22 de out. de 2010

O porquê.

vamos conversar, então, e vamos falar de nossas vidas, de literatura, vamos falar das minhas idas solitárias para longe e para dentro de nós mesmos, vamos falar porque temos ou não assunto e conversas sobre falta de assunto sempre me interessaram tanto. onde paramos?

i´m so high, babe, não muda isso, voaremos sempre cada vez mais alto até a derradeira queda, por que não?, fazemos promessas e mais promessas de viver uma vida reta e justa e honesta e sobretudo com amor, mas não há espaço para o amor nas alturas, o que nos resta, volta e meia, é a solidão dos dias em meio de semana, quando não se sabe para onde fugir e exatamente quando se nos acabou o pouco dinheiro que tínhamos uns dias atrás.

não pensar. nunca mais pensar num roteiro de texto, na moral, nas saídas e personagens. por isso escrevo antes que as palavras possam ser pronunciadas, cada vez mais rápido, e ver aqui surgindo as letras sem saber exatamente aonde vão dar essas letras, ora essa!, as letras formam as palavras - resposta simples - e as frases formadas pelas palavras quem sabe o que poderão querer dizer.

eu peco nas lembranças e a terapeuta gostosa de minha pré-adolescência certamente me diria que se trata de obsessão por um passado claro, todavia obscuro, que não sei mais embaixo de que escombro eu preciso esconder, já que debaixo do tapete não adiantou de nada, vou tudo revisto e ressentido quando mamãe o levantou para passar aspirador.

o tamanho da neurose? havia um tempo, havia uma mulher. sempre isso: havia um tempo e neste tempo uma mulher. muitos tempos, muitas mulheres, cada uma preenchendo um espaço dentro disso que se pode chamar eu mesmo, nós mesmos, somos sempre tantos, enfim.

rever pessoas queridas, esquecê-las - ou tentar esquecê-las, nunca se vão. nunca mais soube de marina nem de dani nem de dover nem de sid, por onde andam? sinto tanta saudade de tanto, nunca consigo telefonar: ou faltam créditos ou falta coragem, uma coisa de cada vez, uma luz intermitente.

vamos conversar, então. a conversa não cessa. sempre eu falando comigo mesmo e contigo. sempre a nossa conversa em que eu falo por mim e por ti. sim, eu preencho as tuas palavras e dali saem palavras minhas, como não poderia deixar de ser. se eu soubesse o que dirias, não te precisaria, mas é exatamente o contrário, entende?

nem eu. fica por isso mesmo. vamos conversar qualquer hora dessas, vamos beber qualquer hora dessas, vamos voar uma hora dessas, mas nunca agora, que o agora nunca chegue, porque a falta é que é o natural; sentir presença é aguardar novamente a ausência, ciclo cíclico mesmo, sem ter para onde correr. então eu sinto a tua falta, as tuas faltas, vocês me fodem com isso de se sumirem, mas eu entendo. vou eu também sumir. vai que te encontro. vai que me encontro. vai que nos encontramos todos de uma vez só.

aonde? quando?

falta saber o porquê.

6 de out. de 2010

Carta-resposta...

a essa carta postada aqui.

porra, rodrigo. surpresas são bem vindas, mas desde que não sejam surpresas. que fique claro! afinal, trato-me dum jovem rapaz latino-americano cujo dinheiro que havia no bolso foi gasto em trivialidades: alcalóides, álcool e livros.

sabe que outro dia houve um conflito interessante. não possuo bens. meus pais colecionam esses brinquedos bacanas, máquina fotográfica digital, processador de alimentos, notebook e afins. e eu tenho uma banda. pô: meu irmão tem esposa (de verdade, esposa que ama o marido que ama a esposa onde ambos amam o filho que os ama, essas histórias surreais que volta-e-meia sucedem), carro e apartamento. minha irmã é uma executiva de sucesso, exportada para são paulo, que orgulho. enfim. íamos tocar, a narciso aprende a nadar e eu e quando pedi à genitora a câmera emprestada para fazer umas poses, veio um tu tens que adquirir as tuas coisas e eu respondi que havia duzentos livros no meu quarto que não tinham saído de graça e que não havia podido comprar todos os lidos, mas eram duzentos que não tinham saído de graça ainda! as misérias.

silêncio.

essa solidão que se vive. compartilhas? num desespero de chegar a buenos aires, a releitura dum nietzsche desvalido, mas tão bonito, em espanhol. em português nunca faria sentido. e relendo el anticristo e pensando que tá bom, foda-se, vou chegar em casa e me masturbar, porque do quanto estou cheio disso que leio, somente com meu pau é que vou me resolver. ou nem isso.

te tornaste um meu mito: o cara que fala de dante com propriedade. e quem sabe de dante? e quem já desceu ao inferno? admirável, certamente. estou sempre à beira de dostoievsky, mas dizem que bom quando redigo que ainda não o li. parece que assim vou mais longe.

outro dia um conflito com nizan, mais um. quando comecei meu romance, o que eu chamava de romance, tanto que eu queria. essa mania de ler! mamãe já havia dito pra eu parar, ficaria louco, essas coisas de quem sabe das coisas. essa mania de ler, li nizan. sartre pagou um pau em hum mil novescentos e sessenta. e eu li o aden, arábia... achei que faria muito quando me dispus a reescrever o conspiração. mas não! nem fodendo. nada poderia ser tão bonito, nem meu próprio romance que, não sabia, já havia sido escrito.

mas foda-se: antes ser um werner incompreendido e bairrista - o que ele sempre foi -, um gênio que se cansa e se entrega. mas eu não consigo, eu não me entrego. enfim. leiamo-no a fim de sacar o que é viver (comédia: leiamo-no e sacar não cabem na mesma frase nem na mesma vida; assim que é).

o que me resta, meu caríssimo? tudo já foi escrito, tudo já foi sentido, há tantas palavras por aí. já ouviste alanis? me parece ser o que resta. os anos passam e, com eles, a vida. tomara que haja onde guardar as malas. tomara que me sobre uma estante onde pôr os porta-retratos. mas que retratos? retratos de quem? quem me dera!






5 de out. de 2010

Pois bem.

eu vou muito bem, obrigado. aliás, obrigado por perguntar. a saúde vai bem, o trabalho vai bem. o que não vai bem, naturalmente, é a noite. tu sabes o quanto demora uma noite a passar. e tu sabes o que fazer? eu acho que aprendi: primeiro o jazz, depois o blues, para então redescobrir o alcalóide, para então conhecer gente nova, eu me sentia tão sozinho e de repente era tanta gente, será que fiz amigos? alguns, mas dos bons, como sempre te disse que deveriam ser, como sempre te disse.

pras noites que demoram a passar, acha-se remédio: outro dia, era dia, nove da manhã, tão cazuza, como dizem, tão assim: eram nove horas da manhã e eu caí como um pacote vazio e magro, como eu mesmo, num colchão no chão duma casa de estudantes que desistiram de estudar, como eu. só às seis (da manhã) eu pude dizer: já é dia, mas ninguém me ouviu: seguíamos numa conversa sem eira nem beira nem destinatário cujo mote, se eu me lembro, era não perder tempo.

mas tanto faz: aprendi a ganhar dinheiro eu mesmo. e te digo que, se não fosse a noite, ele sobraria aos tantos e poderíamos guardá-lo na geladeira; as moedas nas formas de gelo, como tu querias. mas há a noite e há as descobertas. graçasaobomdeus que existe, por trás de tudo, o esquecimento. não é? eu sabia que concordarias.

era hoje de manhã. pretérito imperfeito porque simplesmente faz tanto tempo. era hoje de manhã e eu pensei no saco que é pensar no que há tanto tempo se pensa. uma vez eu te fiz uma pergunta sincera, nem lembro, onde se guardava algo, letra de música, lembrei, era assim: se eu te pedisse pra guardar um segredo, onde você guardaria, talvez a obra prima do merda ouro-preto. ninguém soube o tempo que andei com essa merda de música na cabeça por causa desse verso-enigma e tu, duma hora pra outra, num tempo no meio do nada, apontou do dedo, mostrou o coração e disse: aqui!

enfim: aonde queria chegar com isso? (meu amigo, a essa hora, diante dessa pergunta, durante um falatório, no exato momento em que eu digo aonde queria chegar com isso me diz labes, pára, hora de parar, vamos embora). acho que eu tinha resolvido um enigma cujo resultado me esqueci e que, provavelmente, não vou lembrar nos próximos doze anos.

como o tempo passa...

como o tempo passa! e só me dei conta quando encontrei dover no aeroporto e ele me disse do quanto estava velho, acabado etc. e eu pensei que finalmente, finalmente me dei a idade que tenho, mas essas rugas e esse rosto que recebi da noite, pela noite, não mostram ainda nada do quanto há.

evasivamente falando, termino por aqui. por gosto, simplesmente, e por doença. e daí se eu sou assim?

20 de set. de 2010

Vários poemas desencontrados....

...encontrados no Caderno Azul.

#01

Ela me disse.
(Por que, afinal,
ela me disse?)
Uma dessas pessoas
de todos os dias,
tão pessoa,
ela me disse que
me invejava
a confiança, o desprezo,
a confiança que vem
do desprezo.
E por fim ela se disse
feliz por mim.
(Só na hora de dormir
eu finalmente entenderia).


#02

Fiquemos atentos a todo
e qualquer sussurro;
evitemos, em público,
todo e qualquer suspiro.

Sequemos os nossos olhos,
(Cuidado com todo brilho!),
Fujamos de todo abraço,
Fechemos todo sorriso!

Porque, quando menos se espera,
o que era pra ser, só era.


#03

O estouro e o estrago,
que venham.
E que se vá,
vez por todas,
toda e qualquer
canção
poema
bile
arma-de-fogo.

Emudeçamos!

(Para que nunca mais
homem algum
perca-se seguindo
um perfume de mulher).


#04

O saber da chuva, sentes?
Litros e litros de chuva
em milhares e milhares
de telhados.

Nós, deste lado da janela,
estáticos,
contemplativos.

Lembrando uma canção
triste ou um nome há
muito esquecido.

Chuva tanto mais chuva
- a melancolia dum mundo inteiro
que se encerra, ironicamente,
numa boca de bueiro.


#05

Céu de brigadeiro no interior.
Muito mais bonito!
O vôo de volta será
de trevas e tempestade,
mas aqui dentro.
Ela me disse:
- Amanhã o céu deverá
estar ainda mais azul!


#06

Buscar buscar buscar
Como se já não tivesse
encontrado.
Amar, sobretudo querer,
e permitir-se saber
ser amado.

9 de set. de 2010

Nove de setembro.

envelheçamos naturalmente, como há muito tem sido, sem nenhuma merda de remorso, afinal a fonte através da qual jorrava o leite derramado secou. aprendamos, finalmente, com o que nos acontece e com o que nos deixou de acontecer há séculos: acreditemos nas inverdades inglórias que aprendemos com o passar dos dias e que a continuação dos erros é puro divertimento, tapa na cara dos fatos, tapa na cara da sabedoria adquirida com os anos: aprendi? erro por gosto e ponto final.

afinal, ela me disse, quando eu disse estar ficando velho, quase trinta anos, ela me disse que ainda faltam quatro anos para os meus trinta, o grande marco - se eu chegar lá - mas ela me disse que falta muito e continuou perguntando aonde eu estava há quatro anos e a reticência que se seguiu em mim fechou a sentença a me dispunha cumprir: eu não me lembro, talvez não queira lembrar, ia tudo muito bem há quatro anos, como era tudo uma merda há quatro anos, exatamente como hoje também é; dessa forma, daqui a quatro anos, quem sabe: eu vivo hoje.

eu vivo hoje como programa de abstinência de viciadinho em narcóticos, mas eu vivo. vivi ontem e antes de ontem e tenho estado vivo há uma semana, mas a vontade de deixar de viver ou voltar a morrer em doses de um grama ainda me seduz de maneira tamanha! mas não falemos disso, hoje é meu aniversário. falemos de coisas boas.

meu presente de aniversário: viagem a porto alegre, rever a família, os irmãos que a
natureza jamais poderia me ter dado, mas que me deu o acaso, somos então e somos só e somos sós - mas por escolha! e eles me reviram e sorriram aquele sorriso de esperança ainda, quando eu digo que não há mais por onde e o que resta é dançar um tango argentino ou encarnar o junkie americanóide e morrer aos vinte e sete, mas os sorrisos, ah, os sorrisos me comovem e me demovem de toda autodestruição, porque não poderia deixar de tê-los, de vê-los sorrindo pra mim, por mim.

há quem não telefonará hoje. roni, charles, daniel e quantas pessoas que não fazem mais aniversário e nesse momento eu penso na crença dos que crêem e lamento não tê-la. penso revoltado que não poderei receber um telefonema ou um postal dos que não andam mais por aqui. simplesmente porque não existem mais. e porque céu não há, está claro.

a comoção de um cumprimento de meu pai, um aperto de mão que transformo em abraço e em beijo e em mais um abraço. gabriel que me dará um embrulho e pensará, criança que é, na injustiça de não receber ele um presente. o presente mais bonito: um abraço de criança.

se eu esperava sentado na calçada pelos que viriam, não espero. se há um ano escrevi o texto de aniversário que escrevi, era porque esperava. não espero mais. não espero mais nada. deixarei que os anos venham; eu sobrevivo. deixarei que os anos venham e tragam consigo tudo o que se pode caber nesses anos. até que não passem mais. até que eu não precise, olhos cheios de lágrimas, escrever mais um texto sobre o meu aniversário.

30 de ago. de 2010

História pra boi dormir.

o bom de ser leve é exatamente o peso que não se leva consigo; pula-se daqui ali e o que pesa mesmo é o que se leva nos ombros e que o pouco peso - aquele antes útil - mal consegue aguentar. se eu te dissesse o que se passa aqui dentro talvez que nunca mais insistisses em tentar um contato ou, quando talvez, tentar me conhecer, mas são assim as pessoas, babe, e elas fedem.

é fácil ser um porra louca, eu te explico: basta ter uma decepção amorosa de verdade e mais uma dezena de decepções inventadas que taí: não tens mais que levar a vida tão a sério, tampouco a morte e muito menos ainda isso que se convencionou chamar amor. redigamos, por favor e explicitemos de uma vez por todas: o amor morreu. poetizar? ei-lo morto. se fodeu!

morre-se um pouco, sim. a cada dia, cada vez mais, os anos passam e morre-se mais, pois é. acontece.

e nunca mais se consegue o silêncio, nunca mais que se concentra depois que se apaixonou pela boemia. quando se era mais jovem... quando se era mais jovem ouvia-se tanta gente mais velha cantando na rádio que o que era a vida era daquele jeito e a gente não entendia, não é? fui entender com tristeza o mundo inteiro acordar e a gente dormir, de cazuza, quando o a gente dormir era segunda-feira e eu acordado às cinco da manhã quando precisava de fato acordar às seis, eu entendi com tristeza tudo isso hoje de manhã.

a gente cresce para se reproduzir, compreende? e isso de subjetividade que nos faz broxas e as faz frígidas e nos faz temerosos e neuróticos, o que a gente faz com isso? enfia no cu, de preferência com pitadas de literatura francesa e latinamericana. do século vinte, por favor: faz mais sentido.

cansei das sinapses perdidas e encontradas, dos textos sob influência, da comunicabilidade alcançada a base de alcalóides, tanto eufemismo pra nada. enfim. nunca se diz de fato o que se quer dizer, ainda mais em se tratando de um texto que se julga - escrito por quem é julgado - na tentativa de ser literário.

cansei de mim e de ti. mas me acostumei com isso, então segue-se a lógica da repartição pública e de todo ofício maquinal de merda que se cumpre religiosamente durante a vida inteira até a aposentadoria - e depois dela; nunca te falei que meu pai acorda todos os dias à meia-noite porque esse era o horário em que se jantava no terceiro turno da empresa? acordava. acordou durante quase quarenta anos; foi ao médico e agora toma remédios que o fazem dormir cedo e não acordar nunca mais. mas se o escuto de pé, no escuro, caminhando pra cozinha, quanto orgulho! somos só isso, pai. apenas costume.

cansei de mim e de ti, mas me cansei acostumado, o que quer dizer que não me canso, de fato, embora seja humano e cristão, mais cristão que humano, ter esperança em alguma coisa, e eu tenho: embora nada demais: nunca se permite ir tão fundo e de verdade mais que uma vez.

andar em círculos, sempre. porque sempre será. e não te incomodes de eu não saber teu nome ou confundi-lo com outro. acontece de a gente sempre querer retornar prum conforto que não aceita que tenha terminado, sempre um conforto, até o ventre, num eterno retorno. dá pra imaginar isso numa explicação em três d a la discovery channel, não dá?!

entonces me perdoa se eu confundir teu nome ou te chamar dum nome que nunca havia saído antes da minha boca. de repente a gente pode crer que, se pensar bem forte, vai haver novamente conforto. e de repente a gente pode perceber que o conforto pra onde se quer voltar nunca houve, a gente é que imaginou. e tudo não passou de história pra boi dormir.




18 de ago. de 2010

Três poemas noturnos.

LAMPEJO #35

Que os poemas não
lidos frutifiquem
e tornem-se grito
ensurdecedor
nas bocas dos teus ouvidos.


LAMPEJO #34

Evitaremos o que
nos distrai
e destrói
por simplesmente
fingir que a vida
não dói?

Jamais! Jamais!

Antes, provocar as feras,
insistir nas trevas
e como, quem não quer nada,
pedir mais.


LAMPEJO #33

A ancestralidade
biblicamente nos diz:
Acordai! Acordai!
E nós, ancestralmente
crentes, acordamos.
Mas Ai!

17 de ago. de 2010

Dois poemas rudes.

LAMPEJO #32

Podes utilizar
- dentre as existentes -
quantas palavras forem
necessárias;

o que não cabe numa
noite
não há palavra a descrever
que valha
e que não corte como
aço de navalha.


LAMPEJO #31

Isso de ser homem
é tornar-se,
entornar-se
e catapultar-se
contra quem seja.
Isso de ser homem
é sobretudo ir
(sem nunca, nunca,
nunca se esquecer
de rir
de tudo).

11 de ago. de 2010

5 de ago. de 2010

Vambora?

deveria haver forma mais fácil de. enfim, sempre as mesmas questões, manter distância do álcool, manter o nariz sério, parar de mentir um pouco sobre as crenças que me arrematam, supostamente seria lindo me ver chorando diante de um altar quando, quem sabe, estivesse a pagar pelo milagre concebido, deus, muito obrigado, amém, ou de qualquer forma, nunca se sabe, eu mesmo santo, crucificado, olhando para os ali acerca e dizendo, pai, pode foder com tudo, tô pouco me fodendo.

sempre as mesmas questões, sempre as mesmas. vê? mudam as cenas, muda o clima, sempre as mesmas questões, outro dia era sábado e fazia calor quando de repente me vi a mim mesmo e revi pedro e revi dover e revi todas aquelas pessoas amáveis ou que deixaram de sê-lo, éramos todos caminhando de bermudas e camisetas há cerca de dez anos. íamos pro bar no primeiro calor do verão, pro mesmo bar para onde caminhamos durante todo o inverno, sempre isso.

há que ser sério, mas sobretudo há que se procurar na seriedade algum feitiço - por que não consigo? eu juro que tento - que me leve direto para lá, para a seriedade, para a idade adulta que nunca me chega, a não ser numa ou noutra ruga que me aparece no rosto e que, aos poucos, faz com que o cabelo nunca-curto acabe destoando do rosto, um cabelo de guri num rosto de homem, meu corpo sem pêlos, essas coisas.

para onde se vai? a vida é essa miséria de querer ter certeza quando certeza é o que de menos a vida pode ter. acontece o seguinte: vive-se um relacionamento de masmorra, escravidão intelectual, afetiva, sexual - propriamente sexual - para encenar o matrimônio. um dia, meu caro, ela desce as escadas - como se isso importasse, outro dia falei: tenho as minhas cenas que são meramente ilustrativas, entenda-se assim - e o merdinha escravizado perde o senhorio e, como se manderlay fosse possível, quer a escravidão ainda mais, ainda mais.

para onde se vai, então? tenta ligar pro von trier, via cento e dois, pedindo um abraço? não, não, nunca mais escravidão.

mesmo que se lamente pelo excesso do lamento desvalido. sim, perde-se muito tempo a lamentar o tempo que se perdeu lamentando, mas é assim que se aprende a viver, afinal. deixa o tempo passar, simplesmente, e um dia te vês com o sorriso que rodrigo chamou de besta celestial, disparando não fogos, mas flores contra quem te cruzar o caminho e invalidas de uma vez por todas a imagem das borboletas na barriga, que a isso dá-se o nome simplesmente de diarréia ou paixão alcoólica por mulheres sempre mais feias do que o álcool consegue esconder atrás de si.

um dia tu acordas no sossego. nunca sem tensão, porque o mundo é esse mundo aqui em que vivemos e aonde a merda da vida nos faz chafurdar em si. mas o sossego desacreditado do abraço existe, o sossego esquecido do olhar amante existe. um dia tu acordas no quarto que tem o cheiro do corpo dela e pensas: não lamento nem mais o tempo que perdi lamentando, porque afinal tudo acontece na hora certa e quem somos nós para duvidar disso.

deveria haver uma forma mais fácil de. marcos me demoveu de muitas idéias infantis ao longo desses vinte e seis anos de amizade, mas ainda não conseguiu me fazer esquecer dos anos de infância que passamos juntos, nos divertindo muito e sempre em busca do que fazer para... passar o tempo. deveria haver uma forma mais fácil de se conseguir tempo e marcos ficaria decepcionado se eu dissesse, ainda hoje, que deveríamos abolir o trabalho e as ocupações regulares para viver... de amor.

brincadeira: sejamos sérios o quanto pudermos. paguemos nossos impostos e durmamos cedo, de preferência sóbrios de álcool e remédios, falemos puramente a verdade (nada superará a verdade, jamais) e nos ocupemos em não nos preocupar com o tempo que se leva para entender o que nos diz a respiração do outro.

deveria ser mais fácil burlar a saudade e a necessidade que desponta aos poucos. aos poucos, para não assustar. deveria e será, se for. vambora?

27 de jul. de 2010

Eleitórias.

Toda febre terá sua cura
com antipirético;
Energéticos para salvar-nos
do escuro das ruas.

Toda santa nua terá
o seu manto
e para todo espanto
sobrarão ansiolíticos.

A cada grito ouvido
aparecerá o devido socorro.
A cada sonho ruim,
o calor que convier.

[Para cada choro de homem,
um abraço de mulher.]

20 de jul. de 2010

Um poema de tentativa.

LAMPEJO #29

Depois de ler pela
oitava vez seguida
o Cem Anos de Solidão,
resolveu telefonar pra
casa.

Novidade:

ninguém atendeu.

14 de jul. de 2010

Poema para a manhã mais fria.

LAMPEJO #28

Será que eu poderia?
Sim!
O que tu achas de?...
É claro!

E nada soaria insensato
a quem se libertou
da negação.

13 de jul. de 2010

Poema extraído dum bate-papo...

...com meu caríssimo amigo Dovico.

LAMPEJO #27

O amor acaba,
a vida acaba,
o mundo acaba...

Os amigos e os livros
permanecem.

Deste rol de desventuras
sobra nada.

8 de jul. de 2010

Escrever para.

vou te dizer isso assim, e parecerá simples: não há história com fim, embora sempre haja, sempre há. porque nunca se é ainda, nunca mais se deverá ser, onde eu estava ontem, por onde andarei amanhã, quem sabe. por onde anda quem não tem os pés no chão, eu sempre que me pergunto e a resposta é sempre esta: por aí.

cada um teus os seus ídolos, compreenda. sempre os tive emprestados, meio que nunca tive muito bom gosto e o que me restava era ir... com o vento, digamos. acontece que em algum lugar do ano de dois mil e dois ou dois mil e três ou algum outro ano desta década eu pude ver o admirável humberto gessinger cagar na cabeça de, sabe lá, uns poucos milhares de fãs e eu precisava ouvi-lo dizer pelo menos alguma coisa que fizesse sentido e o que ouvi, na real, foram os gritos de desespero de um eu que precisava admirar, precisava muito admirar, mas vendo-o ali, o tal do humberto gessinger, engenheiro do havaí, o que vi foi um homem que suava e o suor escorria pelas mangas da camisa de linho sintético e acabava, no agradecimento, jorrando como numa cascata salgada que dava nojo de ver.

ouve-se tanta coisa a respeito de quem, a respeito da gente mesmo, que tenho que dizer, antes que novamente me digam: marcelo labes, tu não presta! ouviu? não adianta fazer-se de bom moço e isso ou aquilo e acabar ouvindo de quem menos se espera que a tua pose de intelectual suburbano nunca que vai prestar pra muita coisa a não ser pra isso mesmo, esse mesmo nada onde acabas mergulhado nem ainda no décimo dia do mês. que se faz?

explicar ou tentar explicar o que somente pode ser dito uma vez, sem repetições, ah quanta volta que se dá para chegar aqui mesmo, sempre aqui mesmo, retornar, desviar, acelerar e cair exatamente neste mesmo ponto que nunca se pode saber se foi antes ou depois ou permanecerá para todo o sempre sendo este agora mesmo do qual há tanta necessidade de escapar. sem tocar então no assunto da dormência, da confusão dançante das sinapses, um dia me acusarão de apologia às idéias brilhantes que somente se pode ter às quinze pras quatro da manhã de um dia de semana, um dia difícil da semana, de terça para quarta-feira, por exemplo.

e é só: não se vai muito longe. a queda é ali. escrever para fazer sentido, para fazer sentido ir em busca de algo que seja além - e que não seja escrever. escrever para chegar o sono, para lembrar de quando, escrever porque afinal nunca consegui desenhar nada que prestasse, nunca esculpi nada que fosse válido, escrever para dar razão a essas mãos que insisto em meter nos bolsos e das quais se desvia o olhar ao invés de perguntar o que houve com meus dedos e eu dizer: sempre foram assim.

a vontade de dizer, essa maldita vontade de dizer tudo com todas as palavras com todo o ar dos pulmões, simplesmente falar e falar sem muita inteligência nem gramática que possa suportar tanta fala, tanto grito não dado, tanta vírgula engolida, falar para dizer, de alguma forma, como querendo dizer, dizendo e querendo fazer entendido o que supostamente não poderia - por deus, pela família e por qualquer outra instituição arcaica - ser verbalizado.

escrever para não fazer outra coisa. dormir, por exemplo.

16 de jun. de 2010

Um poema de solução.

LAMPEJO #25

Quantos nós que
nos levam
até o fundo do poço
solucionamos com
apenas um nó
em volta do
pescoço?

9 de jun. de 2010

Vamos escrever!

vamos escrever sobre os mártires e os sem-teto, vamos escrever sobre a gente, sobre a nossa falta de tato, sobre a nossa fadiga. vamos escrever sobre a cantiga antiga que aprendemos a cantar sem nunca entender e recantamos em momentos de tensão desde a pré-escola. vamos cantar a pré-escola e o jardim hum, eu lembro o exato momento em que no antigo hum mil novescentos e oitenta e nove mamãe me deixou na porta da pré escola do sesi, ao lado da artex artefatos têxteis limitada, na rua amazonas, ela me deixou na porta da pré-escola do sesi e eu disse porra, mãe, por que aquele moleque chora tanto? eu perguntei isso com os meus olhos e ela disse entra, filho, tu vai pra escola e eu confio em ti, e por anos e anos e anos eu vi aquele moleque chorão andando do meu lado, no mesmo ônibus, outro dia ele sentou na mesa da repartição pública onde eu trabalho, o moleque sempre será o chorão do meu primeiro dia de aula em hum mil novescentos e oitenta e nove, março.

rá, agora que eu vi que falo como renato russo, aquela bicha - tanto que sonhei encontrá-lo vivo, tanto!, quando ele diz que tem uma cama que é do tamanho desse palco, eu não teria coragem, uma vez tive. eu cantava perfeição a plenos pulmões, os exatos e mesmos pulmões que hoje eu não tenho, lá se vão alguns tantos anos, eu pensava que podia usufruir da academia contra a própria academia, dárlan sabe, eu tive um sonho mais bonito e mais eficiente que o de sir - piadinha - de sir martin luther king, mas a academia só existe para. a academia só existe contra si.

ainda renato russo, porque repetir faz a idéia vir à tona, alguém disse: o primeiro verso de há tempos, há tanto tempo que eu cantei, eu pensava que poderia parecer tristeza a minha cocaína, mas o renato dizia o contrário e foram tantos anos até entender que o preconceito e a ojeriza alheia são o pão que o diabo e o padeiro amassaram bem antes do sol nascer, eles começam a trabalhar geralmente às três e meia, daqui a uma hora, o padeiro às três e meia, o diabo também.

cansei da leitura, leio bem pouco o que é desse mundo, mas me dêem livros de presente quando chegar meu aniversário, livros do sebo caem muito bem, algum kafka ou sartre ou camus que eu ainda não tenha lido, sabe: sou egoísta, multiplico defuntos na minha estante, mas se tu quiseres um livro eu te empresto sem prazo de devolução.

hoje eu não sinto saudade. e hoje eu não tenho dinheiro. impossível conectar imediatamente saudade e dinheiro, mas a gente geralmente sente falta não do que não tem, mas quando não tem, quer que eu explique?

hoje eu não sinto saudade, hoje eu não tenho dinheiro, hoje não há fantasmas (o amigo morto no ataúde, o amigo vivo que não telefona, os passos dela na escada, nada!), hoje não há nada: nem fome nem sono nem sede nem vontade de ficar acordado, vê?, nem insônia há. vou pensar nos meus bonitos, nas minhas bonitas, nos sonhos de há dez anos atrás como se se tivessem realizado. vou criar o meu mundo perfeito e nele dormir satisfeito.

obrigado!

26 de mar. de 2010

I am the walrus.

ninguém viu, talvez ela tenha lido, mas está ali, a porta do guarda-roupas, os fundos do guarda roupas, não os fundos dos fundos, os fundos de dentro com tinta a óleo, charles morreu em hum mil novescentos e noventa e oito, afogado, tinha dezoito anos e estava na oitava série, eu estava na oitava série com treze para quatorze anos, talvez charles tivesse dezessete anos, mas era negro e pobre e bonito, talvez tivesse de dezessete para dezoito anos, mas foi assim:

não falei, vi-o morto no caixão instalado na casa pequena, eram três cômodos, vi-o negro e morto em hum mil novescentos e noventa e oito, chorei somente o que podia, não sabia chorar ainda; fui ao enterro no cemitério cheio de estudantes com olheiras, isso faz tanto tempo, depois eu soube: não prestava mais viver aqui. caralho de rima! e talvez tenha sito o start ou o game over. fui morar em ivoti.

casei um amigo, o primeiro, o primeiro amigo a casar de fato, igreja, pastor e dei-lhe um abraço dizendo ter certeza, sabe-se sempre tão pouco ( eu lhe falei da certeza que eu tinha de que serão felizes), o amor é a única coisa que de fato funciona. um dia disse a adriano, chorando, que sentia saudade e que desprezavam o que eu tinha vivido, aqueles três anos confinado, aqueles três anos no cio, aqueles três anos (um balbucio!): eu vivi, me perdoem, eu vivi de verdade a vida do boemia, do intelectual de quinta, do adolescente rebelde de quinta {eu nunca fiz nada que valesse a pena, assim: [havia um banco, escrevemos uma peça ruim, mas uma peça (a gente tinha quinze anos, porra!)]}, mas afinal, uma vida: dover, gerber, edos, eu, cabem tantos nomes e tantos nomes que não precisam ser ditos: falo do pedro por amor e escondo outros por sacrifício.

(aonde eu queria chegar, aonde eu precisava ir, há o trottoir e há várias anas que nunca foram minhas nem nunca serão; ela me disse que me lê aqui, que surpresa!, tenho que tocar violão e voltar a ter certeza!)

morreu-se mais um amigo, casei um, pelo menos. (isso de poesia, nem sabia onde morava, veio a carta, enterrei um, disse, vou ao rio grande casar outro). e foram dias de glória, tanto se trabalha, foram dias de glória, eu revi! eu revi! EU VIVI, PORRA! foram dias de glórias e foram apenas três curtos dias.

quantas farças preciso viver? eu vi o corpo e somente senti quando me veio a mãe chorar no meu ombro e disse ele foi teu amigo e eu me disse há tanto tempo, e ela disse ele, o teu amigo, e eu disse a ela o amigo de tantos anos atrás, o primeiro amigo, o primeiro, e fomos enterrá-lo no
cemitério.

nunca se recupera. eu li tanto, já. eu li tão pouco. e a vontade de chamar bolaño pra conversar - eu ficaria frio e pálido, mais do que quando dona hebe de bonafini me apresentou à américa latina. muito prazer, eu disse; a américa latina deu de ombros e não respondeu. gregory foi
sempre tão simpático!

ele me disse que eu não posso ficar igual meu pai. e eu disse a ele que meu pai é velho e eu nunca vou ficar velho. ele me olhou. eu disse a ele que maluco morre antes, morre com sorte, morre solene: eles dizem: morreu jovem.

[é isso de letras: a gente somente escreve, foda-se o receptor. quem se importa, mente.] eu te disse, anjinho.

(e eu me digo que merda, marcelo labes, essa porra desse anjinho não existe, por acaso inventaste uma irmã mais nova?, por acaso criaste uma amante de corpo impróprio, ela ainda criança? e eu me digo porra, marcelo labes, tu não vais parar com isso? e porra, marcelo labes, até onde? e eu respondo assim: eu, marcelo labes, não tenho rumo nem eira nem beira nem fim. tenho mais amigos que inimigos, assim penso. não me desejo escritor, os outros é que me dizem; uns poucos me agradam com elogios e falam bem.

e eu acordo nessa sexta feira e penso porra, o que vou fazer de mim?)

e penso no belchior, que eu sou apenas um rapaz, e no humberto, que grita e regrita o amor, no renato, que fala que fala de paz e no john, que diz que i am the walrus. amém.

pois que tanto que se pense que se diga que se fale que se ore que se sonhe que se sinta que se chore:

so i am the walrus também.


16 de mar. de 2010

Um sonho.

a gente sempre tem um sonho, maninha, eu também tive, era numa rua que não existe mais, puseram um viaduto bem no meio, mas era lá, quantos anos eu tinha, tão poucos, era um ônibus da itapemirim, amarelo daquele jeito dos anos oitenta, amarelo queimado, eu entrava no ônibus ali onde a iguaçu encontrava com a rua são paulo, ali tinha uma parada, eu me lembro, eram tempos de cremer e ônibus da glória, nunca vi um itapemirim ali, ônibus de viajar, sabe como é?, e eu entrei pela porta da frente e vi o cobrador do ônibus feito num esqueleto, tudo aquilo eram esqueletos e enxofre e eu fui andando, devo ter me mijado, no sonho ou de verdade, eu fui andando e tu sabes como são ônibus de viagem, maninha, tem uma porta só, a da frente, e eu fui andando para o fundo do ônibus.

a gente sempre tem um sonho, o de ser qualquer coisa, até que desiste, se viu que ainda não se tornou nada, outro dia meu irmão disse que estranha a minha geração, isso de não querer ser nada e me perguntou tu, o que tu quer da vida, e eu disse que nada, não quero nada, já me basta muito estar vivo ainda e ele disse que achava estranho e eu não disse a ele, digo a outrem, digo que me basta um emprego que me pague as contas, o trago, o cigarro, o pó e me reste algum dinheiro pros livros, ou a conversa é invertida, que eu tenha dinheiro pros livros e me reste uns trocados pro resto, sabe como é, a gente nunca sabe quem tem sido ultimamente.

eu me lembro de uns tempos. um de cada vez, tempo depois de tempo e me pergunto o que houve hoje pra eu lembrar disso daquilo ou daqueloutro, entende?

eu caminho ainda pelas mesmas ruas de uns anos atrás, eu ainda bebo no mesmo bar, eu ainda penso numa mulher assim e eu lamento. eu ainda lamento, maninha. não por tudo, mas por tão pouco.

desde que revi barone e cris que eu guardo um choro. mas não vai ser qualquer choro, não. vai ser um tal de um qual de um certo choro bom. aquele que eu quis chorar naqueles tempos, o shopping cristal e eu me aguentando de choro e diarréia, não quero ir embora, não vai ser bom eu voltar, teria ficado por lá. teria ficado por lá: em porto alegre, em são leopoldo, em ivoti, em são paulo, em curitiba e na casa de uns parentes de minha madrinha que moram no oeste de santa catarina e que eu visitei quando ainda nem sabia falar. eu teria ficado por lá, maninha, e tu nem sentirias a minha falta. nos é muito caro perder alguém com quem se viveu.

mas a gente nunca viveu junto. e então?

teria sido melhor nunca ter te conhecido, anjinho.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...