24 de abr de 2009

O Luiz de Laura.

Laura nasceu por aqui ou por ali. Na verdade, não interessa de onde vem. E tudo aconteceu pelo ano de... não, não importa quando tudo começou. Importa, sim, saber de Laura.

No rádio a pilha, instalado na pequena cozinha do casebre de madeira, o rádio. No altar, o rádio. Nenhum santo na casa, somente o aparelho que trazia ruidosas canções de longe, informações pouco importantes de lugares desconhecidos, pessoas que não se sabia se existiam, tragédias que não afetavam Laura nem um pouco.

Nunca tinha visto índio de perto. Negro também não. Índio e negro eram duas pessoas muito feias, muito distantes, que viviam para além das montanhas ao norte, para além das montanhas ao sul. De qualquer forma, também pouco se importava, embora a curiosidade por saber o que havia mais ao norte e mais ao sul lhe corroesse as noites de bom sono.

Essa é a história bonita de Laura, menina-moça de algum interior onde se tinha de caminhar quilômetros atrás de pilha pro rádio, o pai que mandava buscar.

Uma tarde, depois do almoço, a barriga cheia, Laura deitou na rede. O rádio ligado, os ruídos aos quais se acostumou lhe ninando a sesta. Não mais que de repente, o silêncio. Laura pensou, me disse anos mais tarde, que tivessem acabado as pilhas. Deu de ombros.

Não, não eram as pilhas que tinham acabado. Nem era a mãe que o tinha desligado, aquele barulho dia e noite, nem se entende nada que fala essa merda. Apenas não havia mais ruídos e dali, da caixa com alto falantes de onde saiam todas aquelas vozes roucas, as notícias desinteressantes, as músicas fanhas, começou a sair uma voz...

Uma voz, sim. Não. A voz. A voz que a merda do rádio velho nunca permitira que fosse ouvida com tanta nitidez, com tanta beleza. Eram palavras de caramelo — assim me descreveu Laura — e a respeito das quais não tinha o que dizer simplesmente porque não as entendia. Problema no rádio, chama o pai, mãe me ajuda. Não. Não eram palavras tortas.

A voz grave e profunda do homem que cantava fez Laura molhar-se de suor e excitação. As lágrimas que lhe caíam dos olhos eram desejo e eram raiva da vida pequena que vivia (entre os morros do norte e os morros do sul), eram paixão à primeira ouvida.

Devia ser da cidade. Mas para onde? Um dia foi levando trezentos mangos ou menos, não soube me dizer. Foi loucamente para a Cidade. “Aonde fica?”, “Pra lá, Laura!” E foi. Descobriu o asfalto, soube o que eram os prédios, assustou-se com os automóveis. Ia voltar logo. Precisava trazer um pedaço daquele homem, do tal Luiz de sobrenome impronunciável.

Quanto custava chegar à Cidade? Quanto custava retornar? E o disco de Louis Armstrong, quanto custava? Soube, afinal, do que se tratava um homem negro. Lambeu os lábios ao vê-lo retratado na capa do LP. “Onde mora ele? Muito longe, filhinha”. Deu os dinheiros que tinha no bolso, não contou.

Isso aconteceu muitos anos atrás, não vale a pena contar quantos. Mas de repente, Laura pede pra me mostrar um tesouro. Sorrio, eu, constrangido, a minha boca contrastando com a boca de poucos dentes de Laura. E ela abre uma caixa de madeira, desembrulha de entre lençóis e jornais o quadrado sagrado pelo qual entregara sua vida. Ali, a foto do grande homem de voz profunda.

Não ousei perguntar se a história era mesmo verdadeira. Mas quando Laura me mostrou a fotografia do cantor, os olhos cheios de lágrimas, não pude duvidar.

— Acredita, moço, que eu nunca coloquei pra escutar? Que não deu uma volta esse meu disco?
— Acredito sim, Laura. E mato quem disser que não.

2 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

what a wonderful text. Bacana. Tá vindo uma pegada desses personagens periféricos com cara do Vale, não? Perifériocos em relação ao Vale q pouco os nota, me refiro. E sim, q voz tem o cidadão!

Labes disse...

Acho que é por aí: um personagem tem que caber em si - e quanto espaço tem dentro dele que nem ele nem nós sabemos! Fase saudável de leitura, fase saudável de escrita. E tu, como tá? Abraço!

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...