30 de mar de 2017

estátua adormecida

deitado
o corpo
levemente
inclinado
a perna direita
esticada
a esquerda
flexionada
o tronco torto
a cabeça virada
para o lado
de fora da cama
sobre o travesseiro
sobre o braço direito
esticado através das
grades da cabeceira
(se a parede estiver próxima
as costas da mão pressionam
a parede)
o braço direito flexionado
como se aplicasse uma chave
no travesseiro ou
no vazio.

durmo igual meu pai.

a descendência se assume
por caminhos desconhecidos.

27 de mar de 2017

se estas letras fossem para um 
poema aquele momento específico
em que descobrimos asunción
num quarto sem refrigeração

se estas frases tivessem sido pensadas
durante a noite em claro e não
durante a caminhada ao trabalho
nesta manhã de névoa e solidão

se cada assinatura minha 
fosse na dedicatória a um amigo
e não preenchendo processos

se o fim de mês nos desse mostras
de que o futuro. se o fim de mês
nos desse mostras, não tropeços. 

24 de mar de 2017

a mesa devidamente
organizada

processos devidamente
protocolados

a felicidade vem em forma
de uma caixa de grampos
novos
ou de canetas de ponta fina

é assim que se começa
a morrer.

19 de mar de 2017

Hoje senti de novo aquele conforto barulhento de depois do almoço quando a casa finalmente silencia, até os cachorros, e os móveis repousam um ao lado do outro no mais completo silêncio. Houve um tempo - naquele tempo de xis salada do Jacaré, que não era longe de casa e o pai nos levava de Variant verde-abacate, porque era sábado à noite. Eu dizia: houve um tempo em que a coca-cola de um livro servia cinco pessoas - era possível - e depois do almoço nos amontoávamos os três na chamada sala de tv [uma garagem reformada] para assistir McGyver e outras besteiras enlatadas. E é desse tempo o conforto.

A vida ainda era quase nada.

Então que chovia uma chuva fina, rala, e o frio apareceu de repente para mostrar que o que vem pela frente será em diferentes escalas de cinza. Frio que não dói nos ossos, ainda não, mas provoca um leve incômodo nos joelhos carcomidos e um frio na barriga, na altura do umbigo, decerto por ter comido a comida preparada por minha mãe. Ela me disse: "uma mãe sempre cozinha com amor para seu filho".

O pai voltou a fumar mesmo o câncer lhe ferindo a boca, o pulmão e os sentidos. Ri e comentei que um Hilton longo demora muito mais pra terminar e que sim, faz sentido, pensei, voltar a sentir prazeres enquanto ainda se tem tempo. Eu com meu café observava o cinza do vale, sentia aquele silêncio, a sala vazia quase até de mim.

Eu olhava pra trás com alegria e constatei que nada, lá atrás não tinha nada.

Hoje não tem nada também.

Viver é acostumar-se a somar zeros.

17 de mar de 2017

a atendente do laboratório
de análises clínicas que parece
britânica - eu pensando que vida
interessante deve ter aos finais

de semana quando não está
pedindo o documento de identidade
o cartão sus a solicitação do exame
quando não está me perguntando se

passei 12 horas em jejum.

o casal de idosos que vem protocolar
recurso de multa e a senhora me diz
que ele entrou na contramão porque
ela não estava junto enquanto sorrio

e penso que bonito sem ela perto ele
se perde e meu sorriso se constrange
quando ela me fala do diagnóstico
de alzheimer que felizmente ainda não

passou do estágio 2.

o alarme que dispara às 7 às 7:15
às 7:25 mas estou acordado desde
as 6 e continuo deitado no chão do
sexto andar buscando motivos para

descer ao térreo sacar as chaves
buscar cigarros nos bolsos acender
o isqueiro vermelho tragar a fumaça
sagrada e tossir com arrependimento

porque já passa da hora.










10 de mar de 2017

agora que ficou cinza
a gente finalmente esquece
um pouco do calor esquece
um pouco do terror das 3 da 
tarde ou das 8 da noite 
finalmente vem um vento fresco
e úmido para nos colar na alma
e de agora em diante já que o
outono é a porta para o inverno
finalmente a gente espera passar
os dias entre lâmpadas frias
a lâmpada do ônibus as lâmpadas
da repartição de novo ônibus
em fim de tarde e as lâmpadas
do apartamento nos fazendo 
recordar que há luz no sexto
andar há luz sempre que se 
apertar o interruptor
embora não haja luz no fim
do túnel e decerto não haja
luz no fim do inverno.

agora que ficou cinza 
a gente espera o azul do inverno
nos colar o frio nos ossos
rachar a pele rachar os lábios
e trazer todas aquelas recordações
de invernos de antes de frios antigos
algo que nos esquente que não seja
conhaque e que seja quente como
o fogo.

todo outono nos reverá
o que de pior trazemos
o que de melhor trazemos
isso que somos nós mesmos
e que não passa nunca.

8 de mar de 2017

carminha nasceu de tereza
em 1950.
tereza faleceu logo depois.

alfredo nasceu de ida
em 1951.
ida faleceu de câncer.

ninguém recorda o nome
da mãe de ida
ou da mãe de tereza.

talvez ninguém saiba
nunca o nome da primeira mulher
a mulher primeira
mulher ancestral

mas o nome que lhe daremos
: vida
: luta
: natureza
: resistência

talvez apenas resuma
talvez apenas reflita
a herança que nos cabe
a todos nós homens
devedores das mulheres.




epitáfio
(ditado por luiza)

marcelo era uma cara
que fumava uma carteira
de cigarros por dia,
(mas)
quando nervoso
fumava até mais.

2 de mar de 2017

aqui não é brasil
a não ser pelo calor
pela umidade e pelos
mosquitos.

aqui não é brasil
- veja a arquitetura
a pele clara, os
olhos azuis, verdes
(às vezes um de cada
cor por complicações
genéticas) -
a não ser pela
fome.

aqui não é brasil
- praças verdes,
rios caudalosos,
montes nevados -
a não ser pelas tramoias,
pelas falcatruas.

aqui não é brasil
e por isso se sonegam
tantos impostos;
ninguém quer pagar
ao país que não
pertence.

não é brasil
pela ética protestante,
pelo conservadorismo
católico,
pelo evangelismo
que cala, consente
e elege políticos
sem passado, mas
com jesus no coração.

aqui não é brasil
e se vê pelo tanto que
se trabalha.
enquanto o país samba,
o sul trabalha. nos quatro
dias de carnaval, o sul
trabalha.
(e se ousar dizer que
nos 20 dias da festa étnica
não se trabalha, dizemos:
vamos trabalhar bêbados
e de ressaca,
vamos trabalhar ofendidas
e abusadas,
vamos trabalhar porque o
trabalho nos identifica
mais do que nos mata).

aqui não é brasil
definitivamente.
aqui se pretende
ser europa
- sem poder sê-lo,
aqui se imita todo tempo
o estrangeiro
e se nega que se habita
a própria casa.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...