3 de out de 2016

De uma pequenas lista de prazeres cotidianos
tão pequena que só aparece um
o de chegar em casa, abrir a porta
do prédio, subir o lance de escadas e não
encontrar ali o elevador parado, as portas abertas
me dizendo "vem, vamos subir, vamos pra casa,
vem descansar, tomar um banho, bater punheta,
comer salgado descongelado, fumar cigarro na
janela, acender incenso de rosas vermelhas,
dormir cedo pra acordar cedo e ir trabalhar,
como todos os dias".

Onde o prazer habita? Em chegar em casa,
subir o lance de escadas e não encontrar
ali o elevador parado, as portas abertas,
as frases de sempre que ele sempre me diz
do primeiro ao sexto andar.

Abro a porta, subo o lance de escadas
e se o elevador não está, aperto o botão [do foda-se
afinal não escalar seis andares a pé]
e tenho, sei lá, 15 segundos para encontrar no molho de
chaves a chave certa, a que abre
a caixa de correspondências [todos os dias
a chave errada e se a chave certa, o lado errado
da chave, como uma auto-sabotagem
como necessidade de prolongar esse momento
enquanto o elevador vem descendo]
e eu procuro a chave dentre as chaves
para abrir a caixa de correspondências
na esperança vã de encontrar ali uma carta
que traga novidades, que traga notícias tuas
notícias deles, nossas notícias de anos atrás
onde estaremos daqui uns anos
esperando uma carta apenas, ou um livro
dedicado, enviado de muito longe
com promessas de reencontro, com promessas
de leituras, de poesia para além da vida.

Então todos os dias eu entro em casa
[depois da primeira porta e do primeiro lance
de escadas] e se o elevador não está
aperto o botão e procuro a chave da caixa
de correspondência
(um prazer inominável, aqui, um prazer grande pra caralho!)
e se me deparo com a conta de luz, com o aluguel
com o condomínio, com a conta de internet
penso que tudo bem, vamos pagar as contas
e ouvir o que diz o elevador nesses seis andares
de encontro e conversa,
mas amanhã a mesma coisa
abrir a porta, subir o lance de escadas e
se o elevador não estiver, procurar dentre as chaves
a chave que abre a caixa de correspondências
onde poderia haver uma carta, mas nunca há.

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