1 de ago de 2017

negociei com seu valmor, o zelador, a entrega dos livros que me chegam; a pequena porta da caixa de correio agora fica aberta e ele deposita os livros lá dentro. assim não preciso mais fugir de suas ligações no interfone ou correr para deixar o prédio antes de encontrá-lo: temo encontros antes do terceiro cigarro da manhã e seu valmor aparece sempre antes do terceiro.

outro dia veio ter comigo: então tu é poeta? e eu respondi que sim, tinha uns livros. e o que chega pelos correios são livros?, e eu disse que sim, livros, muitos de poesia, e a conversa terminou ali. seu valmor, inquieto, sempre me avisa quando chega um livro novo: coloquei na caixinha do correio, como o combinado. e eu o agradeço.

finalmente veio conversar. começou com um bom dia arrastado. então isso: esses livros que chegam pra ti, esses livros de poesia, eles vêm pelo correio, eles têm selos, né? e eu respondi que sim, muitos deles, sim. e sorri: o senhor coleciona selos, seu valmor? ele respondeu positivamente, gosta de selos. quando chegar de novo, guarda pra mim? guardei. e hoje pela manhã entreguei os selos recortados dos envelopes dentro de um livro de poemas. o meu livro.

a finalidade da poesia, quem sabe afinal realmente qual é.


Um comentário:

Nadine Granad disse...

Haha, que delícia de texto!

Adorei como escolheu as pontuações, a ausência de maiúsculas!...
Tanta poesia em sua prosa!
Prosa sobre poesia...

Beijos! =)

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...