5 de out de 2016

Parado como a fronte do lago
antes que a criança atire a pedra
e forme ondas ondas ondas

Parado completamente parado
como de susto com cachorro brabo
como os doentes em coma

Parado como um porta-retratos
de alguém que já não se lembra
mas ocupa espaço na sala

Parado como as mãos
como a respiração os olhos
como o coração do morto.

3 de out de 2016

Exatamente como os móveis
e aquela lembrança muito antiga
sobre a estante da sala:
se não mexer, não se vê a poeira
em volta.

Exatamente como nós, um dia
daqui muito anos:
se não mexer, ninguém verá a
poeira em volta.

E já que ninguém vai limpar,
melhor deixar assim mesmo.
Adiante
o dia exige contratos e promessas.

Adiante
os quatro elementos
(suor, sangue, porra e merda)
são discutidos para que se eleja
qual deles o mais importante.

(Ali atrás daquele morro
fica a infância,
mais um pouco e verás um
cemitério onde os mortos
conversam em alemão dialetal.

É preciso nunca voltar lá.)

Pois que adiante,
um pouco mais,
uma lagoa estoura e leva
consigo um bairro inteiro.

Mais adiante e já é
janeiro.

Quem de nós morrerá primeiro?
Quem será?
Fazem tudo que podem
para comprar automóveis
e não perder a fila das
seis da tarde.

A baixa do cigarro foi
mais comemorada que o
lançamento de antologias
reeditadas de poetas
mortos por cirrose.

Se é golpe ou não,
quem ainda se lembra
dos desconhecidos enterrados
na vala comum de Perus?

A propósito,
a cinza das horas, naquela canção
de Calcanhoto, é o nome do primeiro
livro de Bandeira, no ano em que
a Rússia fervia,

mas nenhuma relação
entre estes fatos é possível
quando a madrugada
se anuncia novamente território
ocupado

- e os refugiados,
não se sabe onde é que se vão
instalar.
Aos poetas da Academia
estão garantidos ingressos
para os shows de compositores
muito velhos que há muito
não apresentam músicas novas.

Aos cantores de canções
muito antigas estão garantidas
as entradas para talk shows de
apresentadores empoeirados,
autores de best-sellers
e pilotos de kart aos domingos.

Aos atores de décadas atrás
se garantem releituras de Shakespeare
encenadas por crianças muito novas,
mas muito bem treinadas.

Em casa, a arte se varre
de sobre a mesa da sala
de jantar para
servir o húmus abobalhado
da folhagem artificial.

...enquanto os livros na estante
soam derrubados por clichês
de apresentadores de auditório,
paquitas e chacretes e atrizes pornô
são chicoteadas, numa jogada cenográfica,
por um playboy perverso
que nunca descalça o sapatênis.
De uma pequenas lista de prazeres cotidianos
tão pequena que só aparece um
o de chegar em casa, abrir a porta
do prédio, subir o lance de escadas e não
encontrar ali o elevador parado, as portas abertas
me dizendo "vem, vamos subir, vamos pra casa,
vem descansar, tomar um banho, bater punheta,
comer salgado descongelado, fumar cigarro na
janela, acender incenso de rosas vermelhas,
dormir cedo pra acordar cedo e ir trabalhar,
como todos os dias".

Onde o prazer habita? Em chegar em casa,
subir o lance de escadas e não encontrar
ali o elevador parado, as portas abertas,
as frases de sempre que ele sempre me diz
do primeiro ao sexto andar.

Abro a porta, subo o lance de escadas
e se o elevador não está, aperto o botão [do foda-se
afinal não escalar seis andares a pé]
e tenho, sei lá, 15 segundos para encontrar no molho de
chaves a chave certa, a que abre
a caixa de correspondências [todos os dias
a chave errada e se a chave certa, o lado errado
da chave, como uma auto-sabotagem
como necessidade de prolongar esse momento
enquanto o elevador vem descendo]
e eu procuro a chave dentre as chaves
para abrir a caixa de correspondências
na esperança vã de encontrar ali uma carta
que traga novidades, que traga notícias tuas
notícias deles, nossas notícias de anos atrás
onde estaremos daqui uns anos
esperando uma carta apenas, ou um livro
dedicado, enviado de muito longe
com promessas de reencontro, com promessas
de leituras, de poesia para além da vida.

Então todos os dias eu entro em casa
[depois da primeira porta e do primeiro lance
de escadas] e se o elevador não está
aperto o botão e procuro a chave da caixa
de correspondência
(um prazer inominável, aqui, um prazer grande pra caralho!)
e se me deparo com a conta de luz, com o aluguel
com o condomínio, com a conta de internet
penso que tudo bem, vamos pagar as contas
e ouvir o que diz o elevador nesses seis andares
de encontro e conversa,
mas amanhã a mesma coisa
abrir a porta, subir o lance de escadas e
se o elevador não estiver, procurar dentre as chaves
a chave que abre a caixa de correspondências
onde poderia haver uma carta, mas nunca há.
Aceitemos nossa pequenez disposta no eterno terror de estarmos diante de tudo isto: o futuro, o amor, a morte e as consequências de seres homem e acordares todos os dias de manhã para seres esposo, noivo, amante, filho e depósito virtual de trivialidades e coisas pequenas, confissões e promessas, glórias e apuros - por que não lágrimas? Se aceitas, não fica mais fácil, nem mais leve, é certo - mas podes conseguir pagar no cartão de crédito aquela viagem que prometes a tua amada para a tão sonhada lua-de-mel.
Só agora foi que me dei conta
que a boca torta de Noel Rosa
não pode ser comparada àquele
espaço somente encontrado
entre os dentes separados de Elton John

- o branco negrificado
inglês colonizado
em cujo espaço entre os dentes
caberia o cadáver acidentado de Lady Di
os cadáveres injustiçados das Malvinas
a menina negra de Segredos e Mentiras
que Mike Leigh talvez tivesse querido
ter encontrado entre as gôndolas de uma
videolocadora num domingo cinza como este,
exatamente como este,
quando o cinza do céu não hesita
tocar as antenas, o Morro da Cruz,
o chão,
não hesita tocar a gente dentro
até os ossos
e provocar esse desconforto
que poderia ser solidão
mas não se trata disso agora.

Por isso digo que a boca torta
de Noel Rosa significaria muito mais
a dor de mastigar e engolir
um pedaço de carne mal passada
ou recitar um poema de Piñero
ou silabar Carmina Burana
desde que soubesse latim
e não estivesse muito preocupado
com fevereiro ou a hora do trem,
se não passasse ou se atrasasse

(a mãe de Noel, a mãe de Waters?)

Sir Elton John que nos perdoe
um poema tão ligeiro sobre
seus dentes separados e outras divagações,
mas acontece que hoje é domingo
logo faço aniversário
e o cinza deste dia está parado,
terrivelmente pesado.

Da casa da infância restaram

a televisão telefunken colorida
que criava horror sempre que anunciava
imagens do Exorcista, esverdeadas
a voz de penumbra que anunciava
"pela primeira vez na televisão";

o carpete verde-desbotado
logo substituído por um marrom-quase-gasto
colado imediatamente em cima do anterior;

poeira nos móveis
óleo de peroba
dedo na tomada
cheiro de asfalto;

num disco trilha sonora de Amadeus
a faixa mais emocionante
mesmo até que a Flauta Mágica
era sem dúvida traição
do medíocre Salieri, pobre Wolfgang
morreu de remorso e tosse
mas ainda me emocionava
(como até hoje, confesso)
e posso dizer que da infância
restaram o carpete verde,
Mozart e Salieri
que seria dizer epifania e traição
culpa e adoração
italiano e alemão
e pra tudo isso meu reverberante
foda-se.

E, claro, as árvores cortadas
ameixeira
amoreira
goiabeira
palmiteiro
acerola
e o ipê amarelo
que de tão triste essa história
não vale a pena
agora
recordar.
Ponhamos em termos compostos
cada um dos nossos desgostos
até aqui.

Com direito a artigos científicos,
matérias na imprensa especializada
e croquis.

Esboços artísticos serão bem vindos,
sobretudo se forem reflexo
do que não costuma refletir:
espelho sem aço,
vida em pedaços,
correr pra fugir.

Então os zoológicos serão fechados,
os relógios serão parados
e as rodovias serão horizontes
em que rodaremos sonhos
verde-púrpura-amarelados.

O reclame passa a valer a partir da data
de sua publicação do Diário Oficial.
desescreveu-se
poematou-se
redefiniria-se
se simples fosse
A enfermeira fala
como se nos soubesse
ou nos tivesse conhecido:
"Tão tranquilo o teu pai,
deve ter sido um homem feliz".
Se ela soubesse dos arroubos,
se imaginasse com que fugas
nos entre(tivemos)
- o mundo sempre aconteceu
muito rapidamente diante
dos teus olhos azuis -
se supusesse que o
silêncio de fora cala
dentro tempestades
- e que o silêncio
é o poema mais bonito
e triste que se pode
escrever,
se ela compreendesse
tudo isso, pai,
chamaria a moça
pra ver como parece
aurora essa cor
que faz o suco de mamão
e a sopa líquida
misturados no fundo
do vaso sanitário.
O reflexo da televisão
desenha nas paredes
um quarto colorido-infantil.

Nesta cama,
meu pai deita de lado
como eu-criança,
como ainda hoje
(a maneira certa de dormir).

A noite em claro
observando-lhe
as feridas;
seus olhos que
miram o teto
em silêncio
e gritam
analgesia ou morte!

Se governasse um país,
seria este seu grito
de independência.

Mas enquanto
governa apenas seu corpo,
aguardamos a celebrada
dose de dipirona
que costuma ser servida
perto das duas da manhã.
nunca presto atenção
quando me interpelam
olhos nos olhos
conversa série e definitiva
todos meus erros ensaiados

faço que sim com a cabeça
muito provavelmente pensando
que mereço um café
uma pausa para o cigarro

(interdições
implosões
e acidentes de carro

penso
enquanto busco
o isqueiro
no bolso)

esqueci o isqueiro
faço que sim com a cabeça

sim
exatamente sim
para sempre
(o dilema acerto e erro)

vinte e cinco
ou cinquenta centavos
é quanto custa
uma caixa de fósforos,

mas dependendo
o dia
e a umidade relativa,
podem chegar a cobrar
hum real.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...