3 de out de 2016

Só agora foi que me dei conta
que a boca torta de Noel Rosa
não pode ser comparada àquele
espaço somente encontrado
entre os dentes separados de Elton John

- o branco negrificado
inglês colonizado
em cujo espaço entre os dentes
caberia o cadáver acidentado de Lady Di
os cadáveres injustiçados das Malvinas
a menina negra de Segredos e Mentiras
que Mike Leigh talvez tivesse querido
ter encontrado entre as gôndolas de uma
videolocadora num domingo cinza como este,
exatamente como este,
quando o cinza do céu não hesita
tocar as antenas, o Morro da Cruz,
o chão,
não hesita tocar a gente dentro
até os ossos
e provocar esse desconforto
que poderia ser solidão
mas não se trata disso agora.

Por isso digo que a boca torta
de Noel Rosa significaria muito mais
a dor de mastigar e engolir
um pedaço de carne mal passada
ou recitar um poema de Piñero
ou silabar Carmina Burana
desde que soubesse latim
e não estivesse muito preocupado
com fevereiro ou a hora do trem,
se não passasse ou se atrasasse

(a mãe de Noel, a mãe de Waters?)

Sir Elton John que nos perdoe
um poema tão ligeiro sobre
seus dentes separados e outras divagações,
mas acontece que hoje é domingo
logo faço aniversário
e o cinza deste dia está parado,
terrivelmente pesado.

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