álcool gel
trago as mãos
compulsivamente
embriagadas
o corte no dedo
sobra saliva
a pulila dilata
o vício se rende
não vence (mas)
muda de data.
31 de ago. de 2017
25 de ago. de 2017
22 de ago. de 2017
deito ali a três palmos
das mãos mantidas cruzadas
a mão do relógio e a mão da aliança
enquanto a luz verde da televisão anoitece
e a voz não sai porque não tem como
e as horas que passam contamos com
o passar dos ônibus:
meias horas de subúrbio.
adormeço e imagino
o roçar das pontas dos dedos
as unhas longas passeando pelos
meus cabelos finos
ida e volta ida e volta
os dedos nos cabelos e eu te digo:
a isso chamamos cafuné
tão simples e tão bonito
desperto entre a falta e o apito
e espero com ansiedade
um roçar de barba na minha face
sem pelos e dali um beijo de lado
com que me dizes boa noite filho
e escapo entre as cortinas antes
de saber o resultado de brasil de
pelotas e goiás que no primeiro
tempo terminou empatado em
hum a hum.
das mãos mantidas cruzadas
a mão do relógio e a mão da aliança
enquanto a luz verde da televisão anoitece
e a voz não sai porque não tem como
e as horas que passam contamos com
o passar dos ônibus:
meias horas de subúrbio.
adormeço e imagino
o roçar das pontas dos dedos
as unhas longas passeando pelos
meus cabelos finos
ida e volta ida e volta
os dedos nos cabelos e eu te digo:
a isso chamamos cafuné
tão simples e tão bonito
desperto entre a falta e o apito
e espero com ansiedade
um roçar de barba na minha face
sem pelos e dali um beijo de lado
com que me dizes boa noite filho
e escapo entre as cortinas antes
de saber o resultado de brasil de
pelotas e goiás que no primeiro
tempo terminou empatado em
hum a hum.
18 de ago. de 2017
será fim de tarde daqui a pouco
e veremos os suicidas fazendo fila
em cima da ponte do tamarindo
para decidir quem pula e quem não
levitei com valeriana à espera de um
sonho que não chegou nem chega nunca
o poder do reset, disse pra ela, o poder
de morrer e reviver mas zerado de imagens
o poder de morrer e viver
o poder de morrer e viver
o poder de viver e morrer
o direito de respirar tranquilo
luiza chega hoje e com ela
o oxigênio.
e veremos os suicidas fazendo fila
em cima da ponte do tamarindo
para decidir quem pula e quem não
levitei com valeriana à espera de um
sonho que não chegou nem chega nunca
o poder do reset, disse pra ela, o poder
de morrer e reviver mas zerado de imagens
o poder de morrer e viver
o poder de morrer e viver
o poder de viver e morrer
o direito de respirar tranquilo
luiza chega hoje e com ela
o oxigênio.
17 de ago. de 2017
eu sei da umidade em que tu chafurdas
e sei dos monstros que estão sobre a cama
na hora em que te deitas eu sei que atrás da
porta reside o medo e atrás da cortina a claridade
há de te cegar se ousares abrir a janela eu sei
que o número de imagens que te chegam
é impossível de calcular é impossível ordenar
em palavras eu sei que a noite é a vingança do
dia sei que as manhãs são a herança da insônia
eu sei de ti e dos teus medos
dos teus segredos de menino
do teu choro mansinho que
acaba sempre em convulsão
eu sei de ti
porque eu
também.
15 de ago. de 2017
o senhor promotor e o senhor advogado
tomam café na mesma padaria no início
e no fim do dia, às vezes pagam a conta
um do outro e o ato denota gentileza
o senhor juiz e o senhor deputado
passam férias no mesmo hotel passam
bronzeador um no outro tomando cuidado
para que a cobertura seja homogênea
o senhor governador e o senhor ministro
compreendem que interesses oblíquos podem
ter o mesmo destino se tudo for organizado
o senhor presidente e o senhor ex-presidente
acham graça do que dizem as revistas
e na hora de dormir viram-se pro mesmo lado.
tomam café na mesma padaria no início
e no fim do dia, às vezes pagam a conta
um do outro e o ato denota gentileza
o senhor juiz e o senhor deputado
passam férias no mesmo hotel passam
bronzeador um no outro tomando cuidado
para que a cobertura seja homogênea
o senhor governador e o senhor ministro
compreendem que interesses oblíquos podem
ter o mesmo destino se tudo for organizado
o senhor presidente e o senhor ex-presidente
acham graça do que dizem as revistas
e na hora de dormir viram-se pro mesmo lado.
9 de ago. de 2017
nossa casa não tem janelas nem portas
para eu esquecer abertas quando a chuva
insistir em fazer voar papéis nas tempestades
de fim de tarde
não tem paredes ainda não tem teto ou assoalho
não tem móveis para serem limpos porque
empoeirados não tem cama para o amor
ou mesa para o carteado
a casa não tem terreno ou boletos para serem
pagos em dia ou atrasados não tem número
na porta do apartamento nem escadas para
subir com as compras
a casa ainda não tem nada
nem fogo para aquecer a água do café
nem mesa de centro para acomodarmos
os pés essa casa não tem nada
a não ser desejos de felinos e samambaias
desejos de manhãs frias e ensolaradas
domingos inteiros de sorrisos e cara amassada
entre lençóis limpos com cheiro de lavanda
não tem ainda as paredes decoradas com nossas
fotos não tem endereço para nos mandarem
cartas não tem localização para quando os amigos
nos visitarem
mas tem a gente. e isso basta.
para eu esquecer abertas quando a chuva
insistir em fazer voar papéis nas tempestades
de fim de tarde
não tem paredes ainda não tem teto ou assoalho
não tem móveis para serem limpos porque
empoeirados não tem cama para o amor
ou mesa para o carteado
a casa não tem terreno ou boletos para serem
pagos em dia ou atrasados não tem número
na porta do apartamento nem escadas para
subir com as compras
a casa ainda não tem nada
nem fogo para aquecer a água do café
nem mesa de centro para acomodarmos
os pés essa casa não tem nada
a não ser desejos de felinos e samambaias
desejos de manhãs frias e ensolaradas
domingos inteiros de sorrisos e cara amassada
entre lençóis limpos com cheiro de lavanda
não tem ainda as paredes decoradas com nossas
fotos não tem endereço para nos mandarem
cartas não tem localização para quando os amigos
nos visitarem
mas tem a gente. e isso basta.
4 de ago. de 2017
para celebrar aqueles almoços de domingo
uma carteira de cigarros daquele tempo em que eu
roubava os de meu pai de cima da estante da cozinha
(escaladas que eram a aventura incalculada)
agora essa
explosão de açúcar no sangue & cafeína & nicotina
para lembrar que limpeza é um conceito muito frágil
ainda que o mix-para-celebração se distancie dos estragos
das travessias em mar revolto de álcool & cocaína
veja que
limpeza é um conceito tão frágil como aquele menino
assustado quando o pai chamou pra passear e era tarde
o susto e o grito incontido sempre que o pneu trepava a
calçada sempre que a tarde se tornava madrugada
sempre
que eu sonhava com os gritos que eu daria na cara do vizinho
que enfiava o pau na boca daquele rapazinho que era
eu e era outro e era eu e era outro mas nunca terá
idade para ser assassino a não ser dos próprios sonhos
aventureiro do próprio desatino desbravador de insônias
e colossos que eu trago nos bolsos de uma calça de menino
queria
um banquete com mesa vasta a se perder de vista
onde sentassem os amigos e os inimigos antigos
(porque a consideração somente surge no oposto)
onde coubessem o homem que me pretendo e o menino
(porque as lacunas da história de um cabem nas rugas do outro)
onde sentássemos todos para comemorar as mazelas
(setembro não chegará se sucumbirmos a agosto)
porque
há que se enfrentar os monstros e comemorar o desalinho
depois dos dez primeiros tombos a gente aprende a cair sozinho
quando foi que desaprendi a andar pra frente.
uma carteira de cigarros daquele tempo em que eu
roubava os de meu pai de cima da estante da cozinha
(escaladas que eram a aventura incalculada)
agora essa
explosão de açúcar no sangue & cafeína & nicotina
para lembrar que limpeza é um conceito muito frágil
ainda que o mix-para-celebração se distancie dos estragos
das travessias em mar revolto de álcool & cocaína
veja que
limpeza é um conceito tão frágil como aquele menino
assustado quando o pai chamou pra passear e era tarde
o susto e o grito incontido sempre que o pneu trepava a
calçada sempre que a tarde se tornava madrugada
sempre
que eu sonhava com os gritos que eu daria na cara do vizinho
que enfiava o pau na boca daquele rapazinho que era
eu e era outro e era eu e era outro mas nunca terá
idade para ser assassino a não ser dos próprios sonhos
aventureiro do próprio desatino desbravador de insônias
e colossos que eu trago nos bolsos de uma calça de menino
queria
um banquete com mesa vasta a se perder de vista
onde sentassem os amigos e os inimigos antigos
(porque a consideração somente surge no oposto)
onde coubessem o homem que me pretendo e o menino
(porque as lacunas da história de um cabem nas rugas do outro)
onde sentássemos todos para comemorar as mazelas
(setembro não chegará se sucumbirmos a agosto)
porque
há que se enfrentar os monstros e comemorar o desalinho
depois dos dez primeiros tombos a gente aprende a cair sozinho
quando foi que desaprendi a andar pra frente.
3 de ago. de 2017
não se trata de restar
petróleo posto que
franzinos e mirrados
quase nada restaria
se afogados no solo.
não se trata de virar
lenda: os dias já têm
em si muito mais do
necessário de dor que
exigem os poemas.
não se trata nem de
sobreviver: vida que
se vive a esmo nem
acredito que seja
mesmo vida.
porém
sabe-se lá.
petróleo posto que
franzinos e mirrados
quase nada restaria
se afogados no solo.
não se trata de virar
lenda: os dias já têm
em si muito mais do
necessário de dor que
exigem os poemas.
não se trata nem de
sobreviver: vida que
se vive a esmo nem
acredito que seja
mesmo vida.
porém
sabe-se lá.
1 de ago. de 2017
negociei com seu valmor, o zelador, a entrega dos livros que me chegam; a pequena porta da caixa de correio agora fica aberta e ele deposita os livros lá dentro. assim não preciso mais fugir de suas ligações no interfone ou correr para deixar o prédio antes de encontrá-lo: temo encontros antes do terceiro cigarro da manhã e seu valmor aparece sempre antes do terceiro.
outro dia veio ter comigo: então tu é poeta? e eu respondi que sim, tinha uns livros. e o que chega pelos correios são livros?, e eu disse que sim, livros, muitos de poesia, e a conversa terminou ali. seu valmor, inquieto, sempre me avisa quando chega um livro novo: coloquei na caixinha do correio, como o combinado. e eu o agradeço.
finalmente veio conversar. começou com um bom dia arrastado. então isso: esses livros que chegam pra ti, esses livros de poesia, eles vêm pelo correio, eles têm selos, né? e eu respondi que sim, muitos deles, sim. e sorri: o senhor coleciona selos, seu valmor? ele respondeu positivamente, gosta de selos. quando chegar de novo, guarda pra mim? guardei. e hoje pela manhã entreguei os selos recortados dos envelopes dentro de um livro de poemas. o meu livro.
a finalidade da poesia, quem sabe afinal realmente qual é.
outro dia veio ter comigo: então tu é poeta? e eu respondi que sim, tinha uns livros. e o que chega pelos correios são livros?, e eu disse que sim, livros, muitos de poesia, e a conversa terminou ali. seu valmor, inquieto, sempre me avisa quando chega um livro novo: coloquei na caixinha do correio, como o combinado. e eu o agradeço.
finalmente veio conversar. começou com um bom dia arrastado. então isso: esses livros que chegam pra ti, esses livros de poesia, eles vêm pelo correio, eles têm selos, né? e eu respondi que sim, muitos deles, sim. e sorri: o senhor coleciona selos, seu valmor? ele respondeu positivamente, gosta de selos. quando chegar de novo, guarda pra mim? guardei. e hoje pela manhã entreguei os selos recortados dos envelopes dentro de um livro de poemas. o meu livro.
a finalidade da poesia, quem sabe afinal realmente qual é.
24 de jul. de 2017
seo norberto vive com a esposa
ganha um salário mínimo
não contribuiu com a previdência
aposentado aos sessenta e quatro
extirpou dois tumores malignos
a próstata dói também a vida
e falta dinheiro para a comida
falta dinheiro para o remédio
falta dinheiro e talvez por isso
oito tentativas de suicídio
ele me conta enquanto os olhos
azuis enfrentam as lentes dos
óculos e me enfrentam
aqui na mesa da repartição.
sandro alçou sábado
o seu voo interminável
necessário, porém, necessário
porque quando a vida já não é mais:
a morte não basta para:
ganha um salário mínimo
não contribuiu com a previdência
aposentado aos sessenta e quatro
extirpou dois tumores malignos
a próstata dói também a vida
e falta dinheiro para a comida
falta dinheiro para o remédio
falta dinheiro e talvez por isso
oito tentativas de suicídio
ele me conta enquanto os olhos
azuis enfrentam as lentes dos
óculos e me enfrentam
aqui na mesa da repartição.
sandro alçou sábado
o seu voo interminável
necessário, porém, necessário
porque quando a vida já não é mais:
a morte não basta para:
21 de jul. de 2017
domingo e o pai animado
com os três filhos dois netos
o genro a nora o gato branco
domingo e fazia sol, o pai
animado apontou o limoeiro
"tem a tua idade" e eu perguntei
"foi plantado de muda ou de
semente" e o pai "quando a gente
veio ele já estava, mas era pequeno".
do encontro com mais um irmão
a comparação inevitável:
enquanto eu seco ele dá frutos
esse ano mais que o ano passado.
com os três filhos dois netos
o genro a nora o gato branco
domingo e fazia sol, o pai
animado apontou o limoeiro
"tem a tua idade" e eu perguntei
"foi plantado de muda ou de
semente" e o pai "quando a gente
veio ele já estava, mas era pequeno".
do encontro com mais um irmão
a comparação inevitável:
enquanto eu seco ele dá frutos
esse ano mais que o ano passado.
19 de jul. de 2017
no labirinto de nova petrópolis
verde embaixo, o céu inteiro cinza
enquanto procurava uma saída
descobri que as saídas a gente
faz sempre que se sente perdido
ou preso dentro de um labirinto.
o céu fazia menções de tormenta:
cinza de van gogh anunciava neve
e não sabíamos porque não conhecíamos
van gogh e ignorávamos o que neve
fosse. mas de saída entendíamos,
embora não houvesse saída para
a vida e a morte fosse algo distante
com o que não valia a pena se
preocupar. foi pedro quem mostrou
que havia um buraco na cerca-viva
comemoramos o atalho mesmo que
eu até hoje me sinta culpado por
não ter me esforçado o suficiente
a ponto de encontrar a saída que
todos deviam encontrar eu nunca
fiz a saída que todos buscam fazer
eu nunca encontrei a saída do buraco
ou passo por cima ou passo por baixo
do caminho que eu deveria fazer.
no labirinto de nova petrópolis
aprendi mais do que em todos
os anos de escola e faculdade.
verde embaixo, o céu inteiro cinza
enquanto procurava uma saída
descobri que as saídas a gente
faz sempre que se sente perdido
ou preso dentro de um labirinto.
o céu fazia menções de tormenta:
cinza de van gogh anunciava neve
e não sabíamos porque não conhecíamos
van gogh e ignorávamos o que neve
fosse. mas de saída entendíamos,
embora não houvesse saída para
a vida e a morte fosse algo distante
com o que não valia a pena se
preocupar. foi pedro quem mostrou
que havia um buraco na cerca-viva
comemoramos o atalho mesmo que
eu até hoje me sinta culpado por
não ter me esforçado o suficiente
a ponto de encontrar a saída que
todos deviam encontrar eu nunca
fiz a saída que todos buscam fazer
eu nunca encontrei a saída do buraco
ou passo por cima ou passo por baixo
do caminho que eu deveria fazer.
no labirinto de nova petrópolis
aprendi mais do que em todos
os anos de escola e faculdade.
29 de jun. de 2017
vamos cantar juntos
uma canção de nossa escolha
ou muito melhor: uma canção
que compusemos juntos
com letra tua e música minha
com letra minha e música tua
nossas letras e músicas e nossas
vozes irremediavelmente em
constante desacordo
desacertadamente em
constante desafino.
chego a sentir na fome o cheiro
daqueles dias grisalhos numa
porto alegre insatisfeita com a
minha presença: éramos garotos
que haviam se tornado homens
que insistiam em ser meninos
e nos abraçávamos o abraço
dos heróis de guerra, dos cavaleiros
do rei, dos poetas das tavernas
que nunca lemos porque não
havia poesia melhor do que a
que escrevíamos sob nossas
pegadas.
não há nada pior do que esquecimento
e barriga vazia. não há nada pior do que
esquecimento e barriga vazia. não há nada
pior do que um poema sem poesia
com todos os enganos com todos os disfarces
com todas as misérias e nuances:
chego a sentir no rosto a frieza do asfalto
chego a sentir nos ossos a beleza da distância
os números de telefone se encavalam
e se meter com a memória
é a pior forma de fugir.
é a pior forma de fugir.
27 de jun. de 2017
olha isso (que)
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente
(talvez não seja nada
e passe logo)
o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos
a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade
(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)
depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil
: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :
a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente
(talvez não seja nada
e passe logo)
o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos
a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade
(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)
depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil
: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :
a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.
20 de jun. de 2017
hoje eu queria o simples de um livro de pedro bandeira,
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.
16 de jun. de 2017
quando passares pela ponte do tamarindo
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar.
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
toam nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio.
ignora a placa com o nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
de que já não vale mais a pena lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso e mesmo que queiras, precises e
mereças, não te jogues.
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar.
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
toam nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio.
ignora a placa com o nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
de que já não vale mais a pena lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso e mesmo que queiras, precises e
mereças, não te jogues.
uma vez ouvi dizer que uma etnia
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.
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dos silêncios de elevador: bonita a roupa nova repa rei que a senhora anda a batida ouvi os gritos e aj udei chamando a polícia esse cachorr...
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eu tinha prometido parar com isso de falar do meu pai morto, de três ou quatro nomes de gente que nunca se viu e que parece que existem mesm...