31 de jan. de 2017
13 de dez. de 2016
8 de dez. de 2016
Lançamento de Trapaça!
LANÇAMENTO DE TRAPAÇA!
Cafundó Bar Cultural
Data: 13/12/2016
Horário: 19h
Local: Cafundó Bar Cultural - Rua Pastor Osvaldo Hesse, 388
Blumenau - SC
19 de nov. de 2016
Essa cidade é tão úmida
que é difícil enxergar
o que está distante,
acostumados que estamos
com o úmido e o opaco.
Até que sopra vento sul.
O apartamento está seco,
a cidade está seca
e a paisagem é tão bonita:
as estrelas e as lâmpadas
disputam quem brilha mais.
Daqui de dentro deste
aquário árido,
penso em como seria
se secássemos:
seríamos nós,
as lâmpadas
e as estrelas
disputando
quem brilha
mais.
Se houvesse vento
capaz de operar tamanho
milagre.
Se sempre ventasse
assim.
que é difícil enxergar
o que está distante,
acostumados que estamos
com o úmido e o opaco.
Até que sopra vento sul.
O apartamento está seco,
a cidade está seca
e a paisagem é tão bonita:
as estrelas e as lâmpadas
disputam quem brilha mais.
Daqui de dentro deste
aquário árido,
penso em como seria
se secássemos:
seríamos nós,
as lâmpadas
e as estrelas
disputando
quem brilha
mais.
Se houvesse vento
capaz de operar tamanho
milagre.
Se sempre ventasse
assim.
Ganhei um livro grego
de lá mesmo da Grécia
prensado no idioma de
....................................
(ponha aí seu grego favorito).
Azul da cor do mar Egeu
- suponho, pois nunca fui
tão longe.
Presente completo
[em grego] com sacola
livro e nota fiscal.
Ora, não havia pensado
nisso, mas se o cavalo de
Tróia estivesse vivo
testemunharia o ilustre
fato do presente que é
cobrado.
- Mas era um cavalo de
madeira! Não vivia!
Mas o presente grego
havia, ensacolado,
ao preço de 8 euros
e onze centavos.
de lá mesmo da Grécia
prensado no idioma de
....................................
(ponha aí seu grego favorito).
Azul da cor do mar Egeu
- suponho, pois nunca fui
tão longe.
Presente completo
[em grego] com sacola
livro e nota fiscal.
Ora, não havia pensado
nisso, mas se o cavalo de
Tróia estivesse vivo
testemunharia o ilustre
fato do presente que é
cobrado.
- Mas era um cavalo de
madeira! Não vivia!
Mas o presente grego
havia, ensacolado,
ao preço de 8 euros
e onze centavos.
o concerto começou com jesus a alegria dos homens, tocado ali, no parque, palco improvisado num caminhão, o que as pessoas pensavam que se tratava, afinal era um concerto de piano. no palco, arthur moreira lima, o pianista que tocou em mais lugares do planeta, em mais cidades brasileiras, o pelé dos teclados, segundo o anunciante. todos ali esperando, ansiosos, aparecer o homem, o olho no telão e nas cabeças das pessoas. lizst, bach, uma versão linda e preguiçosa de trenzinho caipira, ninguém tirava os olhos do homem. ninguém se mexia. deixei de acender algum cigarro para que a fumaça não atrapalhasse o concerto de piano ao ar livre, a bem-aventurança da cultura erudita iluminando cada um de nós, pobres mortais, ali no parque.
era fim de tarde.
veio uma vontade de mijar.
então caminhei em direção ao banheiro público me afastando dele, o homem iluminado sobre o palco improvisado, para me aliviar da bexiga cheia, a passos incoerentes, desviando das pessoas hipnotizadas pelo som do piano tocado de maneira magistral. não havia água no banheiro. fila para usar o mictório. aquele cheiro de mijo evaporado. ali dentro, um homem de vinte e poucos anos, dois metros de altura, cento e cinquenta quilos - suponho - e uniforme azul manuseava um rodo sobre o piso quase-branco: juntava a urina amarela escurecida pelas pegadas. era mijo, era terra, água não havia, ele manuseava o rodo em direção à porta, a poça que se formava era arremessada na calçada.
o rodo era seu piano, pensei.
daqui não dá pra ouvir o concerto, calculava.
escureceu. o ilustre pianista arthur pereira lima bailava suas mãos sobre o teclado enquanto o dia se ia. gnattali, villa-lobos, pixinguinha. as pessoas aplaudimos de pé, emocionadas, quando no fim das variações de asa branca. o concerto terminou, não me lembro, talvez com chopin.
e talvez os mais apertados tenham corrido diretamente para o banheiro a fim de aliviar a bexiga. chegando lá, não terão encontrado água. talvez tenham acorrido à fila do mictório. as pegadas sobre o chão de mijo escurecendo o piso úmido. quem não estivesse preparado, talvez, naturalmente, tenha se assustado com aquele homem suado que manejava o rodo sobre o piso molhado, formando poças de mijo que iriam ter fim na calçada. o homem suado que não parecia se ocupar do cheiro insuportável de urina aquecida, evaporada, respirada.
que tal o concerto?, alguma voz poderia ter perguntado.
só amanhã - teria respondido. só amanhã para o encanamento ser arrumado.
enquanto isso, o cheiro de mijo. todos os dias, o mijo. em alegro. alegro ma non troppo. alegro molto. alegro maestoso.
não era mesmo pra fazer sentido, afinal o que se ganha se perde e de uma hora pra outra a gente fica pensando nas merdas que fez e que sempre e sempre voltará a repetir.
não era mesmo pra fazer careta com o gosto azedo do limão, com a benzetacil enfiada no músculo, com a extração de dois dendes de siso (um deles incluso).
não era nem pra pedir carinho ou colo, nem pra sentir saudade, não era pra fazer cara de choro e entregar antes de todos o presente surpresa do aniversário de minha mãe.
não era pra remexer as fotos. não era pra queimar os cabelos. não era pra isso, não era praquilo, não era nada.
nem era pra pedir perdão: a faca afiada cortando o pescoço da galinha, abrindo o bucho do porco, as tripas todas expostas naquele dia em que vomitei jaboticaba pelos cotovelos e me caguei todo.
a infância era um tempo bonito, mas nunca foi.
não era mesmo pra fazer careta com o gosto azedo do limão, com a benzetacil enfiada no músculo, com a extração de dois dendes de siso (um deles incluso).
não era nem pra pedir carinho ou colo, nem pra sentir saudade, não era pra fazer cara de choro e entregar antes de todos o presente surpresa do aniversário de minha mãe.
não era pra remexer as fotos. não era pra queimar os cabelos. não era pra isso, não era praquilo, não era nada.
nem era pra pedir perdão: a faca afiada cortando o pescoço da galinha, abrindo o bucho do porco, as tripas todas expostas naquele dia em que vomitei jaboticaba pelos cotovelos e me caguei todo.
a infância era um tempo bonito, mas nunca foi.
Ninguém percebeu que Daniel Auteuil só faz sentido em Caché por ser, ele mesmo, argelino.
Seja como for, Daniel Auteuil, em L'adversaire, é o retrato de como me sinto hoje - como nos sentimos todos em algum dado momento da vida.
Queria poder convidá-lo para um café ou um conhaque, saber o que pensa da invasão francesa na Síria.
Mas do idioma de Sartre entendo pouco, falo menos ainda e não conseguiria nunca ter entendido coisa alguma não fossem as legendas e as traduções mal traduzidas.
Seja como for, Daniel Auteuil, em L'adversaire, é o retrato de como me sinto hoje - como nos sentimos todos em algum dado momento da vida.
Queria poder convidá-lo para um café ou um conhaque, saber o que pensa da invasão francesa na Síria.
Mas do idioma de Sartre entendo pouco, falo menos ainda e não conseguiria nunca ter entendido coisa alguma não fossem as legendas e as traduções mal traduzidas.
Meu carinho pelos exilados
despatriados
fugitivos
refugiados
que recorrem à terra natal
para explicar sóis poentes
para cantar à maneira deles
os ancestrais
Daqui de onde falo
não há linha imaginária
ou fronteira
só saudade de casa
Mas aquela casa
naqueles anos
que nem a memória
ou as fotografias
que nem as receitas
as lembranças
e a poeira nos móveis
poderão refazer algum dia.
O país sou eu
sem linhas aduanas
e fronteiras
e os exilados
queria todos aqui
para soluçarmos de rir
enquanto o domingo avança.
despatriados
fugitivos
refugiados
que recorrem à terra natal
para explicar sóis poentes
para cantar à maneira deles
os ancestrais
Daqui de onde falo
não há linha imaginária
ou fronteira
só saudade de casa
Mas aquela casa
naqueles anos
que nem a memória
ou as fotografias
que nem as receitas
as lembranças
e a poeira nos móveis
poderão refazer algum dia.
O país sou eu
sem linhas aduanas
e fronteiras
e os exilados
queria todos aqui
para soluçarmos de rir
enquanto o domingo avança.
sei que não sou só eu
que atravesso a noite
na chuva
mirando poças à espera
de que sejam tanto ou
mais profundas do que
minha altura.
sei que não sou só eu
que tenho a ossada
cansada
de carregar a carcaça
de carregar as páginas
reviradas
de um livro que nunca será
escrito.
trago comigo, de alguma forma,
deus enfiado nos bolsos
(quando derrete, molha as calças
feito mijo)
assobio sempre a mesma
canção quando me deparo
com o carro vindo
pois sei que no fim haverá o desvio
o maior desafio é permanecer
parado.
Era 1989, 1990, 1991... Fomos com a mãe e o pai (será que com o pai também?) para o centro da cidade. Naquela época, o Progresso era ainda mais distante do centro - e assim, dizíamos que íamos para a cidade, porque era lá que havia asfalto, haviam prédios. No Progresso não havia nada disso. Era zona rural antes de ser subúrbio. Entramos nas Lojas Americanas da rua 15 de novembro - uma espécie de shopping mesmo antes de haver shopping na cidade - para comprar algum presente, alguma coisa importante (suponho) e me perdi entre as gôndolas com Vinícius, meu irmão do meio.
Tinha levado comigo uma caixa de carrinhos de metal. Fundo de plástico, embalagem de papelão, tinha seis ou sete carrinhos em miniatura. Havia ganhado de um padrinho, eram a coisa mais importante do mundo naquele momento. Levei comigo porque não podia me separar do presente. Levei porque queria mostrar a todo o mundo que eu havia ganhado um presente tão bonito. Eram seis, sete carrinhos de metal.
Hora de ir embora, a mãe pergunta (ou Vinícius, nunca está claro neste terreno fértil que é a memória): "Cadê teus carrinhos?" E a gente sai a procurar, Vinícius e eu, entre as prateleiras das Lojas Americanas. Andando. Correndo. Nunca os encontramos. Devo ter chorado, naturalmente. O coração na mão, naturalmente. A incerteza diante do impossível: não reaveria o brinquedo e, como nunca me perdoei pela perda, trato de nunca esquecer o esquecimento.
Não lembro suas cores, os modelos que representavam, mas eram seis, sete carrinhos de metal que Roni me havia presenteado. Ou talvez não tivesse sido ele. Talvez não fossem nem mesmo de metal, mas de plástico. Mas tenho quase certeza que eram carrinhos, quase certeza que eram de metal e quase, quase tenho certeza de Vinícius ter me advertido antes de sairmos de casa: "Cuidado pra não perder isso aí".
Era 1989, 1990, 1991... e eu já exercitava perdas com minha surdez diante do conselho alheio. Dali em diante somente seria pior.
Tinha levado comigo uma caixa de carrinhos de metal. Fundo de plástico, embalagem de papelão, tinha seis ou sete carrinhos em miniatura. Havia ganhado de um padrinho, eram a coisa mais importante do mundo naquele momento. Levei comigo porque não podia me separar do presente. Levei porque queria mostrar a todo o mundo que eu havia ganhado um presente tão bonito. Eram seis, sete carrinhos de metal.
Hora de ir embora, a mãe pergunta (ou Vinícius, nunca está claro neste terreno fértil que é a memória): "Cadê teus carrinhos?" E a gente sai a procurar, Vinícius e eu, entre as prateleiras das Lojas Americanas. Andando. Correndo. Nunca os encontramos. Devo ter chorado, naturalmente. O coração na mão, naturalmente. A incerteza diante do impossível: não reaveria o brinquedo e, como nunca me perdoei pela perda, trato de nunca esquecer o esquecimento.
Não lembro suas cores, os modelos que representavam, mas eram seis, sete carrinhos de metal que Roni me havia presenteado. Ou talvez não tivesse sido ele. Talvez não fossem nem mesmo de metal, mas de plástico. Mas tenho quase certeza que eram carrinhos, quase certeza que eram de metal e quase, quase tenho certeza de Vinícius ter me advertido antes de sairmos de casa: "Cuidado pra não perder isso aí".
Era 1989, 1990, 1991... e eu já exercitava perdas com minha surdez diante do conselho alheio. Dali em diante somente seria pior.
as lembranças de infância
as traições recordadas
aquele tempo de desemprego
lavando carros
tapando buracos
tudo excepcionalmente
cinza
juntando moedas
costurando idéias
ignorando prazos
cinza
como as esperanças
cinza
como a parede branca
vencida pela fuligem
cinza
os lençóis em que não
me deito por respeito
e por saudade
cinza
como os pulmões depois
de fumar tantos anos
e a fumaça sem me prometer
absolutamente nada
cinza
também esse céu de outubro
que desengana a primavera
anunciada, comemorada
mas ainda
cinza
como se não houvesse
outra cor no mundo.
as traições recordadas
aquele tempo de desemprego
lavando carros
tapando buracos
tudo excepcionalmente
cinza
juntando moedas
costurando idéias
ignorando prazos
cinza
como as esperanças
cinza
como a parede branca
vencida pela fuligem
cinza
os lençóis em que não
me deito por respeito
e por saudade
cinza
como os pulmões depois
de fumar tantos anos
e a fumaça sem me prometer
absolutamente nada
cinza
também esse céu de outubro
que desengana a primavera
anunciada, comemorada
mas ainda
cinza
como se não houvesse
outra cor no mundo.
5 de out. de 2016
Parado como a fronte do lago
antes que a criança atire a pedra
e forme ondas ondas ondas
Parado completamente parado
como de susto com cachorro brabo
como os doentes em coma
Parado como um porta-retratos
de alguém que já não se lembra
mas ocupa espaço na sala
Parado como as mãos
como a respiração os olhos
como o coração do morto.
antes que a criança atire a pedra
e forme ondas ondas ondas
Parado completamente parado
como de susto com cachorro brabo
como os doentes em coma
Parado como um porta-retratos
de alguém que já não se lembra
mas ocupa espaço na sala
Parado como as mãos
como a respiração os olhos
como o coração do morto.
3 de out. de 2016
Adiante
o dia exige contratos e promessas.
Adiante
os quatro elementos
(suor, sangue, porra e merda)
são discutidos para que se eleja
qual deles o mais importante.
(Ali atrás daquele morro
fica a infância,
mais um pouco e verás um
cemitério onde os mortos
conversam em alemão dialetal.
É preciso nunca voltar lá.)
Pois que adiante,
um pouco mais,
uma lagoa estoura e leva
consigo um bairro inteiro.
Mais adiante e já é
janeiro.
Quem de nós morrerá primeiro?
Quem será?
o dia exige contratos e promessas.
Adiante
os quatro elementos
(suor, sangue, porra e merda)
são discutidos para que se eleja
qual deles o mais importante.
(Ali atrás daquele morro
fica a infância,
mais um pouco e verás um
cemitério onde os mortos
conversam em alemão dialetal.
É preciso nunca voltar lá.)
Pois que adiante,
um pouco mais,
uma lagoa estoura e leva
consigo um bairro inteiro.
Mais adiante e já é
janeiro.
Quem de nós morrerá primeiro?
Quem será?
Fazem tudo que podem
para comprar automóveis
e não perder a fila das
seis da tarde.
A baixa do cigarro foi
mais comemorada que o
lançamento de antologias
reeditadas de poetas
mortos por cirrose.
Se é golpe ou não,
quem ainda se lembra
dos desconhecidos enterrados
na vala comum de Perus?
A propósito,
a cinza das horas, naquela canção
de Calcanhoto, é o nome do primeiro
livro de Bandeira, no ano em que
a Rússia fervia,
mas nenhuma relação
entre estes fatos é possível
quando a madrugada
se anuncia novamente território
ocupado
- e os refugiados,
não se sabe onde é que se vão
instalar.
para comprar automóveis
e não perder a fila das
seis da tarde.
A baixa do cigarro foi
mais comemorada que o
lançamento de antologias
reeditadas de poetas
mortos por cirrose.
Se é golpe ou não,
quem ainda se lembra
dos desconhecidos enterrados
na vala comum de Perus?
A propósito,
a cinza das horas, naquela canção
de Calcanhoto, é o nome do primeiro
livro de Bandeira, no ano em que
a Rússia fervia,
mas nenhuma relação
entre estes fatos é possível
quando a madrugada
se anuncia novamente território
ocupado
- e os refugiados,
não se sabe onde é que se vão
instalar.
Aos poetas da Academia
estão garantidos ingressos
para os shows de compositores
muito velhos que há muito
não apresentam músicas novas.
Aos cantores de canções
muito antigas estão garantidas
as entradas para talk shows de
apresentadores empoeirados,
autores de best-sellers
e pilotos de kart aos domingos.
Aos atores de décadas atrás
se garantem releituras de Shakespeare
encenadas por crianças muito novas,
mas muito bem treinadas.
Em casa, a arte se varre
de sobre a mesa da sala
de jantar para
servir o húmus abobalhado
da folhagem artificial.
...enquanto os livros na estante
soam derrubados por clichês
de apresentadores de auditório,
paquitas e chacretes e atrizes pornô
são chicoteadas, numa jogada cenográfica,
por um playboy perverso
que nunca descalça o sapatênis.
estão garantidos ingressos
para os shows de compositores
muito velhos que há muito
não apresentam músicas novas.
Aos cantores de canções
muito antigas estão garantidas
as entradas para talk shows de
apresentadores empoeirados,
autores de best-sellers
e pilotos de kart aos domingos.
Aos atores de décadas atrás
se garantem releituras de Shakespeare
encenadas por crianças muito novas,
mas muito bem treinadas.
Em casa, a arte se varre
de sobre a mesa da sala
de jantar para
servir o húmus abobalhado
da folhagem artificial.
...enquanto os livros na estante
soam derrubados por clichês
de apresentadores de auditório,
paquitas e chacretes e atrizes pornô
são chicoteadas, numa jogada cenográfica,
por um playboy perverso
que nunca descalça o sapatênis.
De uma pequenas lista de prazeres cotidianos
tão pequena que só aparece um
o de chegar em casa, abrir a porta
do prédio, subir o lance de escadas e não
encontrar ali o elevador parado, as portas abertas
me dizendo "vem, vamos subir, vamos pra casa,
vem descansar, tomar um banho, bater punheta,
comer salgado descongelado, fumar cigarro na
janela, acender incenso de rosas vermelhas,
dormir cedo pra acordar cedo e ir trabalhar,
como todos os dias".
Onde o prazer habita? Em chegar em casa,
subir o lance de escadas e não encontrar
ali o elevador parado, as portas abertas,
as frases de sempre que ele sempre me diz
do primeiro ao sexto andar.
Abro a porta, subo o lance de escadas
e se o elevador não está, aperto o botão [do foda-se
afinal não escalar seis andares a pé]
e tenho, sei lá, 15 segundos para encontrar no molho de
chaves a chave certa, a que abre
a caixa de correspondências [todos os dias
a chave errada e se a chave certa, o lado errado
da chave, como uma auto-sabotagem
como necessidade de prolongar esse momento
enquanto o elevador vem descendo]
e eu procuro a chave dentre as chaves
para abrir a caixa de correspondências
na esperança vã de encontrar ali uma carta
que traga novidades, que traga notícias tuas
notícias deles, nossas notícias de anos atrás
onde estaremos daqui uns anos
esperando uma carta apenas, ou um livro
dedicado, enviado de muito longe
com promessas de reencontro, com promessas
de leituras, de poesia para além da vida.
Então todos os dias eu entro em casa
[depois da primeira porta e do primeiro lance
de escadas] e se o elevador não está
aperto o botão e procuro a chave da caixa
de correspondência
(um prazer inominável, aqui, um prazer grande pra caralho!)
e se me deparo com a conta de luz, com o aluguel
com o condomínio, com a conta de internet
penso que tudo bem, vamos pagar as contas
e ouvir o que diz o elevador nesses seis andares
de encontro e conversa,
mas amanhã a mesma coisa
abrir a porta, subir o lance de escadas e
se o elevador não estiver, procurar dentre as chaves
a chave que abre a caixa de correspondências
onde poderia haver uma carta, mas nunca há.
tão pequena que só aparece um
o de chegar em casa, abrir a porta
do prédio, subir o lance de escadas e não
encontrar ali o elevador parado, as portas abertas
me dizendo "vem, vamos subir, vamos pra casa,
vem descansar, tomar um banho, bater punheta,
comer salgado descongelado, fumar cigarro na
janela, acender incenso de rosas vermelhas,
dormir cedo pra acordar cedo e ir trabalhar,
como todos os dias".
Onde o prazer habita? Em chegar em casa,
subir o lance de escadas e não encontrar
ali o elevador parado, as portas abertas,
as frases de sempre que ele sempre me diz
do primeiro ao sexto andar.
Abro a porta, subo o lance de escadas
e se o elevador não está, aperto o botão [do foda-se
afinal não escalar seis andares a pé]
e tenho, sei lá, 15 segundos para encontrar no molho de
chaves a chave certa, a que abre
a caixa de correspondências [todos os dias
a chave errada e se a chave certa, o lado errado
da chave, como uma auto-sabotagem
como necessidade de prolongar esse momento
enquanto o elevador vem descendo]
e eu procuro a chave dentre as chaves
para abrir a caixa de correspondências
na esperança vã de encontrar ali uma carta
que traga novidades, que traga notícias tuas
notícias deles, nossas notícias de anos atrás
onde estaremos daqui uns anos
esperando uma carta apenas, ou um livro
dedicado, enviado de muito longe
com promessas de reencontro, com promessas
de leituras, de poesia para além da vida.
Então todos os dias eu entro em casa
[depois da primeira porta e do primeiro lance
de escadas] e se o elevador não está
aperto o botão e procuro a chave da caixa
de correspondência
(um prazer inominável, aqui, um prazer grande pra caralho!)
e se me deparo com a conta de luz, com o aluguel
com o condomínio, com a conta de internet
penso que tudo bem, vamos pagar as contas
e ouvir o que diz o elevador nesses seis andares
de encontro e conversa,
mas amanhã a mesma coisa
abrir a porta, subir o lance de escadas e
se o elevador não estiver, procurar dentre as chaves
a chave que abre a caixa de correspondências
onde poderia haver uma carta, mas nunca há.
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
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dos silêncios de elevador: bonita a roupa nova repa rei que a senhora anda a batida ouvi os gritos e aj udei chamando a polícia esse cachorr...
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...


