23 de mar de 2016

O filho da empregada.





Do Filho da Empregada não posso dizer que sejam somente memórias, senão que se trata da poética das lembranças. Porque não estávamos sós, a mãe e eu: talvez disfarçássemos melhor a vida que se vivia. E éramos muitos, às seis da manhã, naqueles ônibus lotados de gente com a alma úmida.

Do Filho da Empregada posso dizer que, além de memórias, é retrato do cotidiano. Porque as empregadas ainda levam seus filhos a tiracolo, ainda são humilhadas pelas famílias de que não fazem parte todo dia de manhã.

Não posso dizer que seja acerto de contas, mesmo que pareça. Talvez venha daí a dificuldade que foi escrever sobre a gente à distância; não pode ser confortável remexer os cestos de memórias. Não se pode sair ileso dessas revisitas.

É, então, um livro de poesia sem poemas. Ou um livro de poesia de um poema só. Um anti-poema egoísta (como são todos), que procura companhia. Ou alguma outra coisa que só ao leitor pode caber decidir.


a noite.


o poema
só faz sentido
quando se dá
conta de seus
perigos.

que a poesia
seja amiga
pra toda vida.

que os poemas
silenciem
e nos permitam
dormir.
eles perguntam
as horas
os relógios
estão parados.

eles perguntam
pra onde
os mapas
foram queimados.

ouvem vozes
que prometem
que prometem
que prometem

eles perguntam
se é possível
o futuro
repete o passado.
na fotografia
chama atenção
o abraço
dos amputados,

a ciranda dos
paralíticos.

cegos, cegos
correndo
desesperados
tentando
escolher o
melhor lado.

a última piada
nunca costuma
ser a que mais
tem graça.
se meus pés
estes passos
só fazem levar
pra frente

é o abraço mais
antigo que leva
a gente pra trás

- um tempo que
soa abrigo
aqueles invernos
compridos
alguma promessa
de paz.

quando fugimos
nos aproximamos

quando esquecemos
é que mais lembramos

não somos os mesmos
não somos nem mesmo

diferentes
ou iguais.
a noite é quase
tão clara como a
lembrança mais obscura

enquanto telhados
de zinco tilintam
sob a luz dos postes.

em qualquer parte
que fosses, a umidade
te seguiria.

chove também
por aí?

aqui quase faz
frio.
de repente
a gente lembra
de algum dia
dos 80

(na memória
umas rasuras,
tantas tardes,
tantas ruas;
silhuetas,
quase sempre
silhuetas)

de repente era
90, afinal.

de repente,
não foi nada.

[e a gente fica
besta, estancado
no meio da escada

como se aquilo
de há tantos anos
tivesse passado
semana passada].

2 de mar de 2016

eles se davam
bom dia
como quem
espera

mas ninguém
sabia
exatamente
para onde
aquele dia
ia.

eles se olhavam
como quem
demora

- àquela hora
a vida ia
v
a
g
a
r
o
s
a
m
e
n
t
e
embora.
recomeço
retrocesso
avesso e
inverso:
antigo.

outono ou
março:
disfarço.
refaço o
caminho
pelo mesmo
acesso.

fazer do último suspiro vendaval terremoto deste peito inerte chorar vendavais guardados desde a primeira vez que engoli o choro iss...