26 de mar. de 2010

I am the walrus.

ninguém viu, talvez ela tenha lido, mas está ali, a porta do guarda-roupas, os fundos do guarda roupas, não os fundos dos fundos, os fundos de dentro com tinta a óleo, charles morreu em hum mil novescentos e noventa e oito, afogado, tinha dezoito anos e estava na oitava série, eu estava na oitava série com treze para quatorze anos, talvez charles tivesse dezessete anos, mas era negro e pobre e bonito, talvez tivesse de dezessete para dezoito anos, mas foi assim:

não falei, vi-o morto no caixão instalado na casa pequena, eram três cômodos, vi-o negro e morto em hum mil novescentos e noventa e oito, chorei somente o que podia, não sabia chorar ainda; fui ao enterro no cemitério cheio de estudantes com olheiras, isso faz tanto tempo, depois eu soube: não prestava mais viver aqui. caralho de rima! e talvez tenha sito o start ou o game over. fui morar em ivoti.

casei um amigo, o primeiro, o primeiro amigo a casar de fato, igreja, pastor e dei-lhe um abraço dizendo ter certeza, sabe-se sempre tão pouco ( eu lhe falei da certeza que eu tinha de que serão felizes), o amor é a única coisa que de fato funciona. um dia disse a adriano, chorando, que sentia saudade e que desprezavam o que eu tinha vivido, aqueles três anos confinado, aqueles três anos no cio, aqueles três anos (um balbucio!): eu vivi, me perdoem, eu vivi de verdade a vida do boemia, do intelectual de quinta, do adolescente rebelde de quinta {eu nunca fiz nada que valesse a pena, assim: [havia um banco, escrevemos uma peça ruim, mas uma peça (a gente tinha quinze anos, porra!)]}, mas afinal, uma vida: dover, gerber, edos, eu, cabem tantos nomes e tantos nomes que não precisam ser ditos: falo do pedro por amor e escondo outros por sacrifício.

(aonde eu queria chegar, aonde eu precisava ir, há o trottoir e há várias anas que nunca foram minhas nem nunca serão; ela me disse que me lê aqui, que surpresa!, tenho que tocar violão e voltar a ter certeza!)

morreu-se mais um amigo, casei um, pelo menos. (isso de poesia, nem sabia onde morava, veio a carta, enterrei um, disse, vou ao rio grande casar outro). e foram dias de glória, tanto se trabalha, foram dias de glória, eu revi! eu revi! EU VIVI, PORRA! foram dias de glórias e foram apenas três curtos dias.

quantas farças preciso viver? eu vi o corpo e somente senti quando me veio a mãe chorar no meu ombro e disse ele foi teu amigo e eu me disse há tanto tempo, e ela disse ele, o teu amigo, e eu disse a ela o amigo de tantos anos atrás, o primeiro amigo, o primeiro, e fomos enterrá-lo no
cemitério.

nunca se recupera. eu li tanto, já. eu li tão pouco. e a vontade de chamar bolaño pra conversar - eu ficaria frio e pálido, mais do que quando dona hebe de bonafini me apresentou à américa latina. muito prazer, eu disse; a américa latina deu de ombros e não respondeu. gregory foi
sempre tão simpático!

ele me disse que eu não posso ficar igual meu pai. e eu disse a ele que meu pai é velho e eu nunca vou ficar velho. ele me olhou. eu disse a ele que maluco morre antes, morre com sorte, morre solene: eles dizem: morreu jovem.

[é isso de letras: a gente somente escreve, foda-se o receptor. quem se importa, mente.] eu te disse, anjinho.

(e eu me digo que merda, marcelo labes, essa porra desse anjinho não existe, por acaso inventaste uma irmã mais nova?, por acaso criaste uma amante de corpo impróprio, ela ainda criança? e eu me digo porra, marcelo labes, tu não vais parar com isso? e porra, marcelo labes, até onde? e eu respondo assim: eu, marcelo labes, não tenho rumo nem eira nem beira nem fim. tenho mais amigos que inimigos, assim penso. não me desejo escritor, os outros é que me dizem; uns poucos me agradam com elogios e falam bem.

e eu acordo nessa sexta feira e penso porra, o que vou fazer de mim?)

e penso no belchior, que eu sou apenas um rapaz, e no humberto, que grita e regrita o amor, no renato, que fala que fala de paz e no john, que diz que i am the walrus. amém.

pois que tanto que se pense que se diga que se fale que se ore que se sonhe que se sinta que se chore:

so i am the walrus também.


16 de mar. de 2010

Um sonho.

a gente sempre tem um sonho, maninha, eu também tive, era numa rua que não existe mais, puseram um viaduto bem no meio, mas era lá, quantos anos eu tinha, tão poucos, era um ônibus da itapemirim, amarelo daquele jeito dos anos oitenta, amarelo queimado, eu entrava no ônibus ali onde a iguaçu encontrava com a rua são paulo, ali tinha uma parada, eu me lembro, eram tempos de cremer e ônibus da glória, nunca vi um itapemirim ali, ônibus de viajar, sabe como é?, e eu entrei pela porta da frente e vi o cobrador do ônibus feito num esqueleto, tudo aquilo eram esqueletos e enxofre e eu fui andando, devo ter me mijado, no sonho ou de verdade, eu fui andando e tu sabes como são ônibus de viagem, maninha, tem uma porta só, a da frente, e eu fui andando para o fundo do ônibus.

a gente sempre tem um sonho, o de ser qualquer coisa, até que desiste, se viu que ainda não se tornou nada, outro dia meu irmão disse que estranha a minha geração, isso de não querer ser nada e me perguntou tu, o que tu quer da vida, e eu disse que nada, não quero nada, já me basta muito estar vivo ainda e ele disse que achava estranho e eu não disse a ele, digo a outrem, digo que me basta um emprego que me pague as contas, o trago, o cigarro, o pó e me reste algum dinheiro pros livros, ou a conversa é invertida, que eu tenha dinheiro pros livros e me reste uns trocados pro resto, sabe como é, a gente nunca sabe quem tem sido ultimamente.

eu me lembro de uns tempos. um de cada vez, tempo depois de tempo e me pergunto o que houve hoje pra eu lembrar disso daquilo ou daqueloutro, entende?

eu caminho ainda pelas mesmas ruas de uns anos atrás, eu ainda bebo no mesmo bar, eu ainda penso numa mulher assim e eu lamento. eu ainda lamento, maninha. não por tudo, mas por tão pouco.

desde que revi barone e cris que eu guardo um choro. mas não vai ser qualquer choro, não. vai ser um tal de um qual de um certo choro bom. aquele que eu quis chorar naqueles tempos, o shopping cristal e eu me aguentando de choro e diarréia, não quero ir embora, não vai ser bom eu voltar, teria ficado por lá. teria ficado por lá: em porto alegre, em são leopoldo, em ivoti, em são paulo, em curitiba e na casa de uns parentes de minha madrinha que moram no oeste de santa catarina e que eu visitei quando ainda nem sabia falar. eu teria ficado por lá, maninha, e tu nem sentirias a minha falta. nos é muito caro perder alguém com quem se viveu.

mas a gente nunca viveu junto. e então?

teria sido melhor nunca ter te conhecido, anjinho.

3 de fev. de 2010

Daniel.

a gente acha que a prova é ter mulher, ter filho, ter o emprego decente, comprar o carro do ano, a gente acha que a prova é ser cristão e abstêmio para então podermos ouvir és adulto, és homem, a gente acha que sim e sorri. eu tive a prova nesse fevereiro, esse sol infernal, o calor sem vento, eu revi murilo, mauro, paulo, marco, por onde andavam, por onde eu ando, eu revi tanta gente e vi tanta gente junto dele.

a gente acha que a questão é ser educado, pois que fomos juntos ao primeiro dia de escola, deve ter sido assim, não lembro. mas lembro de antes disso, antes da escola, o primeiro contato, quantos anos eu tinha?, um olhar tímido, quer brincar comigo?, e assim foi. há dezoito anos.

hoje eu me tornei de fato homem, homem como se diz, homem que teve uma dor assim.

eu caminhava sozinho sob o sol me queimando o rosto e pensava que nunca estivera tão sozinho em toda minha vida.

pro diabo escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore: hoje eu enterrei o meu primeiro amigo. o primeiro. e ninguém mais no mundo poderá entender como isso dói.

17 de jan. de 2010

Umidade.

não adianta procurar palavras para explicar isso tudo, o amor, a saudade, a melancolia da chuva em fim de tarde, a tristeza que se toca com os dedos ao ouvir chico buarque, meu deus!, e a gente acha que sofre e aquele pobre diabo, como o outro, eu juro que nunca entendi como sir roger waters continua vivo, eu deveria mesmo é pagar uma matrona para lhe dar colo, onde já se viu chorar a vida inteira a ausência do pai, a ausência do significado da vida, a mãe perversa e a falta de sentido em tudo quanto se pode perceber, onde já se viu, mas eu não faço o mesmo?

aos poucos eu descubro, era assim: havia uma cidade com três milhões de habitantes, eu não conseguia sair de casa àquela época, hoje quando eu conto que morava na leão XIII, transversal da lima e silva, neguinho arregala os olhos e pergunta como foi que eu sobrevivi e tenho sempre que explicar que a vida foi fruto de um corte, sim, decepei porto alegre de mim, saí com as mãos abanando, o rabo entre as pernas e até hoje eu não lamento, porque é melhor estar vivo, mas me encontrariam um dia no banheiro, eu teria engolido a língua, eu teria morrido de todo, entende?

então que ela me disse que porque meu pé não doía eu precisava me adoentar e eu disse que não, não sabem que ando doente, não sabem de mim sequer, é coisa minha e comigo, deus me livre tornar público, tem gente que morre pela língua, eu morro pelo nariz. então eu disse a ela que não, não passarei mal algum, não faz diferença, é como no dia do mercado, quanto tempo faz?, chorei pra ter o livrinho de figurinhas, marcos disse não leva, não é figurinhas, embirrei, tava lá com o álbum e não era álbum porra nenhuma, nunca mais duvidei dele, acho que queimei aquele livro de bordado, por que põem desenhos coloridos numa merda dessas?

eu tenho várias mães, uma pra cada dia da semana, talvez pra cada dia do mês, uma conversa amena, um contato seguro, gosto de quem me conhece, sinto orgulho, e a mãe dela nunca foi tão minha e eu preciso cumprir a promessa de rever minha mãe da praia ainda logo, o quanto antes, sinto tanto a tua falta! a orfandade é isso, deixar-se conhecer, permitir que possam entrar, mas eu nunca entro, quando entrei uma única vez, meu pai decerto me trazia no colo, quando me permiti entrar vi que não havia saída, então fico sempre ali, a porta entreaberta, conversando e vivendo, deixando saberem que vivo, mas não há como entrar, baby. e se a porta novamente se fecha?

eu perdi dover, edos, adriano. eu perdi ana, bella, pedro, tali. eu perdi lou, márcio, clazita. eu perdi tanto já, e há tanto ainda pra perder. eu não quero mais jogar, baby. eu quero só ir, só ir, e que não haja nunca linha de chegada, porque não sei se ganhar resolve. tenho de continuar tentando, entende? eu preciso continuar tentando, entende? sim, hoje faz chuva e faz frio e eu queria mesmo era me esconder debaixo da cama. mas amanhã fará sol e eu poderei dar fim ao mofo. não é nada de tristeza, de cocaína, de trago, não é nada nem mesmo de melancolia e saudade. é uma questão de umidade e só. percebe?

12 de dez. de 2009

Quantos degraus.

não ria do meu sotaque, baby, não é engraçado nem bonito e não me fale de porto alegre, de não sei quem que tu conheceu que veio do rio grande do sul porque eu não quero saber, ok? aconteceu do dia pra noite, como coisa muito estranha, mas era antes, voltei de curitiba com sotaque, de são paulo com sotaque, do oeste com sotaque, com sotaque da puta-que-pariu e não adianta, tenho de explicar sempre que nasci aqui nessa merda de vale embora eu já confunda as minhas histórias.

quais histórias, não?! eu tento de toda maneira, tu sabes, eu sei também do meu estrago, do pavio curto, da vida que se alonga embora eu sempre faça o oposto, queira o oposto, eu ando torto por linhas certas, se é que tu me entendes. falando sério: tenho pensado nas teorias da memória, eu calculo que vivi vinte e cinco pobres anos e a memória de um velho, maldita memória de velho, eu lembro com saudade, velho impotente, eu lembro com saudade do tempo em que eu trepava, velho com remorso, eu lembro com saudade do dia em que ela foi embora, velho triunfante, eu lembro do dia em que eu quase morri. com saudade.

da teoria da memória à teoria da saudade, sim, porque se maldito não tivesse inventado a palavra seria fácil ser europeu do norte, bem mais frio, e passar dia após dia pensando numa forma de explicar a dor no peito, na cabeça e na cabeça do pau, pensando em explicar, pensando apenas, mas temos o nome, chamamos saudade e ficamos pensando no quando em vez de no como e eu não tenho a menor idéia do que quis dizer com isso.

sabe do gin? corrói. eu digo com saudade de quando vi nevar - dia medonho, três graus ao meio dia e nada de neve, mas naquele dia nevou aqui, aqui dentro, nunca mais se pode ser o mesmo depois de uma tentativa de neve, granizo nas costas às três da tarde, o granizo é o prenúncio da neve, não nevou e aquelas pedras nas costas - eu digo que vai nevar com saudade do dia em que não nevou mas, baby, neve é gíria de quem mete o nariz onde houve um chamado.

eu sinto falta, sim, na medida em que mais odeio e nunca vou poder explicar se se trata de amor ou ódio isso de querer voltar no tempo e desprezar com longas e trinfuais escarradas isso que se chama de futuro, que chamamos de futuro e ao que estamos presos, honey, tu sabes que não se pode escapar de.

eu sinto falta de escrever cartas e de dormir sóbrio, com sono, acordar num domingo e pensar no quanto não se tem pra fazer nesse dia. eu sinto falta de um tempo que será sempre ontem, sempre ontem, não adianta, eu tenho vinte e cinco pobres anos e o que me espera é lembrar como agora com saudade de um tempo que passou, o que eu fazia naquele tempo? eu lembrava de um outro tempo, baby. é por isso que tratei de esquecer. sim, o ontem. e o hoje. eu não tenho certeza do que fiz semana passada e é melhor assim. mas eu lembro das escadas. acho que esqueço para esquecer também das escadas. eu devia ter contado os degraus, baby. acho que contei. eu devo ter contado. mas esqueci, entende?

11 de dez. de 2009

Clichê.

Primeiro ficou perplexo. Andava assustado pela casa, triste como cão sem dono. Ou melhor: como cão abandonado pelo dono. Dava pena vê-lo no sofá, a TV ligada, olhando para dentro de si.

Depois deu pra beber. Até de manhãzinha. Aquele bar imundo cheio de tristes como ele. Uma desgraça! Sentava na mesinha, no balcão, no meio-fio e bebia com sede. Sede de vingança.

Deixou de dormir, de comer, de falar. Largou o emprego e foi morar num 2 x 2 emprestado por alguém da família. Deixou de sair de casa e de abrir a porta. Morreu.

Filha dele que me disse: “Viu o que aconteceu com o pai?” e eu respondi que sim com a cabeça, e ela continuou: “Sabe o que realmente aconteceu? Ele queria era ter descarregado o revólver na cabeça da mãe, aquela puta!”

E enquanto eu imaginava que sempre nos vingamos mais em nós do que nos outros, pensei na Beatriz, na puta que era, o Rogério sabendo que ela andava saindo com todo mundo, eu pensando nas coxas grossas da Beatriz.

“Mas ela é tua mãe, pequena. Não esquece nunca disso”.


Publicado antes no Duelo de Escritores.

20 de nov. de 2009

O sorriso de Larissa.

Não sei ao certo quando foi a primeira vez que Larissa e eu nos amamos. Sua mãe e eu havíamos bebido demais num jantar entre amigos e coube a mim pagar a babá e levá-las até a cama, sua mãe, ao nosso quarto e Larissa, ao festivo quarto rosa onde habitava. Larissa vestia pijama e entre suas curvas pude ver que não usava calcinha, os seios em crescimento despontavam por sob a camiseta de algodão. Tinha doze anos, por essa época.

Não sou seu pai biológico, embora sejamos parecidos. Conheci sua mãe quando de Larissa já lhe caíam os primeiros dentes. Nossa proximidade, apesar dos anos, nunca nos proporcionou o amor vital entre pai e filha. Pelo contrário: sua beleza desde sempre me provocou ao ponto de ambos nos constrangermos com a presença alheia. Não nos tocávamos que não fosse com os olhos. Aliás, penetrávamo-nos com os olhos e assim mesmo, nos olhando, chegávamos aos orgasmos mais bonitos.

Mas não sei como nos amamos a primeira vez. Na prática, quero dizer. Acho que era verão. Larissa trouxe as colegas de escola para uma tarde na piscina. Sua mãe e eu observávamos suas peripécias entre nosso silêncio e os goles que dávamos num uísque que estalava ao contato com o gelo. Sara, Fernanda, Letícia, eram tão joviais aqueles corpos, exalavam doçura. Do alto da minha embriaguez, eu pedia que me convidassem: “Vem, tio, brincar com a gente”. Não me chamavam e eu sabia que a responsabilidade que ainda me restava não me deixaria chegar perto da excitação do Zé Mayer comendo a Mel Lisboa.

As meninas foram embora, a mãe de Larissa foi para a cama com dor de cabeça e Larissa foi se lavar. Quando passava em frente ao banheiro, vi a porta aberta. A dor de cabeça do uísque já começava a dar sinais. Pelo vapor que eu via, adivinhava Larissa em seu banho. Diminuí o passo, mas ciente do meu desejo, me virei a fim de retornar à cozinha, encher mais um copo e ir dormir, inerte. Eis que a porta se abriu. Larissa enrolada numa toalha de rosto, os cabelos cheios de xampu:

— Jorge, me ajuda com o chuveiro? A água tá muito quente!

Nunca me chamou de pai como eu também nunca a considerei minha filha. Não pela falta de contato, de amor que sentíssemos um pelo outro, apenas por uma questão de responsabilidade. Enquanto convivíamos em família — Larissa, sua mãe e eu — sabíamos que o ar que se respirava em comum trazia o peso da excitação que nos acometia quando nos cruzávamos, volta e meia, pelos corredores.

— O que há, Lala? — era assim que, carinhosamente, eu a chamava.

— Aqui, Jorge: a água tá escaldante.

— Espera um minuto, já volto. Tenho que buscar as ferramentas.

Sim, eu precisava, ao mesmo tempo, buscar a caixa de ferramentas na garagem e me certificar de que a mãe de Larissa dormia. Voltei ao banheiro, Larissa sentada sob o vaso, devia estar mijando, a toalha somente lhe cobria os seios, agora. Entrei no box — era daqueles modelos que travam por dentro, nunca entendi direito o porquê —, abri a água, estava tudo normal, temperatura agradável. Atrás de mim, a figura juvenil de Larissa. Virei-me e disse que tudo estava certo. Após fechar a tranca do box, deixou cair a toalha e pude vislumbrar pela primeira vez seu jovem corpo nu. Faria catorze anos no mês seguinte.

(…)

Nunca havia sido um mau esposo. Pelo contrário: a mãe de Larissa e eu formávamos um belo casal. A verdade é que, com o crescimento de sua filha, o seu corpo que naturalmente tornava-se flácido, porque vivido, deixava aos poucos de me interessar. Minha esposa, com o tempo, foi se entregando cada vez mais aos calmantes e ao uísque: não aceitava meu desinteresse e, como se pode imaginar, não tinha coragem de me confrontar. Por causa de suas fugas, Larissa e eu nos tornamos cada vez mais amigos.

Entre a decadência total do meu casamento e a paixão arrasadora entre Larissa e eu puderam-se contar uns curtos meses. Sentia-me um Amaro realizado, com a minha pequena Clarissa sobre mim. Se o Érico tivesse podido, seu romance não seria nunca aquela pasmaceira ingênua. Éramos ali, todo o tempo: transávamos antes de eu levá-la à escola, depois do almoço, dentro da piscina. Para tanto, havia dispensado a empregada e me valia das minhas férias aliadas às fugas de minha esposa, mãe de Larissa.

Tudo corria calorosamente bem até o dia em que cheguei do trabalho, passava das dezoito horas e vi Larissa sentada junto à parede da cozinha. Seu rosto machucado, o sangue lhe escorrendo do nariz.

— O que aconteceu, pelamordedeus!

— Mamãe, ela sabe de tudo!

— De tudo o quê? — gritava ansioso, esperando disfarçar meu nervosismo.

— Tudo sobre a gente, tudo, TUDO!

— Espera, Lala, eu vou conversar com ela.

Antes que pensasse em me dirigir ao nosso quarto, já Larissa punha-se de pé à minha frente. Enlaçou seus finos braços sobre meus ombros, na ponta dos pés, e sorriu, o canto da boca machucada. Sorria.

— O que é isso? Tá maluca?

— Pára, Jorge, ela não vai mais nos incomodar.

— Como assim? — disse eu, nervos à flor da pele.

Larissa sorria o riso do ódio e do orgasmo. Meu desespero alcançou seu extremo. “Como assim, nunca mais incomodar?” Não tinha coragem de repetir a pergunta. Já Larissa me beijava, o gosto doce de sangue surgia na minha boca.

— Nunca mais mesmo? — perguntei, ansioso.

— Não, nunca mais.

E antes de pensar o que dizer à polícia, aos familiares — mesmo antes de imaginarmos maneiras de não nos tornarmos suspeitos, trepamos ali mesmo, no chão da cozinha. Somente uma vez revi aquele sorriso macabro e excitante nos olhos de Larissa. Foi no dia em que me levaram algemado, condenação certa, não havia álibi que me salvasse. E da doçura quente daquele olhar, da maldade sobressalente daquele sorriso só posso dizer o óbvio para um homem que teve Larissa úmida entre seus braços: sinto saudade.


Publicado antes no Duelo de Escritores.


Demônios de pedra.

Sentado no primeiro banco do lado direito, ali na praça da matriz, relembrava: “Foi aqui que a vi? Não teria sido do outro lado?”

O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”

Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:

— Sabes que dia é hoje?

— Terça-feira?

— Não, amor: um outro dia, um dia especial…

Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.

Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:

— Vamos embora, tá ficando escuro.

— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?

— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.

— As gárgulas?

Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.

Calafrio!

Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.

Calafrio!

Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.

Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.

Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.

Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”

Publicado antes no Duelo de Escritores.

27 de out. de 2009

O meu nome.

perguntei uma vez sobre os nomes, esses nomes, marcos, ligia, marcelo e a resposta foi tão bonita, marcos e lígia vieram do quo vadis?, dos tempos de colégio sagrada família, quando mamãe lia ainda alguma coisa que não fosse cristianismo barato. e marcelo, bem, marcelo veio, assim, era moda, não soube dizer a novela da época, decerto que havia um desses.

mamãe outro dia disse não haver um labes que preste, vejam só, lígia uma vez foi lima, marcos tem em si vinicius, certamente que o nome vale, posto que são tanto, marcelo é só labes, os labes não prestam, papai falou cuida que não há labes que se salve, eu sei, o rosto vermelho de vergonha e pressão alta, os olhos vagos, o álcool. eu diria: não tenho necessidade de beber, mas de provar que não tenho necessidade, logo bebo pra mostrar que não preciso; ninguém entenderia, talvez nem eu.

labes é uma incógnita desvendada, eu disse com entusiasmo NÃO SOU ALEMÃO, ninguém riu, sou francês excomungado, pastorzinho luterano de merda brigou com o rei católico francês, disse vai embora, e ele disse eu vou, foi pra alemanha. essa tristeza, essa melancolia de imigrante faminto, imigrante fedendo a merda de anos e anos a fio remoendo a certeza que na europa era melhor, eu nunca fui à europa mas a tristeza parece ser a mesma. acontece que se isso aconteceu no século dezesseis e há mais de quinhentos anos o pastorzinho fiel a nosso senhor jesus cristo e independente do poderio de roma mudou-se pra alemanha, não adianta esconder que, sim, eu lamento, ich bin deutsch, honey, e nada posso fazer contra isso.

dissoa, contrasta, fere meus ouvidos, talvez que haja um ponto da língua que prende, os dentes são tão bonitos, tão bonitos, dizia doutora rosa, a dentista que me dava mais atenção do que qualquer mulher jamais me daria, eu não fumava. enfim, deve ser uma questão de língua nos dentes o soar feio desse encontro de r com c com elo mar-ce-lo, ligia me chama de mar e eu olho o mar e penso no quanto há de distância semântica entre nós.

se eu fosse menina, devia ter sido, teria outro nome, seria estéfani, stephany, nie ou qualquer coisa que o valha, marcelo não soa ruim, poderia ser rafael, talvez tenha sido, há quem diga que tenho cara, rafael pelo menos é nome de anjo, será?, marcelo é o diminutivo de marcos, sempre dou o exemplo, ânus é anel, anelus é anelzinho, marcos é martelo, marcelo é isso aqui, o latim é que explica.

marcelo labes, esse aqui, isso aqui, acabou esse espaço de escrever, tentar outra coisa, falar da vida alheia novamente, escrever poeminhas novamente, lançar livro, beber livros vendidos, encontrar nova forma de presentear as pessoas, eu não sei dar presentes, o livro pelo menos ajuda, não vou repetir, podia mudar a dedicatória, melhor outro livro então.

talvez que algum filho, se filhos houver, um filho de um amigo, um sobrinho, bem mais provável, um dia pergunte ao então carcomido do que tu te lembras? e eu direi, sinceramente, pensei hoje tão claramente - como quando deus morreu, foi simples, bonito, colorido como é para quem não tem daltonismo, olhei e disse não há deus e nunca mais houve. assim simples eu pensei nos domingos de manhã, o abrir dos olhos, a tontura, sempre a náusea e a mão fria da ressaca sobre meus olhos, nunca mais faço isso, nunca mais me torturo, cansei do estrago, larguei essa vida, o que eu disse?, o que eu fiz? eu direi a quem perguntar do que tu te lembras? eu direi, simplesmente:

eu me lembro de ter esquecido.

25 de out. de 2009

Três poemas de reencontro.

LAMPEJO #20

Os olhos azuis dele

Azuis os olhos dela

Os dele tão azuis

Era o céu e eram os olhos

Que me olhavam sem temor.



LAMPEJO #21


Éramos dois ou três.

vieram os anos

(tantos anos, um atrás

do outro, incrível).

Éramos quatro ou cinco,

éramos tantos!

No reencontro,

partes do mesmo

e intenso vazio.



LAMPEJO #22


Se eu soubesse antes

do antigo gosto do beijo

(o cheiro, os cheiros)

não teria nunca desperdiçado

em tantos cantos

meu nariz.

8 de out. de 2009

Pai morto.

o pai não tá bem, acordei assustado, som de corpo caindo no piso em seco a gente nunca precisa ter ouvido pra saber como é, então que eu sonhava com alguma coisa interessante porque era exatamente o momento do sonho em que não se pode acordar, não se quer acordar, som de corpo caindo, o pai não tá bem, caído na frente da porta do meu quarto, eu nunca soube quanto pesa uma vida, isso lá é pergunta que se faça quanto pesa uma vida, eu não conseguia levantá-lo, eu não conseguia, EU TINHA ACABADO DE ACORDAR, PORRA! como que faz pra carregar o peso morto, meu pai morto, o peso da minha vida, só restou puxar pelo
pé e colocar o velho na cama: agora dorme, eu disse e saí.

lembrar é isso e se eu dissesse que esqueci estaria mentindo mais do que eu costumo geralmente mentir, mas não esqueci, acontece de a gente não lembrar todo tempo, agora lá vou eu e chorei sorrindo pensando no abraço de dover, o mesmo abraço, tantos anos, o mesmo abraço e o mesmo sorriso, eu preciso de tempo, me dê somente um dia pra eu observar atentamente os dentes, como eles são, a cor das gengivas, os dedos das mãos e o olhar de sono, os detalhes que sempre perseguem, não adianta, não lembro, preciso de um dia e nenhum mais.

eu lembrei como era, um dia, eu lembrei, era loira e de olhos azuis, muito loira e olhos azuis que me engoliam e um sorriso com um aberto entre os dentes, sabe?, os dentes da frente separados e nunca soube o que aconteceu, éramos somente crianças, dois anos de internato o que se pode fazer é comer mesmo e se masturbar no meio da praça, ninguém via, ela com a mão dentro
da minha cueca, o pau assando. e até outro dia nunca tinha havido outra, nunca mais, a gente acha que sabe quando encontra a mulher da nossa vida e eu tinha certeza até o momento em que não tive mais. eu lembrei justamente pra esquecer depois de ter bebido tanto tempo a perda da mulher da minha vida que não era, nem eu era homem pra ela, e não era loira, nem alta e os
olhos não eram azuis, embora fôssemos crianças ainda.

eu cantei quatro discos do engenheiros do hawaii com tudo que eu tinha de voz somente pra ver com antecipação a paisagem que é morada, é lar, coração de mãe, colo de namorada, o sol se pondo no guaíba, ninguém perguntou se é um veio de merda, o sol se pondo e a gente lembrando de uma outra primavera, os meus olhos sempre se enchem de lágrimas e eu não tenho vergonha
nenhuma disso.

não é a decolagem, não é o pouso, meu medo de avião é que de repente eu me perceba no avião, nunca aconteceu, a hora em que eu olho para os lados e quero sair e não tenho como sair quem vai me segurar, tomara que baixe logo a pressão e eu desmaie. para manter o humor talvez que eu lembre da canção do belchior, não vai haver aeromoça bonita, eu sei.

lembrar é isso, a gente não tem como evitar e o que acontece é de repente ouvir a música que toca inocentemente no rádio e ser transportado pra anos atrás, ver a mesma luz, fazia luz quando pedro colocou o dois do legião urbana pra tocar, ouvimos juntos, foi a primeira vez que aconteceu de eu saber que aquele momento seria guardado para sempre. lembrar e esquecer, não
preciso comer, não preciso de sapatos novos, mas que deus sempre me dê dinheiro para comprar desodorantes nívea de cor vermelha na frente, adriano cheirava a isso, eram bons tempos.

quantos abraços, quantos abraços, quantos beijos e quanta saudade. lembrar porque é necessário e é bonito e faz querer viver mais não para reviver por pura nostalgia mas para poder lembrar por muitos anos ainda aquelas tardes de ócio e alegria, era domingo, mate e violão na praça central. eu sempre lembro mas queria esquecer do som de corpo caindo no piso, o pai não tá
bem, eu não adiaria minha viagem nem pra ir ao seu velório.

30 de set. de 2009

Saideira.

eu nunca ganhei um salário tão alto e não tenho dinheiro para beber, o que somente me faz pensar que a merda é mesmo a vontade, como diz raquel, a vontade que a gente deixa de saciar e disfarça com qualquer outra coisa e se eu não bebo o que posso fazer é me masturbar continuamente até cair no sono porque amanhã eu não acordo cedo, baby, e posso pensar em qualquer besteira até o dia já estar bem clarinho e eu imaginar de forma perversa que os meus companheiros de ônibus de todos os dias não vão ter a minha companhia nessa quinta-feira de merda e de céu nublado e chuva que chove e não molha quando o trânsito às seis horas da tarde vai fazer qualquer pessoa sensata e cansada de um dia inteiro de trabalho lamentar que algum dia tenha havido algum alemão feliz no mundo.

falar de sacanagem é melhor do que fazer a tal da sacanagem porque escrevendo dá pra imaginar que se vai supor CARALHO!, será que ele fez mesmo isso ou imaginar que se dirá eu sabia! eu sabia! ou somente irá dizer mau gosto esse texto do marcelo labes e quem é marcelo labes, isso lá é nome de gente.

acontece que eram dois estudantes e eles se disseram que iam comer alguém, era quarta-feira e eles iam comer alguém, a garrafa de cachaça debaixo do braço andando pela general lima e silva a caminho do parque farroupilha mais conhecido como parque da redenção na cidade do paralelo trinta e eles iam comer alguém quando se aperceberam sentados no banco da praça o carro rodeando a praça e fazer o quê se a gente vai comer alguém que seja então um veado e aconteceu de irem ao apartamento do veado que era velejador e falava inglês fluente, as três bichas fodendo na cama. me contaram que o veado era bonito, eu não sei. mas nunca me arrependi do beijo na perimetral às sete e meia da manhã.

eu tinha pensado na cena da mãe e do filho, sim, a mãe segurando o filho, dava um conto interessante, a mãe segurando o filho quando me encarou a última vez e eu pensei na mãe excitada e como deve ser a mãe sendo mãe segurando o fato de ser mãe no colo sentir molhar no meio das pernas com uma vontade de dar e se comer que não se explica nos arautos da moralidade, acontece que se ela desse eu comia.

seguindo então essa necessidade de escrever sem lei nem regra nem tesão, somente escrever, porque personagem, meu filho, é pra gente grande, e tem gente que não cresce nunca, ainda mais depois que inventaram os empregos onde somente se precisa ser responsável oito horas por dia com plantões raros em finais de semana, duramente responsável, ar de autoridade, eu nunca desprezei ninguém. ainda mais depois que inventaram o fácil acesso a qualquer traficantezinho que te entregue cinquenta reais de pó e os bares, sim, depois que inventaram os bares, o pó e os filmes pornôs ninguém precisa realmente ser adulto se não quiser, basta se concentrar nas olheiras segunda-feira de manhã e tomar café, muito café, eu te garanto.

saudade é uma palavra que existe mais na teoria do que na prática, a gente é que segundo ana dramatiza e traumatiza conforme a necessidade do dia, quando ela me falou chovia e a gente de carro, era frio, a gente no carro e ela me dizendo que essas coisas a gente dramatiza e traumatiza conforme a necessidade, não falou de saudade, mas coube muito bem o que ela quis dizer. o coração bate forte e não há explicação alguma, eu que olhei para os meus dedos e pensei que eles ficam melhores com as unhas roídas, são dedos tortos de qualquer forma, roer as unhas tanto que faz, o importante é escovar os dentos e cortar os pêlos do nariz.

uma hora eu paro com tudo com o álcool com o pó com as unhas com as manias de querer amar quando amar nunca pôde acontecer de verdade, é só uma vez na vida que se beija um beijo com gosto de boceta e pau e cerveja e tabaco. somente uma vez e que aconteça a todo homem beijar assim, nunca mais sentirá nada parecido e vai parecer que alcançou o nirvana. uma hora eu prometo parar com tudo com o álcool o pó as unhas aquele beijo e essa merda de escrever nada que possa realmente interessar a alguém.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...