24 de jun de 2019

BR 470
i.
uma estrada
não inaugurada
carrega somente
os mortos seus
trabalhadores que
por inobservância das
normas de segurança
vieram a sofrer
acidentes graves


ii.
não há cruzes ou altares
ao longo da via
não há flores
nem pedaços de automóveis
e de gente

iii.
os governos não lamentam
os mortos não havidos
e não fazem projeções
: é serena ainda uma estrada
não inaugurada

iv.
na estrada ativa
há uma placa em que se lê
Estamos há 9 dias
sem vítimas fatais,
numeral fixo

todos os dias
há 9 dias

há um morto preso
a esta placa que não
comemorará aniversário

v.
quando o presidente
vier para inaugurá-la
serão omitidos de seu
discurso os desvios
e a demora

cabe numa estrada
não inaugurada todo
o futuro do agora.

[19/06/2019]
morrer é uma vez na vida
tanto faz o rio de heráclito
o verão as andorinhas
morrer é uma vez na vida

morrer quem sabe todo dia
se o cigarro se a cachaça
os comprimidos as ameaças
morrer quem sabe todo dia

uma vez jovem a vida anda
vai tão depressa que nem
responde onde vai dar

uma vez jovem a vida anda
vai tão depressa que não ensina
que a vida: a vida: a vida: a.

[14/06/2019]
i.
acreditava que melhem adas
era nome dum deus geográfico
atlas
a Terra nos ombros
senhor da geografia
: a grafia dum M com
as pernas abertas
voo de pássaro na capa
do livro, no início do nome
no sonho acordado no banco
da escola pública
o sono, o sono.

ii.
senhor melhem adas,
pois homem
[quem diria] agora buscando
talvez libanês ou turco-otomano
a viagem ou sonho das
fotografias coloridas
[bendigo as gráficas, a tecnologia,
a década de 1990]
: via dutra, imigrantes, anchieta, rio-santos
e outros lugares por onde passei, homem,
rebuscando o menino e o sono do menino
e os sonhos de viagem - o banco da escola
de onde se sonhava para poder sair.

iii.
não sei todavia do cerrado da amazônia
das planícies pantaneiras do nordeste do
sertão de cubatão - embora são paulo -
não sei daquelas vias engarrafadas por
fuscas e chevettes e opalas
no entanto
senhor melhem adas
quantos quilômetros
de estradas passei enquanto
a explicação sobre demografia
se alongava
quantas capitais desse país
quantas florestas quantas
moradas - de senador camará
a capuava - de carapicuíba a
brasília e de lá, à ilha de santa
catarina [um rabisco no mapa].

iv.
senhor melhem adas, muito obrigado
pelas fotografias coloridas dos livros de
geografia.

v.
ainda que
( entenda meu reclame)
não tenha visto imagem da vizinhança
ou das montanhas dos rios de lama do
enxaimel-aborto-da-arquitetura

ainda que
(entenda, entenda)
o vale os alemães os italianos os japoneses
as carroças as vacas o queijo o leite
o sotaque a verdade e tudo aquilo
que não cabe nos livros
senhor melhem adas,
os livros não cabem nos livros, tampouco
os interiores as periferias as linhas invisíveis
entre aqui e a ali.

vi.
surgia hum mil novecentos e noventa e sete
e viegas entrou torto na sala de aula para pregar
o mapa de cabeça pra baixo no quadro verde
ele dizia que o mundo que os mapas que as
projeções ele dizia que as cidades que as culturas
que as populações

e aquele mapa profano do cabeçalho virado,
senhor melhem adas,
valeu mais do que todas as fotografias e os
mapas de seus livros

[me perdoe]

vii.
talvez joaquim me desdiga
(joaquim é geógrafo e professor, sorri
com os olhos
[não saberia dizer do sorriso do senhor]
e escreve poesia à maneira da maior cidade
brasileira
[o senhor veja, geografia e poesia]
mas no entanto profiro aqui
que o senhor melhem adas
geógrafo e escritor
autor de livros didáticos
escolhidos pelo professor
me fez estrago com os gráficos as linhas as cores
os dados os mapas e os vetores
mais do que me causou estrago
a própria poesia dos livros
com rimas-amores-dores

e por isso tomo liberdade para requerer:

viii
senhor melhem adas
peço-lhe que
caso haja tempo ainda
o senhor revise seus livros didáticos, pois sinto
falta de que sejam mostrados
(além das praias das montanhas das planícies dos planaltos
das rodovias)
a) o progresso, bairro sempre ao sul onde nasci
b) as ruas onde os meninos eram felizes
c) a fábrica, senhor melhem adas, a fábrica
d) a rua da glória e a oficina de bicicletas do pai do elias
e) uma cidade cansada, aquela

ix.
dado o pedido, digo que aguardo
se não uma retratação, um sinal
de que foram compreendidos
meus pedidos de revisão em algum
de seus livros, senhor melhem adas

x.
que não é deus ou atlas
que não é turco ou libanês
que não sabe de mim nem dos meus
mas que por humano e professor
imagino que tenha ouvidos
por isso me despeço do senhor
melhem adas
profundamente agradecido.
obrigado.

[08/06/2019]
outro poema para o Edward Thieme:
no passado, os meninos se abraçam
diante do futuro
: reencontros são sempre
pegadas que repisamos
: memória é um arbusto
no meio dum campo ensolarado
onde já se viu sentir saudade
de quem sempre esteve ao meu lado.

[29/04/2019]

um homem parado fumando um cigarro
na correria do meio-dia nesta cidade
que é uma ilha em que as pessoas em
que as ilhas um homem parado fumando

um cigarro como se não houvesse pedintes
como se não houvesse tristeza nem céu nublado
nem bolsonaro nem correria nem contas em
atraso, apenas um homem fumando um cigarro.

a mulher parada fumando um cigarro não
vê o homem parado fumando um cigarro,
não o conhece, não o enxerga, não se preocupa

embora se os dois se vissem e se aproximassem
e se abraçassem e se beijassem no meio da via
cigarros acesos beijo de cigarro que bonito seria.

[09/05/2019]
poema de domingo
contento-me em
não ter sonhos

[desde o caminhão de prêmios
de nescau (que nunca veio)

desde aquela conversa
com deus (que nunca houve)]

desde o nascimento.

[05/05/2019]
memória: em 91 o pai enxotou a chica
- se era esse o nome da cachorra
e a ofensa marcou tão fundo
que chorei para a professora

memória: quando na mudança de casa
perguntavam-me se tinha certeza
rhenius me deu cinquenta reais de ajuda
para a mudança: chorei com clóvis

memória: sempre que abro a caixa de
cartas e me deparo com quem eu era
choro nos braços imaginários de meus amigos

agora isso: um tumor grande e vários
tumorezinhos, fotografias que não se
movem, um trem a pilha que nunca veio.

[26/04/2019]
se ao cheiro de morte acostumam-se
o médico, o veterinário, o socorrista
o açougueiro, o carrasco, o dentista
o enfermeiro, o policial, o legista

o arrumador de cadáveres e a esteticista
o coveiro, o padre, o motorista
as carpideiras e as sopranos solistas
também se acostumam, já sabemos

por que, então, a afirmação diária
(que a indesejada se mantenha distante)
da impossibilidade do costume?

se, mais do que cheirar, ela envolve
abraça e beija como amante antiga
e faz do mau agouro seu perfume.

[26/04/2019]
o ocidente é um lugar tão
triste como um bêbado
todo molhado - depois de
três dias de chuva, chega

o quarto. a imprensa e os
poetas, as poetas, a política
os políticos, tudo isso que é
tão distante e próximo como

os vícios. quis tomar a cachaça
de meu exu e soube que não deveria,
quis atropelar freiras velhas

mas me faltou rodovia. hoje
não me falta nada, tenho cigarro e
tempo. mas daí esse lamento.

[25/04/2019]
vem aí uma chuva vem
uma chuva aí olhem através
das janelas que a chuva não
espera a chuva não espera

não e não adianta correr
se esconder ou procurar
as sombrinhas as capas
impermeáveis as marquises

porque vem aí a chuva e ela
não tem pena dos incautos
não tem dó dos desastrados

dos esquecidos dos humilhados
a chuva vem e molha a todos
depois estia e pronto.

[04/04/2019]
há uma cidade por trás
dessa névoa e ela funciona
normalmente apesar do teu
mal-estar apesar do teu

medo de elevadores e panelas
de pressão. há uma cidade
logo abaixo de tua janela e ela
está lá, estará ainda que

insistas em não vê-la. há uma
cidade por trás de tua cegueira
seletiva - os crimes seguem

acontecendo, as sirenes invadem
teus silêncios porque há uma cidade
que não hesita em te comer vivo.

[14/03/2019]
i.
não há estatística que demonstre o número
de trabalhadores mortos em testes de submarinos
de guerra tanques de guerra armas de guerra e suas
relativas munições | enquanto consumidores diretos
e indiretos não chegamos a nos perguntar afinal
quem são os que foram usados de cobaias nos
testes dos referidos
artefatos
o que
nos leva à cruel dúvida de se o número de mortos
em guerras neste mundo não deveria ser multiplicado
por x a fim de alcançarmos a proximidade de um
número crível sobre quantos foram/serão os mortos
até agora nessa nossa rude história da humanidade
claro
sem esquecer
que
uma morte é sempre multiplicável pela quantidade
de dor que causa embora a comoção pública em tempos
de redes sociais nos mostre que a)generaliza-se a comoção
b) dura somente até o próximo momento | no entanto
se lidarmos com a questão dos trabalhadores mortos
e feridos em fábricas de armas em fábricas de mísseis
em fábricas de veículos blindados em fábricas de
fardamento militar talvez nos assustemos com o número
embora o tema não vá lá causar comoção alguma onde já
se viu comover-se com trabalhadores


ii.
(atentemos para o cenário:
para efetuar um disparo de canhão são necessárias
algumas pessoas, entre elas: 1) o engenheiro balístico
cuja função é calcular o ângulo do tiro; 2) os carregadores de peças
e munição; 3) o oficial, cuja função é gritar FOGO com
entusiasmo e na entonação adequada - diz-se que
o cinema de hollywood ensina melhor do que a própria
guerra mas isso são por enquanto meramente boatos)

iii.
se insistíssemos que não devemos nos lamentar
por mortos em fábricas que produzem maneiras
de morte - coisa que faria sentido numa lógica
reta mas a realidade não anda em linha reta
a realidade é uma bêbada linha bêbada
tentando atravessar a avenida às seis da tarde -
se insistíssemos, retorno, que não devemos
nos preocupar com os trabalhadores das fábricas
de morte e se tampouco nos preocupamos com
os trabalhadores das coisas da vida - a saber
agricultores pecuaristas pescadores e afins
ou mesmo com trabalhadores que envolvem
a vida como alfredo que produziu toalhas de
banho e lençóis durante toda a sua
lembremos então dos trabalhadores chineses
que produzem e modulam as nossas vidas
como um todo embora orientais embora
chineses embora o ocidente embora a distância
e mesmo embora a revolução cultural

iv.
não há estatística que demonstre a quantidade
de mortos nas fábricas de armas de submarinos
de tanques de guerra de armas de fogo de munições
de aviões de helicópteros de cassetetes de coturnos
de armas de choque de facas de canivetes de espadas
de capacetes de miras laser não há estatística que
demonstre quantos são os mortos e isso é um erro
pois é contabilizando perdas que se fecha as torneiras
do desperdício veja só quanto dinheiro seria economizado
se as mortes diminuíssem e se em vez de fabricar armas
os mortos fabricassem casas ou plantassem árvores
que interessante seria que interessante.

[06/03/2019]
um mapa que mostrasse
o caminho entre o antigo
e o agora com todas as
armadilhas sinalizadas

a topografia da vida não
sinaliza corretamente
altos e baixos minas de
ouro e deslizamentos

evita o tropeço, diria
a legenda, alcança o
atalho e segue adiante

norte é seguires em frente e
se as bússolas te mentirem
procura o cruzeiro do sul.

[14/02/2019]
no prédio em frente,
as diaristas trabalham
arduamente para manter
limpas e perfumadas
as roupas, as coisas

são mulheres negras,
são mulheres brancas
estendendo roupas na sacada,
batendo tapetes, mantendo limpos
os cômodos, o ambiente

trabalham tanto, mas trabalham
menos que o patrão, a patroa,
que lhes pagam o suor escorrido
com o muito suor contido
em escritórios refrigerados

as mulheres trabalham e limpam
e se arcam e se cansam e se quebram
e se revigoram com a volta pra casa
nos ônibus lotados de fim de tarde
para encontrar suas crianças

ali, no entanto, nas sacadas, mantém
o dever cumprido: limpando frestas
limpando os cantos para que a patroa
e o patrão possam chegar em casa e
descansar

enquanto assistem ao jornal nacional
e reclamam dos péssimos caminhos
que têm tomado esse país que agora
parece voltar aos trilhos, logo deixam
de exigir carteira assinada

para a faxineira.

[05/02/2019]
a lembrança mais remota
é a ainda no dodginho do pai
janela aberta, vento no rosto
não sei onde íamos ou porque

[a segunda lembrança é aprendendo
a dirigir no colo do homem
que isso?, perguntei
é o manche. ele ria.]

quando lavava carros
o prejuízo do acidente
foi tão alto que quis me
atirar da ponte

daí que o pai subia
calçadas com a variant
verde-abacate: álcool,
medo e solidão

[o manche não era manche,
o homem não
era também, o medo
e apenas ele]

por isso não (me) dirijo.

[26/01/2019]

22 de jun de 2019

Há um homem sentado à mesa no lugar do pai. Ao lado um gato e um cão. O homem parte o pão com sabedoria. É preciso ser sábio para acertar as metades. Não sorri porque não tem dentes; cego, não vê a quem estende a mão; tampouco escuta quando lhe agradeço.
Obrigado, ele diz, por te sentares comigo à mesa, por não me exigires sorrisos, por não me contares nada.
Leva à boca sem dentes o pedaço de pão encharcado de café e sorve dali o ocre amargo.
Ainda sinto o cheiro, diz, e é como se tivesse cor.
Ainda sinto o gosto, diz, e é como se amasse a dentadas.

[30/12/2018]
do subúrbio levo esse cansaço
essa umidade apesar do sol
mofo se diz nos travesseiros
hoje chove de novo eu digo

adeus adeus paisagens adeus
morros se o sol só aparece para
destratar a pele clara os olhos
claros meu pai e suas marcas

da paisagem resta apenas uma
ideia quem sabe um cheiro de
grama cortada de mato com chuva

de merda de vaca de cachorro
molhado do subúrbio levo apenas
esse cansaço e essa tristeza.

[27/12/2018]
i.
são as horas são as horas
por isso os meninos não
chegam à rua as horas as
horas por isso os meninos
de banho tomado as horas
as horas meninas pra dentro
que já fica escuro as horas
as horas ninguém me ensinou
a dar corda em relógio

ii.
piloto não pilotava nunca pilotara
nada mas tinha cachaça e os meninos
ah, os meninos
olhávamos o truque da fumaça do cigarro
sair pelos olhos
piloto, mais um golinho?

iii.
as corridas de bicicleta
as pipas os bonequinhos
outra camisa do palmeiras que daniel
mostrava com orgulho
daniel e sua mochila quadrada
daniel e um poema triste sobre a perda
do primeiro amigo

iv.
o primeiro cigarro entre os meninos
: certa tarde, levei uma bala de fuzil
a colocamos entre duas lajotas
o menino que deflagrasse o tiro
seria o menino mais menino de todo
o mundo.
por sorte ou não, nunca conseguimos

v.
o mundo era maior que as viagens
que já fizemos. o mundo era imenso.
daniel foi pra alemanha, mauro pra
bolívia, murilo pra rio do sul - os
meninos nos encontrávamos
sempre como quem se despede.

vi.
existe um lugar tranquilo
(e as horas e as horas)
que relógio algum alcança
(as horas, que horas)
os meninos adormecem
(horas horas horas)
e a vida ensaia sua dança.

[16/112/2018]
Para Simone Teodoro, tardiamente:
primeiro veio a fórmica
o balcão o baleiro os copinhos
e duas qualidades de amendoim
doce e japonês

embalados em saquinhos de papel
e as moedas pequenas que a mãe
punha na minha mão e dizia
pra ver quanto dava

não era necessário palavras
porque as moedas já diziam
: doce ou salgado
e os dedos fazendo um V

primeiro veio a fórmica o baleiro
o caminho de casa ao boteco
renato, o bêbado que me mostrou
o ninho de beija-flor e contava

sempre e de novo a história
da cobra - que deixava o veneno
sobre uma folha caída para beber
água - e depois o sugava de volta

primeiro veio a fórmica
a fumaça dos cigarros campeão
os saquinhos de papel com
amendoim dentro e uma sensação

assustadora de que era seguido
(a benzedeira disse depois que
aquele meu susto era do anjo
da guarda que me acompanhava)

parece que a fórmica o bar
as pessoas do bar mesmo renato
meu pai o amendoim os dedos
em V doce salgado a corrida

pra casa. parece que a fórmica
veio antes de deus.

[04/12/2018]
Voltei ao meu primeiro poema depois de 23 anos.
****

Hoje é uma sexta-feira
Não quero me levantar
Quero ficar deitado
Até o sol raiar

Até o sol raiar
Já estarei descansado
Eu agora me canso muito
Pois estou apaixonado

Eu estou apaixonado
Por uma garota linda
A garota dos meus sonhos
Da minha vida

A garota dos meus sonhos
Pois agora estou sonhando
Mais tarde, quando acordar,
Estarei sozinho, chorando.
[1995]

***********

menino, olha o que escreveste
neste teu poema pequenino
olha ali a sexta-feira - a droga
mais forte que se pode consumir
quando não se trabalha aos sábados
aos domingos aos feriados
- naquele tempo, ficar deitado
era uma forma de tocar o infinito.

que cansaço e que paixões
se os poetas se despedem da vida
saltando de prédios - até que andar
subiremos? houve um tempo, menino
- aquele de noites longas e dias infinitos -
passa o canudo e o prato pra cá
e foi assim que perdi meu aniversário
porque acordei e já era noite
perdi o aniversário de minha mãe
porque cheguei e já todos se tinham ido
perdi o aniversário de meu sobrinho
enquanto engolia o choro a caminho
do trabalho

as mulheres de nossas vidas!
luiza, ligia, nossa mãe
a paciência que precisam ter
enquanto tropeçamos em palavras
a caminho de um caminho que se abra
- por isso mais um livro? para que possas
dizer o que não está escrito na tua cara?
as mulheres - não as garotas, menino -
que nos amam e nos perdoam
amam e perdoam
amam amam amam
e nós não sabemos retribuir tanto amor
porque há sempre um poema no meio do
caminho, uma frase, um enredo para uma história
um jeito novo de escrever o mesmo livro

sonhamos, sonhamos
ainda hoje sonhamos com um passado
sem tanto atrito conflito e cansaço
ainda hoje sonhamos - e a professora bete
que disse para escrever um poema, onde anda?
dizem que morreu de câncer, quem diria
ainda hoje - outro dia lembrava nossos nomes
hoje - é o menino que escreve poemas

o adulto canta de novo aqueles versos
o adulto não sabe dos caminhos da vida
o menino é poeta, dizia dona bete
infelizmente ela estava tão certa.
[2018]

BR 470 i. uma estrada não inaugurada carrega somente os mortos seus trabalhadores que por inobservância das normas de segurança vieram a sof...