7 de dez de 2017

para o Blanco, para o Joaquim:

quisera ter podido atravessar estradas
sem olhar para os dois lados quatro
na verdade porque não se pode ignorar
que o em cima e o em baixo são tão
importantes para a segurança própria
e alheia como direita e esquerda nos
demonstram os manuais desde que
aprendemos a ler

pois bem

quisera ter podido ter vivido os vinte anos
a década inteira que se chama vinte anos
melhor do que naquela canção de fábio junior
embora tenha vivido e chorado e cantado
a versão de raimundos ao vivo num palco da
mtv em algum show de fim de ano não importa
uisera ter vivido os vinte anos me sentindo
e dizendo poeta

porque aos trinta já soa tarde parece tarde tem
cheiro de coisa vencida

porém

quem sabe que caminhos se alcançam quando
se atravessa a rua sem olhar para os quatro lados
quando se entra no ônibus sem ler o letreiro
quando se acorda cedo e se permite caminhar
a esmo sem esperança alguma de encontrar um poema
sem esperança nem mesmo de escrevê-lo para

de repente

(tocou o telefone
chamei uma senha
atendi um rapaz de
vinte e poucos e uniforme
duma empresa que promete
futuros)

o poema surgir estampado
como se tivesse sido sonho
como se o poema me tivesse
sonhado / ou o contrário

eu dizia ao jonhn ou foi ele
quem disse: depois dos trinta
e tendo já feito de tudo
e tendo já tudo dado errado
resta assumir que não resta
mais nada senão isso: a vida.
a vida inteira pela frente

: a vida a reboque da poesia.




(tendo Cláudia e Jonhn por testemunhas do momento em que esse poema começava a ser escrito sem papel nem caneta)

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como um menino que sonha com pilhas - substantivo que mal cabe no poema - amarelas e que soltam faíscas que acendam as luzes as engrenagens ...