29 de out. de 2013

Poema-dobradura

Te tenho em três, quatro
bairros
dessa cidade sem escrúpulos.

Ali, uma luz doce;
Aqui, uma insônia imperfeita.

Quantos passos em direção-onde.
Tantas horas! Tantas horas!

Em que passos te deleitas e que,
a esmo,
te encaminhas?

De que lado nasce o sol,
pequenina?

Se nascemos já todos tão cegos!
Se nascemos já todos sozinhos.

13 de out. de 2013

Entre parênteses e reticências.

sim, eu quero é descer novamente as escadas, cego, olhando para o chão e para ti, tu desces na frente, teus passos inseguros, eu piso onde. eu quero descer as escadas e deixar tuas malas novamente na calçada; tuas malas e os sonhos que num domingo, decerto era domingo, nos fizemos: quem não sabia que era mentira? eu acreditei. sim, eu quero saber dos teus parentes e dos teus ancestrais, até quem sabe o primeiro austrolopithecus, o primeiro dessa linhagem que veio acabar em ti, que veio pra acabar comigo.

é domingo e me descubro indescoberto entre dois discos tristes de duas pessoas felizes, tomara que o sejam: eu dormi e sonhei com uma manhã de domingo que leo fressato canta tão inocentemente - eu é que não me descubro em mentiras alheias, nasci pra crer no incerto.

claro que não pode ser assim, ela me diz, embora eu creia que é sempre assim que tem de ser: obtuso, convexo, irregular, parabólico.

caralho!

barone cantou meu quarto há mais de dez anos: as paredes eram livres. hoje sou mais livre do que as paredes daquele quarto, meu caro; trago em mim as tatuagens de cada verso, de cada canção, de cada fotografia, de cada nome de mulher que por mais que faça questão de esquecer, inscrevi nos meus ossos à mostra: fumo meus cigarros para evitar gritar aos quatro ventos: "EU QUERO QUE TODOS SE FODAM!".

não pegaria bem, não é?

eu quero novamente receber aquele telefonema esquisito em noite de domingo me dizendo que é para eu buscar minhas coisas, porque tudo se acabou sem querer, sem motivo, só acabou, compreende? com ou sem escadas, tanto faz. mas preciso, entende?

o amor é a gasolina pra essa minha vida de tomar querosene e olhar a luz do poste dar voltas em torno de mim.

qual amor, marcelo labes?

o amor morreu a cada degrau da escada, a cada palavra do telefonema de domingo, a cada quilômetro de distância na estrada e no tempo.

o amor nasceu morto e foi enterrado no quintal da casa de meus pais. o amor era um pássaro que encontramos morto, daniel e eu, e enterramos com honras fúnebres de crianças tristes - que éramos. depois enterrei daniel com as honras de quem não poderia nunca mais não ser triste.

mas morre pra renascer. me dizem.

hoje é domingo e só. hoje é o dia da saudade. hoje era pra ter sido um dia de reencontro entre eu e mim mesmo. onde andaremos?

para onde vamos?

quem saberá de nós?, me pergunto.

e me pergunto esperando não haver resposta possível. ando cansado de me contra-argumentar.

de amar, suspeito, não me canso. amar e esperar as escadas. amar e esperar o telefonema de domingo. amar e esperar.

26 de set. de 2013

Pai?

Para Dover, Edward e seus pais.
Para Alfredo Labes.

porra, pai! que isso de estar vivo quando te procuro, te procuro e o que encontro sou eu mesmo daqui a, quantos?, trinta e poucos anos? mas sem filho, mas sem um eu ali, comigo (contigo), pra me olhar e me dizer em pensamento tudo quanto quisesse, os olhos lacrimosos, a boca que não fala, pai.

eu tenho um livro, eu tenho canções que sei que conheces. e eu tenho tua certidão de batismo guardada numa caixa, lá está um alfredo bebê, mas não consigo imaginar um bebê nos anos cinqüenta, me desculpa, então te vejo como sempre te vi, mas em miniatura, no colo da vó e do vô, nem eles diferentes, eles também velhos, e uma pia batismal de madeira, como devia ser naquele tempo. como era?

o que terá havido entre o andar de bicicleta na estrada de chão e as centenas de pílulas e drágeas e consultas em quantos médicos, tudo vai ficar bem. são eles que tão dizendo.

minha vergonha de ti é a que sinto de mim mesmo, acho. isso de ser assim, tão a gente, tão silêncio. eu quero teu carinho, mas digo que quero idéias. e que idéias eu posso querer de quem passou tanto tempo na frente dum tear pra nos trazer comida, pai? mas a arrogância me morde e eu recuo e me escondo dentro dum eu que sei que não entendes, mas respeitas. teu olhar de cumplicidade quando, bêbado, chorei falando que sentia saudade.

sinto saudade.

e como a gente preenche os vazios com coisas boas, crio histórias: quem éramos e quem nunca fomos, onde íamos e nunca chegamos. nossos planos, pai. nossos sonhos. nossos quê? tu tão tu, eu contigo, eu tão eu e tão comigo. amizade é outra coisa, parece.

nos despedimos já quantas vezes, quantos retornos e calmarias. tu me pedes o que não te posso. eu te imploro que me acarinhes. sem palavras nem gestos, claro, que é assim que foste criado e te compreendo, acho.

mas pai, vê que te chorei mais de vez. nos bebi já em dobro. meu cigarro é o teu cigarro. meu cheiro é também o teu.

e quando vejo as distâncias somadas, como faço pra não te querer?

fui sempre adotado, claro, essa cara de coitado órfão que a natureza e a insônia me emprestaram. e vejo que não teria sequer palavra pra te dizer adeus como fizeram os que amo, faz pouco. não te chorei na despedida de ervino, não te pensei na passagem de norberto. quero que dover e edo me expliquem, pai, quero que me expliquem como e onde dói essa dor do não-ter-mais.

será que tem cura?

mas a gente ainda é. a gente, quem sabe, já foi. a gente e toda a nossa vida.

e eu te diria essas palavras se te deixasses me ouvir. diria, sim.

mas por ora calo em luto por quem já cruzou o inevitável. e pelos que ficaram. e por ti. e por mim.






3 de set. de 2013

Tio João

tio joão é um mito que habita aqui dentro da cachola desde a mais tenra idade. tinha medo de mirar aquele homem baixo, de barriga grande, cabelos pretos e olhar triste. porque a tristeza de tio joão, fui entender, era a tristeza do brasileiro desassistido que se virava como podia. virou-se como bem pôde o tio joão. como podia.

que será que sentia? que será que sonhava?

tio joão que morava no último sítio da última estrada do fim do mundo. eu lembro: minha mãe chorava porque fora ali, naquele sítio, o casebre de chão batido, o pai morto depois do almoço.

não me sabia, nem eu a ele: dois estranhos. quem sabe, o mesmo olhar triste. o dele, pela farinha pouca. nunca pensou em que roupa. tio joão e a pinga pra fazer rir, o palheiro que deixou e disse: não fumo mais. meu olhar triste de quê, tio?

talvez a visita de agora-faz-pouco: sem sítio, sem cavalo, sem carroça. deitado na cama humilde do três cômodos beira-chão.

(a poesia duma vida que a gente vê no teto sem forro, as telhas aparecendo, um sorriso lacrimoso que chorou quando nos viu)

beijei o velho de cabelos pretos - ainda pretos -, como se fosse meu pai. e talvez fosse. joão tavares, filho de joão tavares, o que morreu depois do almoço.

este, suspirou num hospital. teve mais chance. teve mais tempo. morreu com os cabelos pretos do outro.

aquele joão tinha guardadas em cima da casa as tábuas pro seu caixão. e este joão, como será enterrado?

a mesma igreja na colina, o mesmo vento de litoral. o cemitério onde joão-de-depois-do-almoço nunca mais foi encontrado.

carminha decerto chegará perto e dirá: "adeus, mano. que encontres todos os outros lá em cima". e eu chego a acreditar no lá em cima pela fé com que terão sido ditas estas palavras.

acontece que a gente vive exatamente pra morrer um dia. e esse choro guardado não tanto pelo tio joão, que morreu velho e cansado: mas por nós, que vemos a vida ir embora. nós que amamos e temos lembranças.

- lembranças que me visitam todas agora.

24 de ago. de 2013

Curriculum Vitae

ou "Entenda um pouco do meu foda-se"

Para Andréia Peres

CURRICULUM VITAE

não me defino para muito além dum menino mimado que viu pai e mãe enlouquecerem desde os primeiros dias de - minha - vida. sofro da síndrome de menino pobre, moleque de rua com as unhas sujas, graxa da bicicleta. era feliz lá. não fui feliz na transição. sempre ingênuo, sempre o último a ser escolhido para o futebol.

chorei por ionara em hum mil novescentos e noventa e cinco: me trocou por outro moleque da escola. chorei um choro que somente seria superado depois da leitura de meu pé de laranja lima, de vasconcellos: era eu aquele mesmo menino pobre de família louca. o portuga nunca existira. chorei na descoberta disso. desde então, as lágrimas - que viriam ser substituídas por cocaína e estaria tudo certo. demorei a reaprender a chorar. de cheirar, como andar de bicicleta, nunca me esqueci.

sofro de saudade e ansiedade, uma gera a outra de maneira indeterminada. se revesam. parei de imaginar o rio grande do sul faz pouco tempo. até então, queria voltar pro internato, acordar na cama de cima do beliche que mobiliava o quarto número dez, à esquerda do corredor, primeiro piso. outro dia, depois de anos, falei com schulapa, de nome anderson petry. mora em minas gerais, tem um filho, é divorciado, trabalha com sei lá o quê e entendi que a euforia de conversarmos era somente minha. não me ofendi: minha saudade é sempre maior, eu digo. sou eu quem sofro e sofro pelo dois, eu penso. tanto faz, então.

descobri que o que tenho nos dedos chama-se baqueteamento digital. sinto vergonha das minhas mãos quando olham para elas. por isso estão sempre em movimento, nos bolsos, correndo o atrás, escondendo-se atrás dos meus cigarros. pensava tratar-se de sequela daquele tratamento para crescer a base de hormônio na urina de mulheres grávidas, dezoito injeções, três vezes por semana, se faltasse um dia, já era. o calendário contava hum mil novescentos e noventa e seis.

comecei a escrever um ano antes. lembro do meu primeiro poema, que chamo de juvenília, que significa exatamente primeiro poema dum poeta. sou bom com as palavras por me achar pequeno, como as pessoas pequenas, as mulheres pequenas que são irritantes e a gente vê que se impõem pelo tamanho pouco. eu, gente pouca, homem pouco, pouco peso, poucos pêlos, pouco tudo, tinha que achar forma de ser encontrado: escrevia. sempre deu certo.

arrogante de carteirinha, falo pelas costas, ameaço, mas olho pro lado se me encaram. também as mulheres. covarde. busco no álcool o conforto que sentia meu pai quando dirigia bêbado comigo na carona. quase apanhou, o velho. acho que esqueceu meu nome. acho que esqueceu o próprio nome. meu pai me dói mais que o frio de joquim, de ramil. e a dor é realmente verdadeira no mais ilustre filho de satolep.

leio para escapar do mundo e escrevo para escapar pro mundo o que transborda. me creio o melhor poeta do estado e talvez do sul do país. o melhor vivo, pelo menos. sei que devia escrever prosa, mas não tenho idéias contínuas a ponto de. nem as neuroses continuam. sempre se emendam, remendam, refazem.

sinto saudade de lígia e de vinícius, embora reconheça que são menos irmãos do que foram. devo mil reais para lígia que nunca vou pagar. vinícius me deve dez reais há pelo menos dezoito anos e diz que quem deve sou eu. rimos disso. lígia só lembra da grana que devo porque anotou em algum lugar importante: perdeu a memória quando lhe operaram a cabeça. não sabe nunca que mês é, que ano é. mas vomita aquela grana em cima de mim sempre que pode.

sou filho de mãe perversa e pai alcoólatra: matava formigas no quintal com plástico derretido.

perdi meu primeiro amigo de infância pra uma infecção desconhecida. perdi vários outros amigos pras suas esposas e seus filhos. estou em idade de esposa e filhos embora ainda não saiba direito quem sou nem o que são isso, esposa e filhos.

me perdi na adolescência, suponho, conservado em álcool e sonhos.

não tenho preferência entre sartre e camus, nem entre saramago e lobo antunes. depende do interlocutor, claro.

se eu fosse menina, me chamaria stephany.

achei que era gay até o momento em que descobri que não era. hoje me divirto com o dúbio, só.

acho a poesia chatíssima. sobretudo a dos outros. gosto de ler o que ninguém lê pra arrotar autores na cara das pessoas.

café com leite sem açúcar.

amendoim japonês com pepsi twist.

não passo um mês sem ficar duro de grana.

gosto de todo tipo de música que soe bela de alguma maneira.

prefiro falar de mim porque acho que me conheço, mas sempre me conheço um pouco falando de mim: não acaba nunca isso de conhecer-se, afinal.

ouço engenheiros, legião, biquini e todo tipo de merda oitentista porque cresci por lá; foram meus momentos mais felizes.

amo ainda cada uma de minhas namoradas como no dia em que descobri que amava cada uma delas. mas escondo isso de todo mundo. por segurança.

quando bate a melancolia, olho pela janela - como agora - e penso que a vida não presta.

melhor não ter nascido, penso.

tentei morrer várias vezes. de overdose.

tentei morrer de bicicleta, faz pouco.

vou morrer de câncer, decerto.

não sei mais o que escrever.

tenho medo do quanto te falo. porque esqueço do que escrevo. porque as pessoas não esquecem do que escrevo. porque me esqueço que as pessoas não esquecem.

falo demais.

e paro de falar assim. troco conversas por suspiros numa boa. e te deixo sozinha, assim.

um beijo.






10 de dez. de 2012

Um outro espaço.

Talvez porque este espaço me fizesse cansado, talvez porque era hora de juntar algumas palavras, resolvi migrar por um tempo para um espaço. Lá se encontram poemas escritos nos últimos anos, desde a publicação de Falações, em 2008.

O que está lá, está também aqui, embora sem unidade. No entanto, me pareceu facilitar a leitura unindo-os em grupos - nunca temáticos nem temporais, obviamente.

E há ainda as fotos que venho tirando, as coisas que venho fazendo.

Certamente que volto para cá. Apesar de não parecer, há sempre algo por ser escrito.

Fica o convite para a visita:

MATEMATICALIGRAFICAMENTIRA!

Um abraço meu.

Marcelo Labes

25 de nov. de 2011

Poema de edredon.

Gosto de sono
na tua boca.
Gosto de sonho
em ti toda.

Voz de edredon e
domingo.
Olhos de quem vive
para amanhã.
- a vida que será vivida
não à toa -

(nunca à toa)

Essa, eu deixei
numa curva
quando se podia
dizer que era boa.

Mas esse teu gosto
de vida
faz da vida que
não se vive
em vida que se voa.

10 de nov. de 2011

Poema desentalado.

I

E se eu te dissesse
palavras mais severas?
Mais do que tanto já disse
(logo me vou,
a vida é um fiasco,
de que vale a pena,
vamos nos amar).

E se te dissesse
entre tantas verdades
somente mentiras torpes
me irias acreditar?

Ah, se eu somente calasse
- o tanto que há pra calar -
e me permitisse apenas o toque
- do que tanto que há por tocar -
talvez que enfim te dissesse
e me permitisse falar
as tais das palavras severas
que em nada parecem com aquelas

doces,
soltas,
francas

que os lábios ensaiam
inquietos,
gagos - os lábios gagos.

Seria frio ou seria ensaio?

II

Mas nada - nada há de
equilibrar essa distância
(se fossem somente os anos,
se fossem somente os planos
desfeitos) -
essa distância mesquinha entre
céu e mar.

Aquilo que vês, bebê, não passa
de ilusão de ótica:
não se tocam nem nunca vão
se tocar.

Então por que isso de ser gente
e imaginar?

III

Eu vi mais de três vezes.

(disse um amigo que é do que
precisa um homem, três amores
em que chafurdar)

Eu vi, eu vi!,
eu vi que se acaba em quase nada
isso de se querer,
isso de no que se apoiar.

No entanto
(porém, eu diria)
no entanto se diz
que viver é a busca,
ainda que brusca,
dum querer bem,
ir sem voltar.

IV

Mas sei que já não cabe
(nunca coube -
acontece -
está-se por estar).

falar as palavras confusas
que nos exige a poesia,
as garatujas e a cinefilia;
e ainda a política
que distancia pra aproximar.

V

As palavras.

Há ainda palavras
que digam e possam dizer?
Há ainda sentido quando
no meio do caminho
(quando no meio do
caminho etc e tal e...
assim que se faz poesia,
Drummond?) -
haverá?

VI

Há a poesia e o
poeta
- a curva, a subida,
o contrário e a reta -

mas o que sobra é o que
se verá

(sempre e sempre e sempre
e...):

a alma desnuda e o
coração cheio;
a pele opaca
e muito receio.

No meio disso,
nada há.

VII

Mas tu sabes de tudo
que não viste
(tens nos anos que
não viveste toda a
arrogância que subsiste
no fato de seres tu mesma).

E quem te põe a mesa
não pensa que és tão triste;
vês mais do que teus olhos
míopes,
a língua rachada diz mais.

É assim que se vive,
penso.

VIII

Tanta lisergia pra quê?
Não há momentos sinceros
nisso de se querer?
a si?

Nisso de se querer pra si
tanto que o mundo quer dar
- e não se pode assumir a dádiva -
(a esmola que se quer apanhar
e é extremamente proibida.

Exercer então o quê na bebida
e no escuro dum quarto-sofá;
numa esquina qualquer escura,
do lado, no meio da rua,
aonde se encostar.

IX

Vive-se bem no Brasil,
donde a puta que nos pariu
- o recheio: a pátria, o sonho,
a alma dum brasileiro -
tanto faz:
vive-se bem por inteiro
ou pelo meio.
Vive-se sem reclamar
disso que é tão feio:
isso de ser brasileiro,
ter boca e não saber falar.

Ouvi! Ouvi!

(não eu, é um reclame na segunda
do plural)

O vexame já se engoliu.

X

Há afinal uma história
e um escrever sem memória -
registro para lembrar.

Há, sem querer,
um limite.
Quem pensar ser gente,
acredite:

por mais longe que se vá
(campo, metrópole, mar)
nunca se chega distante
de onde se quis estar.

XI

Se eu te dissesse palavras
mais severas,
me irias acreditar?

Se te dissesse, ao acaso,
que procurei por mais palavras
do que pelo que dizer;

Que andei por mais distâncias
por onde não quis chegar;

Que cantei canções distantes
que a voz não quis cantar;

Que perdi o sono à noite
pra não ter que acordar;

Que rimei rimas tão toscas.



28 de out. de 2011

Barone.

A propósito dos dez anos do Palanque Marginal.

foi no banho, onde mais teria sido? pensando em barone, no tanto que tu és, foste, quem sabe ainda seja, tanto tempo distantes, pensando em escrever de verdade, isso de fluxo de consciência que a academia certamente abomina, mas tanto que eu abomino a academia, ora, onde já se viu, mas tanto faz.

acontece que depois de muito pensei em vinícius procurando respostas, talvez.de quando?, ora, um som dos paralamas que eu conheci antes de tanto, corria hum mil novecentos e noventa e oito, acontecia o nove luas, um som que dizia que da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste etcetera e tal até que então fosse dito que era tudo igual igual igual igual igual.

foi aí ou no cassete do legião urbana, vinte e nove vezes, por que vinte e nove, só por hoje eu saberia. acontece.

mas sempre mais perguntas que respostas, um dia um caminhão e eu pensando que se fosse, seria interessante, o caminhão na minha direção, eu no meio da rua, não foi por medo que eu parei: foi por tesão.

e eu querendo saber de vinícius, de onde a calma. o meu quarto, barone viu, o meu quarto-museu que foi pintado enquanto eu tentava uma vida-teatro em porto alegre, eu já não era mais criança, mas ainda era somente o mesmo, um tanto-faz disfarçado de gente, uma vez fui ator, noutras fui poeta. o tanto-faz veste sempre a roupa da vez.

e a calma. eu pensava: há que ser forte. por quê? forte pra quem? há que ser forte para aguentar a vida, o peso, a tensão, as mulheres que fazem as malas e repetem uma cena de nichols em que se diz eu não te amo mais, como se a cena em si recompensasse a perda, como se a vida fosse cinema: vinícius foi sempre real demais!

e a ânsia das perguntas nunca feitas: não dói, vinícius, ser sóbrio? não dói amar somente uma mulher? e te ver num pequeno, teu filho, e ver ali teu pai também, como é? vinícius que recusou lobo antunes pelo peso que eu sei que é imponente e me devolveu o cus de judas dizendo que não fazia lá seu estilo, prefere leituras mais práticas.

ah, a poesia. eu que já fui poeta, já fui casado, já fui veado, já fui cantor de cabaré (?). eu que somente escrevo porque somente o texto pode fazer sentido e sinto que somente a literatura pode fazer ruir a alma dum homem sadio. a poesia é a grande verdade dos fracos que ali se apóiam e ali se fazem – o que realmente gostariam e não podem ser.

mas onde eu queria chegar com tudo isso? ah sim. dizer que o texto é necessário. não faz o menor sentido, mas é necessário. a academia já morreu há tanto tempo, a literatura decompõe-se tão lentamente, sente o cheiro?, mas isso de ser gente continua, isso de se mostrar assim nu, assim homem mulher o que seja, isso não para. e se escrever é a masturbação de quem se sabe, ler seria afinal o quê? a continuidade sem sentido algum de coisa nenhuma? pois é.

no entanto (ah, no entanto, sempre um porém), escrever-se para si e se ler no outro é o que nos faz humanos, nos faz sabidos, nos faz o que tanto lamentamos ser mas de onde nunca fugimos.

conheci barone antes de mirisola, quase ao mesmo tempo em que sartre, camus, pra nizan vir tão depois e tantos outros. mas nenhum deles pessoalmente. melhor assim: nenhum de verdade.

então percebo: é necessário dar nó nessa corda, enfrentar o final de um texto escrito sem dúvida a contragosto. não sei lidar ainda com o tempo e com as marcas do tempo – dez anos – mas termino dizendo assim:

procurei em vinícius uma resposta, sempre procurei. e por que falo dele aqui? porque ele me responde. quanto a ti, meu amigo, tu és incapaz de fazê-lo e, tenho certeza, vem daí a glória deste palanque marginal: a interrogação necessária, um contínuo abrir de olhos, uma fraternidade fora dos eixos.

sem sentido como a poesia. esta que pra nada serve. esta que é reflexo da vida. e por isso mesmo, fundamental.

13 de out. de 2011

Poema duma quinta-feira chuvosa.

Eu queria ter o poder de pedir
para deixar de tirares meu sono.
Eu queria ter.

Eu queria ter a vergonha de
te falar do tanto da falta que
eu sinto.
Eu queria.

Mas quando me vem teu sorriso
(o clichê do sorriso, eu penso,
sempre se fala em sorriso)
de Curinga pueril;
os olhos de pantera que
parecem não ser teus

Quando enfrento o travesseiro
e me acordo dum sono febril,
me levanto e escrevo um poema
(o clichê do poema, penso eu)
pra tentar resolver o dilema

de quem és tu.
do que sou eu.

4 de out. de 2011

Poema só para ela

A ferida de debaixo
do teu queixo,
A ferida de debaixo
dos teus olhos
Já pararam
- tanto tempo -
de sangrar.

Mas o que te sangra
bem aí, bem dentro
(que é grito, dor, amor,
tesão, tormento)
como faço pra
parar de machucar?

24 de ago. de 2011

Sobre isso de dez anos.

eu bem poderia fazer novamente o que vim fazendo todo esse tempo, agora eu sei quanto custam dez anos de uma vida vivida em função de datas, de nomes, de lembranças a que ninguém dá o devido valor, eu gastei toda a minha mirrada fortuna interior de pensamentos pensando, pensando, se tivesse investido mais além, quem sabe estivesse rico. de mais lembranças.

as fotografias e os dilemas. poema dia-sim-dia-não para dizer o quê, para quem, tanto faz. nunca fez sentido isso de futuro próspero que nos fizeram engolir, dias idos, com pão e café com leite, uma mesa de oito lugares em que se repartia a comida, em que se repartia partes de vidas, em que não se repartia nada mais do que o ar que se respirava.

acontece que não adianta tentar escapar para a europa de lá ou para a europa que nos enfiaram cu adentro aqui mesmo, não há escapatória, a não ser abstrair, mas abstrair como - se tudo sempre nos remete a. e há quem não canse de ouvir o que aconteceu nos idos de hum mil novescentos e noventa e nove, nos idos do ano dois mil, minhas histórias repetidas das noites de bebedeira, há quem não canse de ouvir não por interesse. por pena.

era uma cidade, era uma escola. a escola sempre foi maior do que a cidade e caminhar pelas alamedas e fitar as árvores e se recostar no gramado era sentir-se abraçado pela realidade que inexiste por incapacidade de existir. o mundo, aqui, não é o mundo que aprendi. nunca me refiz da perda: oito pessoas por mesa, doze mesas no refeitório, um pedaço de carne para cada um, aos sábados cachorro-quente.

como merda, quando se pisa nela, quando se escorrega nela, quando se come. fede. o mundo, este mundo, não nos permite, nunca me permitiu repetir a irmandade fabricada, as amizades que surgiam para aplacar a dor de uma separação inevitável e nunca antes experimentada até que finalmente acontecesse. aconteceu. o resto são cacos.

tenho aqui esse saco velho - esse corpo que se assemelha a um saco velho - onde guardo os cacos, dez anos se passaram e acumularam-se os cacos. não há mosaico capaz de remontar. não há como remontar-me a mim próprio.

reencontro para assomar ao desencontro. solidariedade para com a minha solidão. eu ainda caminho pelas alamedas, eu ainda deito nos gramados, eu ainda beijo uma adolescente excitada sob as árvores de uma pequena praça. eu ainda abraço o abraço dos irmãos que não tive, que então tive e que enfim perdi. eu ainda abaixo os olhos diante do alemão opulento e torto e vermelho que me torturava a vida por eu ser um menino triste.

eu sou apenas um menino triste se que esqueceu de crescer. e sempre retorno àqueles tempos, sem querer. menos quando o conhaque queima.

até mesmo quando o conhaque queima. assim.

7 de ago. de 2011

Pra descrente ver.

Tentar a ciência,
e eloquência,
a transparência,
seja o turvo que for.

Tentar a família,
a partilha,
o amor...

Amar uma vez e,
se der,
tentar amar novamente.

Tentar ganhar dinheiro
ou viver sempre por um triz.

E se nada de nada der certo,
enfiar Jesus rabo adentro
e, sorrisinho no rosto,
espalhar aos quatro ventos
que é feliz.



6 de jul. de 2011

Férias desse Blog.

já não é mais possível escrever, como outrora não era possível se afogar, há um tempo para tudo nessa vida e esse tempo, parece, terminou aqui.

quando de falações, nenhuma surpresa: enojei-me. tenho ainda setecentos exemplares encaixotados e um débito junto ao fundo municipal, mas o livro existe, não roubei o dinheiro para pagar o aluguel. por que não roubei o dinheiro para pagar o aluguel? talvez que tudo estivesse certo e não mais onde isso vai dar.

então voltar ao blog - blog foi o primeiro caderno de muita gente, eu tenho dois cadernos onde escrevi até a última página, era início dos anos 00, quase ninguém lembra - para exercitar e promover (?) e fazer pensar, porque a gente precisa viver junto / a gente precisa sofrer junto / a gente tem mesmo é que se foder.

mas porque simplesmente não dá. saio de casa com um romance engatilhado, volto para casa com mais cinco livros que talvez eu leia, talvez nunca mais, queria saber dos livros que não estão aqui, promover um assalto às bibliotecas, por que não? voltaire, eu repito, é um bundão, mas consegue ser exemplarmente interessante. há quem não consiga ser, como eu.

por exemplo: não, sem exemplos. mas para escrever há que se ter consigo aquela calma do artesão. eu tenho somente o medos dos últimos minutos do soldado na trincheira, como se a qualquer momento bam!, e lá se fosse minha vida, toda minha juventude e os mistérios que ela trouxe consigo.

é diferente escrever poesia de escrever canção, mesmo que me venham gargalhar que caetano isso e etc e tal. gessinger fez muito bem com o que fez e renato russo só queria mesmo era compartilhar angústia. muito obrigado: tomei grandes goles dessa tua náusea.

agora pensar no que tanto faz, porque ninguém mesmo pensa ou tem alguma paciência para pensar junto, mas vamos aos fatos: meus heróis não morreram de overdose, nenhum deles, aonde foi que cazuza buscou esse verso frouxo? eram tempos de abertura e de blitz e ser viciado era ser diferente? olha a minha bandeira, que bonita!

escrever canções que cheguem a ser ouvidas, é o que importa. porque não acredito em one men bands nem tampouco em violão e voz, não acredito no caetano cantando sozinho enquanto eu me arrebentava de chorar: uma grande mentira.

escrever canções e tentar cantá-las, porque se a voz não embarga são as mãos que tremem, é a boca que seca, é a minha dança de vaga-lume que quer voar mais alto, mais alto, aprendi a dançar somente com os braços; as pernas já carregam peso suficiente. não o meu, o da minha culpa.

limites territoriais e desacertos: quando te encontro? só por acaso, de surpresa, com sorrisos amarelos e falta do que dizer, muito o que dizer, um olá distante, um abraço equivocado, é assim que as coisas são, o mundo anda para não se sabe onde.

mirisola há de morrer também. talvez que o leiam depois disso. eu queria encontrá-lo como quis um dia encontrar com o amarante, um churrasco na casa de quem sabe. mas mirisola há de morrer e talvez que lhe dêem alguma atenção e talvez que eu consiga alguém para conversar sobre ele, mirisola, o maior autor vivo que caminha por aí, come, caga e peida e ainda tem tempo para a literatura.

eu cansei da literatura porque, acho, ela cansou antes de mim. ainda, sim, poema ou outro e textos para ninguém entender.

melhor o silêncio.

5 de jul. de 2011

Tango.

eu me lembro. quanto tempo faz? não faz tanto tempo. aconteceu e foi assim: éramos nós e o mundo, éramos dois contra o mundo, eu e tu, tu e eu, em que momento isso mudou? éramos dois, éramos nós, quando o tu deixou de ser tu porque já não cabia, encheu. em que momento?

sabe-se muito sobre o mundo ao andar sobre o mundo utilizando-se de muletas. eu ganhei de presente um par de novas, muletas novas, quem diria.

eram-se outros tempos, ainda que eu possa ter inventado isso: eram-se. afinal: pois bem. mas eram e acontece que embora magro e cada vez mais velho e cada vez mais perto e cada vez mais frio, ainda assim continuo o mesmo - eu tinha quatro anos? eu tinha cinco anos? o caminhão vindo na minha direção e eu esperando ali, de propósito, o fim? -, as mesmas manias pueris: compor, cantar, trepar, viver.

escrever. eu disse que não podia. que não podia. e eu não posso. ninguém pode mais. voltaire, o enrustido, que fale por mim: tão cristão, o coitado: fodam-se os egípcios. é assim?

acontece que acontece que acontece que. parece pato fu. documentário de daqui a vinte anos: banda lado b que vez sucesso, banda lado a que não vingou (embora ninguém mais leve a sério os lados, eles existem, e cedê eu chamo de disco). ouvi o mesmo sobre biquini cavadão. mas o biquini toca ainda daniela.

um recado: não adianta esquecer de esquecer. não se esquece nunca. melhor não falar a respeito. melhor não escrever a respeito. melhor nem chegar a pensar no assunto: vive-se mais assim. vive-se mais do que quem nunca viveu. vive-se mais do que eu.

21 de mai. de 2011

Geni, aquela puta!

acabaram-se todos os assuntos, acabou-se todo e qualquer texto, o que mais poderia haver são as mentiras prodigiosas do jornal local e o desmentimento investigativo e oportunista dos vermelhos de plantão. a esquerda cada vez mais festiva e eu sem convite para a festa. aonde foi parar a tal da luta?

teoria: humberto gessinger é muito mais lutador do que chico buarque ou qualquer um desse tempo em que os militares - a gente sabe muito bem. porque é fácil caetano gravar podres poderes quando já ninguém mais lutava contra nada: tempos de abertura. e a banda passou há muito tempo. por que não reverenciar o de hollanda pelas canções que faz pra comer essa ou aquela bronzeada de copacabana? renata maria é uma bela duma música dum disco belíssimo que ninguém ouviu, porque estão todos chorando a geni enquanto o zepellin faz questão de abastecer-se com combustível estrangeiro, que a gasolina aqui anda pela hora da morte.

mas seguindo a teoria: baseio-me numa só canção do dito, o gessinger, roqueiro aposentado. ramil, ao menos, sempre foi velho e sempre foi jovem ou sempre foi as duas coisas: maduro e moleque. gessinger vai perdendo os dentes, mas cantou um dia em terceira do plural, que é uma música essa sim que deveria se ouvir prestando atenção, cantou falando de obsolecência programada, fé de quem te patrocina e tantos outros termos que sujeito acostumado com a banda vai ter de buscar no dicionário.

caetano fez um disco inteiro baseado num maracatu fora de série. ele declama navio negreiro por inteiro, POR INTEIRO, TÁ ME OUVINDO?, mas ninguém mais sabe de navio negreiro nem de castro alves. estão pensando na geni.

alguém aí já ouviu falar de jorge mautner?

tom zé ia tocar pra universitário esquerdinha num fusca velho. até que aquele um lá descobriu a genialidade do sujeito. virou pop-esquerdinha, cult-maluquete. hermeto pasqual, o cegueta, deve estar vendendo pastel na feira, porque nunca viu la color de la plata.

teoria número dois: o amor nunca acaba. clichê: se acabou, não era amor. mas eu tenho uma mão cheia de amores dos mais bonitos, dos mais a la roberto freire (falando nisso, devolve meu livro?), que não se acabam porque são estreitos e seguem em linha reta rumo a (um mugido, essa coisa lembra curral) - rumo ao futuro oblíquo destinado a quem ama. às vezes se sofre, às vezes não. às vezes se é por inteiro, às vezes se é somente em parte e por aí vai. acontece que tenho já o suficiente, uma mão cheia de amores intermináveis e não há mais espaço, me perdoe quem achou possível: é cansativo lidar unilateralmente com tanta dor de cotovelo.

eu dizia: acabaram-se todos os assuntos. o triste é: lemos kafka, ele morto; lemos sartre, também morto; nizan, dostoiévski, camus - todos mortos. se sabia desde o começo que teria ali aqueles livros para ler e mais, talvez, uma montoeira (ratoeiras) de livros sobre os livros que lemos, o que não deixa de ser uma sacanagem editorial. mas temos paulo coelho, de quem ninguém aguenta mais ouvir falar, nem reclamar, nem ver numa daquelas aparições no fantástico, em domingo à noite. mas saramago morreu, era onde eu queria chegar. o que resta? ler lobo antunes? preferia saramago.

lição do dia: o tempo passa e já não há assuntos novos, apenas novas abordagens sobre os assuntos de sempre.

isso porque me entristeceu o fato de só agora ter me dado conta de que nunca mais será lançado um saramago novo, que se continuará chorando a cadela da geni e que humberto gessinger, ao contrário de vitor ramil, precisa encomendar dentaduras postiças.

11 de abr. de 2011

Amnésia.

acho que já disse, não custa lembrar, andei pensando: eu não esqueço. de nada. e não adianta insistirem que a retrospectiva dois mil e agora, dois mil e quantos da rede globo de televisão venha para terminar o ano e permitir que dali se caminhe para outro: eu não esqueço.

isso da retrospectiva. acontece assim: mataram doze crianças numa escola do rio de janeiro. há uma semana? mataram quatro milhões de índios no brasil e mataram aquelas mulheres num parque, tinha o tal do maníaco do parque, e houve também uma menina, isabela ou isabella, e sempre haverá, sempre houve, quem se lembra?

mas vem a retrospectiva nos dizer que passou, vamos adiante, temos um ano inteiro pela frente para montar outra retrospectiva e o ano passará na tela da tua televisão de plasma em uma hora ou uma hora e meia, depende da audiência, de repente a gente edita e tira o que não importa.

o que não importa?

eu esqueci as escadas, sem esquecer as escadas. eu esqueci o telefonema no meio da noite sem nunca jamais ter esquecido o telefonema. eu esqueci a hora de entrar no carro, eu não queria entrar, eu entrei no carro, e isso já faz tanto tempo, eu não esqueço.

eu não esqueço de nada e não vou mendigar tratamento para esquecer, porque não existe, porque é roteiro de filme americano, porque deve haver um romance que trata disso, o mesmo que se utilizou pra fazer o filme americano, tanto faz.

acontece que eu não esqueço, mas não quero lembrar. quero ser inocente. quem lembra não o é. não que eu não queira esquecer, eu só não quero lembrar. talvez seja essa a síntese ou talvez eu tenha pensado numa síntese da qual não consigo recordar agora.

12 de fev. de 2011

Insanimadamente.

eu tentei, juro que não quis, quando cada um me vem com a sua própria teoria, tu foi violentado quando criança, passou muita fome, teus pais eram ricos e empobreceram, as drogas que tu consome, muita televisão, um amor que não acaba mais porque nunca houve. nada de nada. eu escrevo porque sim. e só isso.

e eu canto porque sim, caminho porque sim, trabalho pra ter dinheiro para o porque sim e para não precisar responder a perguntar de assistente social. eu falo, não respondo perguntas. por isso me evado e se fores conversar comigo verás que dou trinta e sete voltas e te levo para onde jamais pensaste em pôr os pés, mas te levo para lá porque me é fácil levar quem eu quiser para onde eu bem entender - sem responder a pergunta nenhuma, pelo contrário.

é sempre um círculo, um ciclo, um círculo cíclico? a tensão pré-menstrual, as fases da lua, as idades da gente e o meu humor. estagna, caminha, sobe sobe sobe, pula lá de cima, cai pra baixo do abaixo, ergue-se e recomeça, descansa (estagna) e recomeça a caminhada.

outro dia expliquei que num outro dia alguém me disse que foda, foda escrever isso, foda pensar isso, foda pensar para escrever como se tivesse vivido isso e eu disse me promete segredo e alguém disse que prometia segredo e eu disse eu vivo tudo isso e os olhos da pessoa brilharam e eu pensei que era muito feliz por viver uma mentira tão digna, tão limpa, tão dúbia: eu vivo ou escrevo isso ou faço os dois ao mesmo tempo ou somente vivo e escrever é um pequeno reflexo? trúbia? não existe a palavra, acabei de inventar, caibam-me os créditos.

tem gente que canta a própria música. eu canto minhas próprias músicas nu, na frente do espelho - que é uma parede branca porque não gosto tanto de espelhos de verdade -, mas é que numa parede branca tu te vês ainda mais fundo do que de fato te vês e eu me via na parede branca cantando a música que eu compus e depois cantando a música que outra gente compôs e de repente não sabia mais se era eu o outro e continuei cantando. achou que eu pararia?

mas não chega perto disso. tu compões, tu cantas, tu ensaias, tu cantas, tu suas, tua boca seca, porque afinal as pessoas estão vendo-te, não outra pessoa, estão vendo tu cantares a tua música e a música soa, a voz soa, tu danças e balanças e a voz soa e te sentes muito longe dali, num lugar neutro, livre, onde estás alimentado e sadio e febril e doente, onde tudo definitivamente não passa de uma grande mentira que nunca poderá/deixará de ser - verdade.

eu caminho pelo meu texto, é só o que é. gostei mais de dostoiévski do que deveria e acho que dodô de fato matou a velha e somente não se entregou para poder escrever sobre a fraqueza de meu querido rodka, ah bátiuchka, por que fizeste isso e não nos livraste de anos de penas? - porque pagamos por ti há anos os anos de trabalhos forçados na sibéria. consegue compreender? por isso que saramago nunca ousou, porque somente pensava, mas dodô matou a agiota, tenho certeza, e era por isso que bebia. um chá? mete conhaque dentro!

a gente somente caminha, isso é fácil de ver. quando percebe, já não é... mas sempre a vontade insana de voltar a ser ou de somente ser, o que dá no mesmo.

eu não me escrevo aqui. eu nunca me escrevi aqui. o texto que me escreve. e eu aqui estou do avesso. porque, afinal, tem gente que nasce para. eu nasci não sei pra quê.

já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...