30 de jun. de 2009
Conversa.
Eu sonho, entendeu? E sonho acordado, geralmente. Geralmente quase sempre, pra falar a verdade. Na verdade, só acordo na exata hora de dormir ou no final do mês quando vejo que não vou ter como pagar o aluguel ou comprar o café da manhã. A insônia e o final do mês são dois grandes relógios despertadores de madeira que badalam todas as horas existentes. Sabe como é? De madeira, na parede, badalando irritantemente.
Você há de entender quando eu silenciar. O silêncio é insuportável, convenhamos. Mais irritante do que as badaladas do relógio na parede. Mas é inevitável, convenhamos. Como é irritante no rock inglês quando vai explodir, mas não ainda, ainda não, e o mesmo acorde na guitarra seca, todo mundo sabe que vai explodir, o mesmo acorde. É irritante. Quando explode, quando a música se multiplica, a irritação dá lugar ao prazer. Por isso eu silencio. Não estou pensando em nada, não. Me deixa quieto e por aí vai.
Não é difícil se apaixonar por você. Sua pele. Posso te chamar de tu? Tua pele, então. E teus olhos. E teu sorriso. E tua voz ancestral — não sabe? Parece que falas há muito mais tempo: soa bem.
Então tu tens que entender que não é difícil eu perder o sono por tua causa. Não, não me fizeste nada. Não conseguirias me fazer nada, na verdade. Eu é que me faço. Eu é que penso demais, vou longe demais, vôo.
E tu vais ter de entender quando eu quiser falar de mim. Se eu gosto de te ouvir? Claro que sim! Nunca te disse? Te ouvir é a minha oportunidade de falar sem falar. Sim, as frases se completam sozinhas, sem eu intervir.
Quer dar um passeio? Me leva contigo. Não importa pra onde, só me leva. Tá aqui a minha mão, o meu braço. Tô aqui eu todo. Vamos?
(...)
Sorri. “Vamos?”, pergunta. Sorri mais aberto, mais sorriso. “Vamos, então?”, insiste. “Não quer mais ir? E se não quer, por que não?”.
No espelho, o reflexo mudo aguardando a resposta que não virá.
25 de jun. de 2009
Surpresa!
Um enorme carinho pelos escritos que vem nascendo pelas letras da DDa Silveira, do Bom Dia Borboletas e por mim no www.pincelecaneta.blogspot.com.
Vamos escrever, porque a palavra, o que é? Enxovia ou pingoteava?
Até segunda ordem, vou pensando em perguntas e respostas e anseios e cansaços.
E sumo daqui por uns momentos.
20 de jun. de 2009
Cinco poemas calados.
Tem um grito surdo
que sai do meu estômago
e me diz que a vida é bonita.
Sabe como é?
LAMPEJO #14
— E o que eu escrevo aqui?
— Não escreve nada, vai.
— Mas ela quer saber.
— Então diz que eu sou confuso e fiquei ainda mais confuso por ela ser tão brilhante.
— E...?
— E que eu tenho medo de me apaixonar.
— (...)
— E que não quero sofrer e essa coisa toda.
— Tá pegajoso esse email. Muda a pauta.
— Então diz que eu sou viado e pronto!
LAMPEJO #15
— Muda de vida, pô!
— Mas como?, diz chorando.
— Pára de beber desse jeito. Vai se acabar em nada.
— Pára de me encher o saco!, diz entre soluços.
— Por que tu faz isso contigo?
— Porque dói, entende?
LAMPEJO #16
“Tá com medo de mim?”
Eu era casado, na época, e nem por isso tinha do que me arrepender. Deitado no sofá, ela ali do lado. Não foi pelo sexo, foi pela cama quentinha. Dez dias com dor no corpo mastigado. Me comeu direito, aquela puta.
LAMPEJO #17
Minha mãe me dizendo pra eu não ser tão eu quando encontro com mulheres. Pra ser mais normal, não vomitar por aí meus insights*. Minha mãe dizendo, num conselho amigo, que pensando como eu penso não chego a lugar nenhum.
— E essas coisas que tu diz, meu filho, espanta qualquer uma!
Não é de hoje, mãe.
*Mamãe nunca soube o que eram insights, o que torna essa imagem meramente ilustrativa.
15 de jun. de 2009
sem título.
10 de jun. de 2009
email engasgado.
Imaginei uma cena romântica ao meu modo: te levava para ler sob o sol que banha o parque nos finais de semana. Acontece que tu lerias Nietzsche e eu te leria Mirisola nos ouvidos. Também é Marcelo, ele — nunca acreditei num escritor com esse nome — e leria voluptuosamente putas e paus e bucetas e cus, mais por charme do que por necessidade. E quem sabe eu te lambesse a orelha e isso te excitasse. Enfim.
Conhecer a obra desse cara foi o que me salvou a vida. Estou escrevendo um romance sobre bem outra coisa, simplesmente por inveja: se ele pode, eu também posso, mesmo que muito menos. E te conhecer foi bonito. De qualquer forma.
Outro dia tava afim de sexo e escrevi um poeminha bonitinho — com gosto de anis ou tutti-frutti com látex — pra comer ninguém. Mas eu te recomendaria esse poeminha bonitinho e ordinário como um exemplo do bonito e sórdido que eu consigo ser. Mas para ti seria apenas o bonito. O sujo ficaria nas entrelinhas. Como sempre.
Não sei das tuas amarras, mas suponho. E te entregarei nos lábios quantos LM tiveres coragem e vergonha de fumar. O cigarro é um símbolo fálico pra quem acredita na psicanálise, e eu sei que tu acreditas até em Deus, então porque não entrar na onda e pensar com prazer nos meus cigarros. Pois é.
Eu sou sim um babaca, mas com todo o sentido do mundo. Não te lambi a orelha e certamente não lamberia se não soubesse que devia. E não te beijaria loucamente com intenções claras de te levar pra cama se não me convidasses antes. Prefiro beber, como agora, mas na tua frente e falar quantas asneiras melodramáticas e ególatras me vierem à cabeça. E te ver sorrir com isso. Feliz ou não.
É isso. Té mais.
5 de jun. de 2009
Pessoas.
Cláudio veste-se de mulher para satisfazer a esposa.
Luisa escova os dentes com escovas roubadas.
Antônio coleciona peças de acidentes automotivos.
Victor realiza abortos em adolescentes.
Valda excita-se com a presença do seu filho.
Ramón crê ser um super-herói.
Antunes trabalha como limpador de fossa. Ama o que faz.
Beto faz amor com vira-latas.
Vitória chora ao ver um obeso.
Douglas nunca dorme.
Amanda bebe.
Suzana crê.
Marcelo apaixona-se vez ou outra.
4 de jun. de 2009
Poema para acabar com todos os poemas.
27 de mai. de 2009
Três poemas metalingüísticos.
A gente escreve,
escreve,
e faz chegar a tantos lugares.
Mas quem escreve
tem sempre ali
a bunda sentada
na cadeira.
LAMPEJO #11
Abres teu livro:
suspiras, sorris,
não sei.
Depois outro,
depois outro.
E um dia te crês
personagem capaz de
aventuras!
Ao apito do relógio,
sentes a máquina dos dias.
LAMPEJO #12
— Eu teria escrito isso.
— Assim tão bem?
— Muito melhor, imagino.
— E por que não escreve, então?
— Preguiça filha da puta.
25 de mai. de 2009
Três poemas hospitalares.
O hospital inteiro na minha frente,
monumental.
Janelas.
Onde é a UTI? Janelas tristes.
E o Centro Cirúrgico? Janelas tristes.
Onde que morre mais gente?
Pensando, pensando
até concluir que ali, aos poucos,
como eu, esperando
o tempo passar,
esperando o cigarro acabar.
Esperando.
LAMPEJO #08
— E o que ele disse?
— Que não era nada.
— Eu achava que era coração.
— Coração?
— É, coração.
— Partido?
— Não. Ingênuo mesmo.
LAMPEJO #09
— Não dá. Tá perdido. Desenganado mesmo.
— Falou alguma coisa?
— Não quer ver ninguém.
— Esse filho da puta. Que pelo menos deixe avisado que me deve.
13 de mai. de 2009
Três poemas para a quarta-feira.
De tanta saudade
que sentia,
até parecia que
se tinham amado
pelo menos
por um dia.
LAMPEJO #05
Um cigarro,
mais um,
mais um outro:
só mesmo fumaça
pra entreter
quando o tempo
não passa.
LAMPEJO #06
Não dormia
sem perder algum tempo
exercitando-se diante
da ousada fotografia.
8 de mai. de 2009
Três poemas para a sexta-feira.
LAMPEJO #01
E é assim, maninha:
a gente pensa numa
coisa bem triste
e outra, muito bonita
— sem sequer se ter
pensado nela —
aparece.
LAMPEJO #02
Olhar-se no espelho
e pensar:
“Taí, boas lembranças”.
E achar que o trapo
agarrado a elas nem
é tão trapo assim:
renderia num brechó.
LAMPEJO #03
Um roquezinho
no café,
um roquezinho
no almoço;
(pra dormir bem,
só o som do telefone).
4 de mai. de 2009
Sobre fatos.
Vai o sujeito andando pela rua. É um rapaz de bom-humor. Deve ter saído da casa de um amigo, do apartamento da namorada. De qualquer forma, vem tendo um dia bom, pois anda olhando firme e a passos largos, como é normal das pessoas confiantes e bem-humoradas. Teve um dia bom, porque seu humor está aguçado e sente-se a si uma pessoa boa, tem ares de carismático. Caminha para casa por ruas paralelas à grande marginal: é início de outono, apesar do calor sufocante, fora do comum, e a essa hora (batem dezessete horas nos sinos de alguma igreja dali de perto) a luz é engraçada por essas ruelas. Bate, mas não bate. Luz preguiçosa de outono, como é em todos os cantos que beiram o Trópico de Capricórnio. Vai andando e percebe, encostado à calçada, um carro conhecido. O rapaz de bom-humor, não se pode esquecer dele.
II
O carro pára no sinal vermelho. O sujeito conversa com a esposa ou cliente no telefone celular. Nem percebe quando é aberta a porta do seu carro. Ao seu lado, um homem que não consegue identificar como é: não o enxerga. Sente somente algo que cutuca sua barriga, do lado direito, logo abaixo das costelas e uma voz que diz impaciente: “Vai, vai, vai!!!”, e o sujeito anda, assim que o sinal abre. Nem devagar nem rápido. Suas pernas tremem. A essa altura, o homem já lhe tirou o celular das mãos e o pôs na pochete que traz na cintura. O homem perto de casa — mais cinco ruas adiante, dobra à esquerda que vai dar num bairro tranqüilo, nem centro nem bairro, perto do banco, do hospital e da padaria, mas longe do barulho. Com o raciocínio difícil de quem encara um situação difícil, o sujeito pensa que não poderia chegar em casa com o homem a seu lado: estupraria sua esposa e sua filha, torturaria o filho mais velho, quebraria os móveis de design italiano e sujaria o tapete persa novinho, comprado em liquidação. Duas quadras antes de casa, o sujeito pára o carro a pedido do homem que lhe havia seqüestrado. O homem lhe pede o relógio e a carteira, que ele entrega com dificuldade. Só não lhe pede a arma porque não sabe que há uma arma debaixo do banco do motorista. Se soubesse, talvez nunca tivesse entrado nesse carro, mas em outro, com pessoas desprotegidas. Pois que, falando em arma, agora o sujeito motorista lembra dessa. Sabe que consegue pegá-la, já que fez este exercício pelo menos uma centena de vezes, mas não tem coragem. Sabe que conseguiria dobrar o assaltante e meter-lhe uns tiros na fuça, mas não tem coragem. Por poucos não urina nas calças: lembra do banco de couro. O homem assaltante deixa o carro e diz para o sujeito motorista não fazer qualquer movimento com o veículo, que ele volta correndo e lhe tira ainda o carro e a vida. O sujeito motorista obedece. Fica ainda um tempo esperando depois que o homem some do reflexo de seu retrovisor. Engata a primeira — as pernas tremendo — e acelera pela rua paralela à marginal. Chora. Chora como uma criança, e não é senão por isso que ele não consegue mais dirigir. Pára o carro. Agora mais perto de casa. Pára o carro sobre a calçada, na diagonal, como alguém que quisesse estacionar e estancou no meio da manobra. Chora ainda, mas menos. Agora pega a arma. Pega e põe de volta umas vezes, para lembrar do que deveria ter lembrado na hora do assalto. O que não é um homem com o orgulho ferido. Segura firme a arma. Pensa que deve ir atrás do seu algoz, o maldito filhadaputa que lhe fez quase cagar-se de medo. Este que paga os impostos, que paga um bom colégio para seus filhos, que nunca fez mal a ninguém. Enche-se de hombridade, engatilha a arma, vê que consegue segurá-la com firmeza. Mais uma crise de choro, agora encenando o ridículo do orgulho ferido, ele que era a vítima que não tinha quem o desse a mão. A cabeça pendendo contra o peito, o peito pendendo contra o volante, a arma segurada com as duas mãos entre as pernas entreabertas.
III
Vem o sujeito-moço, andando bem-humorado por causa do entardecer de outono e, longe, percebe o carro conhecido. De bom humor e seguro de si, já cumprimentou quatro pessoas desconhecidas pelo caminho de volta de onde estava e só não recebeu o cumprimento de volta de um homem, o último com quem cruzara, que lhe encarou com raiva de gente medrosa. Vê o carro parado, reconhece a placa, diminui o passo. Dentro dele, um homem sentado meio de lado e com a cabeça baixa. Vê, pelo lado esquerdo, que o vidro do lado direito, o vidro do motorista, está aberto. Inclina-se para frente e caminha a passos leves, como que para evitar ser percebido. Quando chega ao lado da janela, levanta-se e grita sorrindo: “Pai!”, enquanto que o homem sentado dentro do carro, com uma arma engatilhada e as mãos firmes que a seguram, sem tempo para pensar, medir, equacionar, despeja-lhe o carrossel de cinco balas. No rosto.
Em 10 de agosto de 2008.
24 de abr. de 2009
O Luiz de Laura.
No rádio a pilha, instalado na pequena cozinha do casebre de madeira, o rádio. No altar, o rádio. Nenhum santo na casa, somente o aparelho que trazia ruidosas canções de longe, informações pouco importantes de lugares desconhecidos, pessoas que não se sabia se existiam, tragédias que não afetavam Laura nem um pouco.
Nunca tinha visto índio de perto. Negro também não. Índio e negro eram duas pessoas muito feias, muito distantes, que viviam para além das montanhas ao norte, para além das montanhas ao sul. De qualquer forma, também pouco se importava, embora a curiosidade por saber o que havia mais ao norte e mais ao sul lhe corroesse as noites de bom sono.
Essa é a história bonita de Laura, menina-moça de algum interior onde se tinha de caminhar quilômetros atrás de pilha pro rádio, o pai que mandava buscar.
Uma tarde, depois do almoço, a barriga cheia, Laura deitou na rede. O rádio ligado, os ruídos aos quais se acostumou lhe ninando a sesta. Não mais que de repente, o silêncio. Laura pensou, me disse anos mais tarde, que tivessem acabado as pilhas. Deu de ombros.
Não, não eram as pilhas que tinham acabado. Nem era a mãe que o tinha desligado, aquele barulho dia e noite, nem se entende nada que fala essa merda. Apenas não havia mais ruídos e dali, da caixa com alto falantes de onde saiam todas aquelas vozes roucas, as notícias desinteressantes, as músicas fanhas, começou a sair uma voz...
Uma voz, sim. Não. A voz. A voz que a merda do rádio velho nunca permitira que fosse ouvida com tanta nitidez, com tanta beleza. Eram palavras de caramelo — assim me descreveu Laura — e a respeito das quais não tinha o que dizer simplesmente porque não as entendia. Problema no rádio, chama o pai, mãe me ajuda. Não. Não eram palavras tortas.
A voz grave e profunda do homem que cantava fez Laura molhar-se de suor e excitação. As lágrimas que lhe caíam dos olhos eram desejo e eram raiva da vida pequena que vivia (entre os morros do norte e os morros do sul), eram paixão à primeira ouvida.
Devia ser da cidade. Mas para onde? Um dia foi levando trezentos mangos ou menos, não soube me dizer. Foi loucamente para a Cidade. “Aonde fica?”, “Pra lá, Laura!” E foi. Descobriu o asfalto, soube o que eram os prédios, assustou-se com os automóveis. Ia voltar logo. Precisava trazer um pedaço daquele homem, do tal Luiz de sobrenome impronunciável.
Quanto custava chegar à Cidade? Quanto custava retornar? E o disco de Louis Armstrong, quanto custava? Soube, afinal, do que se tratava um homem negro. Lambeu os lábios ao vê-lo retratado na capa do LP. “Onde mora ele? Muito longe, filhinha”. Deu os dinheiros que tinha no bolso, não contou.
Isso aconteceu muitos anos atrás, não vale a pena contar quantos. Mas de repente, Laura pede pra me mostrar um tesouro. Sorrio, eu, constrangido, a minha boca contrastando com a boca de poucos dentes de Laura. E ela abre uma caixa de madeira, desembrulha de entre lençóis e jornais o quadrado sagrado pelo qual entregara sua vida. Ali, a foto do grande homem de voz profunda.
Não ousei perguntar se a história era mesmo verdadeira. Mas quando Laura me mostrou a fotografia do cantor, os olhos cheios de lágrimas, não pude duvidar.
— Acredita, moço, que eu nunca coloquei pra escutar? Que não deu uma volta esse meu disco?
— Acredito sim, Laura. E mato quem disser que não.
8 de abr. de 2009
Soltura.
Havia proibições, mas o que fazer com elas naquela altura da vida? Dentro de uma gaveta, eu lembro, papai guardava seu trabalho: uma tesoura de tecelão, um dedal e os tapadores de ouvido. Trinta anos de trabalho naquela máquina, maninha, que ele chamava de a minha máquina. Tapa na mão quando abria aquela gaveta (o trabalho era ainda tão distante) e um grunhido: nem palavras havia ainda.
Tu devias ser um colo, uma mão a passear os dedos pelos meus cabelos loiros, uma nuvem na cabeça, aquele fios brancos e amarelos que escureceram e me fizeram feio. Maninha, descobri tanto tempo depois que bonito era ter a cabeça branca daquele jeito. Mas tu devias estar por lá, quando era tudo bonito e eu jamais te perguntarei se era bonito também para ti: essa beleza é só minha, só minha!, e é um caminho de dominós emparelhados: tocas o dedo e desmorona.
Tudo desmorona. Sinto falta do cão de que nunca vi. Deves tê-lo chamado Ron, porque ele ronronava ron ron ron perto de ti, mas acabou que papai um dia foi chamá-lo e não soube dizer (tu sabias que ele não sabia dizer?) Ron e disse Rão. Engraçado, né, porque com pão ele também não consegue e diz pón até hoje.
Não sei de ti naqueles tempos, maninha. Sei de pouca coisa. Não havia sobre minha cabeça mais do que nuvens que apareciam às vezes: a nuvem da fome, a nuvem do sono, a nuvem negra de umas palmadas que levava — nessa época fazia arte no melhor sentido: era puro prazer.
Depois vieram os passos melhores, traquinagens maiores, e tudo ficou muito vago. Tu nunca me viste escalar a pia da cozinha e buscar, em cima do armário embutido, um cigarro Campeão que papai fumava naquela época. Tu nunca me viste fazer muita coisa. Havia um tempo em que não havia muito que se fazer. Era tão bom. Tu te lembras, maninha? Não me incomodo se disseres que não.
6 de abr. de 2009
Santana, um homem.
Mas nada disso vem ao caso, agora. Acontece que o Santana, cansado de tanta frieza e maldade por parte da esposa, resolveu procurar por um calor de mulher de verdade. Foi pra zona. Ele com outro, a convite dele, o Pereira, seu ajudante na oficina. Santana bebeu, bebeu, tonteou, fumou, fumou e, salário no bolso, enfiou a cabeça nos peitos de uma puta, a Marluce. Se esbaldou nas coxas gordas, nos seios fartos, nos beiços caramelados de batom. Apaixonou-se.
Três dias sem brigas em casa. Três dias de zona. Santana, homem que era, ao entrar na casa de perto do cemitério, falou bravamente do que tinha feito, de quanto gastou e do quanto havia gostado.
Augusta ouvia.
Indiferente, ouvia. Depois de minutos de silêncio, uma voz firme:
— Então, a partir de hoje, moro sozinha nessa casa de merda!
Santana bateu forte com a mão na parede. Olhou macho para a mulher. Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Balançou a cabeça prum lado, depois proutro, começou a chorar de mansinho, depois uivou como um gato e irrompeu num choro profundo e triste que diz, quem já viu, é o choro dos pais de natimortos que gastaram o que tinham no enxoval do bebê.
Chorou sério e o choro durou sete dias e sete noites. No última dia, na última hora, depois de apelos, promessas, carinhos e o pagamento de uma dívida de quatrocentos reais que ele lhe devia, Augusta permitiu que ficasse. Se mudasse, Claro.
E Santana mudou.
Nunca se viu marido mais atencioso e companheiro. Querido por todos como o respeitável esposo da Dona Augusta. E até eram felizes.
Um dia, Santana sofreu um acidente no trabalho (um carro caiu do elevador sobre as suas pernas, coisa horrível!, muito sangue) e ele tornou-se um imprestável. Foi morar de volta com a mãe, velhinha, e vivia de encosto na previdência social.
Augusta, essa se deu bem. Casou-se novamente com um tal de Pereira. Homem caprichoso! Homem homem mesmo! Não levava desaforo pra fora de casa. Morava na mesma casa de perto do cemitério com a Augusta e, da primeira vez que ela reclamou que ele não ia esperá-la na parada de ônibus, a coitada foi dormir toda roxa.
Em junho de 2007.
2 de abr. de 2009
Paola.
7:05. O ônibus, o motorista que me cumprimenta com o sorriso de um velho conhecido. No fundo é, mas ele não sabe disso. Um lugar no ônibus para sentar e ler. Todos os dias, sentar e ler, como uma compulsão, como a pressa de sair do subúrbio, fugir das caras marcadas pelo subúrbio; a minha própria. Mas há pessoas em volta.
A mania compulsiva de encará-las, olhar em volta à procura de quem, talvez, perdeu o horário hoje, acordou mais cedo e não veio agora porque já foi. A moça magérrima, linda, que não pode falar porque perde a beleza. O rapaz com quem ela conversa, de quem tenho ciúmes, queria estar eu a falar com a moça. Não. Queria que o rapaz não estivesse ali para que ela simplesmente não falasse: personagens.
Assim: mais adiante, a índia mexicana. Dezoito, vinte anos. Saberá sua própria beleza? A pintura que carrega no rosto pesa nos meus olhos. Tons róseo-azulados que me fazem somente querer vê-la nua, sem maquiagens, sem retoques. E me faz supor que trabalha numa relojoaria, numa loja de roupas para pessoas que precisam se sentir bonitas.
Enfim, o trabalho, depois da leitura cansativa de um Scliar que escreve para adultos como se fôssemos adolescentes, tratando de Kafka como um nome, apenas. O trabalho: aonde se encontra mais família do que na própria família. Onde se divide, como se fosse família, o que na verdade não se chega realmente a ter. Onde se almoça junto.
Personagens, personagens, como dizê-los?, como dizer-lhes? O bar, a vendedora, o motorista, a menina que caminha rápido, eu os sei. Eu os vejo e os acompanho: sinto falta de encontrar quem me aparece no dia-a-dia. Como dizer que não sentem a minha falta? Afirmo que não, não pode ser, mente fértil a tua.
Um vestígio: uma voz, um olhar, um não-olhar-porque-ele-está-olhando. Quem dera, um nome! Um nome para completar o círculo. Um nome para pensar no nome, não na imagem. Não mais somente na imagem. A fotografia é um arquivo sempre mais pesado do que o texto. Também aqui. O texto do nome: o início da história do nome, da história do meu personagem.
Hoje, sexta-feira, toda a semana percebendo que a índia mexicana de três meses de companhia (qual companhia? Vontade de dizer bom dia e sorrir cúmplice, ouvir o seu lamentar) não apareceu. Deve ter errado na maquiagem. A menina magérrima, linda, começou a namorar: não havia aliança ali há dois dias. Hoje, sexta-feira, entrar no ônibus e descobrir que trocaram de motorista, é assim mesmo, demitem-se pessoas. Mas e eu?
A rotina, o desconhecido. Minha simpatia por pessoas que não têm nome, que acompanho sem querer: me invadem o mês, a viagem, a espera: tornam-se parte dela sem eu querer, sem que possa optar por quem vou acompanhar na semana que vem, por quem desperdiçarei algum tempo pensando: cadê?, quem é?, por quê?, será? Minha simpatia por pessoas que não tem nome. Paola agora tem.
27 de mar. de 2009
(Silêncio).
— É isso, horas.
— Isso, só?
— Depende. Pode ser muito, até.
(Silêncio)
— Falo de amor, sabe?
— Amor é muito grande pra isso.
— Pra isso?
— É, pra gente.
(Silêncio)
— Mas tu está apaixonado, pelo menos?
— Não.
— E sexo sem paixão, o que é?
— É isso que acabamos de fazer.
— Seu cretino.
(Silêncio)
— Não entendo. Não me ama nem está apaixonado. Duvido.
— Não te amo e paixão não existe.
— Como assim? Claro que existe. As pessoas se apaixonam.
— Paixão é uma forma irresponsável de estar junto. Pra não dizer que ama, porque não pode ou não consegue, porque soa sério, se diz que está apaixonado. É uma forma de enganar e ser enganado sem precisar assumir isso.
— Isso?
— Isso de ser enganado.
— Não se fica junto de verdade sem amar, tu quer dizer?
— Sim.
— E por que a gente está junto?
— Desde quando?
(Silêncio)
— E quanto ao amor?
— Não sei.
— Não sabe o quê?
— Se existe.
— E se eu te provar.
— Não consegue.
— E se tentar?
— Não precisa.
— Vou embora.
— Fecha a porta, por favor.
(Silêncio).
24 de mar. de 2009
Desberto.
Desberto mora num casebre construído na beira de um barranco onde perto passa um rio longe de todo e qualquer conforto urbano. Ele mais as crianças, sete, a mulher, vez por outra um primo que vem do sítio procurar emprego, acaba ficando, bebe a pinga do Desberto e vai embora sem porra de emprego nenhum e deixa o homem enciumado.
Desberto trabalha na obra, porque disseram que pagava bem. Pobre coitado, carrega cimento pra cima e pra baixo, levanta ferro na corda, empunha com sacrifício a tora do alicerce. Da obra, só ganhou calo na mão e pele morena do sol. Oito anos de moreno de sol.
Desberto tem os filhos, a mulher, um passarinho pego na armadilha e um cachorro pulguento. Não tem máquina de lavar nem televisão. Tem ali um rádio a pilha onde houve rádio AM no domingo de manhã.
Nada espera do mundo, o Desberto. Rico nunca vai ser, bonito nunca foi, homem só sabe que é porque tem mulher e ela emprenha vez atrás de outra. Desberto espera, na segunda-feira, que chegue logo o sábado, que chegue logo o domingo. De repente, um vizinho mata um porco e trás pra ele, pro Desberto, um pouco de morcilha, uns pedaços pro feijão.
Nem ler, nem escrever, mal contar. Alegria sem sorriso, porque pouco dente na boca e alguma vergonha do vazio na boca aberta. Tristeza misturada com raiva do velho lazarento que lhe arrebentava a cara quando era moleque. Não chamava de pai, chamava de lazarento mesmo.
Mas um carinho da esposa. Carinho cheirando a cloro da mão da Maria faxineira que limpava casa de rico quinze dias por semana. Carinho tímido do filho mais velho que tem vergonha do pai Desberto porque tem esse nome e porque não tem nada no seu nome, só esse filho mais velho mais seis.
Não se pode dizer, no entanto, que Desberto é um homem infeliz. Não sabe o que é ser feliz, isso sim. Aliás, não sabia. Quando soube, era tarde.
Desceu do ônibus, era escuro. Era escurecendo. Viu longe, vindo do morro, nuvem de fumaça. Nem deu atenção. O vizinho ia mesmo queimar lixo lenha matagal. Foi chegando perto, ninguém na rua, um outro correndo morro acima, direção da moradia do Desberto.
Chegou perto, viu a cena: o casebre labareda alta o fogo comendo a madeira e o papelão. Perguntou se a mulher estava, disseram que sim. Perguntou dos filhos, também estavam. Do cão não perguntou, nem do passarinho: certamente que estariam.
Lembrou do velho lazarento lhe esbofeteando a boca, a cabeça, a barriga. Lembrou da promessa da obra, do dinheiro da obra que nunca veio, do dinheiro que nunca veio nem nunca virá pra gente como Desberto. Pensou na mulher, no cheiro de cloro na mão da mulher e soluçou. Tentou lembrar dos nomes dos filhos, não sabia de cor. Sua família.
Um passarinho que cantava e já não canta, virou cinza. Um cão amigo que não late nunca mais. Desberto morto, não sabiam o que ia fazer, pensaram que ia chegar perto, chorar perto do fogo, tentar salvar uma madeira, uma mesa, um colchão. Desberto no meio do fogo sem gritar, sem chorar e sem sorrir. Apenas no meio do fogo, queimando rapidamente a lentidão da chama que lhe abrasava a vida sem nenhuma pressa.
22 de mar. de 2009
Seu nome: Jorge.
Ao sair da clínica, tudo meio nebuloso por causa dos remédios, decidiu que ficaria quieto, não provocaria e não daria a eles conta de suas insatisfações, de sua visão pessimista da vida, da sua e da deles. Voltou a ter com a psicóloga, de quem ouvia conselhos e que parecia não ouvir o que Jorge realmente dizia, porque mentia, claro está, e ninguém se dava conta do tamanho do embrulho de presente com que Jorge abraçava sua vida.
Foi ter com o padre. Talvez que a Igreja desse conta do vazio que o atingia em cheio, da boca ao ânus. Do senhor asséptico que lhe falava, Jorge anotou considerações importantes: uma família, uma casa melhor, um carro melhor, um emprego que deixe para os filhos um pouco de si, um futuro, se não brilhante, ao menos promissor.
E Jorge foi a fundo perseguindo suas novas metas. Sua seriedade enganava: ninguém percebia que Jorge nunca sorria. Até que alguém notou: “Olha, o Jorge não sorri”. A resposta, direta e seca: “Quem tem objetivos não perde tempo a mostrar os dentes”. A resposta coube, porque nunca mais perguntaram a respeito. E nunca mais alguém se incomodou com o fato de Jorge alcançar seus sucessos e, nem por isso, parecer uma pessoa feliz.
Fez tudo direito: encontrou uma esposa, fez três filhos nela. Formou-se, finalmente, na universidade. Abrira sua própria empresa há poucos dois anos e já era líder no seu segmento. Mesmo sem sorrir, Jorge conseguiu o respeito da família, dos amigos, do padre e da terapeuta. E de sua família: ali estavam as três crias, eram a sua cara, e talvez que não compartilhassem com o pai o sofrimento surdo que o fazia emudecer, no meio da manhã, pensando no silêncio que não se encontra por estes mundos de cá.
Tivesse acontecido dez anos atrás, talvez que seus pais sofreriam por muito tempo a perda bruta de quem morre porque quer morrer. As vizinhas, conselheiras da vida alheia, escreveriam teorias de crochet sobre a vidinha do Jorge: faltou amor de pai, faltou amor de mãe, faltou Jesus no coração, sobra revolta nessa juventude louca.
Tivesse acontecido dez anos atrás, não sentiriam tanto a sua falta. Em volta do corpo flácido, sustentado por uma cabeça desfigurada e oca, cartas calmamente escritas a seus destinatários. Para a esposa, para cada um de seus filhos, para o pai, para a mãe, para cada um dos irmãos, para um e outro amigo, para o padre, para a terapeuta.
Todos chocados, visivelmente chocados, devem ter entendido, cada um à sua maneira, que adiar
o inevitável é somente motivo para sofrer por mais tempo, por mais dez anos, como sofrera o Jorge. Devem ter entendido, sem dúvida, porque daquele dia em diante, nunca mais se falou uma palavra a respeito. Um orgulho indecente fazia com que se calassem cada vez que fossem pronunciar o seu nome: Jorge.
8 de mar. de 2009
Poeminha.
Nostalgia: saber-se um porta-retratos.
já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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dos silêncios de elevador: bonita a roupa nova repa rei que a senhora anda a batida ouvi os gritos e aj udei chamando a polícia esse cachorr...
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...