de manhã é mais difícil porque
as manhãs são eternas - não
importa se já passa das dez.
é difícil fincar o peso do corpo
sobre o pés e erguer-se para
o mesmo dia - de novo - com
cafés e livros onde nenhum
poema é possível. de manhã
o dia inteiro se passa e nem
deu ainda a hora do almoço
quando penso em te ligar -
de novo - para saber se te
doem também os pés se
te arrepia também o pescoço.
26 de mai. de 2020
ainda são possíveis os poemas
quem diria ainda são possíveis
contos reuniões ao vivo pela tela
do celular ainda são possíveis as
palavras que dizem sinto saudade
ou sinto tua falta ou queria teu abra-
ço como quando vejo meu irmão e
rimos como se fosse domingo como
quando converso com minha irmã
como há anos não fazíamos mas e
depois que as palavras não tiverem
mais significado e já não fizerem mais
sentido palavras olhares abraços
cartas escritas à mão fotografias
de família?
quem diria ainda são possíveis
contos reuniões ao vivo pela tela
do celular ainda são possíveis as
palavras que dizem sinto saudade
ou sinto tua falta ou queria teu abra-
ço como quando vejo meu irmão e
rimos como se fosse domingo como
quando converso com minha irmã
como há anos não fazíamos mas e
depois que as palavras não tiverem
mais significado e já não fizerem mais
sentido palavras olhares abraços
cartas escritas à mão fotografias
de família?
Quem tem rosto no rádio
ou é a voz um rosto que
os ouvidos desenham
: ao telefone, minha mãe
é uma voz
minha irmã, meu irmão
alerta de mensagem
(alerta alerta)
alerta de mensagem
não solicitada
notificação de feridos
notificação de infectados
[os mortos não têm voz
ou têm?]
abrir arquivo porque
trabalhar é preciso. a-
brir arquivo. abrir ar-
quivo porque comer é
preciso
[os mortos têm fome ou
são apenas rostos?]
também morrer é preciso
para que os cálculos para
que as estatísticas para que
os impostos os impostos
os impostos
[os mortos trabalham ou
são apenas mortos?]
a voz no rádio diz se vamos todos
morrer trabalhando
que o façamos com sorriso no rosto
a voz no rádio diz que pena
mas deus sabe o que faz
a voz no rádio diz que
a voz no rádio diz que
os números os números
não dizem nada a quem
não sabe ler
[os mortos já estão mortos
e quem viver HAHAHAHA
verá].
ou é a voz um rosto que
os ouvidos desenham
: ao telefone, minha mãe
é uma voz
minha irmã, meu irmão
alerta de mensagem
(alerta alerta)
alerta de mensagem
não solicitada
notificação de feridos
notificação de infectados
[os mortos não têm voz
ou têm?]
abrir arquivo porque
trabalhar é preciso. a-
brir arquivo. abrir ar-
quivo porque comer é
preciso
[os mortos têm fome ou
são apenas rostos?]
também morrer é preciso
para que os cálculos para
que as estatísticas para que
os impostos os impostos
os impostos
[os mortos trabalham ou
são apenas mortos?]
a voz no rádio diz se vamos todos
morrer trabalhando
que o façamos com sorriso no rosto
a voz no rádio diz que pena
mas deus sabe o que faz
a voz no rádio diz que
a voz no rádio diz que
os números os números
não dizem nada a quem
não sabe ler
[os mortos já estão mortos
e quem viver HAHAHAHA
verá].
como quando tinha enchente e a
escola fechava porque as ruas estavam
inundadas porque as pessoas limpavam
a lama - a lama que um dia chegou na
nossa também. como quando era frio
e eu pensava se não haveria um decreto
que nos permitisse aos meninos ficar
debaixo das cobertas para não sentir
aquela dor aguda nos ossos das pernas.
como quando ela me dizia pra ver pessoas.
como quando havia pessoas pra ver.
como aquele pássaro que fugiu por eu
ter me negado a lhe cortar as asas.
como quando havia lado de fora da casa.
escola fechava porque as ruas estavam
inundadas porque as pessoas limpavam
a lama - a lama que um dia chegou na
nossa também. como quando era frio
e eu pensava se não haveria um decreto
que nos permitisse aos meninos ficar
debaixo das cobertas para não sentir
aquela dor aguda nos ossos das pernas.
como quando ela me dizia pra ver pessoas.
como quando havia pessoas pra ver.
como aquele pássaro que fugiu por eu
ter me negado a lhe cortar as asas.
como quando havia lado de fora da casa.
para Rodrigo Sarubbi
tenho rins de castidade e tártaros
sem vitórias nos dentes tortos e
amarelados. tenho uma perna de
passos curtos, outra de passos
largos. não procuro fardo porque
já me doem bastante as costas
dum peso imerecido que carrego
há anos sem nunca ter precisado.
atravesso o sinal vermelho, nado
mais para o fundo, gozo olhando
lá pra baixo (gravidade e impacto)
: não te assustes, não te assustes
: é possível dormir acordado é pos-
sível ainda amar e respirar no vácuo.
tenho rins de castidade e tártaros
sem vitórias nos dentes tortos e
amarelados. tenho uma perna de
passos curtos, outra de passos
largos. não procuro fardo porque
já me doem bastante as costas
dum peso imerecido que carrego
há anos sem nunca ter precisado.
atravesso o sinal vermelho, nado
mais para o fundo, gozo olhando
lá pra baixo (gravidade e impacto)
: não te assustes, não te assustes
: é possível dormir acordado é pos-
sível ainda amar e respirar no vácuo.
é como chorar o choro dos vencedores
nos pódios em que nunca estive
nos degraus que desisti de subir-descer
pois quanto mais esforço quanto mais
fundo quanto mais alta a queda maior o
tombo - olhos olhos olhos bocas bocas
bocas - de repente, um sonho tirado
sabe-se lá de onde - de repente uma luz
vinda não se sabe de onde para apontar
o caminho
[é por ali]
e enviar áudios que deveriam ser conversas
para os amores dizendo que está tudo bem
- mesmo a voz embargada como está mesmo
o nariz fungando como está - porque está
tudo bem tão bem como jamais esteve tão bem
como talvez nunca mais esteja (talvez amanhã,
talvez daqui a uma hora tudo desmorone como
a lei diz que tem que ser para as coisas que se
erguem)
[é por ali]
uma placa advertindo isso há dez anos - onde
estaria, estaríamos se houvesse placas dizendo
o caminho anunciando tombos advertindo os
meninos que fomos onde estaríamos se - quem
sabe deus - estendesse sua mão e dissesse vem
comigo, por aqui é seguro - mas estamos aqui
exatamente aqui e envio áudios dizendo que está
tudo bem minha amiga está tudo bem meu amigo
não te preocupes comigo porque hoje sei que o
caminho
é por ali
[pelo menos por enquanto]
nos pódios em que nunca estive
nos degraus que desisti de subir-descer
pois quanto mais esforço quanto mais
fundo quanto mais alta a queda maior o
tombo - olhos olhos olhos bocas bocas
bocas - de repente, um sonho tirado
sabe-se lá de onde - de repente uma luz
vinda não se sabe de onde para apontar
o caminho
[é por ali]
e enviar áudios que deveriam ser conversas
para os amores dizendo que está tudo bem
- mesmo a voz embargada como está mesmo
o nariz fungando como está - porque está
tudo bem tão bem como jamais esteve tão bem
como talvez nunca mais esteja (talvez amanhã,
talvez daqui a uma hora tudo desmorone como
a lei diz que tem que ser para as coisas que se
erguem)
[é por ali]
uma placa advertindo isso há dez anos - onde
estaria, estaríamos se houvesse placas dizendo
o caminho anunciando tombos advertindo os
meninos que fomos onde estaríamos se - quem
sabe deus - estendesse sua mão e dissesse vem
comigo, por aqui é seguro - mas estamos aqui
exatamente aqui e envio áudios dizendo que está
tudo bem minha amiga está tudo bem meu amigo
não te preocupes comigo porque hoje sei que o
caminho
é por ali
[pelo menos por enquanto]
para Caio Augusto Leite
deitem-se os prédios
torçam-se os viadutos
diante do verde dos teus olhos
de mar
- amemo-nos, anêmona
(são tentáculos são abraços
e o calor no peito dos homens
que se acaloram)
a água não levará tua casa nunca mais
porque reforças as represas com palavras
são diques
são cisternas
são barragens
apenas o concreto ainda há de agredir
teus olhos enquanto o verde da mata
em volta não tomar também o centro
(onde vais trabalhar todos os dias)
(onde vais amar quem sabe um dia)
(onde nos encontramos apesar da paisagem)
saberemos que os passos dados
trilharam caminhos de armistício
quando for levantada a última bandeira
da última guerra acontecida
por isso caminho - bússola,
anêmona, norte, dilema que
se escreve com a sorte de
poder ser lido verde ainda
por teus olhos de mar
(tua esperança nos homens
está escrita. tua esperança
nos homens está escrita num
poema)
amemo-nos, anêmona
e o mundo que se exploda
mais pra lá.
deitem-se os prédios
torçam-se os viadutos
diante do verde dos teus olhos
de mar
- amemo-nos, anêmona
(são tentáculos são abraços
e o calor no peito dos homens
que se acaloram)
a água não levará tua casa nunca mais
porque reforças as represas com palavras
são diques
são cisternas
são barragens
apenas o concreto ainda há de agredir
teus olhos enquanto o verde da mata
em volta não tomar também o centro
(onde vais trabalhar todos os dias)
(onde vais amar quem sabe um dia)
(onde nos encontramos apesar da paisagem)
saberemos que os passos dados
trilharam caminhos de armistício
quando for levantada a última bandeira
da última guerra acontecida
por isso caminho - bússola,
anêmona, norte, dilema que
se escreve com a sorte de
poder ser lido verde ainda
por teus olhos de mar
(tua esperança nos homens
está escrita. tua esperança
nos homens está escrita num
poema)
amemo-nos, anêmona
e o mundo que se exploda
mais pra lá.
Poema somente para Rafael Tahan
quando enterrei o pássaro
não marquei o lugar portanto
o considero perdido
[acaso não estaremos todos?
aprendi a sonhar com a voz de
neil tannant e o synth pop dos pet
shop boys - acrescida de voyage,
voyage (aquela canção de quem
ninguém mais lembra)]
eu também me esqueço
do que sonho
; apesar da ritalina da gasolina
da amitriptilina da menina e de
caetano estaremos todos mortos
& vivos & mortos & vivos com os
joelhos embaraçados
: acaso as escadas não te fazem
doer as costas?
: acaso tua mandíbula não te perturba
também os ombros?
plantaremos uma árvore na floresta
do teatro oficina que ainda está por
nascer - e ali voaremos pássaros em
busca dum poema sublime e insensato
como são todos os poemas como são
os livros dispostos na estante e fora dela
(me lavo na louça da pia atrás duma limpeza
impossível me lambo na louça da pia atrás
dum prazer impossível me fodo na louça da pia
me corto
me curo
me salvo)
: acaso viver & morrer não será tarefa
para poucos?
[a feira deixa vestígios, a mão deixa vestígios
- e a chuva cai permanente apesar do sol apesar
do sol apesar de nós, que chovemos]
quando enterrei o pássaro
mirei errado e sinto-o dizendo
aqui-ou-não aqui-ou-não
dentro do peito.
quando enterrei o pássaro
não marquei o lugar portanto
o considero perdido
[acaso não estaremos todos?
aprendi a sonhar com a voz de
neil tannant e o synth pop dos pet
shop boys - acrescida de voyage,
voyage (aquela canção de quem
ninguém mais lembra)]
eu também me esqueço
do que sonho
; apesar da ritalina da gasolina
da amitriptilina da menina e de
caetano estaremos todos mortos
& vivos & mortos & vivos com os
joelhos embaraçados
: acaso as escadas não te fazem
doer as costas?
: acaso tua mandíbula não te perturba
também os ombros?
plantaremos uma árvore na floresta
do teatro oficina que ainda está por
nascer - e ali voaremos pássaros em
busca dum poema sublime e insensato
como são todos os poemas como são
os livros dispostos na estante e fora dela
(me lavo na louça da pia atrás duma limpeza
impossível me lambo na louça da pia atrás
dum prazer impossível me fodo na louça da pia
me corto
me curo
me salvo)
: acaso viver & morrer não será tarefa
para poucos?
[a feira deixa vestígios, a mão deixa vestígios
- e a chuva cai permanente apesar do sol apesar
do sol apesar de nós, que chovemos]
quando enterrei o pássaro
mirei errado e sinto-o dizendo
aqui-ou-não aqui-ou-não
dentro do peito.
Poema somente para Rafael Rocca
quando rafael pisou os pés
no portão principal do principal
campo de concentração nazista
denominado auschwitz-birkenau
onde o nazismo matou mais de
um milhão de judeus - para depois
incinerá-los -, onde se pode dizer
sem receio que a humanidade
encenou o próprio mal, foi ali
que rafael achegou-se a uma
árvore: "é uma bétula", disse.
"sabe-se disso porque se pode
arrancar pedaços da casca com
a mão". e seu sorriso doía.
quando rafael pisou os pés
no portão principal do principal
campo de concentração nazista
denominado auschwitz-birkenau
onde o nazismo matou mais de
um milhão de judeus - para depois
incinerá-los -, onde se pode dizer
sem receio que a humanidade
encenou o próprio mal, foi ali
que rafael achegou-se a uma
árvore: "é uma bétula", disse.
"sabe-se disso porque se pode
arrancar pedaços da casca com
a mão". e seu sorriso doía.
porque a mãe nasceu pobre e foi
pobre a vida inteira é que um quilo
de farinha moída em medeiros - aquele
lugar meio sonho meio tristeza de onde
ela veio - pesa tanto: o coração de seu
pai, o coração de seus irmãos (tio maneca,
que fazia versos de reis de improviso,
me pergunto se não foi ali que me vi poeta)
ensacada e enrolada com fita de presente
: é um quilo de farinha com o peso de vidas
inteiras moídas na lida do engenho: tia rosa,
tia maurina, tio quido, tio maneca, tia maria,
tio lorinho, tio osvaldo, tio quintino, tio joão,
tio arno, irmãos de carminha, a maria minha mãe.
pobre a vida inteira é que um quilo
de farinha moída em medeiros - aquele
lugar meio sonho meio tristeza de onde
ela veio - pesa tanto: o coração de seu
pai, o coração de seus irmãos (tio maneca,
que fazia versos de reis de improviso,
me pergunto se não foi ali que me vi poeta)
ensacada e enrolada com fita de presente
: é um quilo de farinha com o peso de vidas
inteiras moídas na lida do engenho: tia rosa,
tia maurina, tio quido, tio maneca, tia maria,
tio lorinho, tio osvaldo, tio quintino, tio joão,
tio arno, irmãos de carminha, a maria minha mãe.
o pai pisou os pés naquelas
estradas de terra e mato por
todos os lados - morro morro
morro morro morro e riacho
passou calor em volta do tacho
de cozinhar carne de porco,
suou diante dos teares da fábrica,
puxando carroça, carregou o
pai morto, mas hoje, quando me
visitou, quando atravessávamos
a rua de casa, o pai reparou no
vento, comentou sobre o vento
e sorriu. o ar que se agita nos move
a todos, pai, de dentro pra fora.
nos move a todos
como nunca se viu.
estradas de terra e mato por
todos os lados - morro morro
morro morro morro e riacho
passou calor em volta do tacho
de cozinhar carne de porco,
suou diante dos teares da fábrica,
puxando carroça, carregou o
pai morto, mas hoje, quando me
visitou, quando atravessávamos
a rua de casa, o pai reparou no
vento, comentou sobre o vento
e sorriu. o ar que se agita nos move
a todos, pai, de dentro pra fora.
nos move a todos
como nunca se viu.
[é preciso despedir-se do morto
tocar-lhe as mãos frias encarar
seu cenho sem expressão orar
palavras de coragem é preciso
deixar o morto ir]
então perdoa se não
cheguei muito perto
se tudo que fiz foi
esconder-me atrás
de nosso amigo mais
corajoso.
[é preciso suportar o abraço
da mãe do morto seus gritos
que te dizem Aí vai teu amigo]
e se possível a correção, diria
o primeiro amigo - ou não,
mas com o tempo tomamos
a liberdade de tornar tudo
mais dolorido.
[é preciso chorar o morto,
despedir-se. é preciso relembrar
o morto, revirar álbuns em busca
de uma fotografia que diga ela
própria o quanto fomos felizes]
dois meninos. eu, tão franzino,
invejava teus ossos pesados
teus dribles de quintal teu ar
amorenado e tua teimosia
(que não foi tão forte a ponto
de te manter na vida)
[é preciso visitar o morto]
tua fotografia de beca e capelo
numa lápide simples. devia ser
uma bola um lenço escoteiro
um brinquedo um comandos
em ação um foguete espacial
um video-game as pérolas que
descobríamos no jardim de tua
mãe o instrumento que copiamos
do fantástico para caçar fantasmas
(no sótão da casa velha de teu bisavô,
que já demoliram) uma bicicleta duas
um taco de bete mas lá tem apenas
uma foto tua de beca e capelo.
[e deixá-lo descansando]
pela eternidade ou aquelas nossas
horas. outro dia, parei em frente
a tua mãe e disse sou eu, o marcelo
labes e ela sorriu, envergonhada
porque já não enxerga - todos esses
anos foi questão de vista - outro
dia de novo e de novo basta apenas
anunciar sou o marcelo labes
para tua mãe sorrir como nos sorria
quando éramos meninos.
[é preciso esquecer do morto]
e não retomar seu nome a cada
passo em falso na vida a cada
tropeço a cada falha minha diante
dos outros - eles esperam tanto
de mim, eles esperam que eu seja
seja seja escreva escreva escreva
- mas ninguém sabe que aos
meninos basta um pouco de
silêncio um pouco de afeto
um abraço longo de reencontro
aqui ou aí, quem sabe
aí, é claro, que mortos não voltam
à vida a não ser em poemas
escritos às pressas com a leveza
demorada de uma despedida.
[é preciso também viver
é preciso também morrer]
como dizem que tem que ser
como dizem que tem que ser.
tocar-lhe as mãos frias encarar
seu cenho sem expressão orar
palavras de coragem é preciso
deixar o morto ir]
então perdoa se não
cheguei muito perto
se tudo que fiz foi
esconder-me atrás
de nosso amigo mais
corajoso.
[é preciso suportar o abraço
da mãe do morto seus gritos
que te dizem Aí vai teu amigo]
e se possível a correção, diria
o primeiro amigo - ou não,
mas com o tempo tomamos
a liberdade de tornar tudo
mais dolorido.
[é preciso chorar o morto,
despedir-se. é preciso relembrar
o morto, revirar álbuns em busca
de uma fotografia que diga ela
própria o quanto fomos felizes]
dois meninos. eu, tão franzino,
invejava teus ossos pesados
teus dribles de quintal teu ar
amorenado e tua teimosia
(que não foi tão forte a ponto
de te manter na vida)
[é preciso visitar o morto]
tua fotografia de beca e capelo
numa lápide simples. devia ser
uma bola um lenço escoteiro
um brinquedo um comandos
em ação um foguete espacial
um video-game as pérolas que
descobríamos no jardim de tua
mãe o instrumento que copiamos
do fantástico para caçar fantasmas
(no sótão da casa velha de teu bisavô,
que já demoliram) uma bicicleta duas
um taco de bete mas lá tem apenas
uma foto tua de beca e capelo.
[e deixá-lo descansando]
pela eternidade ou aquelas nossas
horas. outro dia, parei em frente
a tua mãe e disse sou eu, o marcelo
labes e ela sorriu, envergonhada
porque já não enxerga - todos esses
anos foi questão de vista - outro
dia de novo e de novo basta apenas
anunciar sou o marcelo labes
para tua mãe sorrir como nos sorria
quando éramos meninos.
[é preciso esquecer do morto]
e não retomar seu nome a cada
passo em falso na vida a cada
tropeço a cada falha minha diante
dos outros - eles esperam tanto
de mim, eles esperam que eu seja
seja seja escreva escreva escreva
- mas ninguém sabe que aos
meninos basta um pouco de
silêncio um pouco de afeto
um abraço longo de reencontro
aqui ou aí, quem sabe
aí, é claro, que mortos não voltam
à vida a não ser em poemas
escritos às pressas com a leveza
demorada de uma despedida.
[é preciso também viver
é preciso também morrer]
como dizem que tem que ser
como dizem que tem que ser.
nem é mais possível encontrar
fotografias por acaso no meio
de um livro no fundo da gaveta:
as tornamos pastas que se apagam
com um dedo. as 36 poses não
podem te assustar porque
são 36 giga de fotografias
de que te livras com o movi-
mento de um dedo. assim
te desafias num ato liberdade
e força e abres os livros e
abres os cadernos onde nada
encontrarás e sabes bem disso.
fotografias por acaso no meio
de um livro no fundo da gaveta:
as tornamos pastas que se apagam
com um dedo. as 36 poses não
podem te assustar porque
são 36 giga de fotografias
de que te livras com o movi-
mento de um dedo. assim
te desafias num ato liberdade
e força e abres os livros e
abres os cadernos onde nada
encontrarás e sabes bem disso.
não procures pelo amor
no carnaval - antes, outra
coisa, uma coisa sem nome
uma coisa sem delicadeza
e não se pode dizer suor
não se pode dizer desejo
há uma coisa no carnaval
que não responde, porque
não tem nome. há essa
euforia, há esse encan-
tamento. e não responde,
por mais que grites. não
percas tempo: só serás
encontrado se mereceres.
no carnaval - antes, outra
coisa, uma coisa sem nome
uma coisa sem delicadeza
e não se pode dizer suor
não se pode dizer desejo
há uma coisa no carnaval
que não responde, porque
não tem nome. há essa
euforia, há esse encan-
tamento. e não responde,
por mais que grites. não
percas tempo: só serás
encontrado se mereceres.
suponha-se o amanhã
: as mortes cessarão, também
as dores, os governos cairão
um após o outro, e sorriremos
antes de dançar diante dum
apocalipse sereno
: os cancerosos serão curados
[também meu pai, que será jo-
vem novamente, como naquela
foto] e não haverá razão para se
preocupar com o anoitecer
: tudo recomeçará, mas pelo
início - o verdadeiro, anterior,
como uma esperança que não
se apaga, como amor entre
adolescentes: a vida inteira
para ser vivida
suponha-se o amanhã:
não contemos as horas, elas
voam não contemos os dias,
eles passam não contemos
nos dedos, que eles estarão
ocupados se abraçando.
suponha-se o depois de amanhã
suponha-se a vida inteira
enquanto ainda exista.
: as mortes cessarão, também
as dores, os governos cairão
um após o outro, e sorriremos
antes de dançar diante dum
apocalipse sereno
: os cancerosos serão curados
[também meu pai, que será jo-
vem novamente, como naquela
foto] e não haverá razão para se
preocupar com o anoitecer
: tudo recomeçará, mas pelo
início - o verdadeiro, anterior,
como uma esperança que não
se apaga, como amor entre
adolescentes: a vida inteira
para ser vivida
suponha-se o amanhã:
não contemos as horas, elas
voam não contemos os dias,
eles passam não contemos
nos dedos, que eles estarão
ocupados se abraçando.
suponha-se o depois de amanhã
suponha-se a vida inteira
enquanto ainda exista.
10 de fev. de 2020
se cada depois não se demorasse
em tantos antes se cada antes e c
ada moço não se fizesse de tanta
falha e tanto fosso imagina só ne
nhum porém, nenhum talvez ape
nas ir e se deixar ir adiante conte
nte até feliz até um sorriso de mo
strar os dentes. imagina se cada
véspera e cada ajuste se tornas
sem também um pouco verdade
se cada eternidade encontrasse
seu fim de espera as janelas ab
ertas a porta aberta o coração t
ranquilo. cuida, que o gato foge.
em tantos antes se cada antes e c
ada moço não se fizesse de tanta
falha e tanto fosso imagina só ne
nhum porém, nenhum talvez ape
nas ir e se deixar ir adiante conte
nte até feliz até um sorriso de mo
strar os dentes. imagina se cada
véspera e cada ajuste se tornas
sem também um pouco verdade
se cada eternidade encontrasse
seu fim de espera as janelas ab
ertas a porta aberta o coração t
ranquilo. cuida, que o gato foge.
para o Caio:
te sinto menino quando te toco
com as pontas dos dedos
faz verão quando me aninho
nos teus cabelos - há quantos
anos e por quantos ainda nos
perderemos em palavras? por
quanto tempo a literatura - essa
velha avara - nos manterá
unidos? guardo comigo um
sorriso e dois punhados de
lágrimas, que planto num vaso
colorido à espera de que brotem
e façam logo chegar a primavera
e tu com ela, e eu contigo.
te sinto menino quando te toco
com as pontas dos dedos
faz verão quando me aninho
nos teus cabelos - há quantos
anos e por quantos ainda nos
perderemos em palavras? por
quanto tempo a literatura - essa
velha avara - nos manterá
unidos? guardo comigo um
sorriso e dois punhados de
lágrimas, que planto num vaso
colorido à espera de que brotem
e façam logo chegar a primavera
e tu com ela, e eu contigo.
mariana me diz que não é
possível definir o que é e
não amor, ou se sabemos
quando amamos de verdade
digo a ela que amar é isso
de conhecer e sentir-se co-
nhecido - acaso não seja
apenas costume ou vício
como cachaça ou tabagismo,
droga tão forte que provoque,
derrote e derreta os sentidos
a ponto de que imaginar o toque
seja tão dolorido como insistir em
lembrar o que se quer esquecido.
possível definir o que é e
não amor, ou se sabemos
quando amamos de verdade
digo a ela que amar é isso
de conhecer e sentir-se co-
nhecido - acaso não seja
apenas costume ou vício
como cachaça ou tabagismo,
droga tão forte que provoque,
derrote e derreta os sentidos
a ponto de que imaginar o toque
seja tão dolorido como insistir em
lembrar o que se quer esquecido.
talvez se fôssemos britânicos
nos 80 nos drogássemos de
heroína porque não teríamos
as canções e a esperança de
um brasil recém liberto.
talvez se te encontrasse na rua
e declamasse rimbaud como
quem tira um pedaço de carne
dos dentes me desses a atenção
que eu não mereço.
afinal, poesia é coisa de des-
graçados, e não adianta recl-
amar muito porque os dias,
os dias passam sempre tão
depressa
: há entrelinhas nas entrelinhas
e só leremos palavras feitas
quando
desfolharmos completamente
os cadernos em
que nos escrevemos.
nos 80 nos drogássemos de
heroína porque não teríamos
as canções e a esperança de
um brasil recém liberto.
talvez se te encontrasse na rua
e declamasse rimbaud como
quem tira um pedaço de carne
dos dentes me desses a atenção
que eu não mereço.
afinal, poesia é coisa de des-
graçados, e não adianta recl-
amar muito porque os dias,
os dias passam sempre tão
depressa
: há entrelinhas nas entrelinhas
e só leremos palavras feitas
quando
desfolharmos completamente
os cadernos em
que nos escrevemos.
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