26 de fev de 2017

poema à maneira de werner neuert

em 1921 por influência ou
pressão soviética a mongólia passou
a utilizar o alfabeto cirílico
sendo denominada a partir de então
Монгол улс.

na década de 1930
por pressão do estado novo
se proibiu o ensino
e a imprensa em língua
alemã no estado de
santa catarina.

em 2002 werner neuert
que tem nome alemão
mas é brasileiro
publicou seu melhor livro
a que pouca gente deu
importância.

a mongólia é um país
longe de tudo.
santa catarina é um estado
longe de tudo.
werner neuert é um escritor
que já não escreve.

todas as relações não são
mero fruto do acaso.



24 de fev de 2017

road poemas

para luiz eduardo

i.

o paraguai vai muito além
da fronteira suja de que reclamam
os brasileiros

nós não sabíamos

e enquanto turistas observavam
admirados o palácio de los lopez
(cópia do palácio de versailles)
comprávamos uma coca cola de dois
litros
- fría, señora, por favor -
numa bodega improvisada
da chacarita.

ii.

talvez ninguém nunca
tenha pisado os pés em
villa montes como fizemos
naquela tarde de calor
e esperança.

quando o agente alfandegário
perguntou-nos se tínhamos
plata
rimos e nos dissemos que sim
embora pouca.

o que carregávamos em nossas
mochilas não se podia declarar
o seguro não cobria
não se preenchem sonhos nos
tickets de entrada.


iii.

em santa cruz de la sierra
fomos recepcionados
por um alemão bêbado
- estávamos em casa -

fizemos da janta de reveillón
uma oportunidade humilde de
demonstrar-nos afeto e jantamos
(qual era o menu?)

tomamos inka cola
e um taxista nos levou para
onde as coisas aconteciam

os anéis de santa cruz
libertam mais que prendem
ou o contrário?

dia hum
fazia frio
estava cinza
estávamos em casa.


iv.

cochambamba
é uma cidade seca ao pé
de montanhas imensas
onde se vê neve no topo.
edwin, o taxista
que me levou a mochila
levou também o passaporte
e os poemas
- não se rouba os poemas de
alguém, não assim,
que macana!

de certa forma, estávamos
mais perto do acre do que
de casa
e cada vez mais perto
de nós mesmos
nos despedimos.


v.

queria tanto rever luiza
que pouco ou quase nada
compreendi daqueles dias
: luiz a caminho de la paz
mandava notícias, poucas,
e em frente ao consulado brasileiro
sentei e chorei pensando em
meu pai.


vi.

diante da praça, no café paris
observei militares e campesinos
ouvindo a fala do presidente
da república pluracional da bolívia
senhor evo morales

era mais bonito ver a reverência
das pessoas humildes do que o
presidente em si,

mas isso lá é novidade?


vii.

sentei-me com joana
para uma prosa
eu não sabia de muitas
coisas
mas quem poderia sabê-las
se não ela?

dia desses,
um atentado na europa
fez roubar a atenção

- quando deveria aparecer
na televisão esta senhora que vende
hamburguesas e tem na parede a fotografia
do pai, veterano da guerra do chaco.

mas quem sabe do chaco?
da bolívia, quem sabe?

e de nós, quem sabia
senão a vendedora de lomitos
e a louca que apontava para o meio da praça
e gritava: HEDIONDOS! HEDIONDOS!
como se visse do outro lado da rua
aqueles conhecidos assassinos
que nos levaram nossos jovens
de há cinquenta anos.

talvez ela os enxergasse, louis.


viii.

quantas cores que os olhos
não conseguem decodificar
quantos sabores
quantos olhos morenos
quanta pele queimada de sol

mas há algo ali que não nos cabe
e que buscamos
há algo que nos convida e repele
e quem sabe não estará nisto o
segredo, a revelação, o mistério?

e é preciso seguir buscando
como a um graal cheio até a boca
de pípulas contra soroche
que beberemos como se fossem água.










23 de fev de 2017

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

em santa catarina
três mulheres são 
estupradas por dia.

enquanto isso
na televisão
acompanhamos 

os preparativos para 
alguma festa étnica
e sorrimos um sorriso

de miss.

22 de fev de 2017

é preciso aprender que num ano
inteiro tem um ou dois dias que

fazem valer a pena.
há dois ou três momentos que

podem tornar-se poemas.
há pouquíssimos momentos

de luz para a fotografia
perfeita.

todos os dias se tornarão a noite
em que te deitas

sobre teu peito. e se não cuidas
com a ordem das coisas,

todos os dias logo tornam-se
o mesmo.

20 de fev de 2017

as perdas as dores
são tudo nomes
não passam de nomes
o luto a morte
são tudo termos
a falta a saudade
o amor
- o amor, quem diria,
não passa dum punhado
de letras signos significantes
e eu me pergunto
não fossem as palavras
doeria menos?
não fosse a literatura
seria simples?
se a ignorância abençoa
também os filhos que se
despedem lentamente
- colhendo escolhendo
palavras certas para definir
o certo o incerto a certeza
incerta diante do desconhecido
tão conhecido
: estar sozinho
e recordar.

17 de fev de 2017

alguém vem vindo para perguntar
as horas explicar o funcionamento
das coisas banais da vida alguém
vem vindo contar sobre o início do
início, o início primeiro, alguém vem
vindo contar segredos dos nossos pais
e dos pais deles alguém vem vindo a todo
momento vem vindo e sua sombra
assusta e seu cheiro é forte vem vindo
para queimar livros e publicar manuscritos
vem vindo para acertar no alvo BEM NO MEIO
DO ALVO NA MOSCA NA MAÇÃ DE GUILHERME
TELL vem vindo para nos dizer que não
desesperemos, não mais, respira fundo que
amanhã será de novo e de novo e de novo
e de novo alguém vem vindo acalmar as coisas
mas nunca chega, nunca deixa de chegar.

14 de fev de 2017

neste pedaço de rodovia
hoje caos revolta acidente
com três mortos por semana
trânsito parado
trânsito lento
nesta rodovia de asfalto
que aguarda duplicação
há bem 20 anos
que aguarda escoar a produção
do oeste do alto vale do vale
para o porto
nesta rodovia sanguinária
onde motoristas motociclistas
e pedestres disputam quem
morre antes
                  a
                    toda
                           velocidade

passamos.

ainda não havia asfalto
nem mortos nem cruzes
tampouco catadriópticos
que sinalizassem
de que lado se vai e vem.

passamos
quando ainda era pedra brita
terraplanagem acinzentada
meu pai dirigia a variant
verde-abacate e ouvia alguma
fita de chitãozinho & xororó
ou similares.

a mãe decerto não aprovou
transitar pela rodovia fechada
para trânsito de automotores
que não fossem tratores que
finalizassem a obra
que fizessem o tapete negro
onde depois tantas mães
esposas maridos pais & filhos
chorariam seus mortos.

mas o pai tinha bebido e
devia estar corajoso quando
embicou o velho volks uns
poucos quinhentos metros
e eu vibrava pela proibição
eu vibrava pela aventura
transitar onde nunca antes
transitar como se não fosse
domingo e estivéssemos saindo
de férias a toda velocidade
pela rodovia que ainda não
fora completada terminada
inaugurada.

passamos e sobrevivemos
talvez até tenhamos sorrido
e nem parecia
nem parecia que éramos nós
e que era domingo.
olha, quem sabe se a gente
voltasse um pouco no tempo
talvez? quem sabe se a gente
observasse melhor os contornos
as derrotas as despedidas quem
sabe se a gente voltasse atrás
uns anos semanas e dias e voltasse
imediatamente para algum momento
derradeiro onde pudéssemos fincar
a estaca da permanência e dizer:
é aqui que permaneceremos, é aqui
será sempre e de novo aqui que nos
encontraremos embora passem os 
anos embora nos desfiguremos com
os anos embora os cigarros se molhem
umedecidos por essa garoa incessante
que chove dentro e fora sem rodeios


é preciso ir adiante
é preciso olhar em frente
e tentar obter do futuro
alguma migalha algum
remédio alguma forma de 
dormir cedo acordar cedo
como um relógio de parede
como um cachorro velho

:

sinto falta sinceramente da minha
sinceridade de bêbado aqueles abraços
que eram em mim era eu que me abraçava
e me dizia que te amo, cara, fica sempre perto
te amo, cara, não morre logo
um monólogo durante anos de festejos e
arrependimentos que eram apenas e somente
desespero tristeza e um frio na alma
que se alojou faz muitos anos eu ainda criança

:

amanhã tem lançamento
e embora possa parecer o contrário
ando bem feliz.

13 de fev de 2017

na frente do espelho
há todos os livros 
não escritos

(as palavras engolidas
com pão dormido e goles
d'água)

na pia, um escarro
preguiçoso ainda
dá mostras

de vida. de permanência.
como uma saudade
recordada.

10 de fev de 2017

todo poema é bilíngue
: há a língua de quem o escreve,
há a língua de quem o lê.

todo poema é um
exercício de tradução,
um exercício de querer ver.

todo poema é um código
secreto.

9 de fev de 2017

i.
o viaduto culpa
o cruzamento culpa
a interseção culpa
o semáforo culpa
os escolares culpam
os motoristas culpam
outros motoristas
pelo con tio ment
             ges na o.

ii.
a vendedora de flores
e o vendedor de poemas
o engolidor de fogo
e os malabaristas
o pedinte com fome
e o aleijado agradecem

iii.
a ambulância
a ambulância
a ambulância

iv. 
thereza desliga
o celular
roberto se encara
no espelho
letícia e mário sérgio
não conversam

v.
às 7 horas da manhã
e às 17 
percebe-se que a vida 
para quando a fila
para quando o trânsito
para quando a vida

vi.
choque 
de parachoque
contra poste
de parachoque 
contra pedestre
de parachoque
contra parachoque

vii.
amanhã outra vez.

8 de fev de 2017

nas áreas muito nobres do conhecimento
a química a física a antropologia
a arquitetura a metafísica a engenharia
a política o direito a politologia
a medicina a veterinária a culinária
estudas realmente muito nos livros
nacionais e importados de teóricos
nacionais e importados com teses
nacionais ou importadas

para no fim conversares sozinho.

7 de fev de 2017

de aforismo em frase feita
nos tornamos refrões de uma
canção de mercado aplaudida
de pé por espectadores treina-
dos de programas de auditório
que respondem a um aviso lu-
minoso de letras vermelhas
sobre fundo branco onde se lê
aplausos
aplausos
aplausos

ô drumão,
como terá sido isso de morrer velho
e famoso e não ter podido supor
que um dia esse som ensurdecedor
valeria mais do que a própria poesia.

6 de fev de 2017

o cão metafórico

A Marcelo Pierotti

 Não será a última despedida
- viver é um sempre despedir-se
mas admiro o cão
seus tumores de cão
seu cenho envelhecido
e me pego em perguntas retóricas
com o cão que conhecerá a morte
esta tarde
após uma anestesia e uma injeção
de sono eterno:

- Fomos felizes, não fomos?

O cão não fala.
Meu pai tampouco fala
e o silêncio é sempre espaço
para ilustres suposições.

- Fomos felizes, não fomos?

O que faz brilhar a tarde
é a humildade de uma
lágrima.
certeza, certeza mesmo
não tinha - nem queria.
segundo ele, a vida era
melhor se vivida no susto,

no espanto, os olhos
arregalados de medo
diante do óbvio e do
trivial todas as manhãs.

"assim a gente não cansa
de viver tudo e de novo
todos os dias.

porque viver é acostumar-se
às repetições mais frias",
disse. e já não sorria.
predileção por roubar
escovas de dentes,
saber ali o gosto de saliva
antiga:

"é diferente de beijo",
me dizia, "é mais íntimo
do que lamber sucos
e estrias,

porque nas cerdas
ficam o gosto, o cheiro
e as perebas".

e enquanto lembrava, sorria
lembrando que prefere as
muito duras às ultramacias.
Trazia na pele o verde-viscoso
dos afogados de muitos dias:
o inchaço do corpo,
a revolta das tripas.

Não houve cheia no rio,
não houve enxurrada
que explicasse o acontecido.
"A chuva foi tanta",

dizia. "A chuva foi tanta
que nos afogamos
na umidade relativa".

Sol, sim, sol havia.
Mas era dentro, sobretudo
dentro que chovia.
Que estamos enlouquecendo
já não há novidade senão
que tudo acontece
muito lentamente

: a surdez seletiva
tornou-se escudo
e já não ouvimos
o óbvio, os sussurros

já não ouvimos
quando chamam nosso
nome como terá sido
por aquela mulher, mãe ou não,
com uns olhos repletos
de amor e cuidado

: já não somos
mais que meninos
perdidos num filme de
Spielberg dos anos oitenta

; mesmo que pouco ou
quase nada tenhamos
vivido dos oitenta,
mas que importa?

falta o passo para o salto
final,
falta o passo para fora do
cadafalso,
falta o passo para sair
daqui
e faltam o pés para dar este
passo

: se à noite tememos
ir ao banheiro é por causa
do monstro que vive dentro
dentro do espelho
que surge
violento e certeiro
sempre que
acendemos a luz.

enlouquecemos
pouco a pouco
mais um
pouco já nada
perceberemos
e estas serão
para sempre
indefinidamente
horas iguais.
A pureza simples dos banheiros públicos
nas praças nas rodoviárias nos postos de
gasolina pode ser também interpretada
como falta de higiene ou sorte de quem
precisa ali sentar-se para aliviar as tripas
embora possamos perceber o quanto de
humanidade se esconde sob o chão mija-
do o vaso entupido a porcelana escarrada
tudo isto iluminado por uma luz fria (se
existente ainda) se não pela lâmina que
brilha por entre uma fresta estreita sem-
pre muito mal calculada - a porta não fe-
cha a água não escorre a tampa não levan-
ta a merda não desce e é difícil respirar
uréia e tripas como é difícil trancar a res-
piração por tanto tempo e de repente tu-
do escurece o coração dispara a cabeça
acerta os azulejos avariados e quando te
levantas a camisa suja a calça mijada a
cabeça dolorida pelo odor e pela panca-
da quando te levantas é que percebes
que tudo aquilo poderia ser considerado
um resumo da nossa humanidade do
nosso egoísmo enquanto sujeitos e
enquanto moradores desta cidade
onde não parece que se mija e não
parece que se caga e de tanto que se
mantêm as impurezas dentro é que se
nos vai corroendo a vida nos vai man-
tendo a boca fechada a alma inquieta
a noite desperta o olhar infeliz
o pó no nariz e a cerveja gelada.

A pureza simples dos banheiros públicos
deveria nos dizer muita coisa além do que
está claro ou melhor cagado com o fedor
tão característico e deselegante de seus
recintos mas geralmente não nos diz nada.
Percebam que os olhos-de-gato
podem ser chamados catadióptricos
e talvez até sejam assim nomeados
por especialistas mas por favor
se eu disser que atropelei sete
catadióptricos na rodovia o que
estarei escondendo de mim mesmo
das filhas que não tive da polícia ou
se chegar a este ponto da justiça
se eu simplesmente disser que
atropelei sete catadióptricos na
linha divisória das pistas certa-
mente serei inocentado e talvez
me convença de que não fiz nada
de mais muito além do mal
necessário, porque se fossem
olhos de fato a que donos perten-
ceriam pois sete olhos-de-gato
requerem pelo menos três ou
quatro felinos se nem um dos
três for aleijado e tiver um olho
posto no lugar errado com um ter-
ceiro olho pelo qual em vida tenha
meditado o que não parece ser
muito comum.

catadióptrico
substantivo incomum
que nomeia as luzes
atropeladas
luzes que só fazem luz
quando o carro vai pela
estrada.

de dia
nem um nome tão específico
liberta da vulgaridade
e do esquecimento
as luzinhas que fazem brilhar
os olhos das crianças
em amarelo vermelho
branco quando a luz dos faróis
lhe acerta em cheio no meio
da rodovia.

quem sabe
um nome nos liberte
do peso carregado por anos
dar nomes às coisas
como se o nome
libertasse ou prendesse
mais do que a coisa
a que ele se refere.
existe um limite entre o poema e o diário, a nota confessional, bula de remédio, dor de cotovelo, cólica renal.

ali nesta antessala onde não há (ainda) nem palavras, é ali que normalmente se para - um passo a frente, o desconhecido. um passo a frente e as palavras te tomam de refém, sequestro relâmpago, ninguém mandou o pedido de resgate.

existe um limite entre a vida e a palavra escrita, existe este sol lá fora - e o melanoma que se incendeia na ponta do teu nariz que uma hora pode te incomodar, pode incomodar bastante,

a ponto, quem sabe, de pedires de presente fraldas geriátricas

ou esse câncer se curará com apenas papel e caneta?

é sempre cedo pra se saber por inteiro.
Despertei cedo
como quem se aparta
de um briga.

O dia inteiro pela frente
deve guardar mais insucessos
do que (ainda agora) me acostumo.

Uma semana de férias
ainda para masturbar
autores mortos,

reclamar de abandonos
e desapegos,

tentar vender alguns
livros

e procurar escrever um
poema que não soe como
todos os outros.

tantas voltas (vídeo)


[fragmento]

ponhamos assim: fragmentos. de tudo um pouco ou mais que quase nada, dá na mesma. ontem, antes de ontem, eternamente a mesma angústia durante o pôr do sol, antes que a noite chegue e nos desarme de nossas pretensas defesas. eternamente a insônia e o desespero silencioso quando a manhã anuncia a rotina - e a rotina, precisamos deixar claro, é o primeiro anúncio de uma morte lenta, porque corrosiva.

[fragmentos pra quê?, deveríamos nos perguntar]

anota aí um x na tua testa para que te lembres de que um fragmento é, na verdade, um texto que deveria ir, mas que por preguiça ou arrogância não sairá do lugar.

destas poucas linhas.

deste fim de tarde que mereceria um poema, não tivesse em si a carga pesada deste dia-domingo de sol e pouco vento.
na tua camisa branca
se evidenciam três gotas de
café com leite
[mais leite que café
muito ao contrário do
líquido preto e frio
que te servia ainda asfalto
recém disposto na estrada
e quantos? o tempo de dois
cigarros até que estivesse
no ponto, não te doessem os
lábios, a mesma caneca de
café todos esses anos.

natal passado, uma caneca
nova na promoção do supermercado:
"para um grande homem"
"para um superpai"
que importa o que dizia?
chegará a hora de ser somente
uma caneca fria
sem leite, café ou lábios
- sem nem um sorriso tímido
surgindo dentre estes lábios.

na tua camisa branca
se evidenciavam três gotas dum
café esbranquiçado
o café que te afoga
o câncer que me afoga
em cada abraço não dado
nos anos em que deixei de
comemorar teu aniversário.

crise (vídeo)

poema da rodoviária

"Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir".
Manuel Bandeira

faz três, quatro anos
(aqui dentro, quatrocentos)


trabalho na rodoviária dessa
cidade que nunca é de chegada

onde o sobrenome antecede
a mão estendida

onde as lições de partir não são
nunca lições de partida

todos os dias, a rotina:
"senhores passageiros

com passagens marcadas
para longe, longe daqui".

vejo abraços de reencontro,
ouço choros de despedidas

e permaneço, feito âncora,
na iminência de partir

(sempre na iminência de),
mas ainda âncora

que vento algum - ou enchente -
consegue extirpar da rocha profunda.


Da janela do avião
acompanho sua sombra
avançando sobre os campos
e me imagino menino
correndo para alcançá-la.


[não correria,
menino desajeitado
que sempre correu
com as pernas tortas]

A sombra atravessa
estradas e montanhas
cobertas de mata densa.

[não correria,
menino desajeitado
que sempre caminha
com os pés pra dentro]

A menos que fosse promessa
ou desafio delirante
que trouxesse de volta a visão
aos olhos da menina cega

de andar titubeante
com dois olhos bailarinos
tão azuis como esse céu
que ela não pode enxergar.


é preciso amar com pressa
e viver com calma
ou o contrário
(quem sabe?)


talvez a imagem
não te agrade,
mas enquanto lavava
minhas tripas na pia
junto da louça do
final de semana,
encontrei os tumores
e os traumas
[com sal e limão,
não há melhor
aperitivo].

o que eu queria
mesmo dizer
é que o sol de
segunda cedo
anuncia dias
melhores

ou piores

mas isso dependerá
(como sempre depende)
do lugar na sala
que ocupas
para ter melhor
visão dos fatos
ocorridos.

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...