18 de ago de 2017

será fim de tarde daqui a pouco
e veremos os suicidas fazendo fila
em cima da ponte do tamarindo
para decidir quem pula e quem não

levitei com valeriana à espera de um
sonho que não chegou nem chega nunca
o poder do reset, disse pra ela, o poder
de morrer e reviver mas zerado de imagens

o poder de morrer e viver
o poder de morrer e viver
o poder de viver e morrer

o direito de respirar tranquilo
luiza chega hoje e com ela
o oxigênio.

17 de ago de 2017

eu sei da umidade em que tu chafurdas
e sei dos monstros que estão sobre a cama
na hora em que te deitas eu sei que atrás da 
porta reside o medo e atrás da cortina a claridade
há de te cegar se ousares abrir a janela eu sei
que o número de imagens que te chegam
é impossível de calcular é impossível ordenar
em palavras eu sei que a noite é a vingança do 
dia sei que as manhãs são a herança da insônia
eu sei de ti e dos teus medos
dos teus segredos de menino
do teu choro mansinho que 
acaba sempre em convulsão
eu sei de ti
porque eu
também.

15 de ago de 2017

o senhor promotor e o senhor advogado
tomam café na mesma padaria no início
e no fim do dia, às vezes pagam a conta
um do outro e o ato denota gentileza

o senhor juiz e o senhor deputado
passam férias no mesmo hotel passam
bronzeador um no outro tomando cuidado
para que a cobertura seja homogênea

o senhor governador e o senhor ministro
compreendem que interesses oblíquos podem
ter o mesmo destino se tudo for organizado

o senhor presidente e o senhor ex-presidente
acham graça do que dizem as revistas
e na hora de dormir viram-se pro mesmo lado.

9 de ago de 2017

nossa casa não tem janelas nem portas
para eu esquecer abertas quando a chuva
insistir em fazer voar papéis nas tempestades
de fim de tarde

não tem paredes ainda não tem teto ou assoalho
não tem móveis para serem limpos porque
empoeirados não tem cama para o amor
ou mesa para o carteado

a casa não tem terreno ou boletos para serem
pagos em dia ou atrasados não tem número
na porta do apartamento nem escadas para
subir com as compras

a casa ainda não tem nada
nem fogo para aquecer a água do café
nem mesa de centro para acomodarmos
os pés essa casa não tem nada

a não ser desejos de felinos e samambaias
desejos de manhãs frias e ensolaradas
domingos inteiros de sorrisos e cara amassada
entre lençóis limpos com cheiro de lavanda

não tem ainda as paredes decoradas com nossas
fotos não tem endereço para nos mandarem
cartas não tem localização para quando os amigos
nos visitarem

mas tem a gente. e isso basta.


4 de ago de 2017

para celebrar aqueles almoços de domingo
uma carteira de cigarros daquele tempo em que eu
roubava os de meu pai de cima da estante da cozinha
(escaladas que eram a aventura incalculada)
agora essa
explosão de açúcar no sangue & cafeína & nicotina
para lembrar que limpeza é um conceito muito frágil
ainda que o mix-para-celebração se distancie dos estragos
das travessias em mar revolto de álcool & cocaína
veja que
limpeza é um conceito tão frágil como aquele menino
assustado quando o pai chamou pra passear e era tarde
o susto e o grito incontido sempre que o pneu trepava a
calçada sempre que a tarde se tornava madrugada
sempre
que eu sonhava com os gritos que eu daria na cara do vizinho
que enfiava o pau na boca daquele rapazinho que era
eu e era outro e era eu e era outro mas nunca terá
idade para ser assassino a não ser dos próprios sonhos
aventureiro do próprio desatino desbravador de insônias
e colossos que eu trago nos bolsos de uma calça de menino
queria
um banquete com mesa vasta a se perder de vista
onde sentassem os amigos e os inimigos antigos
(porque a consideração somente surge no oposto)
onde coubessem o homem que me pretendo e o menino
(porque as lacunas da história de um cabem nas rugas do outro)
onde sentássemos todos para comemorar as mazelas
(setembro não chegará se sucumbirmos a agosto)
porque
há que se enfrentar os monstros e comemorar o desalinho
depois dos dez primeiros tombos a gente aprende a cair sozinho
quando foi que desaprendi a andar pra frente.

3 de ago de 2017

não se trata de restar
petróleo posto que
franzinos e mirrados
quase nada restaria
se afogados no solo.

não se trata de virar
lenda: os dias já têm
em si muito mais do
necessário de dor que
exigem os poemas.

não se trata nem de
sobreviver: vida que
se vive a esmo nem
acredito que seja
mesmo vida.

porém
sabe-se lá.




1 de ago de 2017

negociei com seu valmor, o zelador, a entrega dos livros que me chegam; a pequena porta da caixa de correio agora fica aberta e ele deposita os livros lá dentro. assim não preciso mais fugir de suas ligações no interfone ou correr para deixar o prédio antes de encontrá-lo: temo encontros antes do terceiro cigarro da manhã e seu valmor aparece sempre antes do terceiro.

outro dia veio ter comigo: então tu é poeta? e eu respondi que sim, tinha uns livros. e o que chega pelos correios são livros?, e eu disse que sim, livros, muitos de poesia, e a conversa terminou ali. seu valmor, inquieto, sempre me avisa quando chega um livro novo: coloquei na caixinha do correio, como o combinado. e eu o agradeço.

finalmente veio conversar. começou com um bom dia arrastado. então isso: esses livros que chegam pra ti, esses livros de poesia, eles vêm pelo correio, eles têm selos, né? e eu respondi que sim, muitos deles, sim. e sorri: o senhor coleciona selos, seu valmor? ele respondeu positivamente, gosta de selos. quando chegar de novo, guarda pra mim? guardei. e hoje pela manhã entreguei os selos recortados dos envelopes dentro de um livro de poemas. o meu livro.

a finalidade da poesia, quem sabe afinal realmente qual é.


24 de jul de 2017

seo norberto vive com a esposa
ganha um salário mínimo
não contribuiu com a previdência
aposentado aos sessenta e quatro
extirpou dois tumores malignos
a próstata dói também a vida
e falta dinheiro para a comida
falta dinheiro para o remédio
falta dinheiro e talvez por isso
oito tentativas de suicídio
ele me conta enquanto os olhos
azuis enfrentam as lentes dos
óculos e me enfrentam
aqui na mesa da repartição.

sandro alçou sábado
o seu voo interminável
necessário, porém, necessário
porque quando a vida já não é mais:
a morte não basta para:

21 de jul de 2017

domingo e o pai animado
com os três filhos dois netos
o genro a nora o gato branco
domingo e fazia sol, o pai
animado apontou o limoeiro
"tem a tua idade" e eu perguntei
"foi plantado de muda ou de
semente" e o pai "quando a gente
veio ele já estava, mas era pequeno".
do encontro com mais um irmão
a comparação inevitável:
enquanto eu seco ele dá frutos
esse ano mais que o ano passado.


19 de jul de 2017

no labirinto de nova petrópolis
verde embaixo, o céu inteiro cinza
enquanto procurava uma saída
descobri que as saídas a gente
faz sempre que se sente perdido
ou preso dentro de um labirinto.
o céu fazia menções de tormenta:
cinza de van gogh anunciava neve
e não sabíamos porque não conhecíamos
van gogh e ignorávamos o que neve
fosse. mas de saída entendíamos,
embora não houvesse saída para
a vida e a morte fosse algo distante
com o que não valia a pena se
preocupar. foi pedro quem mostrou
que havia um buraco na cerca-viva
comemoramos o atalho mesmo que
eu até hoje me sinta culpado por
não ter me esforçado o suficiente
a ponto de encontrar a saída que
todos deviam encontrar eu nunca
fiz a saída que todos buscam fazer
eu nunca encontrei a saída do buraco
ou passo por cima ou passo por baixo
do caminho que eu deveria fazer.
no labirinto de nova petrópolis
aprendi mais do que em todos
os anos de escola e faculdade.

29 de jun de 2017

vamos cantar juntos
uma canção de nossa escolha
ou muito melhor: uma canção
que compusemos juntos
com letra tua e música minha
com letra minha e música tua
nossas letras e músicas e nossas
vozes irremediavelmente em
constante desacordo
desacertadamente em
constante desafino.

chego a sentir na fome o cheiro
daqueles dias grisalhos numa
porto alegre insatisfeita com a
minha presença: éramos garotos
que haviam se tornado homens
que insistiam em ser meninos
e nos abraçávamos o abraço
dos heróis de guerra, dos cavaleiros
do rei, dos poetas das tavernas
que nunca lemos porque não 
havia poesia melhor do que a 
que escrevíamos sob nossas
pegadas.

não há nada pior do que esquecimento
e barriga vazia. não há nada pior do que
esquecimento e barriga vazia. não há nada
pior do que um poema sem poesia
com todos os enganos com todos os disfarces
com todas as misérias e nuances:
chego a sentir no rosto a frieza do asfalto
chego a sentir nos ossos a beleza da distância

os números de telefone se encavalam
e se meter com a memória
é a pior forma de fugir.



27 de jun de 2017

olha isso (que)
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente

(talvez não seja nada
e passe logo)

o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos

a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade

(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)

depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil

: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :

a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.

20 de jun de 2017

hoje eu queria o simples de um livro de pedro bandeira,
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.




16 de jun de 2017

quando passares pela ponte do tamarindo
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar.
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
toam nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio.
ignora a placa com o nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
de que já não vale mais a pena lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso e mesmo que queiras, precises e
mereças, não te jogues.
uma vez ouvi dizer que uma etnia
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.

13 de jun de 2017

na repartição. repare: na repartição é proibido
falar da falta de sentido que se percebe nisso
de passar oito horas por dia entre papéis e
carimbos para pagar aluguéis e financiamentos
de carros novos antigos usados de toda forma
ou pagar aquela - de novo - reforma da casa
da cozinha do banheiro ou do estábulo onde
vivemos e que ainda ousamos querer chamar
de lar.

a repartição é uma síntese do mundo, pois não.

12 de jun de 2017

a tarde é frágil
o poeta é frágil
os minutos de atenção
a concentração
tudo tão frágil

(olhas pro lado,
o livro deixa de
fazer sentido)

só resiste o poema
pirografado
que carregas
nos braços
e escondes sob
incômodas
mangas de lã.

8 de jun de 2017

no subúrbio em que o sol não toca
e as crianças recolhem velas de carros
a terra se confunde com o concreto:
estivemos tão perto de algo, penso.
nunca estivemos tão perto.

não haviam universidades, faculdades,
nem havia ciência: era o mundo e só.
o mundo e o prestígio dos homens
de uniforme - à frente de militares
e escoteiros, os motoristas de ônibus.

íamos calculando o quanto custava
a vida: trinta ou quarenta anos de
cabeça baixa, dor nas costas, marmita,
moradia, aposentadoria e afins
: isso antes da televisão, dos sonhos

comprados a prazo, das viagens para
ali ao lado; isso antes da poesia. e se
os dias acinzentados dão a regra e a
forma, me despeço e desculpo: não
tenho mais idade pra ser motorista

tampouco astronauta. e se não aprendo
a lidar com isso, me condeno a carregar
comigo aquela falta que faz um sentido
pra levar a vida adiante. poemas não pagam
contas, é verdade. mas alimentam o bastante.

5 de jun de 2017

muito valiosos os radares os supercomputadores
a parafernalha que permite previsões climáticas
e meteorológicas com alguma precisão a despeito
de nosso amor incondicional por tragédias.

olha-se para o céu e já se distingue entre o cinza
o cinza-branco o cinza-chumbo e o cinza-deus-nos-acuda
como se não houvesse cor no mundo ou não quiséssemos
ver outra, mas veja:

a noite preta é que mais assusta. depois de o ribeirão levar
móveis
automóveis
imóveis
e as jóias de ouro de minha irmã ganhas de algum ex-namorado
a noite silenciava, nós com ela, em torno dum par de velas

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a noite tão absolutamente silenciosa que parecia dia
de velório de parente querido: barulho algum em nenhum
lugar.

as velas aqueciam e as histórias de outras chuvas
de outras cheias de outras noites pretas marcavam
a cera derretida a pele o coração
enquanto o pai tecia na fábrica

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a chuva que dava voltas
foi embora e nunca mais voltou a cair
- até hoje.


31 de mai de 2017

a abóbada esfumaçada
guarda mistérios e rotinas
nesta mesma ordem:

o que garante o passar dos dias
é a posição que a térmica
ocupa sobre a mesa:

o café ainda está quente
embora o céu desta manhã
seja o mesmo do fim de tarde:

porque o dia começou
não significa que também
possa amanhecer.

será fim de tarde daqui a pouco e veremos os suicidas fazendo fila em cima da ponte do tamarindo para decidir quem pula e quem não levi...