deitado
o corpo
levemente
inclinado
a perna direita
esticada
a esquerda
flexionada
o tronco torto
a cabeça virada
para o lado
de fora da cama
sobre o travesseiro
sobre o braço direito
esticado através das
grades da cabeceira
(se a parede estiver próxima
as costas da mão pressionam
a parede)
o braço direito flexionado
como se aplicasse uma chave
no travesseiro ou
no vazio.
durmo igual meu pai.
a descendência se assume
por caminhos desconhecidos.
30 de mar. de 2017
27 de mar. de 2017
se estas letras fossem para um
poema aquele momento específico
em que descobrimos asunción
num quarto sem refrigeração
se estas frases tivessem sido pensadas
durante a noite em claro e não
durante a caminhada ao trabalho
nesta manhã de névoa e solidão
se cada assinatura minha
fosse na dedicatória a um amigo
e não preenchendo processos
se o fim de mês nos desse mostras
de que o futuro. se o fim de mês
nos desse mostras, não tropeços.
24 de mar. de 2017
19 de mar. de 2017
Hoje senti de novo aquele conforto barulhento de depois do almoço quando a casa finalmente silencia, até os cachorros, e os móveis repousam um ao lado do outro no mais completo silêncio. Houve um tempo - naquele tempo de xis salada do Jacaré, que não era longe de casa e o pai nos levava de Variant verde-abacate, porque era sábado à noite. Eu dizia: houve um tempo em que a coca-cola de um livro servia cinco pessoas - era possível - e depois do almoço nos amontoávamos os três na chamada sala de tv [uma garagem reformada] para assistir McGyver e outras besteiras enlatadas. E é desse tempo o conforto.
A vida ainda era quase nada.
Então que chovia uma chuva fina, rala, e o frio apareceu de repente para mostrar que o que vem pela frente será em diferentes escalas de cinza. Frio que não dói nos ossos, ainda não, mas provoca um leve incômodo nos joelhos carcomidos e um frio na barriga, na altura do umbigo, decerto por ter comido a comida preparada por minha mãe. Ela me disse: "uma mãe sempre cozinha com amor para seu filho".
O pai voltou a fumar mesmo o câncer lhe ferindo a boca, o pulmão e os sentidos. Ri e comentei que um Hilton longo demora muito mais pra terminar e que sim, faz sentido, pensei, voltar a sentir prazeres enquanto ainda se tem tempo. Eu com meu café observava o cinza do vale, sentia aquele silêncio, a sala vazia quase até de mim.
Eu olhava pra trás com alegria e constatei que nada, lá atrás não tinha nada.
Hoje não tem nada também.
Viver é acostumar-se a somar zeros.
A vida ainda era quase nada.
Então que chovia uma chuva fina, rala, e o frio apareceu de repente para mostrar que o que vem pela frente será em diferentes escalas de cinza. Frio que não dói nos ossos, ainda não, mas provoca um leve incômodo nos joelhos carcomidos e um frio na barriga, na altura do umbigo, decerto por ter comido a comida preparada por minha mãe. Ela me disse: "uma mãe sempre cozinha com amor para seu filho".
O pai voltou a fumar mesmo o câncer lhe ferindo a boca, o pulmão e os sentidos. Ri e comentei que um Hilton longo demora muito mais pra terminar e que sim, faz sentido, pensei, voltar a sentir prazeres enquanto ainda se tem tempo. Eu com meu café observava o cinza do vale, sentia aquele silêncio, a sala vazia quase até de mim.
Eu olhava pra trás com alegria e constatei que nada, lá atrás não tinha nada.
Hoje não tem nada também.
Viver é acostumar-se a somar zeros.
17 de mar. de 2017
a atendente do laboratório
de análises clínicas que parece
britânica - eu pensando que vida
interessante deve ter aos finais
de semana quando não está
pedindo o documento de identidade
o cartão sus a solicitação do exame
quando não está me perguntando se
passei 12 horas em jejum.
o casal de idosos que vem protocolar
recurso de multa e a senhora me diz
que ele entrou na contramão porque
ela não estava junto enquanto sorrio
e penso que bonito sem ela perto ele
se perde e meu sorriso se constrange
quando ela me fala do diagnóstico
de alzheimer que felizmente ainda não
passou do estágio 2.
o alarme que dispara às 7 às 7:15
às 7:25 mas estou acordado desde
as 6 e continuo deitado no chão do
sexto andar buscando motivos para
descer ao térreo sacar as chaves
buscar cigarros nos bolsos acender
o isqueiro vermelho tragar a fumaça
sagrada e tossir com arrependimento
porque já passa da hora.
de análises clínicas que parece
britânica - eu pensando que vida
interessante deve ter aos finais
de semana quando não está
pedindo o documento de identidade
o cartão sus a solicitação do exame
quando não está me perguntando se
passei 12 horas em jejum.
o casal de idosos que vem protocolar
recurso de multa e a senhora me diz
que ele entrou na contramão porque
ela não estava junto enquanto sorrio
e penso que bonito sem ela perto ele
se perde e meu sorriso se constrange
quando ela me fala do diagnóstico
de alzheimer que felizmente ainda não
passou do estágio 2.
o alarme que dispara às 7 às 7:15
às 7:25 mas estou acordado desde
as 6 e continuo deitado no chão do
sexto andar buscando motivos para
descer ao térreo sacar as chaves
buscar cigarros nos bolsos acender
o isqueiro vermelho tragar a fumaça
sagrada e tossir com arrependimento
porque já passa da hora.
10 de mar. de 2017
agora que ficou cinza
a gente finalmente esquece
um pouco do calor esquece
um pouco do terror das 3 da
tarde ou das 8 da noite
finalmente vem um vento fresco
e úmido para nos colar na alma
e de agora em diante já que o
outono é a porta para o inverno
finalmente a gente espera passar
os dias entre lâmpadas frias
a lâmpada do ônibus as lâmpadas
da repartição de novo ônibus
em fim de tarde e as lâmpadas
do apartamento nos fazendo
recordar que há luz no sexto
andar há luz sempre que se
apertar o interruptor
embora não haja luz no fim
do túnel e decerto não haja
luz no fim do inverno.
agora que ficou cinza
a gente espera o azul do inverno
nos colar o frio nos ossos
rachar a pele rachar os lábios
e trazer todas aquelas recordações
de invernos de antes de frios antigos
algo que nos esquente que não seja
conhaque e que seja quente como
o fogo.
todo outono nos reverá
o que de pior trazemos
o que de melhor trazemos
isso que somos nós mesmos
e que não passa nunca.
8 de mar. de 2017
carminha nasceu de tereza
em 1950.
tereza faleceu logo depois.
alfredo nasceu de ida
em 1951.
ida faleceu de câncer.
ninguém recorda o nome
da mãe de ida
ou da mãe de tereza.
talvez ninguém saiba
nunca o nome da primeira mulher
a mulher primeira
mulher ancestral
mas o nome que lhe daremos
: vida
: luta
: natureza
: resistência
talvez apenas resuma
talvez apenas reflita
a herança que nos cabe
a todos nós homens
devedores das mulheres.
em 1950.
tereza faleceu logo depois.
alfredo nasceu de ida
em 1951.
ida faleceu de câncer.
ninguém recorda o nome
da mãe de ida
ou da mãe de tereza.
talvez ninguém saiba
nunca o nome da primeira mulher
a mulher primeira
mulher ancestral
mas o nome que lhe daremos
: vida
: luta
: natureza
: resistência
talvez apenas resuma
talvez apenas reflita
a herança que nos cabe
a todos nós homens
devedores das mulheres.
2 de mar. de 2017
aqui não é brasil
a não ser pelo calor
pela umidade e pelos
mosquitos.
aqui não é brasil
- veja a arquitetura
a pele clara, os
olhos azuis, verdes
(às vezes um de cada
cor por complicações
genéticas) -
a não ser pela
fome.
aqui não é brasil
- praças verdes,
rios caudalosos,
montes nevados -
a não ser pelas tramoias,
pelas falcatruas.
aqui não é brasil
e por isso se sonegam
tantos impostos;
ninguém quer pagar
ao país que não
pertence.
não é brasil
pela ética protestante,
pelo conservadorismo
católico,
pelo evangelismo
que cala, consente
e elege políticos
sem passado, mas
com jesus no coração.
aqui não é brasil
e se vê pelo tanto que
se trabalha.
enquanto o país samba,
o sul trabalha. nos quatro
dias de carnaval, o sul
trabalha.
(e se ousar dizer que
nos 20 dias da festa étnica
não se trabalha, dizemos:
vamos trabalhar bêbados
e de ressaca,
vamos trabalhar ofendidas
e abusadas,
vamos trabalhar porque o
trabalho nos identifica
mais do que nos mata).
aqui não é brasil
definitivamente.
aqui se pretende
ser europa
- sem poder sê-lo,
aqui se imita todo tempo
o estrangeiro
e se nega que se habita
a própria casa.
a não ser pelo calor
pela umidade e pelos
mosquitos.
aqui não é brasil
- veja a arquitetura
a pele clara, os
olhos azuis, verdes
(às vezes um de cada
cor por complicações
genéticas) -
a não ser pela
fome.
aqui não é brasil
- praças verdes,
rios caudalosos,
montes nevados -
a não ser pelas tramoias,
pelas falcatruas.
aqui não é brasil
e por isso se sonegam
tantos impostos;
ninguém quer pagar
ao país que não
pertence.
não é brasil
pela ética protestante,
pelo conservadorismo
católico,
pelo evangelismo
que cala, consente
e elege políticos
sem passado, mas
com jesus no coração.
aqui não é brasil
e se vê pelo tanto que
se trabalha.
enquanto o país samba,
o sul trabalha. nos quatro
dias de carnaval, o sul
trabalha.
(e se ousar dizer que
nos 20 dias da festa étnica
não se trabalha, dizemos:
vamos trabalhar bêbados
e de ressaca,
vamos trabalhar ofendidas
e abusadas,
vamos trabalhar porque o
trabalho nos identifica
mais do que nos mata).
aqui não é brasil
definitivamente.
aqui se pretende
ser europa
- sem poder sê-lo,
aqui se imita todo tempo
o estrangeiro
e se nega que se habita
a própria casa.
26 de fev. de 2017
poema à maneira de werner neuert
em 1921 por influência ou
pressão soviética a mongólia passou
a utilizar o alfabeto cirílico
sendo denominada a partir de então
Монгол улс.
na década de 1930
por pressão do estado novo
se proibiu o ensino
e a imprensa em língua
alemã no estado de
santa catarina.
em 2002 werner neuert
que tem nome alemão
mas é brasileiro
publicou seu melhor livro
a que pouca gente deu
importância.
a mongólia é um país
longe de tudo.
santa catarina é um estado
longe de tudo.
werner neuert é um escritor
que já não escreve.
todas as relaçõesnão são
mero fruto do acaso.
em 1921 por influência ou
pressão soviética a mongólia passou
a utilizar o alfabeto cirílico
sendo denominada a partir de então
Монгол улс.
na década de 1930
por pressão do estado novo
se proibiu o ensino
e a imprensa em língua
alemã no estado de
santa catarina.
em 2002 werner neuert
que tem nome alemão
mas é brasileiro
publicou seu melhor livro
a que pouca gente deu
importância.
a mongólia é um país
longe de tudo.
santa catarina é um estado
longe de tudo.
werner neuert é um escritor
que já não escreve.
todas as relações
mero fruto do acaso.
24 de fev. de 2017
road poemas
i.
o paraguai vai muito além
da fronteira suja de que reclamam
os brasileiros
nós não sabíamos
e enquanto turistas observavam
admirados o palácio de los lopez
(cópia do palácio de versailles)
comprávamos uma coca cola de dois
litros
- fría, señora, por favor -
numa bodega improvisada
da chacarita.
ii.
talvez ninguém nunca
tenha pisado os pés em
villa montes como fizemos
naquela tarde de calor
e esperança.
quando o agente alfandegário
perguntou-nos se tínhamos
plata
rimos e nos dissemos que sim
embora pouca.
para luiz eduardo
o paraguai vai muito além
da fronteira suja de que reclamam
os brasileiros
nós não sabíamos
e enquanto turistas observavam
admirados o palácio de los lopez
(cópia do palácio de versailles)
comprávamos uma coca cola de dois
litros
- fría, señora, por favor -
numa bodega improvisada
da chacarita.
ii.
talvez ninguém nunca
tenha pisado os pés em
villa montes como fizemos
naquela tarde de calor
e esperança.
quando o agente alfandegário
perguntou-nos se tínhamos
plata
rimos e nos dissemos que sim
embora pouca.
o que carregávamos em nossas
mochilas não se podia declarar
mochilas não se podia declarar
o seguro não cobria
não se preenchem sonhos nos
tickets de entrada.
iii.
em santa cruz de la sierra
fomos recepcionados
por um alemão bêbado
- estávamos em casa -
fizemos da janta de reveillón
uma oportunidade humilde de
demonstrar-nos afeto e jantamos
(qual era o menu?)
tomamos inka cola
e um taxista nos levou para
onde as coisas aconteciam
os anéis de santa cruz
libertam mais que prendem
ou o contrário?
dia hum
fazia frio
estava cinza
estávamos em casa.
iv.
cochambamba
é uma cidade seca ao pé
de montanhas imensas
onde se vê neve no topo.
tickets de entrada.
iii.
em santa cruz de la sierra
fomos recepcionados
por um alemão bêbado
- estávamos em casa -
fizemos da janta de reveillón
uma oportunidade humilde de
demonstrar-nos afeto e jantamos
(qual era o menu?)
tomamos inka cola
e um taxista nos levou para
onde as coisas aconteciam
os anéis de santa cruz
libertam mais que prendem
ou o contrário?
dia hum
fazia frio
estava cinza
estávamos em casa.
iv.
cochambamba
é uma cidade seca ao pé
de montanhas imensas
onde se vê neve no topo.
edwin, o taxista
que me levou a mochila
levou também o passaporte
e os poemas
- não se rouba os poemas de
alguém, não assim,
que macana!
de certa forma, estávamos
mais perto do acre do que
de casa
que me levou a mochila
levou também o passaporte
e os poemas
- não se rouba os poemas de
alguém, não assim,
que macana!
de certa forma, estávamos
mais perto do acre do que
de casa
e cada vez mais perto
de nós mesmos
nos despedimos.
v.
queria tanto rever luiza
que pouco ou quase nada
compreendi daqueles dias
de nós mesmos
nos despedimos.
v.
queria tanto rever luiza
que pouco ou quase nada
compreendi daqueles dias
: luiz a caminho de la paz
mandava notícias, poucas,
e em frente ao consulado brasileiro
sentei e chorei pensando em
meu pai.
vi.
diante da praça, no café paris
observei militares e campesinos
ouvindo a fala do presidente
da república pluracional da bolívia
senhor evo morales
era mais bonito ver a reverência
das pessoas humildes do que o
presidente em si,
mas isso lá é novidade?
vii.
sentei-me com joana
para uma prosa
eu não sabia de muitas
coisas
mas quem poderia sabê-las
se não ela?
dia desses,
um atentado na europa
fez roubar a atenção
- quando deveria aparecer
na televisão esta senhora que vende
hamburguesas e tem na parede a fotografia
do pai, veterano da guerra do chaco.
mas quem sabe do chaco?
da bolívia, quem sabe?
e de nós, quem sabia
senão a vendedora de lomitos
e a louca que apontava para o meio da praça
e gritava: HEDIONDOS! HEDIONDOS!
como se visse do outro lado da rua
aqueles conhecidos assassinos
que nos levaram nossos jovens
de há cinquenta anos.
talvez ela os enxergasse, louis.
viii.
quantas cores que os olhos
não conseguem decodificar
quantos sabores
quantos olhos morenos
quanta pele queimada de sol
mas há algo ali que não nos cabe
e que buscamos
há algo que nos convida e repele
e quem sabe não estará nisto o
segredo, a revelação, o mistério?
e é preciso seguir buscando
como a um graal cheio até a boca
de pípulas contra soroche
que beberemos como se fossem água.
mandava notícias, poucas,
e em frente ao consulado brasileiro
sentei e chorei pensando em
meu pai.
vi.
diante da praça, no café paris
observei militares e campesinos
ouvindo a fala do presidente
da república pluracional da bolívia
senhor evo morales
era mais bonito ver a reverência
das pessoas humildes do que o
presidente em si,
mas isso lá é novidade?
vii.
sentei-me com joana
para uma prosa
eu não sabia de muitas
coisas
mas quem poderia sabê-las
se não ela?
dia desses,
um atentado na europa
fez roubar a atenção
- quando deveria aparecer
na televisão esta senhora que vende
hamburguesas e tem na parede a fotografia
do pai, veterano da guerra do chaco.
mas quem sabe do chaco?
da bolívia, quem sabe?
e de nós, quem sabia
senão a vendedora de lomitos
e a louca que apontava para o meio da praça
e gritava: HEDIONDOS! HEDIONDOS!
como se visse do outro lado da rua
aqueles conhecidos assassinos
que nos levaram nossos jovens
de há cinquenta anos.
talvez ela os enxergasse, louis.
viii.
quantas cores que os olhos
não conseguem decodificar
quantos sabores
quantos olhos morenos
quanta pele queimada de sol
mas há algo ali que não nos cabe
e que buscamos
há algo que nos convida e repele
e quem sabe não estará nisto o
segredo, a revelação, o mistério?
e é preciso seguir buscando
como a um graal cheio até a boca
de pípulas contra soroche
que beberemos como se fossem água.
23 de fev. de 2017
22 de fev. de 2017
é preciso aprender que num ano
inteiro tem um ou dois dias que
fazem valer a pena.
há dois ou três momentos que
podem tornar-se poemas.
há pouquíssimos momentos
de luz para a fotografia
perfeita.
todos os dias se tornarão a noite
em que te deitas
sobre teu peito. e se não cuidas
com a ordem das coisas,
todos os dias logo tornam-se
o mesmo.
inteiro tem um ou dois dias que
fazem valer a pena.
há dois ou três momentos que
podem tornar-se poemas.
há pouquíssimos momentos
de luz para a fotografia
perfeita.
todos os dias se tornarão a noite
em que te deitas
sobre teu peito. e se não cuidas
com a ordem das coisas,
todos os dias logo tornam-se
o mesmo.
20 de fev. de 2017
as perdas as dores
são tudo nomes
não passam de nomes
o luto a morte
são tudo termos
a falta a saudade
o amor
- o amor, quem diria,
não passa dum punhado
de letras signos significantes
e eu me pergunto
não fossem as palavras
doeria menos?
não fosse a literatura
seria simples?
se a ignorância abençoa
também os filhos que se
despedem lentamente
- colhendo escolhendo
palavras certas para definir
o certo o incerto a certeza
incerta diante do desconhecido
tão conhecido
: estar sozinho
e recordar.
são tudo nomes
não passam de nomes
o luto a morte
são tudo termos
a falta a saudade
o amor
- o amor, quem diria,
não passa dum punhado
de letras signos significantes
e eu me pergunto
não fossem as palavras
doeria menos?
não fosse a literatura
seria simples?
se a ignorância abençoa
também os filhos que se
despedem lentamente
- colhendo escolhendo
palavras certas para definir
o certo o incerto a certeza
incerta diante do desconhecido
tão conhecido
: estar sozinho
e recordar.
17 de fev. de 2017
alguém vem vindo para perguntar
as horas explicar o funcionamento
das coisas banais da vida alguém
vem vindo contar sobre o início do
início, o início primeiro, alguém vem
vindo contar segredos dos nossos pais
e dos pais deles alguém vem vindo a todo
momento vem vindo e sua sombra
assusta e seu cheiro é forte vem vindo
para queimar livros e publicar manuscritos
vem vindo para acertar no alvo BEM NO MEIO
DO ALVO NA MOSCA NA MAÇÃ DE GUILHERME
TELL vem vindo para nos dizer que não
desesperemos, não mais, respira fundo que
amanhã será de novo e de novo e de novo
e de novo alguém vem vindo acalmar as coisas
mas nunca chega, nunca deixa de chegar.
as horas explicar o funcionamento
das coisas banais da vida alguém
vem vindo contar sobre o início do
início, o início primeiro, alguém vem
vindo contar segredos dos nossos pais
e dos pais deles alguém vem vindo a todo
momento vem vindo e sua sombra
assusta e seu cheiro é forte vem vindo
para queimar livros e publicar manuscritos
vem vindo para acertar no alvo BEM NO MEIO
DO ALVO NA MOSCA NA MAÇÃ DE GUILHERME
TELL vem vindo para nos dizer que não
desesperemos, não mais, respira fundo que
amanhã será de novo e de novo e de novo
e de novo alguém vem vindo acalmar as coisas
mas nunca chega, nunca deixa de chegar.
14 de fev. de 2017
neste pedaço de rodovia
hoje caos revolta acidente
com três mortos por semana
trânsito parado
trânsito lento
nesta rodovia de asfalto
que aguarda duplicação
há bem 20 anos
que aguarda escoar a produção
do oeste do alto vale do vale
para o porto
nesta rodovia sanguinária
onde motoristas motociclistas
e pedestres disputam quem
morre antes
a
toda
velocidade
passamos.
ainda não havia asfalto
nem mortos nem cruzes
tampouco catadriópticos
que sinalizassem
de que lado se vai e vem.
passamos
quando ainda era pedra brita
terraplanagem acinzentada
meu pai dirigia a variant
verde-abacate e ouvia alguma
fita de chitãozinho & xororó
ou similares.
a mãe decerto não aprovou
transitar pela rodovia fechada
para trânsito de automotores
que não fossem tratores que
finalizassem a obra
que fizessem o tapete negro
onde depois tantas mães
esposas maridos pais & filhos
chorariam seus mortos.
mas o pai tinha bebido e
devia estar corajoso quando
embicou o velho volks uns
poucos quinhentos metros
e eu vibrava pela proibição
eu vibrava pela aventura
transitar onde nunca antes
transitar como se não fosse
domingo e estivéssemos saindo
de férias a toda velocidade
pela rodovia que ainda não
fora completada terminada
inaugurada.
passamos e sobrevivemos
talvez até tenhamos sorrido
e nem parecia
nem parecia que éramos nós
e que era domingo.
hoje caos revolta acidente
com três mortos por semana
trânsito parado
trânsito lento
nesta rodovia de asfalto
que aguarda duplicação
há bem 20 anos
que aguarda escoar a produção
do oeste do alto vale do vale
para o porto
nesta rodovia sanguinária
onde motoristas motociclistas
e pedestres disputam quem
morre antes
a
toda
velocidade
passamos.
ainda não havia asfalto
nem mortos nem cruzes
tampouco catadriópticos
que sinalizassem
de que lado se vai e vem.
passamos
quando ainda era pedra brita
terraplanagem acinzentada
meu pai dirigia a variant
verde-abacate e ouvia alguma
fita de chitãozinho & xororó
ou similares.
a mãe decerto não aprovou
transitar pela rodovia fechada
para trânsito de automotores
que não fossem tratores que
finalizassem a obra
que fizessem o tapete negro
onde depois tantas mães
esposas maridos pais & filhos
chorariam seus mortos.
mas o pai tinha bebido e
devia estar corajoso quando
embicou o velho volks uns
poucos quinhentos metros
e eu vibrava pela proibição
eu vibrava pela aventura
transitar onde nunca antes
transitar como se não fosse
domingo e estivéssemos saindo
de férias a toda velocidade
pela rodovia que ainda não
fora completada terminada
inaugurada.
passamos e sobrevivemos
talvez até tenhamos sorrido
e nem parecia
nem parecia que éramos nós
e que era domingo.
olha, quem sabe se a gente
voltasse um pouco no tempo
talvez? quem sabe se a gente
observasse melhor os contornos
as derrotas as despedidas quem
sabe se a gente voltasse atrás
uns anos semanas e dias e voltasse
imediatamente para algum momento
derradeiro onde pudéssemos fincar
a estaca da permanência e dizer:
é aqui que permaneceremos, é aqui
será sempre e de novo aqui que nos
encontraremos embora passem os
anos embora nos desfiguremos com
os anos embora os cigarros se molhem
umedecidos por essa garoa incessante
que chove dentro e fora sem rodeios
:
é preciso ir adiante
é preciso olhar em frente
e tentar obter do futuro
alguma migalha algum
remédio alguma forma de
dormir cedo acordar cedo
como um relógio de parede
como um cachorro velho
:
sinto falta sinceramente da minha
sinceridade de bêbado aqueles abraços
que eram em mim era eu que me abraçava
e me dizia que te amo, cara, fica sempre perto
te amo, cara, não morre logo
um monólogo durante anos de festejos e
arrependimentos que eram apenas e somente
desespero tristeza e um frio na alma
que se alojou faz muitos anos eu ainda criança
:
amanhã tem lançamento
e embora possa parecer o contrário
ando bem feliz.
13 de fev. de 2017
10 de fev. de 2017
9 de fev. de 2017
i.
o viaduto culpa
o cruzamento culpa
a interseção culpa
o semáforo culpa
os escolares culpam
os motoristas culpam
outros motoristas
pelo con tio ment
ges na o.
ii.
a vendedora de flores
e o vendedor de poemas
o engolidor de fogo
e os malabaristas
o pedinte com fome
e o aleijado agradecem
iii.
a ambulância
a ambulância
a ambulância
iv.
thereza desliga
o celular
roberto se encara
no espelho
letícia e mário sérgio
não conversam
v.
às 7 horas da manhã
e às 17
percebe-se que a vida
para quando a fila
para quando o trânsito
para quando a vida
vi.
choque
de parachoque
contra poste
de parachoque
contra pedestre
de parachoque
contra parachoque
vii.
amanhã outra vez.
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já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
-
eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...
-
já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...
-
eu tinha quantos anos e quantas vezes vou escrever sobre isso, mas fazia sol e viriam as pessoas viriam, mas elas não vinham e havia bolo e ...