12 de dez de 2017

um inventário com todos os mortos
inclusive aquele jovem velado pelo
pai de barba muito branca na sala de casa
eu disse a carminha:
morreu o filho do papai noel.
: a mulher vítima de acidente de trânsito
quem chegasse bem perto poderia ver os
cacos de vidro furando ainda a pele sem vida
: o homem atropelado para quem
escrevi um poema.

quem perguntasse, responderia que
não ando triste nem com medo
mas se o peso dos mortos não fosse tamanho
a ponto de me arcar as pernas,
caminharia muito mais longe e não me
doeriam tanto as costas.

7 de dez de 2017

(para o Gabriel Cortilho)
eles têm aparelhos muito audaciosos
muito modernosos eles têm aparelhos
e técnicas inovadas eles têm dinheiro
têm maneiras de se portar à mesa
têm gravatas-borboleta eles têm sapatos
de bico fino muito lustrados eles têm
manias de grandeza e documentos que
comprovam posse eles têm quase tudo
que um homem pode querer eles têm
poder, gabriel

mas é tudo que eles têm.

[enquanto isso
a tarde dura uma
vida inteira

: das vidas inteiras
que podem caber
numa tarde

eu prefiro essa
exatamente essa
onde os poemas

nos aproximam
nos equilibram
nos invadem].
para o Blanco, para o Joaquim:

quisera ter podido atravessar estradas
sem olhar para os dois lados quatro
na verdade porque não se pode ignorar
que o em cima e o em baixo são tão
importantes para a segurança própria
e alheia como direita e esquerda nos
demonstram os manuais desde que
aprendemos a ler

pois bem

quisera ter podido ter vivido os vinte anos
a década inteira que se chama vinte anos
melhor do que naquela canção de fábio junior
embora tenha vivido e chorado e cantado
a versão de raimundos ao vivo num palco da
mtv em algum show de fim de ano não importa
uisera ter vivido os vinte anos me sentindo
e dizendo poeta

porque aos trinta já soa tarde parece tarde tem
cheiro de coisa vencida

porém

quem sabe que caminhos se alcançam quando
se atravessa a rua sem olhar para os quatro lados
quando se entra no ônibus sem ler o letreiro
quando se acorda cedo e se permite caminhar
a esmo sem esperança alguma de encontrar um poema
sem esperança nem mesmo de escrevê-lo para

de repente

(tocou o telefone
chamei uma senha
atendi um rapaz de
vinte e poucos e uniforme
duma empresa que promete
futuros)

o poema surgir estampado
como se tivesse sido sonho
como se o poema me tivesse
sonhado / ou o contrário

eu dizia ao jonhn ou foi ele
quem disse: depois dos trinta
e tendo já feito de tudo
e tendo já tudo dado errado
resta assumir que não resta
mais nada senão isso: a vida.
a vida inteira pela frente

: a vida a reboque da poesia.




(tendo Cláudia e Jonhn por testemunhas do momento em que esse poema começava a ser escrito sem papel nem caneta)

5 de dez de 2017

entre o flúor e o detefon
sobram escovas espelhos sabonetes
pasta cristal que me resolva
o tártaro entre os dentes
sujos de tanto cigarro e insônia

: há sujeira que não se limpa
nem se extirpa | no mais profundo
que se buscar | quem diria
fosse possível haver dentro
do humano um outro

procuro nas fotos antigas as mãos
antes deste engrosso deste entorto
as mãos que não chamassem atenção
sempre que gesticulo

assim também os pés tortos
a coluna torta a cabeça torta
as ideias também os poemas
: não sai com água sanitária :
melhor escrever um livro
e publicá-lo
melhor visitar um dentista.

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...