24 de fev de 2017

road poemas

para luiz eduardo

i.

o paraguai vai muito além
da fronteira suja de que reclamam
os brasileiros

nós não sabíamos

e enquanto turistas observavam
admirados o palácio de los lopez
(cópia do palácio de versailles)
comprávamos uma coca cola de dois
litros
- fría, señora, por favor -
numa bodega improvisada
da chacarita.

ii.

talvez ninguém nunca
tenha pisado os pés em
villa montes como fizemos
naquela tarde de calor
e esperança.

quando o agente alfandegário
perguntou-nos se tínhamos
plata
rimos e nos dissemos que sim
embora pouca.

o que carregávamos em nossas
mochilas não se podia declarar
o seguro não cobria
não se preenchem sonhos nos
tickets de entrada.


iii.

em santa cruz de la sierra
fomos recepcionados
por um alemão bêbado
- estávamos em casa -

fizemos da janta de reveillón
uma oportunidade humilde de
demonstrar-nos afeto e jantamos
(qual era o menu?)

tomamos inka cola
e um taxista nos levou para
onde as coisas aconteciam

os anéis de santa cruz
libertam mais que prendem
ou o contrário?

dia hum
fazia frio
estava cinza
estávamos em casa.


iv.

cochambamba
é uma cidade seca ao pé
de montanhas imensas
onde se vê neve no topo.
edwin, o taxista
que me levou a mochila
levou também o passaporte
e os poemas
- não se rouba os poemas de
alguém, não assim,
que macana!

de certa forma, estávamos
mais perto do acre do que
de casa
e cada vez mais perto
de nós mesmos
nos despedimos.


v.

queria tanto rever luiza
que pouco ou quase nada
compreendi daqueles dias
: luiz a caminho de la paz
mandava notícias, poucas,
e em frente ao consulado brasileiro
sentei e chorei pensando em
meu pai.


vi.

diante da praça, no café paris
observei militares e campesinos
ouvindo a fala do presidente
da república pluracional da bolívia
senhor evo morales

era mais bonito ver a reverência
das pessoas humildes do que o
presidente em si,

mas isso lá é novidade?


vii.

sentei-me com joana
para uma prosa
eu não sabia de muitas
coisas
mas quem poderia sabê-las
se não ela?

dia desses,
um atentado na europa
fez roubar a atenção

- quando deveria aparecer
na televisão esta senhora que vende
hamburguesas e tem na parede a fotografia
do pai, veterano da guerra do chaco.

mas quem sabe do chaco?
da bolívia, quem sabe?

e de nós, quem sabia
senão a vendedora de lomitos
e a louca que apontava para o meio da praça
e gritava: HEDIONDOS! HEDIONDOS!
como se visse do outro lado da rua
aqueles conhecidos assassinos
que nos levaram nossos jovens
de há cinquenta anos.

talvez ela os enxergasse, louis.


viii.

quantas cores que os olhos
não conseguem decodificar
quantos sabores
quantos olhos morenos
quanta pele queimada de sol

mas há algo ali que não nos cabe
e que buscamos
há algo que nos convida e repele
e quem sabe não estará nisto o
segredo, a revelação, o mistério?

e é preciso seguir buscando
como a um graal cheio até a boca
de pípulas contra soroche
que beberemos como se fossem água.










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