27 de jul. de 2010
Eleitórias.
com antipirético;
Energéticos para salvar-nos
do escuro das ruas.
Toda santa nua terá
o seu manto
e para todo espanto
sobrarão ansiolíticos.
A cada grito ouvido
aparecerá o devido socorro.
A cada sonho ruim,
o calor que convier.
[Para cada choro de homem,
um abraço de mulher.]
20 de jul. de 2010
Um poema de tentativa.
Depois de ler pela
oitava vez seguida
o Cem Anos de Solidão,
resolveu telefonar pra
casa.
Novidade:
ninguém atendeu.
14 de jul. de 2010
Poema para a manhã mais fria.
Será que eu poderia?
Sim!
O que tu achas de?...
É claro!
E nada soaria insensato
a quem se libertou
da negação.
13 de jul. de 2010
Poema extraído dum bate-papo...
LAMPEJO #27
O amor acaba,
a vida acaba,
o mundo acaba...
Os amigos e os livros
permanecem.
Deste rol de desventuras
sobra nada.
12 de jul. de 2010
8 de jul. de 2010
Escrever para.
16 de jun. de 2010
Um poema de solução.
9 de jun. de 2010
Vamos escrever!
26 de mar. de 2010
I am the walrus.
16 de mar. de 2010
Um sonho.
3 de fev. de 2010
Daniel.
17 de jan. de 2010
Umidade.
12 de dez. de 2009
Quantos degraus.
quais histórias, não?! eu tento de toda maneira, tu sabes, eu sei também do meu estrago, do pavio curto, da vida que se alonga embora eu sempre faça o oposto, queira o oposto, eu ando torto por linhas certas, se é que tu me entendes. falando sério: tenho pensado nas teorias da memória, eu calculo que vivi vinte e cinco pobres anos e a memória de um velho, maldita memória de velho, eu lembro com saudade, velho impotente, eu lembro com saudade do tempo em que eu trepava, velho com remorso, eu lembro com saudade do dia em que ela foi embora, velho triunfante, eu lembro do dia em que eu quase morri. com saudade.
da teoria da memória à teoria da saudade, sim, porque se maldito não tivesse inventado a palavra seria fácil ser europeu do norte, bem mais frio, e passar dia após dia pensando numa forma de explicar a dor no peito, na cabeça e na cabeça do pau, pensando em explicar, pensando apenas, mas temos o nome, chamamos saudade e ficamos pensando no quando em vez de no como e eu não tenho a menor idéia do que quis dizer com isso.
sabe do gin? corrói. eu digo com saudade de quando vi nevar - dia medonho, três graus ao meio dia e nada de neve, mas naquele dia nevou aqui, aqui dentro, nunca mais se pode ser o mesmo depois de uma tentativa de neve, granizo nas costas às três da tarde, o granizo é o prenúncio da neve, não nevou e aquelas pedras nas costas - eu digo que vai nevar com saudade do dia em que não nevou mas, baby, neve é gíria de quem mete o nariz onde houve um chamado.
eu sinto falta, sim, na medida em que mais odeio e nunca vou poder explicar se se trata de amor ou ódio isso de querer voltar no tempo e desprezar com longas e trinfuais escarradas isso que se chama de futuro, que chamamos de futuro e ao que estamos presos, honey, tu sabes que não se pode escapar de.
eu sinto falta de escrever cartas e de dormir sóbrio, com sono, acordar num domingo e pensar no quanto não se tem pra fazer nesse dia. eu sinto falta de um tempo que será sempre ontem, sempre ontem, não adianta, eu tenho vinte e cinco pobres anos e o que me espera é lembrar como agora com saudade de um tempo que passou, o que eu fazia naquele tempo? eu lembrava de um outro tempo, baby. é por isso que tratei de esquecer. sim, o ontem. e o hoje. eu não tenho certeza do que fiz semana passada e é melhor assim. mas eu lembro das escadas. acho que esqueço para esquecer também das escadas. eu devia ter contado os degraus, baby. acho que contei. eu devo ter contado. mas esqueci, entende?
11 de dez. de 2009
Clichê.
Depois deu pra beber. Até de manhãzinha. Aquele bar imundo cheio de tristes como ele. Uma desgraça! Sentava na mesinha, no balcão, no meio-fio e bebia com sede. Sede de vingança.
Deixou de dormir, de comer, de falar. Largou o emprego e foi morar num 2 x 2 emprestado por alguém da família. Deixou de sair de casa e de abrir a porta. Morreu.
Filha dele que me disse: “Viu o que aconteceu com o pai?” e eu respondi que sim com a cabeça, e ela continuou: “Sabe o que realmente aconteceu? Ele queria era ter descarregado o revólver na cabeça da mãe, aquela puta!”
E enquanto eu imaginava que sempre nos vingamos mais em nós do que nos outros, pensei na Beatriz, na puta que era, o Rogério sabendo que ela andava saindo com todo mundo, eu pensando nas coxas grossas da Beatriz.
“Mas ela é tua mãe, pequena. Não esquece nunca disso”.
Publicado antes no Duelo de Escritores.
20 de nov. de 2009
O sorriso de Larissa.
Não sei ao certo quando foi a primeira vez que Larissa e eu nos amamos. Sua mãe e eu havíamos bebido demais num jantar entre amigos e coube a mim pagar a babá e levá-las até a cama, sua mãe, ao nosso quarto e Larissa, ao festivo quarto rosa onde habitava. Larissa vestia pijama e entre suas curvas pude ver que não usava calcinha, os seios em crescimento despontavam por sob a camiseta de algodão. Tinha doze anos, por essa época.
Não sou seu pai biológico, embora sejamos parecidos. Conheci sua mãe quando de Larissa já lhe caíam os primeiros dentes. Nossa proximidade, apesar dos anos, nunca nos proporcionou o amor vital entre pai e filha. Pelo contrário: sua beleza desde sempre me provocou ao ponto de ambos nos constrangermos com a presença alheia. Não nos tocávamos que não fosse com os olhos. Aliás, penetrávamo-nos com os olhos e assim mesmo, nos olhando, chegávamos aos orgasmos mais bonitos.
Mas não sei como nos amamos a primeira vez. Na prática, quero dizer. Acho que era verão. Larissa trouxe as colegas de escola para uma tarde na piscina. Sua mãe e eu observávamos suas peripécias entre nosso silêncio e os goles que dávamos num uísque que estalava ao contato com o gelo. Sara, Fernanda, Letícia, eram tão joviais aqueles corpos, exalavam doçura. Do alto da minha embriaguez, eu pedia que me convidassem: “Vem, tio, brincar com a gente”. Não me chamavam e eu sabia que a responsabilidade que ainda me restava não me deixaria chegar perto da excitação do Zé Mayer comendo a Mel Lisboa.
As meninas foram embora, a mãe de Larissa foi para a cama com dor de cabeça e Larissa foi se lavar. Quando passava em frente ao banheiro, vi a porta aberta. A dor de cabeça do uísque já começava a dar sinais. Pelo vapor que eu via, adivinhava Larissa em seu banho. Diminuí o passo, mas ciente do meu desejo, me virei a fim de retornar à cozinha, encher mais um copo e ir dormir, inerte. Eis que a porta se abriu. Larissa enrolada numa toalha de rosto, os cabelos cheios de xampu:
— Jorge, me ajuda com o chuveiro? A água tá muito quente!
Nunca me chamou de pai como eu também nunca a considerei minha filha. Não pela falta de contato, de amor que sentíssemos um pelo outro, apenas por uma questão de responsabilidade. Enquanto convivíamos em família — Larissa, sua mãe e eu — sabíamos que o ar que se respirava em comum trazia o peso da excitação que nos acometia quando nos cruzávamos, volta e meia, pelos corredores.
— O que há, Lala? — era assim que, carinhosamente, eu a chamava.
— Aqui, Jorge: a água tá escaldante.
— Espera um minuto, já volto. Tenho que buscar as ferramentas.
Sim, eu precisava, ao mesmo tempo, buscar a caixa de ferramentas na garagem e me certificar de que a mãe de Larissa dormia. Voltei ao banheiro, Larissa sentada sob o vaso, devia estar mijando, a toalha somente lhe cobria os seios, agora. Entrei no box — era daqueles modelos que travam por dentro, nunca entendi direito o porquê —, abri a água, estava tudo normal, temperatura agradável. Atrás de mim, a figura juvenil de Larissa. Virei-me e disse que tudo estava certo. Após fechar a tranca do box, deixou cair a toalha e pude vislumbrar pela primeira vez seu jovem corpo nu. Faria catorze anos no mês seguinte.
(…)
Nunca havia sido um mau esposo. Pelo contrário: a mãe de Larissa e eu formávamos um belo casal. A verdade é que, com o crescimento de sua filha, o seu corpo que naturalmente tornava-se flácido, porque vivido, deixava aos poucos de me interessar. Minha esposa, com o tempo, foi se entregando cada vez mais aos calmantes e ao uísque: não aceitava meu desinteresse e, como se pode imaginar, não tinha coragem de me confrontar. Por causa de suas fugas, Larissa e eu nos tornamos cada vez mais amigos.
Entre a decadência total do meu casamento e a paixão arrasadora entre Larissa e eu puderam-se contar uns curtos meses. Sentia-me um Amaro realizado, com a minha pequena Clarissa sobre mim. Se o Érico tivesse podido, seu romance não seria nunca aquela pasmaceira ingênua. Éramos ali, todo o tempo: transávamos antes de eu levá-la à escola, depois do almoço, dentro da piscina. Para tanto, havia dispensado a empregada e me valia das minhas férias aliadas às fugas de minha esposa, mãe de Larissa.
Tudo corria calorosamente bem até o dia em que cheguei do trabalho, passava das dezoito horas e vi Larissa sentada junto à parede da cozinha. Seu rosto machucado, o sangue lhe escorrendo do nariz.
— O que aconteceu, pelamordedeus!
— Mamãe, ela sabe de tudo!
— De tudo o quê? — gritava ansioso, esperando disfarçar meu nervosismo.
— Tudo sobre a gente, tudo, TUDO!
— Espera, Lala, eu vou conversar com ela.
Antes que pensasse em me dirigir ao nosso quarto, já Larissa punha-se de pé à minha frente. Enlaçou seus finos braços sobre meus ombros, na ponta dos pés, e sorriu, o canto da boca machucada. Sorria.
— O que é isso? Tá maluca?
— Pára, Jorge, ela não vai mais nos incomodar.
— Como assim? — disse eu, nervos à flor da pele.
Larissa sorria o riso do ódio e do orgasmo. Meu desespero alcançou seu extremo. “Como assim, nunca mais incomodar?” Não tinha coragem de repetir a pergunta. Já Larissa me beijava, o gosto doce de sangue surgia na minha boca.
— Nunca mais mesmo? — perguntei, ansioso.
— Não, nunca mais.
E antes de pensar o que dizer à polícia, aos familiares — mesmo antes de imaginarmos maneiras de não nos tornarmos suspeitos, trepamos ali mesmo, no chão da cozinha. Somente uma vez revi aquele sorriso macabro e excitante nos olhos de Larissa. Foi no dia em que me levaram algemado, condenação certa, não havia álibi que me salvasse. E da doçura quente daquele olhar, da maldade sobressalente daquele sorriso só posso dizer o óbvio para um homem que teve Larissa úmida entre seus braços: sinto saudade.
Publicado antes no Duelo de Escritores.
Demônios de pedra.
O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”
Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:
— Sabes que dia é hoje?
— Terça-feira?
— Não, amor: um outro dia, um dia especial…
Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.
Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:
— Vamos embora, tá ficando escuro.
— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?
— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.
— As gárgulas?
Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.
Calafrio!
Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.
Calafrio!
Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.
Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.
Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.
Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”
Publicado antes no Duelo de Escritores.
27 de out. de 2009
O meu nome.
mamãe outro dia disse não haver um labes que preste, vejam só, lígia uma vez foi lima, marcos tem em si vinicius, certamente que o nome vale, posto que são tanto, marcelo é só labes, os labes não prestam, papai falou cuida que não há labes que se salve, eu sei, o rosto vermelho de vergonha e pressão alta, os olhos vagos, o álcool. eu diria: não tenho necessidade de beber, mas de provar que não tenho necessidade, logo bebo pra mostrar que não preciso; ninguém entenderia, talvez nem eu.
labes é uma incógnita desvendada, eu disse com entusiasmo NÃO SOU ALEMÃO, ninguém riu, sou francês excomungado, pastorzinho luterano de merda brigou com o rei católico francês, disse vai embora, e ele disse eu vou, foi pra alemanha. essa tristeza, essa melancolia de imigrante faminto, imigrante fedendo a merda de anos e anos a fio remoendo a certeza que na europa era melhor, eu nunca fui à europa mas a tristeza parece ser a mesma. acontece que se isso aconteceu no século dezesseis e há mais de quinhentos anos o pastorzinho fiel a nosso senhor jesus cristo e independente do poderio de roma mudou-se pra alemanha, não adianta esconder que, sim, eu lamento, ich bin deutsch, honey, e nada posso fazer contra isso.
dissoa, contrasta, fere meus ouvidos, talvez que haja um ponto da língua que prende, os dentes são tão bonitos, tão bonitos, dizia doutora rosa, a dentista que me dava mais atenção do que qualquer mulher jamais me daria, eu não fumava. enfim, deve ser uma questão de língua nos dentes o soar feio desse encontro de r com c com elo mar-ce-lo, ligia me chama de mar e eu olho o mar e penso no quanto há de distância semântica entre nós.
se eu fosse menina, devia ter sido, teria outro nome, seria estéfani, stephany, nie ou qualquer coisa que o valha, marcelo não soa ruim, poderia ser rafael, talvez tenha sido, há quem diga que tenho cara, rafael pelo menos é nome de anjo, será?, marcelo é o diminutivo de marcos, sempre dou o exemplo, ânus é anel, anelus é anelzinho, marcos é martelo, marcelo é isso aqui, o latim é que explica.
marcelo labes, esse aqui, isso aqui, acabou esse espaço de escrever, tentar outra coisa, falar da vida alheia novamente, escrever poeminhas novamente, lançar livro, beber livros vendidos, encontrar nova forma de presentear as pessoas, eu não sei dar presentes, o livro pelo menos ajuda, não vou repetir, podia mudar a dedicatória, melhor outro livro então.
talvez que algum filho, se filhos houver, um filho de um amigo, um sobrinho, bem mais provável, um dia pergunte ao então carcomido do que tu te lembras? e eu direi, sinceramente, pensei hoje tão claramente - como quando deus morreu, foi simples, bonito, colorido como é para quem não tem daltonismo, olhei e disse não há deus e nunca mais houve. assim simples eu pensei nos domingos de manhã, o abrir dos olhos, a tontura, sempre a náusea e a mão fria da ressaca sobre meus olhos, nunca mais faço isso, nunca mais me torturo, cansei do estrago, larguei essa vida, o que eu disse?, o que eu fiz? eu direi a quem perguntar do que tu te lembras? eu direi, simplesmente:
eu me lembro de ter esquecido.
25 de out. de 2009
Três poemas de reencontro.
LAMPEJO #20
Os olhos azuis dele
Azuis os olhos dela
Os dele tão azuis
Era o céu e eram os olhos
Que me olhavam sem temor.
LAMPEJO #21
Éramos dois ou três.
vieram os anos
(tantos anos, um atrás
do outro, incrível).
Éramos quatro ou cinco,
éramos tantos!
No reencontro,
partes do mesmo
e intenso vazio.
LAMPEJO #22
Se eu soubesse antes
do antigo gosto do beijo
(o cheiro, os cheiros)
não teria nunca desperdiçado
em tantos cantos
meu nariz.
já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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dos silêncios de elevador: bonita a roupa nova repa rei que a senhora anda a batida ouvi os gritos e aj udei chamando a polícia esse cachorr...
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...