31 de ago de 2015

se até a fé
se até o café.

porque a fome
não pode se
alimentar de si,
então come.

mas não come-
se a si:
devora o outro

[mastiga-mastiga
engole e digere
pouco a pouco].

se até o espelho,
se até os joelhos
rangem mais
que dobradiças.

se até a justiça
ou muito pior
se as injustiças.

se a miséria,
se a cobiça.

seria séria
a minha vida
não fossem as
interpretações
das notícias?

se até nós mesmos,
se até nós juntos:
faltariam mundos
se vivêssemos mesmo.
hoje não há espaço
para poesia -
não seria possível
fugir do clichê e rimar
amor com dor
e azia.

não há espaço
para nada
que não caiba
no hoje
- neste hoje,
neste dia.

qualquer poema
soaria estranho
: pisada em falso
e me emaranho
nas cores tortas
da fotografia
deste dia.

24 de ago de 2015

letra.de.música

|Sim, a gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Faltará fôlego ou dinheiro;
Será frio de mais em junho
e calor em janeiro.
E o peito congelado
como um coração parado
que não bate nunca mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai.

Qual será a nossa idade?
(Me pergunto o ano inteiro)
Todos sonhos que sonhamos
vomitados no banheiro.
E a promessa indigesta
de sobreviver um ano mais.

|A gente sabe:
|aqui não dá pra ser feliz
|Tenho certeza de que
|nem no Havaí, nem no Paraguay
|a gente vai...

De repente, março
se confunde com o outono.
E brotará um sorriso
na tua cara de sono.
E de repente a gente
vê que o Havaí e o Paraguay
são aqui.
terra à vista,
se dizia.

terras de santa cruz,
de pau-brasil,
de brasília.

hoje se sabe
a verdade:

esta terra
não pode ter nome,
a não ser que se chame

terra-que-nunca-foi,
mas ia.
tô indo te ver
porém a cada passo dado
é como se distanciasse.

tô indo te ver:
o tempo corre invertido
o caminho é mais comprido
a ilha é mais distante
o vale mais comprimido

gvidero.
rada ze

os pés pisam em falso
neste mais-tempo-que-espaço.

os pés pisam em falso
na saudade.

de qualquer demolição
resistirá o construído

fantasma de maquete
se sonhando concretado

sirene de alerta
5 minutos
botão vermelho
disparado

agora poeira:
vento soprado
passado antigo
poema pensado
e não escrito

agora destroços,
agora detritos.
somos riacho
que ignora
a correnteza

: criamos atalhos
destruindo pontes


refazemos a margem
à margem de onde
andávamos antes

certeiramente
destroços.

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...