17 de set de 2017

a Marcelo Pierotti

o poeta carrega palavras nos bolsos
e sobre ombros já que nos braços
carrega o cachorro morto sob

uma chuva que nunca para de cair.
o poeta foi trabalhar com materiais
de construção porque vale

a pena erguer o mundo e o que
importa são vergalhões, fiação elétrica
e canos de pvc: o resto são ideias

e ideias não pagam contas. uma
hora a gente descobre que ideias
rendem poemas e alguma conversa

de sábado à noite. pois que saí da
sessão deste último filme de laís
bodanzky pensando como pode

custar caro esta afetação francesa
estes conflitos de classe média
que fazem fechar a garganta mas

tenho de novo as contas atrasadas
pego dinheiro emprestado de amigos 
para pagar boletos envio livros pelo 

correio e calculo o mês como quem 
acende o último cigarro depois da
meia-noite sabendo que não há mais

onde comprar nem há disposição para
isso nem há paciência para a noite para 
os vultos as luzes dos carros

o poeta foi trabalhar com materiais de
construção com o que realmente importa
já que as ideias são apenas para quem tem

muito tempo disponível.


 

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como um menino que sonha com pilhas - substantivo que mal cabe no poema - amarelas e que soltam faíscas que acendam as luzes as engrenagens ...