31 de mai de 2017

a abóbada esfumaçada
guarda mistérios e rotinas
nesta mesma ordem:

o que garante o passar dos dias
é a posição que a térmica
ocupa sobre a mesa:

o café ainda está quente
embora o céu desta manhã
seja o mesmo do fim de tarde:

porque o dia começou
não significa que também
possa amanhecer.

30 de mai de 2017

não é mais céu mas uma
cápsula de zinco dentro
da qual mal conseguimos
nos mover - armadura
desconfortável, claustro
inafiançável: outono.

durante os dez minutos
de sol depois de tanto
chumbo carregado nas
costas eu segurei a cabeça
imóvel do epilético no
chão tão frio como o duro
chão das nossas casas.

eu teria que dizer: não
tive medo! pois não
tenho medo de mais nada
desde que dançamos abraçados
e nus nos corredores do
hospital, meu pai e eu.

então o homem parou de 
espumar, o céu voltou a 
escurecer, continuei a fumar
o cigarro que havia apagado 
e limpei a espuma das mãos 
nas calças úmidas

que não se sabe se
um dia voltarão a secar.



26 de mai de 2017

se eu me chamasse, ponhamos djalma,
e usasse uma camiseta com a foto e uma
frase de pe. zezinho. quem sabe da oração
da família e se eu não tivesse tomado o maior
cagaço quando roubei da garagem o carro
do meu irmão para sentir alguma coisa e tudo
que senti foi medo como senti medo no internato
como senti medo de ser internado quando as
noites já não tinham fim.

se eu tive aprendido cedo um ofício verdadeiro
desses que aprendem os filhos de operários e
tivesse me tornado torneiro, marceneiro
carpinteiro ou mecânico ou simplesmente
se eu tivesse me tornado algo que fosse
não perderia tempo catando palavras
não perderia tempo remendando nadas
não teria tempo a perder com um poema.

a vida não se vive nos livros, me digo
a vida não cabe num livro, repito
palavras não servem pra nada e não há
nada melhor do que uma noite inteira de sono
tranquilo. acredito. acredito como quem mente
pra si mesmo há tanto tempo que já não há
escapatória

nem glória alguma nisso de ver-se no
espelho como quem vê que não virão
os filhos, como quem vê quem o tempo
atravessa os dias, como quem aceita que
os fins de tarde de inverno serão sempre
essa espera pela resposta positiva de um
exame que me constate a enfisema

de um exame que me diga que os poemas
são ainda o que de melhor pode-se por
no mundo.

quem sabe um dia a gente descobre que
tudo não passou duma enorme farsa onde
estivemos despidos, completamente despidos
diante duma plateia sádica

: a vida em si.

24 de mai de 2017

como se tudo não passasse do jeans
estendido há uma semana dentro do
apartamento de dois quartos cujo tamanho
lembra uma sala, apenas, uma sala pequena
em que passamos de lado porque não cabemos
com nossos ombros largos não cabemos
com nossas vidas tão pequenas não cabemos
direito no mundo, o que dizer então de caber
neste apartamento com sobras de comida
com restos de vida devidamente guardados
dentro de caixas de sapatos etiquetadas
datadas com anos esfumaçados, empoeirados,
úmidos sobretudo, como o lençol dessa manhã
em que calço o jeans úmido, os tênis úmidos,
as meias úmidas úmidas e no caminho (úmido)
para o trabalho naquele ônibus lotado (de pessoas
úmidas) abro um livro de poemas e o levanto
para que todos o vejam, e o levanto como se fosse
o próprio sol.

 capaz de secar de até mesmo esta manhã.

11 de mai de 2017

i.
sentado bêbado no vaso sanitário
chorando palavras ininteligíveis
onde se podia ouvir sobre a fome
de uma família pobre: bagos de
feijão que enfeitavam a panela
cheia de água (a fome comovia
mais que a morte) isso bem antes
de arrastar o pai pela casa
o corpo sobre um tapete que
eu puxava como se fosse um
móvel muito pesado.

ii.
o dilema da ostra ou coisa que
o valha isso de mijar amarelo
na porcelana branca do mictório
à espera de aparecer um cálculo
renal que apesar da aparência
fui eu que desenhei.

iii.
hum mil novecentos e noventa
e sete uma tarde nublada de ou-
tono ou primavera a notícia da
morte (como ressoam as notíci-
as de morte) e desde lá o peso
das quintas-feiras nubladas co-
mo se o tempo insistisse em re-
tornar sempre e de novo para
aquele início.

2 de mai de 2017



o imigrante chegou
faminto
          (acredita-se)
roeu madeiras, indígenas
roeu pedreiras, juntou moedas
e empregou os seus
           iguais.

gerações exclusivas
de operários brancos
muito bem tratados
         (acredita-se)

quando o branco escasseou
como mão de obra barata
a cor deixou de ser pré-requisito
         (acredita-se)
mas a posição de imigrante, sim
sobretudo se estrangeiro, sim
sobretudo se faminto

as portas da fábrica se abriram
e se podia ouvir
as paredes e os teares
cantarolando o
Arbeit macht frei.


um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...