25 de nov. de 2023

então era mentira que estiveste
em santiago naquele setembro
e depois - costa gavras filmou e
não apareces nem como figura

nte. imagino a vergonha: ver os
amigos tombando sob as botas
ver os amigos pedindo água pe
dindo terra sobre suas covas. qu

e terias feito para além do que f
izeste: escrever livros antes de m
orrer para alimentar tua família

que terias feito. decerto faria o m
esmo. decerto nos encontraremos.
te espero no méxico, roberto.
não pode ser amor se não
te fere não pode ser amor
se não te fode não pode s
e não te engole te tritura

te maltrata. não pode ser
amor se não te quebra se
não te verga se não te ab
ala. se não te descama s

e não te inflama se não
te queima também não
pode ser. como será en

tão que é se não te mor
de se não te sangra se n
ão te come numa colher.
em pleno século 21 as pessoas
morrem de fome as pessoas se
matam de tanto comer as pessoas
metem a mão na goela em pleno

século 21 as pessoas enriquecem
às custas da dor alheia as pessoas
engolem o choro logo de manhã
as pessoas sofrem em pleno século

21 as mesmas guerras são lutadas
as mesmas guerras são perdidas
e nós ainda morreremos todos,
de dia, em pleno século 21.
um poema para o Caio Augusto Leite

o sol não mereceu tua visita
embora o vento frio tenha
nos lambido os cabelos numa
manhã que entardeceu inverno

e o mar: faz-se outro porque
te tem de pés e alma, nesse
encontro curioso de amigos
que não se viam há muito tempo.

aqui faz casa vazia, embora eu
esteja dentro dela olhando uma
parte que falta; pela janela (que

tantas vezes me segurou do salto)
há este olhar que de sobressalto
não faz mais que esperar a tua volta.
um pássaro ao chão
mais um
mais outro
e o aeroporto não fecha
e os aviões continuam a
decolar
- teto baixo -
difícil que é conhecer o mar
a bordo de um submarino.
i.
a ingenuidade dos passos das crianças
a beleza ignorada dos ratos do centro
até aqui vinha o mar, digo para as visitas
eu só venho até aqui, digo para mim mesmo

ii.
os edifícios todos se parecem vistos de baixo
a dança das crianças de mãos dadas com as mães
toda semana muda quem entrega prospecto de dentista
o mar agora está lá atrás, sussurra o aterro no meu ouvido
 
iii.
as crianças que atravessam sem olhar para os dois lados
os ratos e os prédios se alimentando uns dos outros
o mar um dia toma tudo de volta, digo olhando no espelho
eu já vim até aqui, e tenho força para ir adiante.
dos anos oitenta restou essa
esperança junto de saudade
nenhuma da hiperinflação

dos noventa: a falta do pai,
o primeiro porre, paixão pela
menina da oitava série

nos dois mil acabou-se o mundo
acabou e recomeçou tantas
vezes, nunca entendi direito

década de 10: estar sóbrio,
estar vivo, escrever uns livros,
alimentar as gatas

década de 20: o que será
o que será o que será o q
ue será o que será o que
olha ao teu lado e vê quem
caminha contigo
mesmo que erres o passo
mesmo que erres
palavras

chove sobre metade do país
e é essa a notícia para hoje

: enquanto não vêm, os fantasmas
assombram sempre mais do que
quando sentam à mesa conosco.
se paula toller não tivesse
composto meus oito anos
talvez nando reis deixasse
de compor o mundo é bão,

sebastião,

e certamente - certamente! -
não haveria esse poema como
tentativa de assobio num dia
tão cinza e gravemente tão

tarde.
i.
no fim os domingos não eram ruins
ou porque nos desacostumamos ao
tédio ou porque aprendemos com o rock
dos anos 80 um monte de besteiras
que precisamos repetir nos 90 - ou
outra coisa ainda, não sei bem,
mas os domingos não eram tão ruins
(ainda não são) embora o terror venha
se consumando e me consumindo com
o passar lento das horas [pra quê tanto
dia num dia só?] ou porque me lembre
de um tempo que não sei se houve mas
se tiver havido que falta faz!, mesmo que
calendário algum mesmo que bilhete
algum rememore um dia tão besta tão
inerte e dolorido - domingo - dia tão
pouco digno de nota.

ii.
ontem fui ver o mar e quase disse
àquele homem brincando com o filho
que sorte têm, ele e o menino
iii.
outro dia cheirei o perfume de alfredo
e foi como se trouxesse meu pai para
bem dentro dos meus pulmões.
olha acima: é lá que habitas
olha pra baixo e verás tua
casa - preso entre paredes
e aerado como nuvem pesada

(por quantos anos essa subida
íngreme e esse declive veloz e
com frio na barriga. quantos
anos de escadas e quedas
 
estradas pavimentadas e
trilha entre as macegas) não
estás sozinho, porém. olha

os comprimidinhos que te
acenam, ouve o relógio que
apita, sente a calmaria também.
o que há por trás do teu
dia que não seja noite apenas
haverão horas amenas por
trás do que é o certo e do que

é o esperado? se não mentem,
o que há mais por trás de tuas
lentes e não pode ser alcançado
- olhos que olham outros olhos
 
entre embriagados e fugitivos
entre receosos e prestativos -
entre um piscar e outro ainda

continuam ali, me olhando, porque
é dia, porque faz inverno, apesar do
inverno, apesar da tela fria.
mantém distância do que
é sugestão e inviabilidade
: o amor, a morte

abraça com força tudo em
que tropeçares, solidão e
sorte

caminha, cabeça erguida,
à procura de norte algum
(posto que mutável e transitório)

acha lugar para ti naquela
caixa de fotos, já que não sais
dela, já que não sais de ti.
.tratamento.

dia sim dia não
o degrau desaparece
ou o pé com muita
força não encontra
o piso onde deveria

dia sim dia também
apertem os cintos
senhoras e senhores
começa aqui o trem
fantasma a montanha
russa não para nunca

dia sim dia não a moça
me pergunta como anda
minha vontade de morrer
e lhe respondo quem quer
mesmo viver nesse mundo

desgraçado?
(o assento era engatado no
guidom em sua parte anterior,
ou seja, o menino ia virado para
o pai, de costas para o caminho

: não via o pai, mas seus braços
sua barriga, suas pernas. talvez
gotejasse suor sobre o menino
talvez o caminho não importasse

tanto). o pai me dizia Não olha pra
trás que a gente cai. pra trás: pra
frente, na verdade, porque o menino

ia de costas. mas eu olhava.
rapidamente eu olhava o caminho
e depois o homem que por ele me

levava.
de silêncio em silêncio se faz
uma continuidade de rasura
em rasura se faz uma história

(alguém aponte o dedo contra
lutero, o antissemita defensor
de elites; alguém aponte o dedo

contra os filhos de pedro, as luvas
que cobriam as mãos sujas de
pio xii, a cara de santo de joão
 
paulo). em algum momento lá
atrás, em algum momento antes
de ontem. daí agora anda no

mato saudando os caboclos,
acende vela pras almas, olha no
horizonte e grita Epa babá, meu pai

Odoiá, minha mãezinha. como assim
tem Nanã na mão direita e Iansã
na esquerda? de silêncio violento

se faz uma estirpe, de rasuras
grosseiras se faz um original
: Laroyê, seu Pinga-Fogo, vela

vermelha ante a semana. das
cores todas que se apagam
o amor não é uma delas.
não vou entrar disse ele dentro
porque a porta está trancada
porque as janelas as janelas
tampouco há saída pelo forro

(nesse castelo de cartas eu sou
o ar entre as cartas e tu és a
gravidade, veja só como tudo
desmorona tão rápido, tão fácil,

que dá até gosto ver acontecer)
[embaralham-se enlaçam-se
se enozam tão bonito, bonitos]
só é possível saber pela fresta

por onde também entra uma
nesga de luz.
te querer como quem admira um
banheiro limpo sem traços de
presença humana que seja o branco
do cloro - as vias aéreas docemente

queimadas, também na língua o gosto
do que é desinfetante e pureza. te querer
como quem admira o papel intacto onde
poema algum anotação alguma jamais

caberia porque é de querer que falo
: tudo que precede a vida a experiência
o toque de mãos o resvalar de corpos

(suores trocados, gostos, gozos, gemidos)
te querer como quem sabe que a hora
certa vai chegar, e que chegarás com ela.
deve haver lugar para este corpo
que não seja longe da cabeça que
quer sair sozinha por aí conhecer
os sete mares os cinco continentes
as galáxias todas porque ouviu com
estes ouvidos que são bilhões ou
o pantanal, com que sonha desde
menina quando aquela coleção de
figurinhas do chiclete ping pong
- mas -
deve haver lugar para este corpo
que não seja longe da cabeça que
é uma, logo outra, mais outra ainda
e que espera o lítio, a sertralina, a
risperidona, o diazepínico. deve haver
um lugar branco limpo clínico em que
se dão bem em que andam a passos
contíguos em que se abraçam em que
não se pretendem tão longe em que
não se odeiam até quase se amam
poderíamos dizer
o desdém diante das cruzes
foi a mãe ou foi o pai quem
construiu a capelinha? tão
jovens e nessa rodovia que

inauguraram antes de ontem.
tsc tsc tsc tsc tsc a cabeça
acompanha os movimentos
da língua. talvez amanhã pare

para ler os nomes. ninguém
merece morrer tão cedo e
fazer sofrer os pais. a mãe

é quem coloca as flores.
amanhã, se tudo der certo,
acendo uma vela pra eles.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...