29 de jun de 2017

vamos cantar juntos
uma canção de nossa escolha
ou muito melhor: uma canção
que compusemos juntos
com letra tua e música minha
com letra minha e música tua
nossas letras e músicas e nossas
vozes irremediavelmente em
constante desacordo
desacertadamente em
constante desafino.

chego a sentir na fome o cheiro
daqueles dias grisalhos numa
porto alegre insatisfeita com a
minha presença: éramos garotos
que haviam se tornado homens
que insistiam em ser meninos
e nos abraçávamos o abraço
dos heróis de guerra, dos cavaleiros
do rei, dos poetas das tavernas
que nunca lemos porque não 
havia poesia melhor do que a 
que escrevíamos sob nossas
pegadas.

não há nada pior do que esquecimento
e barriga vazia. não há nada pior do que
esquecimento e barriga vazia. não há nada
pior do que um poema sem poesia
com todos os enganos com todos os disfarces
com todas as misérias e nuances:
chego a sentir no rosto a frieza do asfalto
chego a sentir nos ossos a beleza da distância

os números de telefone se encavalam
e se meter com a memória
é a pior forma de fugir.



27 de jun de 2017

olha isso (que)
pode ser uma
pedra um poema
um coquetel molotov
um dilema persistente

(talvez não seja nada
e passe logo)

o outono se torna primavera
antes de passar setembro
antes de acabar o ano já estaremos
décadas mais antigos
(porém nunca mais sábios)
e disso já todos sabemos

a novidade talvez seja
a metade que encontra
a outra metade

(o mundo?
a laranja?
eu e ela?)

depois de hussein
e gaddafi
e assad
(arafat que o diga)
etcétera
carlos chacal
esmorece em uma
cadeia da frança:
a esperança daqueles
anos idos que
não vivemos
nem poderíamos
nascidos que somos
nos fins do brasil

: fluxo e fossa
ponte e ponta
de lança :

a poesia morre
todos os dias
e com ela aquela criança
que se admirava
e se mijava toda
sempre que ouvia
ronco de caminhão.

20 de jun de 2017

hoje eu queria o simples de um livro de pedro bandeira,
dos joelhos ralados, dos domingos de aniversário em que
as convidados demoravam a chegar e eu esperava sentado
no meio-fio desde logo depois do almoço.
(hoje é como se eles nunca tivessem aparecido,
não fossem os retratos maltratados no fundo de uma gaveta
triste, diria que não apareceram, nunca apareceram).
o simples de domingos de gramado quando ainda o cigarro
não deixava marcas no aparelho respiratório, nos dentes e
na face - marcada como um tronco que o machado tem preguiça
de cortar.
eu queria o simples de um poema sem pretensões de arte ou de
poesia. o simples de um dia após o outro com uma noite no meio
- bem dormida - simples a ponto de me olhar no espelho e reconhecer
ali o mesmo:
simples como um abraço de reencontro,
uma canção de rádio popular,
uma carta recebida pelo correio,
conversa de tarde inteira com meu irmão,
uma vida inteira de luiza sob a luz de outono:
a simplicidade é uma virtude de contornos
muito complexos.




16 de jun de 2017

quando passares pela ponte do tamarindo
olha rio acima! por favor: olha rio acima
e não o contrário, senão verás águas pas-
sadas e dessas águas já não podemos mais
ter sede: vão ali esgotos e enchentes de
anos passados que precisamos urgentemen-
te ignorar.
olha rio acima que verás o rio e a mata ci-
liar quase sem pecados. dali não se enxer-
gam os condomínio caros onde não entra-
mos, não se enxergam as casas que se amon-
toam nos barrancos, não se enxergam os alei-
jados e os mortos dos acidentes de trânsito,
apenas o rio.
ignora a placa com o nome oficial da ponte
ignora a placa que diz o que vem logo adiante
(sinalizam engodos, vexames e enganos
de que já não vale mais a pena lembrar)
olha rio acima para o sol se pondo e segura
o impulso e mesmo que queiras, precises e
mereças, não te jogues.
uma vez ouvi dizer que uma etnia
indígena que ignoro fazia armadilha
no caminho da anta, porque a anta
caminha sempre o mesmo caminho
(de manhã e à noitinha, o mesmo
caminho) então uma armadilha
certeira com pontas afiadas matava
a anta que andava no mesmo caminho
a anta no mesmo caminho pesada
correndo pesada correndo certeira
no mesmo caminho a anta morria
assassinada e servia de janta para
a aldeia.
taí uma boa metáfora pra uma noite
acidental de poesia que não houve
- nem poderia - porque agora vejo
que a gente anda sempre no mesmo
caminho atrás duma ponta afiada
que nos mate ou nos cegue ou nos
nada como a anta, coitada, se ela
ao menos tivesse podido olhar pro
lado se ela ao menos tivesse podido
optar.
no mesmo caminho.
a gente anda sempre no mesmo
caminho.

13 de jun de 2017

na repartição. repare: na repartição é proibido
falar da falta de sentido que se percebe nisso
de passar oito horas por dia entre papéis e
carimbos para pagar aluguéis e financiamentos
de carros novos antigos usados de toda forma
ou pagar aquela - de novo - reforma da casa
da cozinha do banheiro ou do estábulo onde
vivemos e que ainda ousamos querer chamar
de lar.

a repartição é uma síntese do mundo, pois não.

12 de jun de 2017

a tarde é frágil
o poeta é frágil
os minutos de atenção
a concentração
tudo tão frágil

(olhas pro lado,
o livro deixa de
fazer sentido)

só resiste o poema
pirografado
que carregas
nos braços
e escondes sob
incômodas
mangas de lã.

8 de jun de 2017

no subúrbio em que o sol não toca
e as crianças recolhem velas de carros
a terra se confunde com o concreto:
estivemos tão perto de algo, penso.
nunca estivemos tão perto.

não haviam universidades, faculdades,
nem havia ciência: era o mundo e só.
o mundo e o prestígio dos homens
de uniforme - à frente de militares
e escoteiros, os motoristas de ônibus.

íamos calculando o quanto custava
a vida: trinta ou quarenta anos de
cabeça baixa, dor nas costas, marmita,
moradia, aposentadoria e afins
: isso antes da televisão, dos sonhos

comprados a prazo, das viagens para
ali ao lado; isso antes da poesia. e se
os dias acinzentados dão a regra e a
forma, me despeço e desculpo: não
tenho mais idade pra ser motorista

tampouco astronauta. e se não aprendo
a lidar com isso, me condeno a carregar
comigo aquela falta que faz um sentido
pra levar a vida adiante. poemas não pagam
contas, é verdade. mas alimentam o bastante.

5 de jun de 2017

muito valiosos os radares os supercomputadores
a parafernalha que permite previsões climáticas
e meteorológicas com alguma precisão a despeito
de nosso amor incondicional por tragédias.

olha-se para o céu e já se distingue entre o cinza
o cinza-branco o cinza-chumbo e o cinza-deus-nos-acuda
como se não houvesse cor no mundo ou não quiséssemos
ver outra, mas veja:

a noite preta é que mais assusta. depois de o ribeirão levar
móveis
automóveis
imóveis
e as jóias de ouro de minha irmã ganhas de algum ex-namorado
a noite silenciava, nós com ela, em torno dum par de velas

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a noite tão absolutamente silenciosa que parecia dia
de velório de parente querido: barulho algum em nenhum
lugar.

as velas aqueciam e as histórias de outras chuvas
de outras cheias de outras noites pretas marcavam
a cera derretida a pele o coração
enquanto o pai tecia na fábrica

: a trovoada tá rondando, a mãe dizia.

a chuva que dava voltas
foi embora e nunca mais voltou a cair
- até hoje.


um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...