29 de jan de 2018

de menino
não alcançava a compreensão
das regras do futebol e por
isso as margens do campo
me eram solidão e morada

de menino
não alcançava ouvir até o fim
da advertência: então voltava
ao início e repetia: de novo tentava
(em vão, é verdade)

de menino
o caminho era o mais longo
a subida era a mais íngreme
descida sem freio de olhos
fechados: na frente o vento,

um caminhão.
Eram as pedras, eram
as pedras - depois foi
asfalto e velocidade.

Eram as pedras e os
pés sangravam, os dedos
doíam, a perna mancava.

A cada tropeço, a cada
topada, lembrava do dito:
eram as pedras.

No alto da ponte, bolsos
cheios delas, os olhos
abertos: as pedras,

as pedras.

(A Alberto Lins Caldas, que ecoa sempre por aqui)
Sempre moramos do lado da estrada principal do bairro e isso valeu uns bons parágrafos num romance que não termina nunca de ser escrito. Ao lado do ponto de ônibus. Naquele bairro operário onde os trabalhadores falavam de suas fábricas e das empresas que vigiavam e das casas que limpavam e do dinheiro, que era sempre pouco.

Não tínhamos carro e nosso transporte principal era o coletivo, como ainda hoje é. Os motoristas e cobradores eram colegas de trabalho ou parte da família, não consigo decidir, tanto tempo que faz isso. Nos viam crescer e, pra minha grata surpresa, ainda me reconhecem, passados tantos anos. Outro dia vi seu Wilson, um cobrador que trabalhou na linha de casa ali pelos 2000. Não precisei dizer palavra para que ele se levantasse e me cumprimentasse logo com um abraço.

Mas houve um tempo, antes disso, que foi muito melhor. A linha que passava em frente de casa era a Norte - Sul, Badenfurt - Progresso, e cruzava toda a cidade nesse sentido. Isso antes dos terminais de ônibus e da integração de todas as linhas. Era ali que passava Seu Ivo, o homem grisalho, com a careca exposta no topo da cabeça. Era ali que passava o Valdecir, o cobrador que me deixava fazer uma, duas, três viagens, até quase escurecer.

Eu podia sentar em seu assento, o único disposto no sentido lateral, mais alta que todas. Podia puxar o cordão que avisava quando tivessem baixado todos os passageiros. E podia conversar com o motorista num ângulo impossível de outro lugar do ônibus. Era um local que garantia ao sujeito que ali sentasse muita importância, além de ser uma função de enorme responsabilidade. Mas eu não sabia contar, e tão logo os passageiros fizessem fila para passar na catraca, eu tinha de abrir mão do meu lugar para seu dono, o Valdecir.

Era o mais longe que eu conseguia ir de casa e era um dos poucos meninos que conseguia tal façanha. Aos demais, sobravam as narrativas tortas das aventuras dentro do lotação. Depois de atravessarmos a cidade, o ônibus parava por meia hora num boteco à margem da BR 470, em Blumenau. Ali eu ganhava um salgado e um refrigerante de garrafinha e ficava conversando, porque às crianças nunca falta assunto.

Lembrei disso porque não arrumo emprego de jeito nenhum aqui em Florianópolis e, já cansado, fui procurar nas empresas de ônibus. Pensei que eu pudesse me igualar ao Valdecir, agora que sei fazer a maioria das operações matemáticas simples. Mas não precisavam de ninguém. De qualquer maneira, sigo buscando um trabalho que me pague as contas, o cigarro e a internet, pra eu seguir procurando essas pessoas que fizeram parte disso ou daquilo.

Outro dia encontrei com Paula, uma amizade virtual de lá-se-vai-o-tempo e de quem eu não sabia nada há pelo menos dez anos. Escrevi um poema pra ela no meu primeiro livro. Agora, quem sabe, eu encontre o Valdecir.

Valdecir, se tu estiver lendo esse texto, vim te dizer que aprendi a contar.
no largo da alfândega um grupo de evangélicos
entoa hinos a um deus sem santos enquanto abrem os braços
como se fossem abraçar os sem-teto e os bêbados e as putas
banguelas que transitam pela conselheiro mafra e ali se deixam
estar atrás de uma sombra ou de um pouco de água nessa tarde
que quase chega aos quarenta graus enquanto a vocalista procura
no celular a letra para continuar para continuar cantando em louvor
a jesus cristo a pedro a tiago a joão enquanto um mendigo levanta
os braços e não percebo se é para glorificar ou se para pedir silêncio
que nessa vida já tem barulho demais

joão!, ela diz, antes do playback bater o início da próxima estrofe

caminho com meus currículos que disfarçam incompetências
que disfarçam as madrugadas em claro os dias catando palavras
a esmo para fazer aparecer no texto no poema na dedicatória que
vou escrever para quem comprar um exemplar do livro novo do antigo
do mais antigo, já que dizem "de literatura não se vive", mas tenho comprado
pão e leite e manteiga e cigarros com os livros vendidos

oras

escrevo emails como quem precisa como quem se humilha e lembro
de carlos dizendo que não era nada senão poeta mas quem penso
que sou para ousar lembrar de carlos?

o sol a pino às quatorze
o sol inclinado às dezoito
os evangélicos fazem coro para contratar novos famintos
e eu penso que um abraço é do que se necessita para não sucumbir antes do fim do dia.
i.
sei que levas poemas nos bolsos
e nas pontas dos sapatos
puseste jornal a fim de calçar
com firmeza

sei também do teu medo de chuva
e não importa se o anúncio diz que
te tornas impermeável até os ossos
com essas botas

a chuva irá te molhar
o sangue irá escorrer
e quem diria que teu couro
seria sensível às garras
dum filhote de felino

ii.
perdi as contas de quantas
contas ainda restam pagar
e não importa: maus pagadores
se ensaboam na espuma das
boas intenções

iii.
sei de tudo isso: que as cartilagens
não resistem à gravidade: que sempre
esquenta antes de a chuva cair: que
o mar batia ali onde agora é asfalto
e tristeza

iv.
sei da umidade e do desconforto
sei de meridianos e melancolias

v.
deitei os quilômetros da rodovia
por onde não passas, não passarás
por isso te abraço este abraço de filho
(e me digo)
do filho que sabes que nunca terás.
desci as escadas com
uma mala pesada mais
um saco de lixo para
entregar para os bichos
- bicho: o que não soa
humano ou parece não
soar - as pessoas da rua
desci as escadas com as
roupas separadas mulher
homem time de futebol
sapatos femininos masculinos
desci as escadas e a duzentos
metros de casa o homem a
mulher a calçada a fachada
dos prédios mais antigos que
a vinda dos meus antigos
outros pobres em outra hora
desci as escadas para encontrar
a saída para encontrar a subida
ali sentado no fim de tarde que
esvazia as ruas e a vida uns
olhos azuis uma calça rasgada
umas mãos sujas uma palavras
- que palavras, que palavras -
desci as escadas e voltei
com a mala vazia a consciência
tranquila de quando vamos
ao zoológico com a família
e achamos que fazemos muito
jogando pão para os peixes
o homem a mulher - bicho
não é quem vive na rua mas
quem habita o lado de cá e finge
finge finge finge e entrega o pão
para os peixes e entrega o pão
para os patos e espera que a rua
esvazie e que ali não se esconda
o homem a mulher entre os sacos
de lixo e as roupas que não tive
tempo de lavar.
mandei pelo correio
meus quatro livros
tudo que publiquei
em papel como manda
o figurino umas dezenas
de poemas umas dezenas
de parágrafos mais as capas
as fichas catalográficas as
dedicatórias os agradecimentos
num envelope marrom de
textura rude numa agência
de correios desta cidade
sem arestas
tudo pesava quatrocentos
e oitenta e um gramas e
eu me perguntava quanto
pesa quanto pesa quanto
pesa a literatura dentro da
vida se não é capaz de
encher a balança nem
bem com meio quilo.
[um poema pra chamar de nosso]

olha
olha aqui
olha olha olha
aqui olha aqui eu

tenho um coelho na
cartola uma carta na
manga eu sei fazer
chover no deserto
eu tenho aqui um
poema grudado
na sola do meu sapato
furado e é por isso
que mantenho os
pés secos os pés secos
pode
chover mais vai ter
que chover mais vai
ter que chover
muito não penseis,
mortais, que estais
a falar com um qualquer
porque eu trago raios nas
mãos asas nos pés mel no
pau cáries nos dentes e o
pulmão cheio de fumaça

sou poeta, direis
eu digo: sou nada mais
que isso.

sou poeta de muitos amigos
preteritorto mal passado indefinido

pé de cabra nunca de breque
de quebra cabaça fruto liberado da árvore do limbo

plageio pra julho janeiro pra já
cobro escanteio -jamais curto- falta pênalti lateral tiro de meta erro tudo!
sempre constantemente me iludo
não perco a fé
ela quem me perdeu

quando nasci um anjo das pernas tortas
veio e me dibre
aqui é o fim do terceiro mundo
quem tiver de sapato ainda não foi atropelado
e quem subir no salto não é tomzé
muito menos torquato

[escrito por mim e pelo querido Pedro Blanco]
somos adultos em busca
duma infância antiga
bebendo leite da vaca
mamando nas tetas da loba
os seios de nossa mãe
antes do gosto da borracha

brindamos taças de líquido
amniótico roubado das mães
roubadas de África
: vimos secar as crianças
pensando que a morte liberta
: antes então prematura que
arrastada

brindamos em redor de uma
mesa de inocentes como se
fôssemos como se nos
importássemos com as
crianças com fome
como se soubéssemos de
África onde fica

isso porque somos jovens
e os livros formam pilhas
entre a poeira e o verão
se inicia somente depois
que nos recuperamos do
tanto que comemos do
tanto que nos empanturramos
nesses dias de natal.
i.
quem diga que o poeta
que o poema do poeta
quem diga que a vida
quem diga que sorte
saber lidar com palavras
desenhar com palavras
esculpir a palavra
e utilizar a palavra
como ferramenta
quem diga que o poeta
é feliz não sabe
de nada.

ii.
dos vinte aos trinta
e daí aos quarenta os
dentes erodem as costas
a vista se cansa e não
tens tempo ou dinheiro
não tens mesmo vontade
de conseguir dinheiro
para visitar um médico.

iii.
a rotina mata mais
que cocaína mata mais
que guilhotina mata mais
e é mais afiada

iv.
queria ter sido outro
tantas vezes

v.
e não é tudo isso
o que te faz ser tu?
olha bem para teu pé
teu próprio pé olha
olha bem para teu pé
que assim não olhas
em volta assim não
sabes de nada olha
bem para teu pé
sem olhar para o
caminho olha bem
para o teu pé como
se fosse o umbigo
olhando teu pé
não reparas
não sentes nada
nem imaginas o
perigo

do buraco

e a queda é sem resposta
do lado de fora
a queda é silenciosa e demora
enquanto cais te lembras
e aprendes porque sempre
cais de novo
e de novo.

como um menino que sonha com pilhas - substantivo que mal cabe no poema - amarelas e que soltam faíscas que acendam as luzes as engrenagens ...