26 de mar de 2010

I am the walrus.

ninguém viu, talvez ela tenha lido, mas está ali, a porta do guarda-roupas, os fundos do guarda roupas, não os fundos dos fundos, os fundos de dentro com tinta a óleo, charles morreu em hum mil novescentos e noventa e oito, afogado, tinha dezoito anos e estava na oitava série, eu estava na oitava série com treze para quatorze anos, talvez charles tivesse dezessete anos, mas era negro e pobre e bonito, talvez tivesse de dezessete para dezoito anos, mas foi assim:

não falei, vi-o morto no caixão instalado na casa pequena, eram três cômodos, vi-o negro e morto em hum mil novescentos e noventa e oito, chorei somente o que podia, não sabia chorar ainda; fui ao enterro no cemitério cheio de estudantes com olheiras, isso faz tanto tempo, depois eu soube: não prestava mais viver aqui. caralho de rima! e talvez tenha sito o start ou o game over. fui morar em ivoti.

casei um amigo, o primeiro, o primeiro amigo a casar de fato, igreja, pastor e dei-lhe um abraço dizendo ter certeza, sabe-se sempre tão pouco ( eu lhe falei da certeza que eu tinha de que serão felizes), o amor é a única coisa que de fato funciona. um dia disse a adriano, chorando, que sentia saudade e que desprezavam o que eu tinha vivido, aqueles três anos confinado, aqueles três anos no cio, aqueles três anos (um balbucio!): eu vivi, me perdoem, eu vivi de verdade a vida do boemia, do intelectual de quinta, do adolescente rebelde de quinta {eu nunca fiz nada que valesse a pena, assim: [havia um banco, escrevemos uma peça ruim, mas uma peça (a gente tinha quinze anos, porra!)]}, mas afinal, uma vida: dover, gerber, edos, eu, cabem tantos nomes e tantos nomes que não precisam ser ditos: falo do pedro por amor e escondo outros por sacrifício.

(aonde eu queria chegar, aonde eu precisava ir, há o trottoir e há várias anas que nunca foram minhas nem nunca serão; ela me disse que me lê aqui, que surpresa!, tenho que tocar violão e voltar a ter certeza!)

morreu-se mais um amigo, casei um, pelo menos. (isso de poesia, nem sabia onde morava, veio a carta, enterrei um, disse, vou ao rio grande casar outro). e foram dias de glória, tanto se trabalha, foram dias de glória, eu revi! eu revi! EU VIVI, PORRA! foram dias de glórias e foram apenas três curtos dias.

quantas farças preciso viver? eu vi o corpo e somente senti quando me veio a mãe chorar no meu ombro e disse ele foi teu amigo e eu me disse há tanto tempo, e ela disse ele, o teu amigo, e eu disse a ela o amigo de tantos anos atrás, o primeiro amigo, o primeiro, e fomos enterrá-lo no
cemitério.

nunca se recupera. eu li tanto, já. eu li tão pouco. e a vontade de chamar bolaño pra conversar - eu ficaria frio e pálido, mais do que quando dona hebe de bonafini me apresentou à américa latina. muito prazer, eu disse; a américa latina deu de ombros e não respondeu. gregory foi
sempre tão simpático!

ele me disse que eu não posso ficar igual meu pai. e eu disse a ele que meu pai é velho e eu nunca vou ficar velho. ele me olhou. eu disse a ele que maluco morre antes, morre com sorte, morre solene: eles dizem: morreu jovem.

[é isso de letras: a gente somente escreve, foda-se o receptor. quem se importa, mente.] eu te disse, anjinho.

(e eu me digo que merda, marcelo labes, essa porra desse anjinho não existe, por acaso inventaste uma irmã mais nova?, por acaso criaste uma amante de corpo impróprio, ela ainda criança? e eu me digo porra, marcelo labes, tu não vais parar com isso? e porra, marcelo labes, até onde? e eu respondo assim: eu, marcelo labes, não tenho rumo nem eira nem beira nem fim. tenho mais amigos que inimigos, assim penso. não me desejo escritor, os outros é que me dizem; uns poucos me agradam com elogios e falam bem.

e eu acordo nessa sexta feira e penso porra, o que vou fazer de mim?)

e penso no belchior, que eu sou apenas um rapaz, e no humberto, que grita e regrita o amor, no renato, que fala que fala de paz e no john, que diz que i am the walrus. amém.

pois que tanto que se pense que se diga que se fale que se ore que se sonhe que se sinta que se chore:

so i am the walrus também.


16 de mar de 2010

Um sonho.

a gente sempre tem um sonho, maninha, eu também tive, era numa rua que não existe mais, puseram um viaduto bem no meio, mas era lá, quantos anos eu tinha, tão poucos, era um ônibus da itapemirim, amarelo daquele jeito dos anos oitenta, amarelo queimado, eu entrava no ônibus ali onde a iguaçu encontrava com a rua são paulo, ali tinha uma parada, eu me lembro, eram tempos de cremer e ônibus da glória, nunca vi um itapemirim ali, ônibus de viajar, sabe como é?, e eu entrei pela porta da frente e vi o cobrador do ônibus feito num esqueleto, tudo aquilo eram esqueletos e enxofre e eu fui andando, devo ter me mijado, no sonho ou de verdade, eu fui andando e tu sabes como são ônibus de viagem, maninha, tem uma porta só, a da frente, e eu fui andando para o fundo do ônibus.

a gente sempre tem um sonho, o de ser qualquer coisa, até que desiste, se viu que ainda não se tornou nada, outro dia meu irmão disse que estranha a minha geração, isso de não querer ser nada e me perguntou tu, o que tu quer da vida, e eu disse que nada, não quero nada, já me basta muito estar vivo ainda e ele disse que achava estranho e eu não disse a ele, digo a outrem, digo que me basta um emprego que me pague as contas, o trago, o cigarro, o pó e me reste algum dinheiro pros livros, ou a conversa é invertida, que eu tenha dinheiro pros livros e me reste uns trocados pro resto, sabe como é, a gente nunca sabe quem tem sido ultimamente.

eu me lembro de uns tempos. um de cada vez, tempo depois de tempo e me pergunto o que houve hoje pra eu lembrar disso daquilo ou daqueloutro, entende?

eu caminho ainda pelas mesmas ruas de uns anos atrás, eu ainda bebo no mesmo bar, eu ainda penso numa mulher assim e eu lamento. eu ainda lamento, maninha. não por tudo, mas por tão pouco.

desde que revi barone e cris que eu guardo um choro. mas não vai ser qualquer choro, não. vai ser um tal de um qual de um certo choro bom. aquele que eu quis chorar naqueles tempos, o shopping cristal e eu me aguentando de choro e diarréia, não quero ir embora, não vai ser bom eu voltar, teria ficado por lá. teria ficado por lá: em porto alegre, em são leopoldo, em ivoti, em são paulo, em curitiba e na casa de uns parentes de minha madrinha que moram no oeste de santa catarina e que eu visitei quando ainda nem sabia falar. eu teria ficado por lá, maninha, e tu nem sentirias a minha falta. nos é muito caro perder alguém com quem se viveu.

mas a gente nunca viveu junto. e então?

teria sido melhor nunca ter te conhecido, anjinho.

será fim de tarde daqui a pouco e veremos os suicidas fazendo fila em cima da ponte do tamarindo para decidir quem pula e quem não levi...