sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O sorriso de Larissa.

Não sei ao certo quando foi a primeira vez que Larissa e eu nos amamos. Sua mãe e eu havíamos bebido demais num jantar entre amigos e coube a mim pagar a babá e levá-las até a cama, sua mãe, ao nosso quarto e Larissa, ao festivo quarto rosa onde habitava. Larissa vestia pijama e entre suas curvas pude ver que não usava calcinha, os seios em crescimento despontavam por sob a camiseta de algodão. Tinha doze anos, por essa época.

Não sou seu pai biológico, embora sejamos parecidos. Conheci sua mãe quando de Larissa já lhe caíam os primeiros dentes. Nossa proximidade, apesar dos anos, nunca nos proporcionou o amor vital entre pai e filha. Pelo contrário: sua beleza desde sempre me provocou ao ponto de ambos nos constrangermos com a presença alheia. Não nos tocávamos que não fosse com os olhos. Aliás, penetrávamo-nos com os olhos e assim mesmo, nos olhando, chegávamos aos orgasmos mais bonitos.

Mas não sei como nos amamos a primeira vez. Na prática, quero dizer. Acho que era verão. Larissa trouxe as colegas de escola para uma tarde na piscina. Sua mãe e eu observávamos suas peripécias entre nosso silêncio e os goles que dávamos num uísque que estalava ao contato com o gelo. Sara, Fernanda, Letícia, eram tão joviais aqueles corpos, exalavam doçura. Do alto da minha embriaguez, eu pedia que me convidassem: “Vem, tio, brincar com a gente”. Não me chamavam e eu sabia que a responsabilidade que ainda me restava não me deixaria chegar perto da excitação do Zé Mayer comendo a Mel Lisboa.

As meninas foram embora, a mãe de Larissa foi para a cama com dor de cabeça e Larissa foi se lavar. Quando passava em frente ao banheiro, vi a porta aberta. A dor de cabeça do uísque já começava a dar sinais. Pelo vapor que eu via, adivinhava Larissa em seu banho. Diminuí o passo, mas ciente do meu desejo, me virei a fim de retornar à cozinha, encher mais um copo e ir dormir, inerte. Eis que a porta se abriu. Larissa enrolada numa toalha de rosto, os cabelos cheios de xampu:

— Jorge, me ajuda com o chuveiro? A água tá muito quente!

Nunca me chamou de pai como eu também nunca a considerei minha filha. Não pela falta de contato, de amor que sentíssemos um pelo outro, apenas por uma questão de responsabilidade. Enquanto convivíamos em família — Larissa, sua mãe e eu — sabíamos que o ar que se respirava em comum trazia o peso da excitação que nos acometia quando nos cruzávamos, volta e meia, pelos corredores.

— O que há, Lala? — era assim que, carinhosamente, eu a chamava.

— Aqui, Jorge: a água tá escaldante.

— Espera um minuto, já volto. Tenho que buscar as ferramentas.

Sim, eu precisava, ao mesmo tempo, buscar a caixa de ferramentas na garagem e me certificar de que a mãe de Larissa dormia. Voltei ao banheiro, Larissa sentada sob o vaso, devia estar mijando, a toalha somente lhe cobria os seios, agora. Entrei no box — era daqueles modelos que travam por dentro, nunca entendi direito o porquê —, abri a água, estava tudo normal, temperatura agradável. Atrás de mim, a figura juvenil de Larissa. Virei-me e disse que tudo estava certo. Após fechar a tranca do box, deixou cair a toalha e pude vislumbrar pela primeira vez seu jovem corpo nu. Faria catorze anos no mês seguinte.

(…)

Nunca havia sido um mau esposo. Pelo contrário: a mãe de Larissa e eu formávamos um belo casal. A verdade é que, com o crescimento de sua filha, o seu corpo que naturalmente tornava-se flácido, porque vivido, deixava aos poucos de me interessar. Minha esposa, com o tempo, foi se entregando cada vez mais aos calmantes e ao uísque: não aceitava meu desinteresse e, como se pode imaginar, não tinha coragem de me confrontar. Por causa de suas fugas, Larissa e eu nos tornamos cada vez mais amigos.

Entre a decadência total do meu casamento e a paixão arrasadora entre Larissa e eu puderam-se contar uns curtos meses. Sentia-me um Amaro realizado, com a minha pequena Clarissa sobre mim. Se o Érico tivesse podido, seu romance não seria nunca aquela pasmaceira ingênua. Éramos ali, todo o tempo: transávamos antes de eu levá-la à escola, depois do almoço, dentro da piscina. Para tanto, havia dispensado a empregada e me valia das minhas férias aliadas às fugas de minha esposa, mãe de Larissa.

Tudo corria calorosamente bem até o dia em que cheguei do trabalho, passava das dezoito horas e vi Larissa sentada junto à parede da cozinha. Seu rosto machucado, o sangue lhe escorrendo do nariz.

— O que aconteceu, pelamordedeus!

— Mamãe, ela sabe de tudo!

— De tudo o quê? — gritava ansioso, esperando disfarçar meu nervosismo.

— Tudo sobre a gente, tudo, TUDO!

— Espera, Lala, eu vou conversar com ela.

Antes que pensasse em me dirigir ao nosso quarto, já Larissa punha-se de pé à minha frente. Enlaçou seus finos braços sobre meus ombros, na ponta dos pés, e sorriu, o canto da boca machucada. Sorria.

— O que é isso? Tá maluca?

— Pára, Jorge, ela não vai mais nos incomodar.

— Como assim? — disse eu, nervos à flor da pele.

Larissa sorria o riso do ódio e do orgasmo. Meu desespero alcançou seu extremo. “Como assim, nunca mais incomodar?” Não tinha coragem de repetir a pergunta. Já Larissa me beijava, o gosto doce de sangue surgia na minha boca.

— Nunca mais mesmo? — perguntei, ansioso.

— Não, nunca mais.

E antes de pensar o que dizer à polícia, aos familiares — mesmo antes de imaginarmos maneiras de não nos tornarmos suspeitos, trepamos ali mesmo, no chão da cozinha. Somente uma vez revi aquele sorriso macabro e excitante nos olhos de Larissa. Foi no dia em que me levaram algemado, condenação certa, não havia álibi que me salvasse. E da doçura quente daquele olhar, da maldade sobressalente daquele sorriso só posso dizer o óbvio para um homem que teve Larissa úmida entre seus braços: sinto saudade.


Publicado antes no Duelo de Escritores.


Demônios de pedra.

Sentado no primeiro banco do lado direito, ali na praça da matriz, relembrava: “Foi aqui que a vi? Não teria sido do outro lado?”

O vento sul chicoteava contra seu rosto. Se tivesse sido aqui ou ali, o que importava? Se os anos haviam sido bons, se já não queria que houvesse mais anos, o que importava? Sentado na praça da matriz, tinha a imensa igreja diante de si como paisagem. As mãos dentro dos bolsos, observando o nada com atenção. Relembrava e se dispunha a retroceder nos anos: “Se pudesse refazer, recalcular, reviver — mas vivendo de novo, errando nas horas certas (na quantidade de açúcar no café, no tempo de forno do peru de natal) — eu seria melhor. Deus, como eu seria melhor!”

Os anos. Quantos? Era-lhe duro calcular, muito duro, nunca soube com certeza: esquecia-se das datas, ano após ano: não havia necessidade do mérito, do aniversário: desde o primeiro dia havia sido o mesmo dia. Só agora vê que não: eram dias que se seguiam, se ultrapassavam, datas que se cansavam a si e cansavam-na, ela, que acordava na madrugada fria, pelo tempo que tiveram, para perguntar-lhe:

— Sabes que dia é hoje?

— Terça-feira?

— Não, amor: um outro dia, um dia especial…

Esquecia-se de lembrar. Então por que agora relembra dos meses, das datas, de hora após hora como se precisasse reviver as lembranças para não morrer a cada instante? Morria-se: “Como era mesmo o nome daquela cidade? Daquele disco? Daquele livro? O número do apartamento? A cor da camiseta? A banda preferida? O telefone?” Se não encontrava uma resposta, a mais simples que fosse, o peito rasgava-se, o estômago revirava-se, os pulmões eram comprimidos por tudo que houvesse de culpa nesse corpo agora magro, doente e triste.

Sentado na praça da matriz, riu-se ao perceber que o prédio decrépito ainda exibia mais vigor que a sua parca figura. Foi ali, tinha certeza, dali eles podiam apreciar a monumental escultura de concreto incrustada no centro da cidade — prédios, prédios, prédios — mas uma praça e ali, a construção. Riu-se ao lembrar:

— Vamos embora, tá ficando escuro.

— Não tem problema, querida. É seguro aqui. Vê ali o posto da polícia?

— Não é isso, são esses monstros ali, aquelas imagens de pedra.

— As gárgulas?

Explicou do que se tratavam. Pelos primeiros encontros, pelos primeiros anos, ainda discutiam arte, sexo à oriental, arquitetura. “Não há o que temer. Vê? São de pedra, não podem sair dali: quem ousar dizer o contrário é cineasta americano que quer o dinheiro da gente”. Riram-se juntos.

Calafrio!

Sentado só, já não lhe eram somente imagens de pedra: tentou contar, uma a uma: eram seus demônios, a sobra do que ele havia sido, as razões de toda insônia. Foram as noites em claro que fizeram com que ficasse assim, de pedra, embora não vigoroso como as esculturas: se fosse algo, seria um monturo de calcário e estrume, um monte de merda endurecida.

Calafrio!

Estariam mesmo o percebendo? E rindo? Recitando, uma a uma, sem que para isso fossem requisitadas, os pecados cometidos, um a um? Não podia mais com aquilo: já lhe falaram as paredes, os móveis, o travesseiro, nenhum havia sido tão cruel a ponto de lhe dizer: “Vê, foi aqui que tudo começou”. Levantou-se rapidamente. Para onde correr? Para onde fugir? “Psiu! Vê? É aqui que tudo vai terminar”.

Sem mais pensar, observou atentamente e pela última vez o bloco de concreto esculpido, a praça — que com a luz amarela dos postes exibe contornos tão bonitos — e encarou os demônios, os seus demônios que, sabia, guardavam todas as suas culpas. A mão no bolso, um grito de pedra ecoou pela praça ao tirar dali a arma. E vários gritos puderam ser ouvidos quando mirou contra seu peito. Explica-se: para sofrer com os demônios da memória, para alimentá-los, é preciso estar vivo.

Não se sensibilizou com o desespero das gárgulas. Há anos que vinha aqui, sentava-se nesse primeiro banco e lhes dava de comer com suas lamentações exaltadas. Agora não, não mais, nunca mais: havia chegado a hora de deixar de carregar consigo a culpa que carregava sozinho e que sempre havia pertencido aos dois — só agora se deu por conta de que pertencia aos dois.

Quando a notícia foi adiante, não houve espanto nem surpresa. A não ser com o relato de uma testemunha: a mulher que se sentava no primeiro banco, mas do outro lado, e que ia ali chorar a ausência do seu querido — por onde anda, quanto sofrimento deixou — para seus demônios de pedra: “Primeiro foi um grito, mas eu não sei de onde veio. Depois, muito grito junto, grito de dor, de sofrimento. Daí, olhei pro lado e tava o homem de pé, arma não mão. Soluçava, chorava muito. Então parou, ficou imóvel. E no momento que ele atirou, moço. (pausa). No momento que ele atirou, ele sorria!”

Publicado antes no Duelo de Escritores.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O meu nome.

perguntei uma vez sobre os nomes, esses nomes, marcos, ligia, marcelo e a resposta foi tão bonita, marcos e lígia vieram do quo vadis?, dos tempos de colégio sagrada família, quando mamãe lia ainda alguma coisa que não fosse cristianismo barato. e marcelo, bem, marcelo veio, assim, era moda, não soube dizer a novela da época, decerto que havia um desses.

mamãe outro dia disse não haver um labes que preste, vejam só, lígia uma vez foi lima, marcos tem em si vinicius, certamente que o nome vale, posto que são tanto, marcelo é só labes, os labes não prestam, papai falou cuida que não há labes que se salve, eu sei, o rosto vermelho de vergonha e pressão alta, os olhos vagos, o álcool. eu diria: não tenho necessidade de beber, mas de provar que não tenho necessidade, logo bebo pra mostrar que não preciso; ninguém entenderia, talvez nem eu.

labes é uma incógnita desvendada, eu disse com entusiasmo NÃO SOU ALEMÃO, ninguém riu, sou francês excomungado, pastorzinho luterano de merda brigou com o rei católico francês, disse vai embora, e ele disse eu vou, foi pra alemanha. essa tristeza, essa melancolia de imigrante faminto, imigrante fedendo a merda de anos e anos a fio remoendo a certeza que na europa era melhor, eu nunca fui à europa mas a tristeza parece ser a mesma. acontece que se isso aconteceu no século dezesseis e há mais de quinhentos anos o pastorzinho fiel a nosso senhor jesus cristo e independente do poderio de roma mudou-se pra alemanha, não adianta esconder que, sim, eu lamento, ich bin deutsch, honey, e nada posso fazer contra isso.

dissoa, contrasta, fere meus ouvidos, talvez que haja um ponto da língua que prende, os dentes são tão bonitos, tão bonitos, dizia doutora rosa, a dentista que me dava mais atenção do que qualquer mulher jamais me daria, eu não fumava. enfim, deve ser uma questão de língua nos dentes o soar feio desse encontro de r com c com elo mar-ce-lo, ligia me chama de mar e eu olho o mar e penso no quanto há de distância semântica entre nós.

se eu fosse menina, devia ter sido, teria outro nome, seria estéfani, stephany, nie ou qualquer coisa que o valha, marcelo não soa ruim, poderia ser rafael, talvez tenha sido, há quem diga que tenho cara, rafael pelo menos é nome de anjo, será?, marcelo é o diminutivo de marcos, sempre dou o exemplo, ânus é anel, anelus é anelzinho, marcos é martelo, marcelo é isso aqui, o latim é que explica.

marcelo labes, esse aqui, isso aqui, acabou esse espaço de escrever, tentar outra coisa, falar da vida alheia novamente, escrever poeminhas novamente, lançar livro, beber livros vendidos, encontrar nova forma de presentear as pessoas, eu não sei dar presentes, o livro pelo menos ajuda, não vou repetir, podia mudar a dedicatória, melhor outro livro então.

talvez que algum filho, se filhos houver, um filho de um amigo, um sobrinho, bem mais provável, um dia pergunte ao então carcomido do que tu te lembras? e eu direi, sinceramente, pensei hoje tão claramente - como quando deus morreu, foi simples, bonito, colorido como é para quem não tem daltonismo, olhei e disse não há deus e nunca mais houve. assim simples eu pensei nos domingos de manhã, o abrir dos olhos, a tontura, sempre a náusea e a mão fria da ressaca sobre meus olhos, nunca mais faço isso, nunca mais me torturo, cansei do estrago, larguei essa vida, o que eu disse?, o que eu fiz? eu direi a quem perguntar do que tu te lembras? eu direi, simplesmente:

eu me lembro de ter esquecido.

domingo, 25 de outubro de 2009

Três poemas de reencontro.

LAMPEJO #20

Os olhos azuis dele

Azuis os olhos dela

Os dele tão azuis

Era o céu e eram os olhos

Que me olhavam sem temor.



LAMPEJO #21


Éramos dois ou três.

vieram os anos

(tantos anos, um atrás

do outro, incrível).

Éramos quatro ou cinco,

éramos tantos!

No reencontro,

partes do mesmo

e intenso vazio.



LAMPEJO #22


Se eu soubesse antes

do antigo gosto do beijo

(o cheiro, os cheiros)

não teria nunca desperdiçado

em tantos cantos

meu nariz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pai morto.

o pai não tá bem, acordei assustado, som de corpo caindo no piso em seco a gente nunca precisa ter ouvido pra saber como é, então que eu sonhava com alguma coisa interessante porque era exatamente o momento do sonho em que não se pode acordar, não se quer acordar, som de corpo caindo, o pai não tá bem, caído na frente da porta do meu quarto, eu nunca soube quanto pesa uma vida, isso lá é pergunta que se faça quanto pesa uma vida, eu não conseguia levantá-lo, eu não conseguia, EU TINHA ACABADO DE ACORDAR, PORRA! como que faz pra carregar o peso morto, meu pai morto, o peso da minha vida, só restou puxar pelo
pé e colocar o velho na cama: agora dorme, eu disse e saí.

lembrar é isso e se eu dissesse que esqueci estaria mentindo mais do que eu costumo geralmente mentir, mas não esqueci, acontece de a gente não lembrar todo tempo, agora lá vou eu e chorei sorrindo pensando no abraço de dover, o mesmo abraço, tantos anos, o mesmo abraço e o mesmo sorriso, eu preciso de tempo, me dê somente um dia pra eu observar atentamente os dentes, como eles são, a cor das gengivas, os dedos das mãos e o olhar de sono, os detalhes que sempre perseguem, não adianta, não lembro, preciso de um dia e nenhum mais.

eu lembrei como era, um dia, eu lembrei, era loira e de olhos azuis, muito loira e olhos azuis que me engoliam e um sorriso com um aberto entre os dentes, sabe?, os dentes da frente separados e nunca soube o que aconteceu, éramos somente crianças, dois anos de internato o que se pode fazer é comer mesmo e se masturbar no meio da praça, ninguém via, ela com a mão dentro
da minha cueca, o pau assando. e até outro dia nunca tinha havido outra, nunca mais, a gente acha que sabe quando encontra a mulher da nossa vida e eu tinha certeza até o momento em que não tive mais. eu lembrei justamente pra esquecer depois de ter bebido tanto tempo a perda da mulher da minha vida que não era, nem eu era homem pra ela, e não era loira, nem alta e os
olhos não eram azuis, embora fôssemos crianças ainda.

eu cantei quatro discos do engenheiros do hawaii com tudo que eu tinha de voz somente pra ver com antecipação a paisagem que é morada, é lar, coração de mãe, colo de namorada, o sol se pondo no guaíba, ninguém perguntou se é um veio de merda, o sol se pondo e a gente lembrando de uma outra primavera, os meus olhos sempre se enchem de lágrimas e eu não tenho vergonha
nenhuma disso.

não é a decolagem, não é o pouso, meu medo de avião é que de repente eu me perceba no avião, nunca aconteceu, a hora em que eu olho para os lados e quero sair e não tenho como sair quem vai me segurar, tomara que baixe logo a pressão e eu desmaie. para manter o humor talvez que eu lembre da canção do belchior, não vai haver aeromoça bonita, eu sei.

lembrar é isso, a gente não tem como evitar e o que acontece é de repente ouvir a música que toca inocentemente no rádio e ser transportado pra anos atrás, ver a mesma luz, fazia luz quando pedro colocou o dois do legião urbana pra tocar, ouvimos juntos, foi a primeira vez que aconteceu de eu saber que aquele momento seria guardado para sempre. lembrar e esquecer, não
preciso comer, não preciso de sapatos novos, mas que deus sempre me dê dinheiro para comprar desodorantes nívea de cor vermelha na frente, adriano cheirava a isso, eram bons tempos.

quantos abraços, quantos abraços, quantos beijos e quanta saudade. lembrar porque é necessário e é bonito e faz querer viver mais não para reviver por pura nostalgia mas para poder lembrar por muitos anos ainda aquelas tardes de ócio e alegria, era domingo, mate e violão na praça central. eu sempre lembro mas queria esquecer do som de corpo caindo no piso, o pai não tá
bem, eu não adiaria minha viagem nem pra ir ao seu velório.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Saideira.

eu nunca ganhei um salário tão alto e não tenho dinheiro para beber, o que somente me faz pensar que a merda é mesmo a vontade, como diz raquel, a vontade que a gente deixa de saciar e disfarça com qualquer outra coisa e se eu não bebo o que posso fazer é me masturbar continuamente até cair no sono porque amanhã eu não acordo cedo, baby, e posso pensar em qualquer besteira até o dia já estar bem clarinho e eu imaginar de forma perversa que os meus companheiros de ônibus de todos os dias não vão ter a minha companhia nessa quinta-feira de merda e de céu nublado e chuva que chove e não molha quando o trânsito às seis horas da tarde vai fazer qualquer pessoa sensata e cansada de um dia inteiro de trabalho lamentar que algum dia tenha havido algum alemão feliz no mundo.

falar de sacanagem é melhor do que fazer a tal da sacanagem porque escrevendo dá pra imaginar que se vai supor CARALHO!, será que ele fez mesmo isso ou imaginar que se dirá eu sabia! eu sabia! ou somente irá dizer mau gosto esse texto do marcelo labes e quem é marcelo labes, isso lá é nome de gente.

acontece que eram dois estudantes e eles se disseram que iam comer alguém, era quarta-feira e eles iam comer alguém, a garrafa de cachaça debaixo do braço andando pela general lima e silva a caminho do parque farroupilha mais conhecido como parque da redenção na cidade do paralelo trinta e eles iam comer alguém quando se aperceberam sentados no banco da praça o carro rodeando a praça e fazer o quê se a gente vai comer alguém que seja então um veado e aconteceu de irem ao apartamento do veado que era velejador e falava inglês fluente, as três bichas fodendo na cama. me contaram que o veado era bonito, eu não sei. mas nunca me arrependi do beijo na perimetral às sete e meia da manhã.

eu tinha pensado na cena da mãe e do filho, sim, a mãe segurando o filho, dava um conto interessante, a mãe segurando o filho quando me encarou a última vez e eu pensei na mãe excitada e como deve ser a mãe sendo mãe segurando o fato de ser mãe no colo sentir molhar no meio das pernas com uma vontade de dar e se comer que não se explica nos arautos da moralidade, acontece que se ela desse eu comia.

seguindo então essa necessidade de escrever sem lei nem regra nem tesão, somente escrever, porque personagem, meu filho, é pra gente grande, e tem gente que não cresce nunca, ainda mais depois que inventaram os empregos onde somente se precisa ser responsável oito horas por dia com plantões raros em finais de semana, duramente responsável, ar de autoridade, eu nunca desprezei ninguém. ainda mais depois que inventaram o fácil acesso a qualquer traficantezinho que te entregue cinquenta reais de pó e os bares, sim, depois que inventaram os bares, o pó e os filmes pornôs ninguém precisa realmente ser adulto se não quiser, basta se concentrar nas olheiras segunda-feira de manhã e tomar café, muito café, eu te garanto.

saudade é uma palavra que existe mais na teoria do que na prática, a gente é que segundo ana dramatiza e traumatiza conforme a necessidade do dia, quando ela me falou chovia e a gente de carro, era frio, a gente no carro e ela me dizendo que essas coisas a gente dramatiza e traumatiza conforme a necessidade, não falou de saudade, mas coube muito bem o que ela quis dizer. o coração bate forte e não há explicação alguma, eu que olhei para os meus dedos e pensei que eles ficam melhores com as unhas roídas, são dedos tortos de qualquer forma, roer as unhas tanto que faz, o importante é escovar os dentos e cortar os pêlos do nariz.

uma hora eu paro com tudo com o álcool com o pó com as unhas com as manias de querer amar quando amar nunca pôde acontecer de verdade, é só uma vez na vida que se beija um beijo com gosto de boceta e pau e cerveja e tabaco. somente uma vez e que aconteça a todo homem beijar assim, nunca mais sentirá nada parecido e vai parecer que alcançou o nirvana. uma hora eu prometo parar com tudo com o álcool o pó as unhas aquele beijo e essa merda de escrever nada que possa realmente interessar a alguém.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Segunda-feira blues.

quanto pesar pode haver e caber em mim, eu não sei onde me perdi ou quando, mas certamente que não há um momento certo, a gente vem se perdendo desde sempre e até que alguém nos olha e diz com pena: tá perdido. eu sei, eu é quem me digo isso e assim e com cara e voz de pena que a gente emenda quando vai encarar nos olhos um mendigo. eu não sei qual o tamanho da esmola que eu preciso, mas sei que fome e frio não me caracterizam: embaixo do cobertor, suado, eu me lembro e tremo de frio.

segunda-feira é o dia de se dar conta. bebi demais, dormi demais, o nariz corroído de novo. tudo bem, eu lamento, não deveria ter dito aquilo daquela forma. segunda-feira é o dia que mais demora a passar, tem o tamanho das promessas que a gente se faz quando diz que vai parar com isso e com aquilo e vai ser melhor, vai viver melhor. segunda-feira é um dia interminável mas só até o momento em que é terça-feira e já nos preparamos para errar tudo exatamente igual àquilo que tínhamos jurado nunca mais fazer daquela forma.

ela tinha pena de mim e por isso me olhava daquela forma. sabia já de antemão dos erros que eu cometeria e por isso tinha pena, sabia que teria de ir pro outro lado em breve, em breve e deve ter demorado muito pra ela; pra mim, passou voando. acontece que só agora eu pude ver a falta que faz quem está longe e a gente queria ter por perto. tantas vezes vou ter de vomitar bile pra poder me fazer crer que consigo viver sem eles, sem ela.

meu pai chorou depois de muitos anos na minha frente. e eu o consolei enquanto me dizia como a cabeça da gente é fraca, e eu dizendo pois é, pai, pois é, a nossa cabeça é fraca mas não disse. quem tinha chorado antes era eu, quinta-feira de manhã o pai veio ter comigo, eu ainda bêbado e sentei e chorei e ele perguntou o que acontecia e eu disse saudade dela, pai, saudade dela e ele não disse nada, não sabia do que se tratava.

outro dia eu explicava da verborragia, de novo o assunto de não precisar mais pensar numa história e num nome de personagem pra transvestir a minha vontade de contar. eu falo de mim mesmo ou eu falo de literatura ou eu sou personagem ou eu quero que somente ela leia os meus textos e me diga que vai voltar. e eu dizia que não me doía escrever assim desse jeito e aqui porque tanto faz, na verdade, que gostem ou não de tanta letra e de tanta palavra. o escritor parece querer que se apartem dele sempre e cada vez mais seus leitores e por isso inventa. acontece de alguém gostar, o que se pode fazer, tem louco pra tudo.

quanto pesar pode haver. então eu queria poder voltar a ler, mas sempre falta tempo, é preciso beber e acordar e trabalhar e voltar correndo pra casa e ligar a tv e dormir. tanta coisa importante - ligar a tv e dormir - que a gente esquece de tudo aquilo que parece dar cor à vida e que cor a vida tem se não o clichê do cinza e do amarelo esmaecido. quantas cores a vida já teve e nunca mais terá, maninha, te acostuma com a tua vida assim, nem branco nem preto somente o cinza.