4 de mai de 2015


Sebastianamente falando,
não conseguimos aceitar
(e tanto que acreditamos!)
que o rei não virá nos libertar,
que não figuramos em seus planos.

Onde foi mesmo que erramos?

8.000 quilômetros de costa,
ilhas, serras, campos, matas
e essa mania insensata
de nos dizermos irmãos
até mesmo de quem nos tortura,
nos estupra e nos destrata.

Do you speak english, mermão?
Sprichst du Deutsch, ô alemão?

Se tua pele é morena,
se esses teus olhos de índio,
se teu sotaque latino,
que identidade pequena!

Acontece que estamos indo
fortes, enormes e lindos
em busca - talvez - de nós mesmos
e do tão merecido quinhão
de riqueza e de proteção
que nos negam há tantos anos.

Pois que engulas os teus planos
e nos deixes, que da contramão
bem entendemos
(se até aqui chegamos,
quem sabe até onde iremos?).

Toma a frente do teu exército,
toma teus santos, toma teu cetro,
volta pro teu Portugal incerto:

Vade retro, Sebastião!
Vejamos a poesia:
veio comigo do pó
e não me larga do pé.

Não adianta o quanto eu dê a ré,
ela vai adiante;
magrela, banguela e tapada.

Tão desengonçada, coitada,
que nem merece atenção.

A não ser, é claro,
que me vista de literato
[o dedo em riste
e o pau na mão],
e saia correndo pelado
pela rua Quinze, na contramão!

Mas então não será o poema
o que estará em questão:
será o insano desfeite,
será o tirano deleite
do jornaleco da televisão.

Poesia é outra coisa, parece.
Uma história, uma praga, uma prece.
Destino que se cumpre
e envelhece.

Sem senão.
A linguagem está morta!
Já não há mais como explicar
o que carece de sentido:
a infância degolada,
a comida atrasada
e aquele teu novo emprego
que em nada se difere
do antigo.

Abolimos a linguagem
para que não peçamos desculpas
(nem tampouco façamos justiça)
aos jovens mortos por tiro,
vítimas do seletivo-tão-antigo
jogo da cor
[preto, moreno, bandido]?
Como for!

Evitamos a palavra
para que se impeça o reparo
aos mortos das propagandas,
às vítimas da eterna dança
da velocidade e do carro.

Engolimos a palavra
para que não hajam mais feridos
entre aqueles que encontram com Deus
através de seus próprios livros,
através da palavra cantada.

Já não é mais possível dizer
se já não se pode viver:

de agora em diante, grunhidos!
de agora em diante, mugidos!

Ou o definitivo silêncio
- que assuma com todo seu peso
o controle de nosso desprezo,
a falência da palavra.

(...)

Essas nossas mãos sujas de sangue,
lavaremos todos
na mesma fonte
com a surpresa trivial
de quem sabe que é culpado
e carrega, consigo e calado,
o brutal peso da morte,
a banalidade da sorte,
toda arrogância do mau.

Somos todos culpados!

Todos os dias, todas as férias,
todo retorno de feriado;

de manhãzinha,
quando a tarde finda,
nas noites de lua-cheia:

não seremos perdoados.
São 3 anos de
estágio probatório,
mas logo chego a seis;
logo chego aos dezesseis,
e em breve aos 60 anos
- para então começar
a fazer planos,
começar a viver
e a desenganar
essa vida inteira
de enganos.

(...)

Estudei muito
pra chegar até aqui.
Aqui onde?
Exatamente aqui.
Exatamente onde?
Aqui, bem aqui!
Mas onde?
Aqui, porra,
não tá vendo?
Não enxerga o meu
ascenso e minha
postura social?
Olha aqui o meu diploma,
olha aqui o carteiraço:
graduado e pós-graduado
em arrogância colonial.

(...)

Meu avô trabalhou aqui,
assim como meu pai.
Eu também trabalho aqui,
mas pra sustentar os meus filhos,
que logo terão seus filhos
e todos trabalharão
nesse mesmo tear antigo,
sob a poeira da fiação,
alimentando os filhos dos
filhos e os pais dos pais
do meu patrão.

(...)

Vou viver da minha arte!
Ser vendido de parte em parte
para garantir o meu nome,
para garantir o meu pão.
E esperar que o aluguel seja pago
com o que é suor, é trabalho,
mas também pode ser chamado
simplesmente de inspiração.

(...)

E assim a vida caminha
calma e serenamente
evitando qualquer desconforto
pra quem
r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e
se mente.
Vamos despertar
antes que inicie
o pesadelo:

(quem sabe se
dando as mãos
não criamos
aqui um freio
pra parar
o que não devia
jamais ter começado
mas já se encontra
no meio?)


Vamos evitar
cair somente
em devaneio
e pisar firme
com os pés:
passo-a-passo,
mas passo
de pé inteiro!

Porque nisso de
andar descalço
a gente ainda se
machuca!

Nisso de andar no alto,
a gente cai de forma
abrupta
e nunca vai ter certeza
do que é sonho,
do que é luta,
do que é nuvem de
fumaça
e do que parece teoria
e é trapaça.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...