27 de mar de 2009

(Silêncio).

— E quanto a nós?
— É isso, horas.
— Isso, só?
— Depende. Pode ser muito, até.

(Silêncio)

— Falo de amor, sabe?
— Amor é muito grande pra isso.
— Pra isso?
— É, pra gente.

(Silêncio)

— Mas tu está apaixonado, pelo menos?
— Não.
— E sexo sem paixão, o que é?
— É isso que acabamos de fazer.
— Seu cretino.

(Silêncio)

— Não entendo. Não me ama nem está apaixonado. Duvido.
— Não te amo e paixão não existe.
— Como assim? Claro que existe. As pessoas se apaixonam.
— Paixão é uma forma irresponsável de estar junto. Pra não dizer que ama, porque não pode ou não consegue, porque soa sério, se diz que está apaixonado. É uma forma de enganar e ser enganado sem precisar assumir isso.
— Isso?
— Isso de ser enganado.
— Não se fica junto de verdade sem amar, tu quer dizer?
— Sim.
— E por que a gente está junto?
— Desde quando?

(Silêncio)

— E quanto ao amor?
— Não sei.
— Não sabe o quê?
— Se existe.
— E se eu te provar.
— Não consegue.
— E se tentar?
— Não precisa.
— Vou embora.
— Fecha a porta, por favor.

(Silêncio).

24 de mar de 2009

Desberto.

Desberto mora num casebre construído na beira de um barranco onde perto passa um rio longe de todo e qualquer conforto urbano. Ele mais as crianças, sete, a mulher, vez por outra um primo que vem do sítio procurar emprego, acaba ficando, bebe a pinga do Desberto e vai embora sem porra de emprego nenhum e deixa o homem enciumado.

Desberto trabalha na obra, porque disseram que pagava bem. Pobre coitado, carrega cimento pra cima e pra baixo, levanta ferro na corda, empunha com sacrifício a tora do alicerce. Da obra, só ganhou calo na mão e pele morena do sol. Oito anos de moreno de sol.

Desberto tem os filhos, a mulher, um passarinho pego na armadilha e um cachorro pulguento. Não tem máquina de lavar nem televisão. Tem ali um rádio a pilha onde houve rádio AM no domingo de manhã.

Nada espera do mundo, o Desberto. Rico nunca vai ser, bonito nunca foi, homem só sabe que é porque tem mulher e ela emprenha vez atrás de outra. Desberto espera, na segunda-feira, que chegue logo o sábado, que chegue logo o domingo. De repente, um vizinho mata um porco e trás pra ele, pro Desberto, um pouco de morcilha, uns pedaços pro feijão.

Nem ler, nem escrever, mal contar. Alegria sem sorriso, porque pouco dente na boca e alguma vergonha do vazio na boca aberta. Tristeza misturada com raiva do velho lazarento que lhe arrebentava a cara quando era moleque. Não chamava de pai, chamava de lazarento mesmo.

Mas um carinho da esposa. Carinho cheirando a cloro da mão da Maria faxineira que limpava casa de rico quinze dias por semana. Carinho tímido do filho mais velho que tem vergonha do pai Desberto porque tem esse nome e porque não tem nada no seu nome, só esse filho mais velho mais seis.

Não se pode dizer, no entanto, que Desberto é um homem infeliz. Não sabe o que é ser feliz, isso sim. Aliás, não sabia. Quando soube, era tarde.

Desceu do ônibus, era escuro. Era escurecendo. Viu longe, vindo do morro, nuvem de fumaça. Nem deu atenção. O vizinho ia mesmo queimar lixo lenha matagal. Foi chegando perto, ninguém na rua, um outro correndo morro acima, direção da moradia do Desberto.

Chegou perto, viu a cena: o casebre labareda alta o fogo comendo a madeira e o papelão. Perguntou se a mulher estava, disseram que sim. Perguntou dos filhos, também estavam. Do cão não perguntou, nem do passarinho: certamente que estariam.

Lembrou do velho lazarento lhe esbofeteando a boca, a cabeça, a barriga. Lembrou da promessa da obra, do dinheiro da obra que nunca veio, do dinheiro que nunca veio nem nunca virá pra gente como Desberto. Pensou na mulher, no cheiro de cloro na mão da mulher e soluçou. Tentou lembrar dos nomes dos filhos, não sabia de cor. Sua família.

Um passarinho que cantava e já não canta, virou cinza. Um cão amigo que não late nunca mais. Desberto morto, não sabiam o que ia fazer, pensaram que ia chegar perto, chorar perto do fogo, tentar salvar uma madeira, uma mesa, um colchão. Desberto no meio do fogo sem gritar, sem chorar e sem sorrir. Apenas no meio do fogo, queimando rapidamente a lentidão da chama que lhe abrasava a vida sem nenhuma pressa.

22 de mar de 2009

Seu nome: Jorge.

Fazia muito tempo que o Jorge tinha decidido passar a corda no pescoço e pular da cadeira. Compartilhou sua certeza de que não valia a pena com a psicóloga, que armou pra ele: contatou a família e prescreveu seis semanas na clínica. Buscaram Jorge em casa e ele nem se alterou. “Camisa de força?”, perguntava sorrindo, “não será necessário”. Entrou na ambulância com a certeza de que jogaria o jogo deles pelo tempo que fosse necessário.

Ao sair da clínica, tudo meio nebuloso por causa dos remédios, decidiu que ficaria quieto, não provocaria e não daria a eles conta de suas insatisfações, de sua visão pessimista da vida, da sua e da deles. Voltou a ter com a psicóloga, de quem ouvia conselhos e que parecia não ouvir o que Jorge realmente dizia, porque mentia, claro está, e ninguém se dava conta do tamanho do embrulho de presente com que Jorge abraçava sua vida.

Foi ter com o padre. Talvez que a Igreja desse conta do vazio que o atingia em cheio, da boca ao ânus. Do senhor asséptico que lhe falava, Jorge anotou considerações importantes: uma família, uma casa melhor, um carro melhor, um emprego que deixe para os filhos um pouco de si, um futuro, se não brilhante, ao menos promissor.

E Jorge foi a fundo perseguindo suas novas metas. Sua seriedade enganava: ninguém percebia que Jorge nunca sorria. Até que alguém notou: “Olha, o Jorge não sorri”. A resposta, direta e seca: “Quem tem objetivos não perde tempo a mostrar os dentes”. A resposta coube, porque nunca mais perguntaram a respeito. E nunca mais alguém se incomodou com o fato de Jorge alcançar seus sucessos e, nem por isso, parecer uma pessoa feliz.

Fez tudo direito: encontrou uma esposa, fez três filhos nela. Formou-se, finalmente, na universidade. Abrira sua própria empresa há poucos dois anos e já era líder no seu segmento. Mesmo sem sorrir, Jorge conseguiu o respeito da família, dos amigos, do padre e da terapeuta. E de sua família: ali estavam as três crias, eram a sua cara, e talvez que não compartilhassem com o pai o sofrimento surdo que o fazia emudecer, no meio da manhã, pensando no silêncio que não se encontra por estes mundos de cá.

Tivesse acontecido dez anos atrás, talvez que seus pais sofreriam por muito tempo a perda bruta de quem morre porque quer morrer. As vizinhas, conselheiras da vida alheia, escreveriam teorias de crochet sobre a vidinha do Jorge: faltou amor de pai, faltou amor de mãe, faltou Jesus no coração, sobra revolta nessa juventude louca.

Tivesse acontecido dez anos atrás, não sentiriam tanto a sua falta. Em volta do corpo flácido, sustentado por uma cabeça desfigurada e oca, cartas calmamente escritas a seus destinatários. Para a esposa, para cada um de seus filhos, para o pai, para a mãe, para cada um dos irmãos, para um e outro amigo, para o padre, para a terapeuta.

Todos chocados, visivelmente chocados, devem ter entendido, cada um à sua maneira, que adiar
o inevitável é somente motivo para sofrer por mais tempo, por mais dez anos, como sofrera o Jorge. Devem ter entendido, sem dúvida, porque daquele dia em diante, nunca mais se falou uma palavra a respeito. Um orgulho indecente fazia com que se calassem cada vez que fossem pronunciar o seu nome: Jorge.

8 de mar de 2009

Poeminha.

Fotografia é a arte de guardar memórias desenhadas em papel.

Nostalgia: saber-se um porta-retratos.

5 de mar de 2009

Boletim de Ocorrência.

Antônio dormia profundamente. Muito profundamente.

Dona Vera chama uma vez, duas vezes, o Antônio nada de responder. Chama de novo. Cutuca, belisca, sacode; o Antônio dormindo. Dona Vera vai pra cozinha preparar o almoço, o esposo deitado na rede, dormindo profundamente. Põe o arroz a cozinhar, frita uma bisteca gorda, corta direitinho a salada. E chora. Dona Vera sabe que Seu Antônio já não vai bem, que ela própria não vai bem e que chega o dia de cada um.

Não tem coragem de chamá-lo pra almoçar. Põe, catolicamente, os dois pratos na pequena mesa, humilde. Arruma os talheres, os guardanapos. Vê-se espelhada na panela de inox: as rugas, os cabelos ralos, brancos, as mãos que tremem pela idade e pelo Antônio, que dorme.
Termina o almocinho triste e vai acordar o Antônio. Chama, chama de novo, fala mais alto, grita desesperada: “Antônio, meu Antônio morto, meu amor Antônio, Antônio meu de meu Deus!” O velho inerte. Verinha ao lado dele: o coração parado enquanto as lágrimas não se paravam de rolar.

***
Luiz é motorista de funerária. Não gosta de trabalhar em domingo, detesta trabalhar à noite. Ali atrás, o carregamento (chama de carregamento, não quer ter outro contato com o que leva, e ele mesmo disse: só carrego, não ponho a mão). Domingo, as ruas vazias. A rua escura ilumina-se quando Luiz, motorista experiente, mete noventa na Amadeu da Luz. À sua frente, um carro atravessado que Luiz não teve tempo de identificar qual era.
Para quem viu, um susto: ferro retorcido, vidro estilhaçado, sangue na cara de um e de outro. Ninguém reparou na calçada. Lá longe, o que parecia um embrulho, uns dois sacos de linhagem, atordoou quem passava. Na verdade, aquele montinho de pele e ossos queria se fazer notar. Quando se soube do que se tratava, teve gente que correu, teve gente que fugiu.
***
Um rastro de flores. Cheiro intenso de crisântemo e cravo. Madeira espalhada aqui e ali. A surpresa: sobre a calçada, metros adiante, dois corpos flácidos, deitados como dormindo, jogados como num gozo e abraçados como pra sempre.

Ali, mais adiante, Seu Antônio abraçava Dona Verinha. E Dona Verinha, que morreu de amor, era toda do abraço dele. Não virou notícia, não quiseram fotografar.
Mas eu sei, porque eu vi. De alguma forma, estava lá. Sorrindo.

3 de mar de 2009

Título.

Penso que eu deveria viajar de verdade. Penso também que eu deveria mudar de hábitos, de companhias e de vida. Mudar mesmo: acordar borboleta amanhã, depois de amanhã lagarta e no terceiro dia subir ao céu como outro bicho que eu deixarei pra pensar depois. Também deveria parar de fumar. O problema não é cuspir sangue, definitivamente, mas o desconforto de ter de escarrar quando menos convém a qualquer uma das partes, a eles e a mim. Se alguém acha que me importo em causar-lhes desconforto, respondo-lhes que há muito tempo não conheço um colchão de espuma. Foi quando decidi – vontade própria, eu insisto – dormir sobre os pregos que não me importei mais com o mal que eu pudesse lhes causar. Desde então estamos bem delimitados: eles terminam onde eu os atravesso e versa, sem vice nem nada.

Aos poucos descobri que os fantasmas não existem. E bem se poderá dizer que essa conclusão é comum a todos os que abandonaram a fé cristã e se entregaram ao entretenimento simples do dia-a-dia: acordar, trabalhar, jantar, trepar e dormir. Não está mais na moda assistir à televisão depois da janta. Apenas sinto uma pequena culpa por dormir assistindo a filmes que as pessoas cultas assistem, mas eu tenho que trabalhar, me perdoem.

Pelo menos agora eu consigo evitar as pessoas que não suporto por perto. Aprendi a nobre tarefa de agüentá-las a fim de espantá-las: fico quieto, acendo um cigarro e suspiro umas duas ou três vezes. Só levanto os olhos do chão quando sinto que estou sozinho e se não me presenteio com uma nobre gargalhada é porque rio alto e não cairia bem se fosse desvendada a minha técnica de camuflagem: visto minha roupa de paisagem urbana bem comum e logo sou esquecido.

Mas eu não me esqueço. Decidi que nunca mais me perder por aí. É sempre uma tarefa cansativa, porque burocrática, encontrar-me. Do boletim de ocorrências às constantes visitas aos Achados e Perdidos da cidade, o que poderia ser rápido, fácil e simples (poderiam me expor por onde passa meu ônibus, por exemplo, pois cada um tem mesmo a cara do itinerário que segue para ir pra casa, cada um tem o cheiro do seu bairro) acaba por tornar-se árduo e quase sempre triste. Se nunca desisti, é porque me preciso, de verdade. Se assim já é difícil passar os dias e não chamar a atenção dos transeuntes, penso como seria chamativo se eu não me tivesse. Diriam “Olha lá, vai sem si” e ririam os mais engraçadinhos, as mães tapariam os olhos dos filhos e as velhas ficariam vermelhas de vergonha.

Outro dia li sobre mim numa dessas revistas de literatura e culinária. Dizia o articulista que a culpa de eu ser assim é do tempo em que me insiro, do contexto histórico e da realidade social de uma sociedade apolítica e socialmente desequilibrada. Senti-me importante: era a primeira vez que me notavam e me tratavam com respeito. Chamaram-me homem pós-moderno, pós-homem, moderno, desumano.

Em 6 de julho de 2006.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...