3 de ago. de 2017

não se trata de restar
petróleo posto que
franzinos e mirrados
quase nada restaria
se afogados no solo.

não se trata de virar
lenda: os dias já têm
em si muito mais do
necessário de dor que
exigem os poemas.

não se trata nem de
sobreviver: vida que
se vive a esmo nem
acredito que seja
mesmo vida.

porém
sabe-se lá.




1 de ago. de 2017

negociei com seu valmor, o zelador, a entrega dos livros que me chegam; a pequena porta da caixa de correio agora fica aberta e ele deposita os livros lá dentro. assim não preciso mais fugir de suas ligações no interfone ou correr para deixar o prédio antes de encontrá-lo: temo encontros antes do terceiro cigarro da manhã e seu valmor aparece sempre antes do terceiro.

outro dia veio ter comigo: então tu é poeta? e eu respondi que sim, tinha uns livros. e o que chega pelos correios são livros?, e eu disse que sim, livros, muitos de poesia, e a conversa terminou ali. seu valmor, inquieto, sempre me avisa quando chega um livro novo: coloquei na caixinha do correio, como o combinado. e eu o agradeço.

finalmente veio conversar. começou com um bom dia arrastado. então isso: esses livros que chegam pra ti, esses livros de poesia, eles vêm pelo correio, eles têm selos, né? e eu respondi que sim, muitos deles, sim. e sorri: o senhor coleciona selos, seu valmor? ele respondeu positivamente, gosta de selos. quando chegar de novo, guarda pra mim? guardei. e hoje pela manhã entreguei os selos recortados dos envelopes dentro de um livro de poemas. o meu livro.

a finalidade da poesia, quem sabe afinal realmente qual é.


24 de jul. de 2017

seo norberto vive com a esposa
ganha um salário mínimo
não contribuiu com a previdência
aposentado aos sessenta e quatro
extirpou dois tumores malignos
a próstata dói também a vida
e falta dinheiro para a comida
falta dinheiro para o remédio
falta dinheiro e talvez por isso
oito tentativas de suicídio
ele me conta enquanto os olhos
azuis enfrentam as lentes dos
óculos e me enfrentam
aqui na mesa da repartição.

sandro alçou sábado
o seu voo interminável
necessário, porém, necessário
porque quando a vida já não é mais:
a morte não basta para:

21 de jul. de 2017

domingo e o pai animado
com os três filhos dois netos
o genro a nora o gato branco
domingo e fazia sol, o pai
animado apontou o limoeiro
"tem a tua idade" e eu perguntei
"foi plantado de muda ou de
semente" e o pai "quando a gente
veio ele já estava, mas era pequeno".
do encontro com mais um irmão
a comparação inevitável:
enquanto eu seco ele dá frutos
esse ano mais que o ano passado.


19 de jul. de 2017

no labirinto de nova petrópolis
verde embaixo, o céu inteiro cinza
enquanto procurava uma saída
descobri que as saídas a gente
faz sempre que se sente perdido
ou preso dentro de um labirinto.
o céu fazia menções de tormenta:
cinza de van gogh anunciava neve
e não sabíamos porque não conhecíamos
van gogh e ignorávamos o que neve
fosse. mas de saída entendíamos,
embora não houvesse saída para
a vida e a morte fosse algo distante
com o que não valia a pena se
preocupar. foi pedro quem mostrou
que havia um buraco na cerca-viva
comemoramos o atalho mesmo que
eu até hoje me sinta culpado por
não ter me esforçado o suficiente
a ponto de encontrar a saída que
todos deviam encontrar eu nunca
fiz a saída que todos buscam fazer
eu nunca encontrei a saída do buraco
ou passo por cima ou passo por baixo
do caminho que eu deveria fazer.
no labirinto de nova petrópolis
aprendi mais do que em todos
os anos de escola e faculdade.

29 de jun. de 2017

vamos cantar juntos
uma canção de nossa escolha
ou muito melhor: uma canção
que compusemos juntos
com letra tua e música minha
com letra minha e música tua
nossas letras e músicas e nossas
vozes irremediavelmente em
constante desacordo
desacertadamente em
constante desafino.

chego a sentir na fome o cheiro
daqueles dias grisalhos numa
porto alegre insatisfeita com a
minha presença: éramos garotos
que haviam se tornado homens
que insistiam em ser meninos
e nos abraçávamos o abraço
dos heróis de guerra, dos cavaleiros
do rei, dos poetas das tavernas
que nunca lemos porque não 
havia poesia melhor do que a 
que escrevíamos sob nossas
pegadas.

não há nada pior do que esquecimento
e barriga vazia. não há nada pior do que
esquecimento e barriga vazia. não há nada
pior do que um poema sem poesia
com todos os enganos com todos os disfarces
com todas as misérias e nuances:
chego a sentir no rosto a frieza do asfalto
chego a sentir nos ossos a beleza da distância

os números de telefone se encavalam
e se meter com a memória
é a pior forma de fugir.



27 de jun. de 2017

olha isso (que)
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente

(talvez não seja nada
e passe logo)

o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos

a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade

(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)

depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil

: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :

a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.

20 de jun. de 2017

hoje eu queria o simples de um livro de pedro bandeira,
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.




16 de jun. de 2017

quando passares pela ponte do tamarindo
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar.
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
toam nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio.
ignora a placa com o nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
de que já não vale mais a pena lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso e mesmo que queiras, precises e
mereças, não te jogues.
uma vez ouvi dizer que uma etnia
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.

13 de jun. de 2017

na repartição. repare: na repartição é proibido
falar da falta de sentido que se percebe nisso
de passar oito horas por dia entre papéis e
carimbos para pagar aluguéis e financiamentos
de carros novos antigos usados de toda forma
ou pagar aquela - de novo - reforma da casa
da cozinha do banheiro ou do estábulo onde
vivemos e que ainda ousamos querer chamar
de lar.

a repartição é uma síntese do mundo, pois não.

12 de jun. de 2017

a tarde é frágil
o poeta é frágil
os minutos de atenção
a concentração
tudo tão frágil

(olhas pro lado,
o livro deixa de
fazer sentido)

só resiste o poema
pirografado
que carregas
nos braços
e escondes sob
incômodas
mangas de lã.

8 de jun. de 2017

no subúrbio em que o sol não toca
e as crianças recolhem velas de carros
a terra se confunde com o concreto:
estivemos tão perto de algo, penso.
nunca estivemos tão perto.

não haviam universidades, faculdades,
nem havia ciência: era o mundo e só.
o mundo e o prestígio dos homens
de uniforme - à frente de militares
e escoteiros, os motoristas de ônibus.

íamos calculando o quanto custava
a vida: trinta ou quarenta anos de
cabeça baixa, dor nas costas, marmita,
moradia, aposentadoria e afins
: isso antes da televisão, dos sonhos

comprados a prazo, das viagens para
ali ao lado; isso antes da poesia. e se
os dias acinzentados dão a regra e a
forma, me despeço e desculpo: não
tenho mais idade pra ser motorista

tampouco astronauta. e se não aprendo
a lidar com isso, me condeno a carregar
comigo aquela falta que faz um sentido
pra levar a vida adiante. poemas não pagam
contas, é verdade. mas alimentam o bastante.

5 de jun. de 2017

muito valiosos os radares os supercomputadores
a parafernalha que permite previsões climáticas
e meteorológicas com alguma precisão a despeito
de nosso amor incondicional por tragédias.

olha-se para o céu e já se distingue entre o cinza
o cinza-branco o cinza-chumbo e o cinza-deus-nos-acuda
como se não houvesse cor no mundo ou não quiséssemos
ver outra, mas veja:

a noite preta é que mais assusta. depois de o ribeirão levar
móveis
automóveis
imóveis
e as jóias de ouro de minha irmã ganhas de algum ex-namorado
a noite silenciava, nós com ela, em torno dum par de velas

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a noite tão absolutamente silenciosa que parecia dia
de velório de parente querido: barulho algum em nenhum
lugar.

as velas aqueciam e as histórias de outras chuvas
de outras cheias de outras noites pretas marcavam
a cera derretida a pele o coração
enquanto o pai tecia na fábrica

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a chuva que dava voltas
foi embora e nunca mais voltou a cair
- até hoje.


31 de mai. de 2017

a abóbada esfumaçada
guarda mistérios e rotinas
nesta mesma ordem:

o que garante o passar dos dias
é a posição que a térmica
ocupa sobre a mesa:

o café ainda está quente
embora o céu desta manhã
seja o mesmo do fim de tarde:

porque o dia começou
não significa que também
possa amanhecer.

30 de mai. de 2017

não é mais céu mas uma
cápsula de zinco dentro
da qual mal conseguimos
nos mover - armadura
desconfortável, claustro
inafiançável: outono.

durante os dez minutos
de sol depois de tanto
chumbo carregado nas
costas eu segurei a cabeça
imóvel do epilético no
chão tão frio como o duro
chão das nossas casas.

eu teria que dizer: não
tive medo! pois não
tenho medo de mais nada
desde que dançamos abraçados
e nus nos corredores do
hospital, meu pai e eu.

então o homem parou de 
espumar, o céu voltou a 
escurecer, continuei a fumar
o cigarro que havia apagado 
e limpei a espuma das mãos 
nas calças úmidas

que não se sabe se
um dia voltarão a secar.



26 de mai. de 2017

se eu me chamasse, ponhamos djalma,
e usasse uma camiseta com a foto e uma
frase de pe. zezinho. quem sabe da oração
da família e se eu não tivesse tomado o maior
cagaço quando roubei da garagem o carro
do meu irmão para sentir alguma coisa e tudo
que senti foi medo como senti medo no internato
como senti medo de ser internado quando as
noites já não tinham fim.

se eu tive aprendido cedo um ofício verdadeiro
desses que aprendem os filhos de operários e
tivesse me tornado torneiro, marceneiro
carpinteiro ou mecânico ou simplesmente
se eu tivesse me tornado algo que fosse
não perderia tempo catando palavras
não perderia tempo remendando nadas
não teria tempo a perder com um poema.

a vida não se vive nos livros, me digo
a vida não cabe num livro, repito
palavras não servem pra nada e não há
nada melhor do que uma noite inteira de sono
tranquilo. acredito. acredito como quem mente
pra si mesmo há tanto tempo que já não há
escapatória

nem glória alguma nisso de ver-se no
espelho como quem vê que não virão
os filhos, como quem vê quem o tempo
atravessa os dias, como quem aceita que
os fins de tarde de inverno serão sempre
essa espera pela resposta positiva de um
exame que me constate a enfisema

de um exame que me diga que os poemas
são ainda o que de melhor pode-se por
no mundo.

quem sabe um dia a gente descobre que
tudo não passou duma enorme farsa onde
estivemos despidos, completamente despidos
diante duma plateia sádica

: a vida em si.

24 de mai. de 2017

como se tudo não passasse do jeans
estendido há uma semana dentro do
apartamento de dois quartos cujo tamanho
lembra uma sala, apenas, uma sala pequena
em que passamos de lado porque não cabemos
com nossos ombros largos não cabemos
com nossas vidas tão pequenas não cabemos
direito no mundo, o que dizer então de caber
neste apartamento com sobras de comida
com restos de vida devidamente guardados
dentro de caixas de sapatos etiquetadas
datadas com anos esfumaçados, empoeirados,
úmidos sobretudo, como o lençol dessa manhã
em que calço o jeans úmido, os tênis úmidos,
as meias úmidas úmidas e no caminho (úmido)
para o trabalho naquele ônibus lotado (de pessoas
úmidas) abro um livro de poemas e o levanto
para que todos o vejam, e o levanto como se fosse
o próprio sol.

 capaz de secar de até mesmo esta manhã.

11 de mai. de 2017

i.
sentado bêbado no vaso sanitário
chorando palavras ininteligíveis
onde se podia ouvir sobre a fome
de uma família pobre: bagos de
feijão que enfeitavam a panela
cheia de água (a fome comovia
mais que a morte) isso bem antes
de arrastar o pai pela casa
o corpo sobre um tapete que
eu puxava como se fosse um
móvel muito pesado.

ii.
o dilema da ostra ou coisa que
o valha isso de mijar amarelo
na porcelana branca do mictório
à espera de aparecer um cálculo
renal que apesar da aparência
fui eu que desenhei.

iii.
hum mil novecentos e noventa
e sete uma tarde nublada de ou-
tono ou primavera a notícia da
morte (como ressoam as notíci-
as de morte) e desde lá o peso
das quintas-feiras nubladas co-
mo se o tempo insistisse em re-
tornar sempre e de novo para
aquele início.

2 de mai. de 2017



o imigrante chegou
faminto
          (acredita-se)
roeu madeiras, indígenas
roeu pedreiras, juntou moedas
e empregou os seus
           iguais.

gerações exclusivas
de operários brancos
muito bem tratados
         (acredita-se)

quando o branco escasseou
como mão de obra barata
a cor deixou de ser pré-requisito
         (acredita-se)
mas a posição de imigrante, sim
sobretudo se estrangeiro, sim
sobretudo se faminto

as portas da fábrica se abriram
e se podia ouvir
as paredes e os teares
cantarolando o
Arbeit macht frei.


já ia avançado o dezembro naquele dois mil e hum já ia também naque le dois mil e vinte os dezembros se mpre têm disso: são somas de térm in...