26 de mai de 2017

se eu me chamasse, ponhamos djalma,
e usasse uma camiseta com a foto e uma
frase de pe. zezinho. quem sabe da oração
da família e se eu não tivesse tomado o maior
cagaço quando roubei da garagem o carro
do meu irmão para sentir alguma coisa e tudo
que senti foi medo como senti medo no internato
como senti medo de ser internado quando as
noites já não tinham fim.

se eu tive aprendido cedo um ofício verdadeiro
desses que aprendem os filhos de operários e
tivesse me tornado torneiro, marceneiro
carpinteiro ou mecânico ou simplesmente
se eu tivesse me tornado algo que fosse
não perderia tempo catando palavras
não perderia tempo remendando nadas
não teria tempo a perder com um poema.

a vida não se vive nos livros, me digo
a vida não cabe num livro, repito
palavras não servem pra nada e não há
nada melhor do que uma noite inteira de sono
tranquilo. acredito. acredito como quem mente
pra si mesmo há tanto tempo que já não há
escapatória

nem glória alguma nisso de ver-se no
espelho como quem vê que não virão
os filhos, como quem vê quem o tempo
atravessa os dias, como quem aceita que
os fins de tarde de inverno serão sempre
essa espera pela resposta positiva de um
exame que me constate a enfisema

de um exame que me diga que os poemas
são ainda o que de melhor pode-se por
no mundo.

quem sabe um dia a gente descobre que
tudo não passou duma enorme farsa onde
estivemos despidos, completamente despidos
diante duma plateia sádica

: a vida em si.

24 de mai de 2017

como se tudo não passasse do jeans
estendido há uma semana dentro do
apartamento de dois quartos cujo tamanho
lembra uma sala, apenas, uma sala pequena
em que passamos de lado porque não cabemos
com nossos ombros largos não cabemos
com nossas vidas tão pequenas não cabemos
direito no mundo, o que dizer então de caber
neste apartamento com sobras de comida
com restos de vida devidamente guardados
dentro de caixas de sapatos etiquetadas
datadas com anos esfumaçados, empoeirados,
úmidos sobretudo, como o lençol dessa manhã
em que calço o jeans úmido, os tênis úmidos,
as meias úmidas úmidas e no caminho (úmido)
para o trabalho naquele ônibus lotado (de pessoas
úmidas) abro um livro de poemas e o levanto
para que todos o vejam, e o levanto como se fosse
o próprio sol.

 capaz de secar de até mesmo esta manhã.

11 de mai de 2017

i.
sentado bêbado no vaso sanitário
chorando palavras ininteligíveis
onde se podia ouvir sobre a fome
de uma família pobre: bagos de
feijão que enfeitavam a panela
cheia de água (a fome comovia
mais que a morte) isso bem antes
de arrastar o pai pela casa
o corpo sobre um tapete que
eu puxava como se fosse um
móvel muito pesado.

ii.
o dilema da ostra ou coisa que
o valha isso de mijar amarelo
na porcelana branca do mictório
à espera de aparecer um cálculo
renal que apesar da aparência
fui eu que desenhei.

iii.
hum mil novecentos e noventa
e sete uma tarde nublada de ou-
tono ou primavera a notícia da
morte (como ressoam as notíci-
as de morte) e desde lá o peso
das quintas-feiras nubladas co-
mo se o tempo insistisse em re-
tornar sempre e de novo para
aquele início.

2 de mai de 2017



o imigrante chegou
faminto
          (acredita-se)
roeu madeiras, indígenas
roeu pedreiras, juntou moedas
e empregou os seus
           iguais.

gerações exclusivas
de operários brancos
muito bem tratados
         (acredita-se)

quando o branco escasseou
como mão de obra barata
a cor deixou de ser pré-requisito
         (acredita-se)
mas a posição de imigrante, sim
sobretudo se estrangeiro, sim
sobretudo se faminto

as portas da fábrica se abriram
e se podia ouvir
as paredes e os teares
cantarolando o
Arbeit macht frei.


17 de abr de 2017

obst/áculos

i.

há muitas formas
de se fazer o mesmo
repetidamente
o mesmo
quase sem obst /
                          áculos

(porém)

apesar de todos os
dias
apesar do pesar dos
dias
como quem nada teme
como quem finge

ii.

havia morcegos
no prato havia
um monstro 
que engolia
morcegos e
engolia gente
e regurgitava
e voltava a 
engolir

eu dizia:
tô cansado
de tanta dor

sabe como é
ser mastigado o
dia inteiro e de novo
por monstros de 
dentes afiados?

eles se riam 
         (de mim
e do domingo)


iii.

seo alfredo terá deixado:

01 tesoura de tecelão
01 par de protetores auriculares
01 carretel de dedo
01 carteira de homem
01 roupeiro do século 
retrasado
e uma saudade filhadaputa.


iv.

se era domingo
eu não sei.









13 de abr de 2017

família
sentada à mesa
                ao lado

a mãe cuidadosa
cuida
a mãe cuida
cuidadosa
das crias
a mãe o menino
e a menina

de repente por
uma questão de 
talheres
a baixaria

e o menino
chora
e o menino 
grita
e o menino 
grunhe
e o menino 
guincha

como o porco
quando o degolaram
para servir o prato
do menino

criança e bicho
se igualam
se encontram
no estômago
enquanto
se abraçam
na mesa 
            ao lado 

30 de mar de 2017

estátua adormecida

deitado
o corpo
levemente
inclinado
a perna direita
esticada
a esquerda
flexionada
o tronco torto
a cabeça virada
para o lado
de fora da cama
sobre o travesseiro
sobre o braço direito
esticado através das
grades da cabeceira
(se a parede estiver próxima
as costas da mão pressionam
a parede)
o braço direito flexionado
como se aplicasse uma chave
no travesseiro ou
no vazio.

durmo igual meu pai.

a descendência se assume
por caminhos desconhecidos.

27 de mar de 2017

se estas letras fossem para um 
poema aquele momento específico
em que descobrimos asunción
num quarto sem refrigeração

se estas frases tivessem sido pensadas
durante a noite em claro e não
durante a caminhada ao trabalho
nesta manhã de névoa e solidão

se cada assinatura minha 
fosse na dedicatória a um amigo
e não preenchendo processos

se o fim de mês nos desse mostras
de que o futuro. se o fim de mês
nos desse mostras, não tropeços. 

24 de mar de 2017

a mesa devidamente
organizada

processos devidamente
protocolados

a felicidade vem em forma
de uma caixa de grampos
novos
ou de canetas de ponta fina

é assim que se começa
a morrer.

19 de mar de 2017

Hoje senti de novo aquele conforto barulhento de depois do almoço quando a casa finalmente silencia, até os cachorros, e os móveis repousam um ao lado do outro no mais completo silêncio. Houve um tempo - naquele tempo de xis salada do Jacaré, que não era longe de casa e o pai nos levava de Variant verde-abacate, porque era sábado à noite. Eu dizia: houve um tempo em que a coca-cola de um livro servia cinco pessoas - era possível - e depois do almoço nos amontoávamos os três na chamada sala de tv [uma garagem reformada] para assistir McGyver e outras besteiras enlatadas. E é desse tempo o conforto.

A vida ainda era quase nada.

Então que chovia uma chuva fina, rala, e o frio apareceu de repente para mostrar que o que vem pela frente será em diferentes escalas de cinza. Frio que não dói nos ossos, ainda não, mas provoca um leve incômodo nos joelhos carcomidos e um frio na barriga, na altura do umbigo, decerto por ter comido a comida preparada por minha mãe. Ela me disse: "uma mãe sempre cozinha com amor para seu filho".

O pai voltou a fumar mesmo o câncer lhe ferindo a boca, o pulmão e os sentidos. Ri e comentei que um Hilton longo demora muito mais pra terminar e que sim, faz sentido, pensei, voltar a sentir prazeres enquanto ainda se tem tempo. Eu com meu café observava o cinza do vale, sentia aquele silêncio, a sala vazia quase até de mim.

Eu olhava pra trás com alegria e constatei que nada, lá atrás não tinha nada.

Hoje não tem nada também.

Viver é acostumar-se a somar zeros.

17 de mar de 2017

a atendente do laboratório
de análises clínicas que parece
britânica - eu pensando que vida
interessante deve ter aos finais

de semana quando não está
pedindo o documento de identidade
o cartão sus a solicitação do exame
quando não está me perguntando se

passei 12 horas em jejum.

o casal de idosos que vem protocolar
recurso de multa e a senhora me diz
que ele entrou na contramão porque
ela não estava junto enquanto sorrio

e penso que bonito sem ela perto ele
se perde e meu sorriso se constrange
quando ela me fala do diagnóstico
de alzheimer que felizmente ainda não

passou do estágio 2.

o alarme que dispara às 7 às 7:15
às 7:25 mas estou acordado desde
as 6 e continuo deitado no chão do
sexto andar buscando motivos para

descer ao térreo sacar as chaves
buscar cigarros nos bolsos acender
o isqueiro vermelho tragar a fumaça
sagrada e tossir com arrependimento

porque já passa da hora.










10 de mar de 2017

agora que ficou cinza
a gente finalmente esquece
um pouco do calor esquece
um pouco do terror das 3 da 
tarde ou das 8 da noite 
finalmente vem um vento fresco
e úmido para nos colar na alma
e de agora em diante já que o
outono é a porta para o inverno
finalmente a gente espera passar
os dias entre lâmpadas frias
a lâmpada do ônibus as lâmpadas
da repartição de novo ônibus
em fim de tarde e as lâmpadas
do apartamento nos fazendo 
recordar que há luz no sexto
andar há luz sempre que se 
apertar o interruptor
embora não haja luz no fim
do túnel e decerto não haja
luz no fim do inverno.

agora que ficou cinza 
a gente espera o azul do inverno
nos colar o frio nos ossos
rachar a pele rachar os lábios
e trazer todas aquelas recordações
de invernos de antes de frios antigos
algo que nos esquente que não seja
conhaque e que seja quente como
o fogo.

todo outono nos reverá
o que de pior trazemos
o que de melhor trazemos
isso que somos nós mesmos
e que não passa nunca.

8 de mar de 2017

carminha nasceu de tereza
em 1950.
tereza faleceu logo depois.

alfredo nasceu de ida
em 1951.
ida faleceu de câncer.

ninguém recorda o nome
da mãe de ida
ou da mãe de tereza.

talvez ninguém saiba
nunca o nome da primeira mulher
a mulher primeira
mulher ancestral

mas o nome que lhe daremos
: vida
: luta
: natureza
: resistência

talvez apenas resuma
talvez apenas reflita
a herança que nos cabe
a todos nós homens
devedores das mulheres.




epitáfio
(ditado por luiza)

marcelo era uma cara
que fumava uma carteira
de cigarros por dia,
(mas)
quando nervoso
fumava até mais.

2 de mar de 2017

aqui não é brasil
a não ser pelo calor
pela umidade e pelos
mosquitos.

aqui não é brasil
- veja a arquitetura
a pele clara, os
olhos azuis, verdes
(às vezes um de cada
cor por complicações
genéticas) -
a não ser pela
fome.

aqui não é brasil
- praças verdes,
rios caudalosos,
montes nevados -
a não ser pelas tramoias,
pelas falcatruas.

aqui não é brasil
e por isso se sonegam
tantos impostos;
ninguém quer pagar
ao país que não
pertence.

não é brasil
pela ética protestante,
pelo conservadorismo
católico,
pelo evangelismo
que cala, consente
e elege políticos
sem passado, mas
com jesus no coração.

aqui não é brasil
e se vê pelo tanto que
se trabalha.
enquanto o país samba,
o sul trabalha. nos quatro
dias de carnaval, o sul
trabalha.
(e se ousar dizer que
nos 20 dias da festa étnica
não se trabalha, dizemos:
vamos trabalhar bêbados
e de ressaca,
vamos trabalhar ofendidas
e abusadas,
vamos trabalhar porque o
trabalho nos identifica
mais do que nos mata).

aqui não é brasil
definitivamente.
aqui se pretende
ser europa
- sem poder sê-lo,
aqui se imita todo tempo
o estrangeiro
e se nega que se habita
a própria casa.

26 de fev de 2017

poema à maneira de werner neuert

em 1921 por influência ou
pressão soviética a mongólia passou
a utilizar o alfabeto cirílico
sendo denominada a partir de então
Монгол улс.

na década de 1930
por pressão do estado novo
se proibiu o ensino
e a imprensa em língua
alemã no estado de
santa catarina.

em 2002 werner neuert
que tem nome alemão
mas é brasileiro
publicou seu melhor livro
a que pouca gente deu
importância.

a mongólia é um país
longe de tudo.
santa catarina é um estado
longe de tudo.
werner neuert é um escritor
que já não escreve.

todas as relações não são
mero fruto do acaso.



24 de fev de 2017

road poemas

para luiz eduardo

i.

o paraguai vai muito além
da fronteira suja de que reclamam
os brasileiros

nós não sabíamos

e enquanto turistas observavam
admirados o palácio de los lopez
(cópia do palácio de versailles)
comprávamos uma coca cola de dois
litros
- fría, señora, por favor -
numa bodega improvisada
da chacarita.

ii.

talvez ninguém nunca
tenha pisado os pés em
villa montes como fizemos
naquela tarde de calor
e esperança.

quando o agente alfandegário
perguntou-nos se tínhamos
plata
rimos e nos dissemos que sim
embora pouca.

o que carregávamos em nossas
mochilas não se podia declarar
o seguro não cobria
não se preenchem sonhos nos
tickets de entrada.


iii.

em santa cruz de la sierra
fomos recepcionados
por um alemão bêbado
- estávamos em casa -

fizemos da janta de reveillón
uma oportunidade humilde de
demonstrar-nos afeto e jantamos
(qual era o menu?)

tomamos inka cola
e um taxista nos levou para
onde as coisas aconteciam

os anéis de santa cruz
libertam mais que prendem
ou o contrário?

dia hum
fazia frio
estava cinza
estávamos em casa.


iv.

cochambamba
é uma cidade seca ao pé
de montanhas imensas
onde se vê neve no topo.
edwin, o taxista
que me levou a mochila
levou também o passaporte
e os poemas
- não se rouba os poemas de
alguém, não assim,
que macana!

de certa forma, estávamos
mais perto do acre do que
de casa
e cada vez mais perto
de nós mesmos
nos despedimos.


v.

queria tanto rever luiza
que pouco ou quase nada
compreendi daqueles dias
: luiz a caminho de la paz
mandava notícias, poucas,
e em frente ao consulado brasileiro
sentei e chorei pensando em
meu pai.


vi.

diante da praça, no café paris
observei militares e campesinos
ouvindo a fala do presidente
da república pluracional da bolívia
senhor evo morales

era mais bonito ver a reverência
das pessoas humildes do que o
presidente em si,

mas isso lá é novidade?


vii.

sentei-me com joana
para uma prosa
eu não sabia de muitas
coisas
mas quem poderia sabê-las
se não ela?

dia desses,
um atentado na europa
fez roubar a atenção

- quando deveria aparecer
na televisão esta senhora que vende
hamburguesas e tem na parede a fotografia
do pai, veterano da guerra do chaco.

mas quem sabe do chaco?
da bolívia, quem sabe?

e de nós, quem sabia
senão a vendedora de lomitos
e a louca que apontava para o meio da praça
e gritava: HEDIONDOS! HEDIONDOS!
como se visse do outro lado da rua
aqueles conhecidos assassinos
que nos levaram nossos jovens
de há cinquenta anos.

talvez ela os enxergasse, louis.


viii.

quantas cores que os olhos
não conseguem decodificar
quantos sabores
quantos olhos morenos
quanta pele queimada de sol

mas há algo ali que não nos cabe
e que buscamos
há algo que nos convida e repele
e quem sabe não estará nisto o
segredo, a revelação, o mistério?

e é preciso seguir buscando
como a um graal cheio até a boca
de pípulas contra soroche
que beberemos como se fossem água.










23 de fev de 2017

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

enquanto isso
na televisão
acompanhamos 

os preparativos para 
alguma festa étnica
e sorrimos um sorriso

de miss.

22 de fev de 2017

é preciso aprender que num ano
inteiro tem um ou dois dias que

fazem valer a pena.
há dois ou três momentos que

podem tornar-se poemas.
há pouquíssimos momentos

de luz para a fotografia
perfeita.

todos os dias se tornarão a noite
em que te deitas

sobre teu peito. e se não cuidas
com a ordem das coisas,

todos os dias logo tornam-se
o mesmo.

se eu me chamasse, ponhamos djalma, e usasse uma camiseta com a foto e uma frase de pe. zezinho. quem sabe da oração da família e se eu n...