25 de nov. de 2023

(o assento era engatado no
guidom em sua parte anterior,
ou seja, o menino ia virado para
o pai, de costas para o caminho

: não via o pai, mas seus braços
sua barriga, suas pernas. talvez
gotejasse suor sobre o menino
talvez o caminho não importasse

tanto). o pai me dizia Não olha pra
trás que a gente cai. pra trás: pra
frente, na verdade, porque o menino

ia de costas. mas eu olhava.
rapidamente eu olhava o caminho
e depois o homem que por ele me

levava.
de silêncio em silêncio se faz
uma continuidade de rasura
em rasura se faz uma história

(alguém aponte o dedo contra
lutero, o antissemita defensor
de elites; alguém aponte o dedo

contra os filhos de pedro, as luvas
que cobriam as mãos sujas de
pio xii, a cara de santo de joão
 
paulo). em algum momento lá
atrás, em algum momento antes
de ontem. daí agora anda no

mato saudando os caboclos,
acende vela pras almas, olha no
horizonte e grita Epa babá, meu pai

Odoiá, minha mãezinha. como assim
tem Nanã na mão direita e Iansã
na esquerda? de silêncio violento

se faz uma estirpe, de rasuras
grosseiras se faz um original
: Laroyê, seu Pinga-Fogo, vela

vermelha ante a semana. das
cores todas que se apagam
o amor não é uma delas.
não vou entrar disse ele dentro
porque a porta está trancada
porque as janelas as janelas
tampouco há saída pelo forro

(nesse castelo de cartas eu sou
o ar entre as cartas e tu és a
gravidade, veja só como tudo
desmorona tão rápido, tão fácil,

que dá até gosto ver acontecer)
[embaralham-se enlaçam-se
se enozam tão bonito, bonitos]
só é possível saber pela fresta

por onde também entra uma
nesga de luz.
te querer como quem admira um
banheiro limpo sem traços de
presença humana que seja o branco
do cloro - as vias aéreas docemente

queimadas, também na língua o gosto
do que é desinfetante e pureza. te querer
como quem admira o papel intacto onde
poema algum anotação alguma jamais

caberia porque é de querer que falo
: tudo que precede a vida a experiência
o toque de mãos o resvalar de corpos

(suores trocados, gostos, gozos, gemidos)
te querer como quem sabe que a hora
certa vai chegar, e que chegarás com ela.
deve haver lugar para este corpo
que não seja longe da cabeça que
quer sair sozinha por aí conhecer
os sete mares os cinco continentes
as galáxias todas porque ouviu com
estes ouvidos que são bilhões ou
o pantanal, com que sonha desde
menina quando aquela coleção de
figurinhas do chiclete ping pong
- mas -
deve haver lugar para este corpo
que não seja longe da cabeça que
é uma, logo outra, mais outra ainda
e que espera o lítio, a sertralina, a
risperidona, o diazepínico. deve haver
um lugar branco limpo clínico em que
se dão bem em que andam a passos
contíguos em que se abraçam em que
não se pretendem tão longe em que
não se odeiam até quase se amam
poderíamos dizer
o desdém diante das cruzes
foi a mãe ou foi o pai quem
construiu a capelinha? tão
jovens e nessa rodovia que

inauguraram antes de ontem.
tsc tsc tsc tsc tsc a cabeça
acompanha os movimentos
da língua. talvez amanhã pare

para ler os nomes. ninguém
merece morrer tão cedo e
fazer sofrer os pais. a mãe

é quem coloca as flores.
amanhã, se tudo der certo,
acendo uma vela pra eles.
um edifício é erguido
naturalmente de baixo
para cima

(porém, meu bem)

é de cima para baixo
que se conhece um
prédio em construção

desde o concreto fresco
desde o tijolo tosco
até as paredes o reboco
as lâmpadas a porcelana
e um apartamento modelo
feito propositalmente para
que possíveis compradores
sintam-se melhores pessoas
famílias felizes
amantes amentes
e a coisa toda

mas um edifício é uma
porção de ferro concreto
tijolos canos de cobre
eletrodutos canos de plástico
e o diabo
e todo resto que se imagina ali
é o que se imagina ali entre coisas
escondidas nas paredes
sobre estacas que feriram fundo
a terra.

.risperidona.

deixa a tarde cair deixa
o dia findar não é porque
se encerra a tarde que
terminarás como ela.

deixa a noite surgir
deixa a cabeça acalmar
- talvez sonhes essa
noite como sonhaste
 
na última. o dia inteiro
esteve cinza mas
quando chumbo pesa
 
mais. as horas uma
atrás da outra não se
perguntam aonde vais

(e assim mesmo caminhas).
a louça limpa na pia como
se a casa esperasse visita c
omo se eu esperasse que
entrasses aqui, tu e minha

família para um almoço de
domingo. a casa organizad
a para receber quem não v
em - porque a estrada, a es

trada. a cama arrumada co
mo se fosse receber corpo
s. o som ligado como se p

ara dançarmos. eu que nã
o sei dançar, eu que moro
no sofá porque ali não há

o outro lado da cama.
há no outono essa luz
as manhãs manhosamente frias
o encurtamento aceitável dos dias
e algum conforto
 
(ergue-se uma cidade inteira de mortos
de sotaques e bandeiras distintos
- diz o jornal, dizem as pessoas cautelosas
e de resto resta o silêncio furioso dos enlutados)

mas há no outono essa luz
esse frio que não fere
esses dias que não agridem
e o refúgio cretino do poema

atrás do qual se escondem os covardes.
alternar o poema entre
as mãos arremessar pa
ra cima como se molho
de chaves fosse guarda

r no bolso e esquecê-lo
ali para reencontrar no
metal da máquina de la
var, irreconhecível. atira

r longe como se faz com
as guimbas de cigarro m
irar na lixeira no bueiro e

perder o poema na sarje
ta como o que realment
e é: efêmero, inútil.
sempre outono sempre
acordar cedo para acom
panhar os adultos no cu
lto de páscoa - sempre f
ez frio no vale essa époc
a do ano - e tentar enten
der a morte e a ressurrei
ção de jesus que nem be
m havia nascido direito
natal foi antes de ontem
e bater quem sabe os pe
zinhos no chão da igreja
ansioso pelo que viria:
pegadas pela casa marc
adas com giz de quadro
apontavam a direção: li
gia assistia vinicius assi
stia o pai também a mã
e na cozinha preparand
o almoço de domingo e
e eu de lado pro outro p
rocurando a cestinha em
cada canto perdendo a
inocência em cada canto.

era tão bonito.
abre as janelas para que
saia o ar refrigerado arti
ficialmente, escape pelas
frestas. abre a janela por
que o vento vem do sul
prometendo limpeza e
renovação melancolia e
saudade frio de outono
e fotografias com aquel
a luz em fim de tarde. a
bre as janelas porque o
vento vem do sul e vem
com força e traz notícias
que não compreendes
ainda. abre as janelas pa
ra que o vento te limpe
de ti mesmo. abre, abre
as janelas. é seguro, ago
ra. já não voarás por elas.
como destruir uma máquina
ou talvez nunca te esqueças
das noites a fio acordado en
tre o canudo e o copo entre

a fissura e o efeito entre vol
tar para casa ou permanece
r. como destruir uma máqui
na ou nunca aprendeste a li

dar com a culpa ou nunca li
daste bem com tantos cigar
ros - um atrás do outro - qu

e são uma forma de suspira
r, dizia quintana, ou apenas
uma forma sutil de morrer.
como consertar uma máquina
ou talvez não te recordes teu
nome por inteiro. talvez te fal

te espelho onde te identificar
es, um colo onde deitares teu
s pensamentos, um olhar alhe

io que te sirva de reflexo. com
o consertar uma máquina ou a
ceitar o que não tem conserto

humano que és e te esqueces
te humano que és e já não sa
bes humano que és e ainda vi

ves.
chega uma hora não é mais sau
dade é aconchego de travesseiro
quente é abrigo duma chuva muita
é entrar em casa e sentar-se no

sofá. chega uma hora não é mai
s saudade é aquela macarronad
a que a mãe fazia é receber a vi
sita de lígia e conversar sobre t

udo com vinicius em chamada d
e vídeo: como estão as crianças
como foi que o brasil entrou na

guerra. chega uma hora não é m
ais saudade, entendo, mas por fa
lta de nome melhor, saudade con

tinua sendo.
manual de como derrubar uma parede

1. queira muito.

2. imagine a amplidão do espaço, veja além, ignore o concreto.

3. com uma talhadeira e um martelo, descasque o reboco à procura da viga - não toque nessa parte. tudo que não for viga pode ser removido.
obs: é no reboco, e não nos tijolos, que estão guardadas as lembranças; é no reboco que ficam os ouvidos das paredes.

4. com uma furadeira, faça o jogo de liga-pontos nas medidas da parede a ser derrubada. adentre a parede com a broca e veja o que sai dali. uma casa é um punhado de tijolos e argamassa bem montados. somente um lar sangra, uma casa não. e, mesmo assim, sangra por outras vias, não por buracos feitos na parede.

5. una os pontos com uma talhadeira. agora não serão mais pontos, serão riscos. e o risco, aqui, começa a ficar alto.

6. entre o que for ficar e o que for sair, ponha delicadeza. é preciso precaver-se contra o impulso de querer ver tudo abaixo.

7. já devidamente marcada a área que se quer extinta, é preciso empunhar a marreta com apego e força; não se trata mais de derrubar a parede, trata-se de bem outra coisa, como se cada golpe tivesse um nome, uma data, um rosto.

8. terminada a derrubada, é preciso recolher os destroços. para isso é preciso saber empunhar uma pá de recolhimento. aprendi com meu pai a recolher destroços, coisa que já não é mais possível - vocês não poderão mais conhecê-lo -, mas em resumo: é preciso ter a inclinação certa, é preciso ter o impulso certo para a frente, é preciso parar de forma abrupta esse impulso (a pá está cheia), é preciso saber guiar com o cabo até onde os dejetos serão depositados.

9. é preciso aparar as arestas, juntar os cacos, olhar atrás do armário, embaixo da cama: sempre sobram vestígios.

10. é preciso acostumar-se com a falta que a parede faz quando não está ali. porque já esteve, mesmo que não pareça. talvez já tenha estado, mesmo que não se lembre. algum dia houve uma parede aqui?
(poema só pra Juliana Maffeis)

a gente se perguntando
cadê as gurias se tão no
bar ainda se vão chegar

ainda se mesmo existem
cadê as gurias? como se
houvesse noite como se

houvesse vida mas é tudo
tão morno nesses tempos
que talvez as gurias nem
 
estejam aí, pela volta, talvez
nem existam as gurias. eu
quebrei a parede para ver

se te encontrava do outro
lado, mas só havia o outro
lado e essa saudade filha da

puta de ti numa noite quente
em porto alegre quando falamos
sobre cadê as gurias, e elas

tavam vindo e nos sentamos
todos à mesa, tu, eu, as gurias,
sem nem saber que o que viria

pela frente seria tão ou mais
grave que. derrubei a parede
a marretadas porque o peito já

anda fraco de tanta falta e se
me pergunto cadê as gurias eu
me pergunto cadê tu, cadê eu

onde foi que a gente veio parar.
Quando Jean-Paul Sartre
morreu - depois de recusar
o prêmio nobel de literatura -
em 1980 já ninguém se lembrava

que

Lê Đức Thọ recusou o nobel
da paz que receberia junto
de Henry Kissinger, em 1973.
Menachem Begin recebeu o

prêmio em 1978 - apesar de
Israel ter lavado as mãos diante
dos massacres de Sabra e Chatila -
junto de Anwar Al Sadat, o egípcio

que abraçou Jimmy Carter, nobel
da paz em 2002 (Jimmy foi quem
entendeu que era necessário derrubar
as ditaduras na América Latina pois

aqui havia muitas armas e já ninguém
precisava de um novo Vietnã). Arafat,
Rabin e Peres receberam o nobel da
paz em 1994 - o primeiro vendeu a
 
Palestina, os outros dois a queriam
destruída (não mais que Netanyahu,
filho destes três). Barack Obama
recebeu o nobel da paz em 2009

- yes we can realizar mais de 26 mil
bombardeios somente em um ano
(quem conta os civis? quem conta?).
Juan Manuel Santos recebeu o prêmio

em 2016 pelo acordo de paz entre
o Estado e os militares das Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia
(somente um lado depôs armas e os

mortos contam-se às dezenas).
A paz é um buraco fundo cheio
de corpos cobertos de cal. E Sartre
só recusou seu prêmio porque era

ainda mais vaidoso que aqueles
que aceitaram recebê-lo.
não é que não aconteceu nada
nos noventa porque na música
os raimundos e chico science e
os melhores álbuns de titãs e e
ngenheiros e legião urbana e n
a política fhc comprando votos
para a reeleição e o mst toman
do tudo derrubando cada cerc
a com amor e com fome tamb
ém tinham fome os meninos d
a candelária e os assassinados
de eldorado de carajás o pai s
aiu de casa nessa década eu s
aí de casa nessa década quan
do as torres gêmeas ainda est
avam de pé quando o muro d
e berlim ainda ruía aos pouco
s para então gritarmos é tetra
é tetra é tetra ou ouvirmos se
nna bateu forte morreu ayrton
senna da silva a notícia que nó
s nunca gostaríamos de dar e
também morreu renato russo
e também morreram os mamo
nas e também morreu doutor
ulysses e sei lá mais quem não
é que não tenha acontecido nad
a de importante nos noventa m
as ô decadazinha de merda.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...