11 de mai de 2017

i.
sentado bêbado no vaso sanitário
chorando palavras ininteligíveis
onde se podia ouvir sobre a fome
de uma família pobre: bagos de
feijão que enfeitavam a panela
cheia de água (a fome comovia
mais que a morte) isso bem antes
de arrastar o pai pela casa
o corpo sobre um tapete que
eu puxava como se fosse um
móvel muito pesado.

ii.
o dilema da ostra ou coisa que
o valha isso de mijar amarelo
na porcelana branca do mictório
à espera de aparecer um cálculo
renal que apesar da aparência
fui eu que desenhei.

iii.
hum mil novecentos e noventa
e sete uma tarde nublada de ou-
tono ou primavera a notícia da
morte (como ressoam as notíci-
as de morte) e desde lá o peso
das quintas-feiras nubladas co-
mo se o tempo insistisse em re-
tornar sempre e de novo para
aquele início.

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