27 de jun de 2017

olha isso (que)
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente

(talvez não seja nada
e passe logo)

o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos

a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade

(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)

depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil

: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :

a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.

20 de jun de 2017

hoje eu queria o simples de um livro de pedro bandeira,
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.




16 de jun de 2017

quando passares pela ponte do tamarindo
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar. 
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
am nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio. 
ignora a placa com a nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
que já não valem mais pena mais lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso, olha rio acima e segura o impulso.
não te jogues.

uma vez ouvi dizer que uma etnia
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.

13 de jun de 2017

na repartição. repare: na repartição é proibido
falar da falta de sentido que se percebe nisso
de passar oito horas por dia entre papéis e
carimbos para pagar aluguéis e financiamentos
de carros novos antigos usados de toda forma
ou pagar aquela - de novo - reforma da casa
da cozinha do banheiro ou do estábulo onde
vivemos e que ainda ousamos querer chamar
de lar.

a repartição é uma síntese do mundo, pois não.

12 de jun de 2017

a tarde é frágil
o poeta é frágil
os minutos de atenção
a concentração
tudo tão frágil

(olhas pro lado,
o livro deixa de
fazer sentido)

só resiste o poema
pirografado
que carregas
nos braços
e escondes sob
incômodas
mangas de lã.

8 de jun de 2017

no subúrbio em que o sol não toca
e as crianças recolhem velas de carros
a terra se confunde com o concreto:
estivemos tão perto de algo, penso.
nunca estivemos tão perto.

não haviam universidades, faculdades,
nem havia ciência: era o mundo e só.
o mundo e o prestígio dos homens
de uniforme - à frente de militares
e escoteiros, os motoristas de ônibus.

íamos calculando o quanto custava
a vida: trinta ou quarenta anos de
cabeça baixa, dor nas costas, marmita,
moradia, aposentadoria e afins
: isso antes da televisão, dos sonhos

comprados a prazo, das viagens para
ali ao lado; isso antes da poesia. e se
os dias acinzentados dão a regra e a
forma, me despeço e desculpo: não
tenho mais idade pra ser motorista

tampouco astronauta. e se não aprendo
a lidar com isso, me condeno a carregar
comigo aquela falta que faz um sentido
pra levar a vida adiante. poemas não pagam
contas, é verdade. mas alimentam o bastante.

5 de jun de 2017

muito valiosos os radares os supercomputadores
a parafernalha que permite previsões climáticas
e meteorológicas com alguma precisão a despeito
de nosso amor incondicional por tragédias.

olha-se para o céu e já se distingue entre o cinza
o cinza-branco o cinza-chumbo e o cinza-deus-nos-acuda
como se não houvesse cor no mundo ou não quiséssemos
ver outra, mas veja:

a noite preta é que mais assusta. depois de o ribeirão levar
móveis
automóveis
imóveis
e as jóias de ouro de minha irmã ganhas de algum ex-namorado
a noite silenciava, nós com ela, em torno dum par de velas

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a noite tão absolutamente silenciosa que parecia dia
de velório de parente querido: barulho algum em nenhum
lugar.

as velas aqueciam e as histórias de outras chuvas
de outras cheias de outras noites pretas marcavam
a cera derretida a pele o coração
enquanto o pai tecia na fábrica

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a chuva que dava voltas
foi embora e nunca mais voltou a cair
- até hoje.


31 de mai de 2017

a abóbada esfumaçada
guarda mistérios e rotinas
nesta mesma ordem:

o que garante o passar dos dias
é a posição que a térmica
ocupa sobre a mesa:

o café ainda está quente
embora o céu desta manhã
seja o mesmo do fim de tarde:

porque o dia começou
não significa que também
possa amanhecer.

30 de mai de 2017

não é mais céu mas uma
cápsula de zinco dentro
da qual mal conseguimos
nos mover - armadura
desconfortável, claustro
inafiançável: outono.

durante os dez minutos
de sol depois de tanto
chumbo carregado nas
costas eu segurei a cabeça
imóvel do epilético no
chão tão frio como o duro
chão das nossas casas.

eu teria que dizer: não
tive medo! pois não
tenho medo de mais nada
desde que dançamos abraçados
e nus nos corredores do
hospital, meu pai e eu.

então o homem parou de 
espumar, o céu voltou a 
escurecer, continuei a fumar
o cigarro que havia apagado 
e limpei a espuma das mãos 
nas calças úmidas

que não se sabe se
um dia voltarão a secar.



26 de mai de 2017

se eu me chamasse, ponhamos djalma,
e usasse uma camiseta com a foto e uma
frase de pe. zezinho. quem sabe da oração
da família e se eu não tivesse tomado o maior
cagaço quando roubei da garagem o carro
do meu irmão para sentir alguma coisa e tudo
que senti foi medo como senti medo no internato
como senti medo de ser internado quando as
noites já não tinham fim.

se eu tive aprendido cedo um ofício verdadeiro
desses que aprendem os filhos de operários e
tivesse me tornado torneiro, marceneiro
carpinteiro ou mecânico ou simplesmente
se eu tivesse me tornado algo que fosse
não perderia tempo catando palavras
não perderia tempo remendando nadas
não teria tempo a perder com um poema.

a vida não se vive nos livros, me digo
a vida não cabe num livro, repito
palavras não servem pra nada e não há
nada melhor do que uma noite inteira de sono
tranquilo. acredito. acredito como quem mente
pra si mesmo há tanto tempo que já não há
escapatória

nem glória alguma nisso de ver-se no
espelho como quem vê que não virão
os filhos, como quem vê quem o tempo
atravessa os dias, como quem aceita que
os fins de tarde de inverno serão sempre
essa espera pela resposta positiva de um
exame que me constate a enfisema

de um exame que me diga que os poemas
são ainda o que de melhor pode-se por
no mundo.

quem sabe um dia a gente descobre que
tudo não passou duma enorme farsa onde
estivemos despidos, completamente despidos
diante duma plateia sádica

: a vida em si.

24 de mai de 2017

como se tudo não passasse do jeans
estendido há uma semana dentro do
apartamento de dois quartos cujo tamanho
lembra uma sala, apenas, uma sala pequena
em que passamos de lado porque não cabemos
com nossos ombros largos não cabemos
com nossas vidas tão pequenas não cabemos
direito no mundo, o que dizer então de caber
neste apartamento com sobras de comida
com restos de vida devidamente guardados
dentro de caixas de sapatos etiquetadas
datadas com anos esfumaçados, empoeirados,
úmidos sobretudo, como o lençol dessa manhã
em que calço o jeans úmido, os tênis úmidos,
as meias úmidas úmidas e no caminho (úmido)
para o trabalho naquele ônibus lotado (de pessoas
úmidas) abro um livro de poemas e o levanto
para que todos o vejam, e o levanto como se fosse
o próprio sol.

 capaz de secar de até mesmo esta manhã.

11 de mai de 2017

i.
sentado bêbado no vaso sanitário
chorando palavras ininteligíveis
onde se podia ouvir sobre a fome
de uma família pobre: bagos de
feijão que enfeitavam a panela
cheia de água (a fome comovia
mais que a morte) isso bem antes
de arrastar o pai pela casa
o corpo sobre um tapete que
eu puxava como se fosse um
móvel muito pesado.

ii.
o dilema da ostra ou coisa que
o valha isso de mijar amarelo
na porcelana branca do mictório
à espera de aparecer um cálculo
renal que apesar da aparência
fui eu que desenhei.

iii.
hum mil novecentos e noventa
e sete uma tarde nublada de ou-
tono ou primavera a notícia da
morte (como ressoam as notíci-
as de morte) e desde lá o peso
das quintas-feiras nubladas co-
mo se o tempo insistisse em re-
tornar sempre e de novo para
aquele início.

2 de mai de 2017



o imigrante chegou
faminto
          (acredita-se)
roeu madeiras, indígenas
roeu pedreiras, juntou moedas
e empregou os seus
           iguais.

gerações exclusivas
de operários brancos
muito bem tratados
         (acredita-se)

quando o branco escasseou
como mão de obra barata
a cor deixou de ser pré-requisito
         (acredita-se)
mas a posição de imigrante, sim
sobretudo se estrangeiro, sim
sobretudo se faminto

as portas da fábrica se abriram
e se podia ouvir
as paredes e os teares
cantarolando o
Arbeit macht frei.


17 de abr de 2017

obst/áculos

i.

há muitas formas
de se fazer o mesmo
repetidamente
o mesmo
quase sem obst /
                          áculos

(porém)

apesar de todos os
dias
apesar do pesar dos
dias
como quem nada teme
como quem finge

ii.

havia morcegos
no prato havia
um monstro 
que engolia
morcegos e
engolia gente
e regurgitava
e voltava a 
engolir

eu dizia:
tô cansado
de tanta dor

sabe como é
ser mastigado o
dia inteiro e de novo
por monstros de 
dentes afiados?

eles se riam 
         (de mim
e do domingo)


iii.

seo alfredo terá deixado:

01 tesoura de tecelão
01 par de protetores auriculares
01 carretel de dedo
01 carteira de homem
01 roupeiro do século 
retrasado
e uma saudade filhadaputa.


iv.

se era domingo
eu não sei.









13 de abr de 2017

família
sentada à mesa
                ao lado

a mãe cuidadosa
cuida
a mãe cuida
cuidadosa
das crias
a mãe o menino
e a menina

de repente por
uma questão de 
talheres
a baixaria

e o menino
chora
e o menino 
grita
e o menino 
grunhe
e o menino 
guincha

como o porco
quando o degolaram
para servir o prato
do menino

criança e bicho
se igualam
se encontram
no estômago
enquanto
se abraçam
na mesa 
            ao lado 

30 de mar de 2017

estátua adormecida

deitado
o corpo
levemente
inclinado
a perna direita
esticada
a esquerda
flexionada
o tronco torto
a cabeça virada
para o lado
de fora da cama
sobre o travesseiro
sobre o braço direito
esticado através das
grades da cabeceira
(se a parede estiver próxima
as costas da mão pressionam
a parede)
o braço direito flexionado
como se aplicasse uma chave
no travesseiro ou
no vazio.

durmo igual meu pai.

a descendência se assume
por caminhos desconhecidos.

27 de mar de 2017

se estas letras fossem para um 
poema aquele momento específico
em que descobrimos asunción
num quarto sem refrigeração

se estas frases tivessem sido pensadas
durante a noite em claro e não
durante a caminhada ao trabalho
nesta manhã de névoa e solidão

se cada assinatura minha 
fosse na dedicatória a um amigo
e não preenchendo processos

se o fim de mês nos desse mostras
de que o futuro. se o fim de mês
nos desse mostras, não tropeços. 

24 de mar de 2017

a mesa devidamente
organizada

processos devidamente
protocolados

a felicidade vem em forma
de uma caixa de grampos
novos
ou de canetas de ponta fina

é assim que se começa
a morrer.

olha isso (que) pode ser uma pedra um poema um coquetel molotov um dilema persistente (talvez não seja nada e passe logo) o outono ...