22 de jan. de 2021

o que cabe ou não cabe no poema
dizer apenas tá foda, vocês sabem
sem menosprezar a língua sem ig
norar as imagens e dizer apenas

tá foda, vocês sabem, mesmo que
o mundo ainda tenha jeito mesmo
que termine dois mil e vinte o que
resta a dizer é que tá foda, vocês

sabem, e não há notícia ou política
que se sobressaia não há saída nem
nunca houve não há justiça nem

nunca houve não há memória que
não magoe não há mais nada.
tá foda, vocês sabem, vocês sabem.
o ensaio sempre dói mais que
a despedida - a escolha das p
alavras dos gestos o olhar em
direção à porta da saída ante

vendo a caminhada até ali co
m uma mala uma sacola uma
mochila - para depois as esca
das a calçada a rua e a vida.

quanto terá havido de prepa
ração é um mistério que sem
pre nos ronda diante de um 

ato impensado. porém tudo é
calculado: a lua para as marés
como o vento para as ondas.
(ilze scamparini falava da itália
caco barcelos de jerusalém
antes ou depois de paulo francis
de paulo henrique amorim
de jorge pontual falarem
de nova iorque)

era tão bonito ver o mundo
pela televisão

o mundo: um mapa a ser
descoberto

era tão bonito pensar que no
mundo inteiro alguém falava português

naquela época, a televisão sintonizava
quando se girava a antena

vinicius me mandava arrumar, ficava lá
dentro dizendo deu não deu tá quase

girando a antena se arrumava o mundo
mundo: esse televisor quebrado que já

ninguém se lembra como faz pra desligar.
janelas

para a Amanda Vital e para o Caio Augusto Leite

nós nunca perdemos tardes inteiras
de domingo assistindo arquivo-x
pensando o que houve de tão importante
nos noventa - se os ternos com ombreiras
se os telefones com fio se os cabelos com
laquê - e nunca passamos tardes inteiras
mostrando-nos fotos de família identificando
aqui meu pai aqui minha mãe aqui aquele
cachorro de estimação. nós nunca abrimos
fizemos suco em pó numa garrafa vazia
de coca-cola e nunca mas nunca mesmo
discutimos a morte de tancredo ou sarney
e a semana do presidente - pela primeira
vez na televisão, dizia o narrador anunciando
um filme que já nascera antigo - e nunca
assistimos juntos ao carnaval de rua de
florianópolis, belo horizonte, são paulo

no entanto

este poema não é um inventário de desfeitos
não é um itinerário de descaminhos não é
um agendamento de impossibilidades não
é um despedir-se, pelo contrário: é sobre
um abraço que ainda está por vir
desajeitado porque triplo porque tímido
- são os abraços que nos apresentam, não
os sorrisos, são os abraços que nos esquentam -
e porque o amor cisma e porque o coração
aguenta ler amanda logo cedo ler caio no olhar
derradeiro que antecede o sono e sonhar com
um texto escrito e vivido e verdadeiro um
poema que termine dizendo

meus amores, as janelas estão abertas
para o vento entrar
e não para nos atirarmos por elas.
a letra sai tremida na dedicatória
como sai tremido o endereço no
envelope só a assinatura desliza
porque assim curva e automática

(se parar pra pensar não sai se
parar pra calcular as curvas não
sai se pensar que estas linhas
representam um nome, o meu)

o isqueiro trêmulo como as mãos
os joelhos a mandíbula e os
pensamentos. reparaste que não

faz frio? reparaste que se te tremes todo
é porque talvez sejas o epicentro
de um terremoto ainda inominado?
houve o tempo do rodízio
3 x 1 dos trabalhadores da
indústria têxtil e foi também

por isso que fizeram aquela
greve linda que ainda vou
escrever em livro. três dias

de trabalho por um em casa
os operários não gostavam.
o pai fazia rodízio também

aparecia depois de três dias
como um deus que ressurge
dos teares. intocável e poderoso

como um deus. mas em 89 eu
ainda não sabia eu achava
que deus morava nas nuvens.
retirar o lixo nos sacos pretos
o que já foi vivo pesa mais
- o saco leve é do reciclável -
limpar a caixa dos gatos
limpar o tapete da sala
limpar o fogão esfregar o banheiro
com aqueles produtos todos
escovar os dentes tomar banho
com aqueles produtos todos
a roupa de cama cheirando
a sol mesmo que o sol não
bata aqui a minha roupa
cheirando a sol mesmo que
o sol não bata aqui. a casa toda
em ordem para receber visita
- ela me disse que é poeta -
a casa inteira cheirando a limpeza
e eu sempre disfarçando o que
apodrece aqui dentro.
perdi as palavras para o poema
que deveria ter escrito perdi os

olhos do poema que agora anda
aflito perdi as mãos os pés do 

poema para dois comprimidos
(um de manhã, um à noite)

perdi o poema, perdi o poema
que não volta, ele não volta

porque nunca soube dizer
direito o endereço onde mora.
por trás das paredes de plástico
deve haver outras por trás do
concreto armado deve haver
ouro por dentro das paredes

quem sabe há esqueletos
esquecidos quem sabe há
tesouros escondidos quem
sabe há somente tijolos

um comprimido por dia
para a vida passar voando
um comprimido por noite
para tentar alcançar o sonho.
e tem essa luz laranja vinda não sei
de onde - o céu é dum cinza espesso
e carregado anúncio de chuva e a coisa
toda - mas a luz tá ali, laranja, no chão

da sala, no chão do quarto. chamo as
gatas e me aninho com elas sob a luz
laranja indecifrável porque é luz mesmo
que não se saiba de onde venha,

mesmo que tão fraca quase não luz.
e me digo e digo a elas que não importa
a origem desde que ilumine, não importa

a fonte desde que. e sorrimos. eu, à minha
maneira. elas, à maneira das gatas, que
pouco ou nada entendem de sorrir.
desviar da pisada, evitar a marca
do solado alheio: recalcular rotas

desvendar atalhos | o mapa é o mesmo
quando descreve a queda? quando se

cai sem freio? | de cima a baixo não
é possível anotar o meio

: caíste, e com tanta força que nem
percebeste que caías

: cais com a certeza alheia de quem
não sabia aonde ia.
acaso contas os passos enquanto sobes
os degraus ou somente assobias uma c
anção qualquer - não importa. a verdad
e é que sobes, pé por pé, e te elevas da

cidade e te distingues dos homens e te
distingues dos ratos e te distingues de
ti mesmo que, lá de baixo, te vês tão al
to, tão alto!, próximo das aves e das nu

vens de chuva, de deus e dos aviões. e
qual a tua surpresa quando te vês, lá d
e baixo, em queda livre - a cara rumo a

o asfalto. e qual tua surpresa quando t
e reconheces pássaro, anjo, deus, avião
sugado pela gravidade que a tudo ama.
deem atenção ao poeta
deem carinho ao poeta
deem os beiços a ele o,

poeta está carente. 

deem elogios ao poeta
falem dos poemas que
leram deem razão ao

poeta, ele está triste.

comprem seus livros
escrevam resenhas
lhe presenteiem com 

cigarros baratos.

deem ouvidos ao poeta
mas deem também alimento
atirem os restos ao poeta

porque ele tem fome.
Durante o funeral de Stalin
409 pessoas morreram
pisoteadas por compatriotas
ante o fechamento do caixão

do Primeiro Camarada.

Delas não temos dados
tampouco seus nomes,
mas de que afinal valeria e
quem aqui sabe ler russo.
morrer deve ser de noite como se
os olhos pesassem naturalmente

o livro aberto numa página a esmo
a lista de compras escrita a lápis

a comida dos bichos preparada
a roupa no varal - sem sinal de

nuvens de chuva. tomara que 
vente nordeste, tomara que o

o governo caia. morrer deve ser
de noite porque os dias têm sido

tão cheios - e a noite sempre será
dos pássaros e dos morcegos.
eram dias assim as nuvens beijando
os morros o calor subindo da terra
para virar vapor os meninos planejávamos
descobertas - o amor ou uma pista com
rampas para as bicicletas, dava tudo na
mesma. o sol se põe antes entre as
montanhas e daí o silêncio e daí o riacho
gordo de chuva esbravejando contra
as pedras. daquele incômodo na boca
do estômago a que se chama medo da
vida ou medo do amanhecer ou medo
de mais um dia de amores vãos e pé
no barro - namorávamos bicicletas.
desde então ternura e terror pelo que
é úmido os pés pisando nas poças o
barro encharcando as rodas - e esse
escapar de corrente a canela sempre
contra o pedal - dor aguda de quem
tenta ir em frente.


te avanço olhos adentro através d
as palavras que sei que procuras a
s vírgulas que degustas como se s
ob medida. te avanço pele adentro

o por teus dentros à procura do q
ue é amor e do que é comida que
me sacie a falta que me sacie a fo
me de toda uma vida. avançamos 

os sinais vermelhos porque estam
os em fuga e fugir é garantir mais
que liberdade: é alcançar saída. te

sequestro daí onde estejas fazendo
o que for que seja pensando que o
que desejas é o que em ti procuro.


depois do dia é que faz sentido ter
idade nova aprender o numeral no
vo que será utilizado até o ano que
vem. aprender a dizer a idade nova

com naturalidade como acontece c
om o ano novo que a gente demora
a reconhecer e depois se lembra de
le com carinho até com saudade co

m mágoa talvez mas lembra porque
teve um nome. ao dizer a idade nov
a não digo trinta e seis e um dia poi

s idade não é fracionada. digo trinta
e seis hoje como direi no ano que v
em. a idade é nova e soa atrasada.
podes correr o quanto te custem as
pernas: estarás lá ainda aonde
chegares quando chegares e se

podes correr o quanto puderes o
quanto tiveres pulmões e pernas
pois não se escapa de si assim

não se foge de si assim

quando o que é fuga é caminho
a meio quando o que é fuga é para
chegares aqui tão perto e me encarares

de frente

: espelho.


estão rente ao chão as
nuvens de chuva e meu
ânimo para levantar daqui
em direção a -

: faço as mãos em concha
para beber o que permites
que te escorra
da boca
das pernas
dos poemas que mesmo que evites
- eu sei que eles te comem viva -

rente ao chão não se faz sombra
rente ao chão não se sofre a queda

: faço as mãos em concha
para te beber em goles que
recendem a leite e por isso
a vida
- como se do peito brotassem flores
- como se a colheita restasse ainda

um astro de cinema se suicida enquanto
te digo que te permitas ver mais adiante
porque são tudo projeções numa parede
branca - está e não está ali o que vemos

; está e não está ali o que temos
para dividir nessas noites longas
de um inverno como nenhum outro
poderá ser 

- há um poema embaixo do teu travesseiro
e é por isso que custas a dormir há um poema
no ralo do chuveiro há um poema entre as
tuas carnes e é por isso que custas a admitir

o que é preciso deixar escoar
o que é preciso permitir fugir

que é preciso se permitir a queda
mesmo o chão já nos beijando a face.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...