19 de nov de 2016

Essa cidade é tão úmida
que é difícil enxergar
o que está distante,
acostumados que estamos
com o úmido e o opaco.

Até que sopra vento sul.

O apartamento está seco,
a cidade está seca
e a paisagem é tão bonita:

as estrelas e as lâmpadas
disputam quem brilha mais.

Daqui de dentro deste
aquário árido,
penso em como seria
se secássemos:

seríamos nós,
as lâmpadas
e as estrelas
disputando
quem brilha
mais.

Se houvesse vento
capaz de operar tamanho
milagre.

Se sempre ventasse
assim.
se era porto,
tempestade

se era base,
terremoto

se era ele,
era nada

pior que nada:
não era outro.
Ganhei um livro grego
de lá mesmo da Grécia
prensado no idioma de
....................................
(ponha aí seu grego favorito).

Azul da cor do mar Egeu
- suponho, pois nunca fui
tão longe.

Presente completo
[em grego] com sacola
livro e nota fiscal.

Ora, não havia pensado
nisso, mas se o cavalo de
Tróia estivesse vivo

testemunharia o ilustre
fato do presente que é
cobrado.

- Mas era um cavalo de
madeira! Não vivia!
Mas o presente grego

havia, ensacolado,
ao preço de 8 euros
e onze centavos.

o concerto começou com jesus a alegria dos homens, tocado ali, no parque, palco improvisado num caminhão, o que as pessoas pensavam que se tratava, afinal era um concerto de piano. no palco, arthur moreira lima, o pianista que tocou em mais lugares do planeta, em mais cidades brasileiras, o pelé dos teclados, segundo o anunciante. todos ali esperando, ansiosos, aparecer o homem, o olho no telão e nas cabeças das pessoas. lizst, bach, uma versão linda e preguiçosa de trenzinho caipira, ninguém tirava os olhos do homem. ninguém se mexia. deixei de acender algum cigarro para que a fumaça não atrapalhasse o concerto de piano ao ar livre, a bem-aventurança da cultura erudita iluminando cada um de nós, pobres mortais, ali no parque.

era fim de tarde.

veio uma vontade de mijar.

então caminhei em direção ao banheiro público me afastando dele, o homem iluminado sobre o palco improvisado, para me aliviar da bexiga cheia, a passos incoerentes, desviando das pessoas hipnotizadas pelo som do piano tocado de maneira magistral. não havia água no banheiro. fila para usar o mictório. aquele cheiro de mijo evaporado. ali dentro, um homem de vinte e poucos anos, dois metros de altura, cento e cinquenta quilos - suponho - e uniforme azul manuseava um rodo sobre o piso quase-branco: juntava a urina amarela escurecida pelas pegadas. era mijo, era terra, água não havia, ele manuseava o rodo em direção à porta, a poça que se formava era arremessada na calçada.

o rodo era seu piano, pensei.

daqui não dá pra ouvir o concerto, calculava.

escureceu. o ilustre pianista arthur pereira lima bailava suas mãos sobre o teclado enquanto o dia se ia. gnattali, villa-lobos, pixinguinha. as pessoas aplaudimos de pé, emocionadas, quando no fim das variações de asa branca. o concerto terminou, não me lembro, talvez com chopin.

e talvez os mais apertados tenham corrido diretamente para o banheiro a fim de aliviar a bexiga. chegando lá, não terão encontrado água. talvez tenham acorrido à fila do mictório. as pegadas sobre o chão de mijo escurecendo o piso úmido. quem não estivesse preparado, talvez, naturalmente, tenha se assustado com aquele homem suado que manejava o rodo sobre o piso molhado, formando poças de mijo que iriam ter fim na calçada. o homem suado que não parecia se ocupar do cheiro insuportável de urina aquecida, evaporada, respirada.

que tal o concerto?, alguma voz poderia ter perguntado.

só amanhã - teria respondido. só amanhã para o encanamento ser arrumado.

enquanto isso, o cheiro de mijo. todos os dias, o mijo. em alegro. alegro ma non troppo. alegro molto. alegro maestoso.
não era mesmo pra fazer sentido, afinal o que se ganha se perde e de uma hora pra outra a gente fica pensando nas merdas que fez e que sempre e sempre voltará a repetir.

não era mesmo pra fazer careta com o gosto azedo do limão, com a benzetacil enfiada no músculo, com a extração de dois dendes de siso (um deles incluso).

não era nem pra pedir carinho ou colo, nem pra sentir saudade, não era pra fazer cara de choro e entregar antes de todos o presente surpresa do aniversário de minha mãe.

não era pra remexer as fotos. não era pra queimar os cabelos. não era pra isso, não era praquilo, não era nada.

nem era pra pedir perdão: a faca afiada cortando o pescoço da galinha, abrindo o bucho do porco, as tripas todas expostas naquele dia em que vomitei jaboticaba pelos cotovelos e me caguei todo.

a infância era um tempo bonito, mas nunca foi.
Ninguém percebeu que Daniel Auteuil só faz sentido em Caché por ser, ele mesmo, argelino.

Seja como for, Daniel Auteuil, em L'adversaire, é o retrato de como me sinto hoje - como nos sentimos todos em algum dado momento da vida.

Queria poder convidá-lo para um café ou um conhaque, saber o que pensa da invasão francesa na Síria.

Mas do idioma de Sartre entendo pouco, falo menos ainda e não conseguiria nunca ter entendido coisa alguma não fossem as legendas e as traduções mal traduzidas.
A memória
é a parede.
Eu sou o rato.
Se me afasto,
me perco.
A eternidade
é do tamanho
do pátio.
Meu carinho pelos exilados
despatriados
fugitivos
refugiados
que recorrem à terra natal
para explicar sóis poentes
para cantar à maneira deles
os ancestrais

Daqui de onde falo
não há linha imaginária
ou fronteira
só saudade de casa

Mas aquela casa
naqueles anos
que nem a memória
ou as fotografias

que nem as receitas
as lembranças
e a poeira nos móveis
poderão refazer algum dia.

O país sou eu
sem linhas aduanas
e fronteiras

e os exilados
queria todos aqui
para soluçarmos de rir
enquanto o domingo avança.


sei que não sou só eu
que atravesso a noite
na chuva
mirando poças à espera
de que sejam tanto ou
mais profundas do que
minha altura.

sei que não sou só eu
que tenho a ossada
cansada
de carregar a carcaça
de carregar as páginas
reviradas
de um livro que nunca será
escrito.

trago comigo, de alguma forma,
deus enfiado nos bolsos
(quando derrete, molha as calças
feito mijo)

assobio sempre a mesma
canção quando me deparo
com o carro vindo
pois sei que no fim haverá o desvio

o maior desafio é permanecer
parado.
Era 1989, 1990, 1991... Fomos com a mãe e o pai (será que com o pai também?) para o centro da cidade. Naquela época, o Progresso era ainda mais distante do centro - e assim, dizíamos que íamos para a cidade, porque era lá que havia asfalto, haviam prédios. No Progresso não havia nada disso. Era zona rural antes de ser subúrbio. Entramos nas Lojas Americanas da rua 15 de novembro - uma espécie de shopping mesmo antes de haver shopping na cidade - para comprar algum presente, alguma coisa importante (suponho) e me perdi entre as gôndolas com Vinícius, meu irmão do meio.

Tinha levado comigo uma caixa de carrinhos de metal. Fundo de plástico, embalagem de papelão, tinha seis ou sete carrinhos em miniatura. Havia ganhado de um padrinho, eram a coisa mais importante do mundo naquele momento. Levei comigo porque não podia me separar do presente. Levei porque queria mostrar a todo o mundo que eu havia ganhado um presente tão bonito. Eram seis, sete carrinhos de metal.

Hora de ir embora, a mãe pergunta (ou Vinícius, nunca está claro neste terreno fértil que é a memória): "Cadê teus carrinhos?" E a gente sai a procurar, Vinícius e eu, entre as prateleiras das Lojas Americanas. Andando. Correndo. Nunca os encontramos. Devo ter chorado, naturalmente. O coração na mão, naturalmente. A incerteza diante do impossível: não reaveria o brinquedo e, como nunca me perdoei pela perda, trato de nunca esquecer o esquecimento.

Não lembro suas cores, os modelos que representavam, mas eram seis, sete carrinhos de metal que Roni me havia presenteado. Ou talvez não tivesse sido ele. Talvez não fossem nem mesmo de metal, mas de plástico. Mas tenho quase certeza que eram carrinhos, quase certeza que eram de metal e quase, quase tenho certeza de Vinícius ter me advertido antes de sairmos de casa: "Cuidado pra não perder isso aí".

Era 1989, 1990, 1991... e eu já exercitava perdas com minha surdez diante do conselho alheio. Dali em diante somente seria pior.
as lembranças de infância
as traições recordadas
aquele tempo de desemprego
lavando carros
tapando buracos
tudo excepcionalmente
cinza

juntando moedas
costurando idéias
ignorando prazos
cinza

como as esperanças
cinza

como a parede branca
vencida pela fuligem
cinza

os lençóis em que não
me deito por respeito
e por saudade
cinza

como os pulmões depois
de fumar tantos anos
e a fumaça sem me prometer
absolutamente nada
cinza

também esse céu de outubro
que desengana a primavera
anunciada, comemorada
mas ainda
cinza

como se não houvesse
outra cor no mundo.

será fim de tarde daqui a pouco e veremos os suicidas fazendo fila em cima da ponte do tamarindo para decidir quem pula e quem não levi...