6 de ago de 2009

T.

eles discutiam sobre os descaminhos e recaminhos e eu ficava olhando pra saber o que dizer e não dizia nada, olhava pra porta e não pensava em nada. eu tinha sono e fome e uma vontade sincera de vomitar e meu nariz escorria e eu funguei três vezes traumatizado e traumatizante, aquela porra corroendo meu nariz.

eles discutiam e eu pensava no maior livro que já tinha lido, os livros grandes cansam mais do que a vida porque se estendem sempre muito longe. então sorri pensando que lerei mais quantas vezes puder o cem anos desde que eu passe os olhos pelo primeiro parágrafo onde diz que o capitão ou tenente aureliano buendía etc e tal.

acordei sozinho e o chão era gelado. talvez que meus rins doessem ou talvez eu só quisesse ter acordado numa cama quente de um quarto quente que tivesse aquele cheiro sincero dos cabelos dela. acordei sozinho e pensei que o melhor de sentir falta é justamente a falta que faz, ninguém lamenta o que tem por perto.

eu olhava a porta e as pessoas discutiam. eu mesmo discutia, embora não tivesse palavras. falávamos de literatura e do meu lado estava um amigo muito querido e do outro lado estava um amigo muito querido e em volta só havia estranhos e eu ficava olhando pra porta esperando que aquele olhar chegasse em mim e me dissesse calma, fica bem, estou aqui.

falávamos de quanto mede, de quanto mediu, o que se escreveu e chegamos aos cálculos, pois havia livros com muitas palavras e de repente se criaram os espaços eletrônicos onde se escrevia com poucas palavras e agora inventaram essa máquina de cotidiano onde somente se pode escrever cento e quarenta caracteres, não meçamos, serão muito poucas palavras, não contemos.

e eu pensando no quanto se pode dizer com tão pouco e quase propus que não escrevêssemos mais literatura, que nos contentássemos com o signo, somente o signo como num ideograma que não tivesse idéia que teria muito mais idéia porque seria somente o signo e percebi que não poderia explicar minha necessidade de não dizer.

lamentava-se que agora o texto se resumisse aos cento e quarenta caracteres e eu disse que se pode escrever muito bem em cento e quarenta caracteres e que havia um microconto que falava ao mesmo tempo de amor e de estocolmo e só uma mulher balançou a cabeça quando falei de estocolmo para mostrar que estava entendendo o que eu dizia.

eu pensei que não precisaria de tantas palavras como nos livros grandes que dóem como dói a vida nem das poucas palavras que dizem o que se pretende dizer em poucas palavras e que no fundo se entende nem mesmo dos cento e quarenta caracteres de cafezinho. eu precisaria somente de um signo, somente uma letra para dizer como os dias podem ser quentes, como os dias podem ser iluminados e como se pode sorrir nessa quinta-feira nublada quase fim.

eu escreveria somente t para dizer. t para abreviar o gosto. t para passar o dia. t para lembrar como se chama. eu escreveria somente este t de tatiana.

4 comentários:

Tati Plens disse...

"como os dias podem ser iluminados e como se pode sorrir nessa quinta-feira nublada quase fim."

como a gente pode dizer com um sorriso, com um olhar lacrimejante, com um suspiro, com um abraço, com duas mãos se soltando no final da noite e o coração quente.

Rodrigo Oliveira disse...

Texto inspirado, rapaz. Tem aquele agridoce que vc prepara vez por outra e que deveras me apetece. Há coisas que se resumem em grandes livros, outras em poucas linhas, outras numa letra. Há coisas que não deveríamos resumir.

Cláudia I, Vetter disse...

ai!, além do coração acelerado e condizente, sim, os olhos agora não aguentam e desaguam...
lá se vai mais uma verdade doendo
do fundo tão imenso.

que belo. que digno.

;,)

Viegas Fernandes da Costa disse...

Grande amigo, se todo silêncio, fome e sono inspirasse texto assim, amém! Parabéns!
Abraço forte e fraterno,
Viegas.
Ps.: Estamos organizando um festival multicultural com os alunos do colégio Metropolitano, em Indaial, onde leciono. Vamos declamar poemas de poetas catarinas, e escolhemos dois poemas do Falações. Pode ser?

eu sei da umidade em que tu chafurdas e sei dos monstros que estão sobre a cama na hora em que te deitas eu sei que atrás da  porta res...