27 de mai de 2009

Três poemas metalingüísticos.

LAMPEJO #10

A gente escreve,
escreve,
e faz chegar a tantos lugares.
Mas quem escreve
tem sempre ali
a bunda sentada
na cadeira.


LAMPEJO #11

Abres teu livro:
suspiras, sorris,
não sei.
Depois outro,
depois outro.
E um dia te crês
personagem capaz de
aventuras!

Ao apito do relógio,
sentes a máquina dos dias.


LAMPEJO #12

— Eu teria escrito isso.
— Assim tão bem?
— Muito melhor, imagino.
— E por que não escreve, então?
— Preguiça filha da puta.

25 de mai de 2009

Três poemas hospitalares.

LAMPEJO #07

O hospital inteiro na minha frente,
monumental.
Janelas.
Onde é a UTI? Janelas tristes.
E o Centro Cirúrgico? Janelas tristes.
Onde que morre mais gente?
Pensando, pensando
até concluir que ali, aos poucos,
como eu, esperando
o tempo passar,
esperando o cigarro acabar.
Esperando.


LAMPEJO #08

— E o que ele disse?
— Que não era nada.
— Eu achava que era coração.
— Coração?
— É, coração.
— Partido?
— Não. Ingênuo mesmo.


LAMPEJO #09

— Não dá. Tá perdido. Desenganado mesmo.
— Falou alguma coisa?
— Não quer ver ninguém.
— Esse filho da puta. Que pelo menos deixe avisado que me deve.

13 de mai de 2009

Três poemas para a quarta-feira.

LAMPEJO #04

De tanta saudade
que sentia,
até parecia que
se tinham amado
pelo menos
por um dia.


LAMPEJO #05

Um cigarro,
mais um,
mais um outro:
só mesmo fumaça
pra entreter
quando o tempo
não passa.


LAMPEJO #06

Não dormia
sem perder algum tempo
exercitando-se diante
da ousada fotografia.

8 de mai de 2009

Três poemas para a sexta-feira.

Chamarei-os lampejos, porque foi como aconteceram.

LAMPEJO #01

E é assim, maninha:
a gente pensa numa
coisa bem triste
e outra, muito bonita
— sem sequer se ter
pensado nela —
aparece.


LAMPEJO #02

Olhar-se no espelho
e pensar:
“Taí, boas lembranças”.
E achar que o trapo
agarrado a elas nem
é tão trapo assim:
renderia num brechó.


LAMPEJO #03

Um roquezinho
no café,
um roquezinho
no almoço;
(pra dormir bem,
só o som do telefone).

4 de mai de 2009

Sobre fatos.

I

Vai o sujeito andando pela rua. É um rapaz de bom-humor. Deve ter saído da casa de um amigo, do apartamento da namorada. De qualquer forma, vem tendo um dia bom, pois anda olhando firme e a passos largos, como é normal das pessoas confiantes e bem-humoradas. Teve um dia bom, porque seu humor está aguçado e sente-se a si uma pessoa boa, tem ares de carismático. Caminha para casa por ruas paralelas à grande marginal: é início de outono, apesar do calor sufocante, fora do comum, e a essa hora (batem dezessete horas nos sinos de alguma igreja dali de perto) a luz é engraçada por essas ruelas. Bate, mas não bate. Luz preguiçosa de outono, como é em todos os cantos que beiram o Trópico de Capricórnio. Vai andando e percebe, encostado à calçada, um carro conhecido. O rapaz de bom-humor, não se pode esquecer dele.


II

O carro pára no sinal vermelho. O sujeito conversa com a esposa ou cliente no telefone celular. Nem percebe quando é aberta a porta do seu carro. Ao seu lado, um homem que não consegue identificar como é: não o enxerga. Sente somente algo que cutuca sua barriga, do lado direito, logo abaixo das costelas e uma voz que diz impaciente: “Vai, vai, vai!!!”, e o sujeito anda, assim que o sinal abre. Nem devagar nem rápido. Suas pernas tremem. A essa altura, o homem já lhe tirou o celular das mãos e o pôs na pochete que traz na cintura. O homem perto de casa — mais cinco ruas adiante, dobra à esquerda que vai dar num bairro tranqüilo, nem centro nem bairro, perto do banco, do hospital e da padaria, mas longe do barulho. Com o raciocínio difícil de quem encara um situação difícil, o sujeito pensa que não poderia chegar em casa com o homem a seu lado: estupraria sua esposa e sua filha, torturaria o filho mais velho, quebraria os móveis de design italiano e sujaria o tapete persa novinho, comprado em liquidação. Duas quadras antes de casa, o sujeito pára o carro a pedido do homem que lhe havia seqüestrado. O homem lhe pede o relógio e a carteira, que ele entrega com dificuldade. Só não lhe pede a arma porque não sabe que há uma arma debaixo do banco do motorista. Se soubesse, talvez nunca tivesse entrado nesse carro, mas em outro, com pessoas desprotegidas. Pois que, falando em arma, agora o sujeito motorista lembra dessa. Sabe que consegue pegá-la, já que fez este exercício pelo menos uma centena de vezes, mas não tem coragem. Sabe que conseguiria dobrar o assaltante e meter-lhe uns tiros na fuça, mas não tem coragem. Por poucos não urina nas calças: lembra do banco de couro. O homem assaltante deixa o carro e diz para o sujeito motorista não fazer qualquer movimento com o veículo, que ele volta correndo e lhe tira ainda o carro e a vida. O sujeito motorista obedece. Fica ainda um tempo esperando depois que o homem some do reflexo de seu retrovisor. Engata a primeira — as pernas tremendo — e acelera pela rua paralela à marginal. Chora. Chora como uma criança, e não é senão por isso que ele não consegue mais dirigir. Pára o carro. Agora mais perto de casa. Pára o carro sobre a calçada, na diagonal, como alguém que quisesse estacionar e estancou no meio da manobra. Chora ainda, mas menos. Agora pega a arma. Pega e põe de volta umas vezes, para lembrar do que deveria ter lembrado na hora do assalto. O que não é um homem com o orgulho ferido. Segura firme a arma. Pensa que deve ir atrás do seu algoz, o maldito filhadaputa que lhe fez quase cagar-se de medo. Este que paga os impostos, que paga um bom colégio para seus filhos, que nunca fez mal a ninguém. Enche-se de hombridade, engatilha a arma, vê que consegue segurá-la com firmeza. Mais uma crise de choro, agora encenando o ridículo do orgulho ferido, ele que era a vítima que não tinha quem o desse a mão. A cabeça pendendo contra o peito, o peito pendendo contra o volante, a arma segurada com as duas mãos entre as pernas entreabertas.


III

Vem o sujeito-moço, andando bem-humorado por causa do entardecer de outono e, longe, percebe o carro conhecido. De bom humor e seguro de si, já cumprimentou quatro pessoas desconhecidas pelo caminho de volta de onde estava e só não recebeu o cumprimento de volta de um homem, o último com quem cruzara, que lhe encarou com raiva de gente medrosa. Vê o carro parado, reconhece a placa, diminui o passo. Dentro dele, um homem sentado meio de lado e com a cabeça baixa. Vê, pelo lado esquerdo, que o vidro do lado direito, o vidro do motorista, está aberto. Inclina-se para frente e caminha a passos leves, como que para evitar ser percebido. Quando chega ao lado da janela, levanta-se e grita sorrindo: “Pai!”, enquanto que o homem sentado dentro do carro, com uma arma engatilhada e as mãos firmes que a seguram, sem tempo para pensar, medir, equacionar, despeja-lhe o carrossel de cinco balas. No rosto.

Em 10 de agosto de 2008.

será fim de tarde daqui a pouco e veremos os suicidas fazendo fila em cima da ponte do tamarindo para decidir quem pula e quem não levi...