soubesse latim
e não estivesse muito preocupado
com fevereiro ou a hora do trem,
se não passasse ou se atrasasse

(a mãe de Noel, a mãe de Waters?)

Sir Elton John que nos perdoe
um poema tão ligeiro sobre
seus dentes separados e outras divagações,
mas acontece que hoje é domingo
logo faço aniversário
e o cinza deste dia está parado,
terrivelmente pesado.

Da casa da infância restaram

a televisão telefunken colorida
que criava horror sempre que anunciava
imagens do Exorcista, esverdeadas
a voz de penumbra que anunciava
"pela primeira vez na televisão";

o carpete verde-desbotado
logo substituído por um marrom-quase-gasto
colado imediatamente em cima do anterior;

poeira nos móveis
óleo de peroba
dedo na tomada
cheiro de asfalto;

num disco trilha sonora de Amadeus
a faixa mais emocionante
mesmo até que a Flauta Mágica
era sem dúvida traição
do medíocre Salieri, pobre Wolfgang
morreu de remorso e tosse
mas ainda me emocionava
(como até hoje, confesso)
e posso dizer que da infância
restaram o carpete verde,
Mozart e Salieri
que seria dizer epifania e traição
culpa e adoração
italiano e alemão
e pra tudo isso meu reverberante
foda-se.

E, claro, as árvores cortadas
ameixeira
amoreira
goiabeira
palmiteiro
acerola
e o ipê amarelo
que de tão triste essa história
não vale a pena
agora
recordar.
Ponhamos em termos compostos
cada um dos nossos desgostos
até aqui.

Com direito a artigos científicos,
matérias na imprensa especializada
e croquis.

Esboços artísticos serão bem vindos,
sobretudo se forem reflexo
do que não costuma refletir:
espelho sem aço,
vida em pedaços,
correr pra fugir.

Então os zoológicos serão fechados,
os relógios serão parados
e as rodovias serão horizontes
em que rodaremos sonhos
verde-púrpura-amarelados.

O reclame passa a valer a partir da data
de sua publicação do Diário Oficial.
desescreveu-se
poematou-se
redefiniria-se
se simples fosse
A enfermeira fala
como se nos soubesse
ou nos tivesse conhecido:
"Tão tranquilo o teu pai,
deve ter sido um homem feliz".
Se ela soubesse dos arroubos,
se imaginasse com que fugas
nos entre(tivemos)
- o mundo sempre aconteceu
muito rapidamente diante
dos teus olhos azuis -
se supusesse que o
silêncio de fora cala
dentro tempestades
- e que o silêncio
é o poema mais bonito
e triste que se pode
escrever,
se ela compreendesse
tudo isso, pai,
chamaria a moça
pra ver como parece
aurora essa cor
que faz o suco de mamão
e a sopa líquida
misturados no fundo
do vaso sanitário.
O reflexo da televisão
desenha nas paredes
um quarto colorido-infantil.

Nesta cama,
meu pai deita de lado
como eu-criança,
como ainda hoje
(a maneira certa de dormir).

A noite em claro
observando-lhe
as feridas;
seus olhos que
miram o teto
em silêncio
e gritam
analgesia ou morte!

Se governasse um país,
seria este seu grito
de independência.

Mas enquanto
governa apenas seu corpo,
aguardamos a celebrada
dose de dipirona
que costuma ser servida
perto das duas da manhã.
nunca presto atenção
quando me interpelam
olhos nos olhos
conversa série e definitiva
todos meus erros ensaiados

faço que sim com a cabeça
muito provavelmente pensando
que mereço um café
uma pausa para o cigarro

(interdições
implosões
e acidentes de carro

penso
enquanto busco
o isqueiro
no bolso)

esqueci o isqueiro
faço que sim com a cabeça

sim
exatamente sim
para sempre
(o dilema acerto e erro)

vinte e cinco
ou cinquenta centavos
é quanto custa
uma caixa de fósforos,

mas dependendo
o dia
e a umidade relativa,
podem chegar a cobrar
hum real.

21 de jul. de 2016

De quando criança
olhava as pessas adultas
suas certezas
caras e bocas de quem
compreende o que
está passando

quando eu for adulto,
me dizia,
vou olhar como quem sabe
[eu ensaiava].

as enfermeiras e as
técnicas de enfermagem
conversam atrás do vidro
na sala de espera da
quimioterapia

: o admirável olhar de
certeza de quem sabe
o que está passando.

quanto a mim,
vejo-me ali
observando a reunião

; entre angústia
e admiração,
apenas observo.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...