14 de dez de 2015

o poema
pra existir
necessita
desse
silêncio.

o poema
necessita
do hiato
que se forma
quando pára
finalmente
de chover.

o poema
para haver
necessita
desse porão
acinzentado
que a gente
leva consigo
por onde quer
que se ande.

o poema
necessita de mim
e de ti

nunca
n
e
cessa
r
ia
mente
nessa
mesma
ordem.
um abraço de pai
como quem diz
"meu filho",
mas não diz.

dialeto que se
encerra em si
mesmo: tenho
vontade de dizer
que vai dar tudo
certo, mãe.

não poderei nunca
ser pai,
eu tão órfão de
mim mesmo.

faz dezembro,
faz verão,

mas é como se
não fosse.

3 de dez de 2015

o mundo,
não se
podia dizer que
era grande.

tudo acontecia
no bairro:
o vô e a vó,
os tios e as tias,
os primos, as primas
e as tristezas,

tudo acontecia
tão perto.

só era grande
quando a gente
se aventurava
a tomar banho
de rio e tu
me levavas.

"não conta nada
pra mãe".

nunca contava,
mas igual a mãe brigava
- a roupa molhada,
vinícius. a roupa
molhada no varal
era o que nos
delatava.

mas tudo mudou tanto!
mudou e deixamos
os dois de ser
meninos.

mudou e deixamos
de nos aventurar
pelos estradas
de terra com
aquela bicicleta
vermelha e amarela
que não se sabe mais
onde está.

o mundo ficou
tão grande que a
gente nem se
encontra mais.

a roupa no varal,
vinícius.
esquecemos de novo
a roupa no varal.

paus.e.pedras

- ela apanhou porque
mereceu.

- enrabei o magrelinho
que além de veado
era ateu.

- coisa melhor do
que ter seu próprio
macaquinho
de estimação?

[eles falavam tanto
de classe,
fazer levantar as massas,
fazer a revolução

- o branco, mais uma vez;
o homem que a si
se vê como seu o pau
lhe garantisse redenção]

paus e pedras,
paus e pedras.

na primavera das datas,
mais do que arco-e-flecha
havia ali um silêncio
trancado.

(não se interrompe
silêncio, não se
amarra, não se
dissipa)

na primavera das datas,
se estava ensaiando,
em silêncio, o grito
que ouvirás daqui uns dias.

ele te dirá que te dispas
de todas tuas verdades,
de todas tuas mentiras.

ele te dirá que é tarde
para ti e tua latrina
(a boca pela qual falas
em nome dos pretos,
dos indígenas,
dos meninos e
das meninas).

se já não sabes mais
em qual direção,
o precipício.

ou será pra sempre
isso:

paus e pedras,
paus e pedras.

segunda.a.segunda

Se os iguais são
indiferentes
e os diferentes
estão desiguais,
é preciso urgente
encontrar caminhos,

mas quais?

Será que por aqui
mesmo?

[entre acerto e desconcerto,
injustiças e polícias,
políticas e mentiras]

Para a frente
sempre,
nunca pra trás!

proposta.poética

Por uma poética que
leve em conta
mais acertos que
desenganos,
queiramos:

muito mais sul
do que norte,
muito mais luta
que sorte,
cores que vão
além da trinária
bandeira de
Estados Unidos.

Porque a vida
um dia acaba
e estamos mortos;
vivos, valemos
mais - juntos,
assim mesmo distintos,
assim mesmo tortos
- e latinos.

Porque a vida
se vive até que
se acabe -
mas a nossa
latinidade estará
sempre viva
como sobrevivem
feito ferida

os torturados,
os mutilados,
os esquecidos
e os desaparecidos.

pura.retórica

Façamos um trato
definitivo:
paremos de nos
matar
(mesmo que
tenhamos motivo).

Contrato assinado,
só um aviso:

não olhe pro lado!

[As crianças não
compreendem o
idioma estrangeiro,
tampouco tem tempo
de descer a escada]

Estampido ligeiro.

Fecha-se a cortina
de fumaça.

esboço.para.uma.ciranda

eles queriam amar,
apenas.

ela queria ser feliz,
feliz, feliz.
ele queria viajar
ou mesmo ficar
parado:
[decidiria no
exato momento
incerto em que as
decisões são
tomadas ].

ela queria voar,
ele queria saber,
ela queria sonhar,
ele sonhava ainda
com deixar de fumar.
ele vivia a esmo,
ela pedia a deus
que os dias fossem
leves.
ele queria ver a neve.
ela queria um mundo
finalmente justo.
ele ansiava pelas cores,
ela reverberava dores,
eles todos se viam
a si mesmos como
a promessa de um
algo novo.

eles queriam apenas
amar,
mas o fogo
já lhes queimava
as canelas.
É preciso deixar
que a noite chegue
para sentir a tua falta,

para olhar a estrela
mais alta e pensar que
estamos sozinhos aqui:

o telefone não toca,
ninguém baterá na porta
e as cartas, desesperadas,
se perderam por aí.

O scuro de que foge este
Mastroianni maduro, sou eu mesmo
quando me vi no Paradiso deserto.

De perto, toda distância é segura.

É preciso deixar que a noite chegue
para nos esquecermos de dormir.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...