29 de jan de 2009

GAVETA #01

Saudade. Nunca souberam exatamente o que aconteceu, mas quando chegaram ela já estava morta. A cabeça meio de lado, deitada sobre o tapete vermelho da sala de visitas. Até ajudava a compor o ambiente. Aquele cadáver. O marido chorava e se ria todo. Confusão que se tem com a perda. Ataque cardíaco, aneurisma, leucemia. Falaram, falaram, mas realmente, de verdade, nunca disseram nada. Morta e enterrada.

Saudade. Dia ruim para Juliano. Quando os dias não são mais os mesmos, porque insistir em sentir saudade dos dias? Uma secretária chamada erroneamente Marlise — poderia ter um nome que condissesse com seu potencial de beleza. Família do interior, ficou Marlise mesmo. Uma secretária chamada Marlise o ajudava a esquecer a morte da esposa. Sexo, sexo. Aprendeu que bater lhe ajudava com os dias. E Marlise gostava de apanhar. Aprendeu que gostava, descobriu que gostava quando Juliano lhe deu o primeiro soco na cara exposta. Queria apanhar mais. Queria bater mais. Davam-se muito bem.

Dia ruim para Juliano. Reunião com os sócio e histórias sobre como deve ser uma sociedade, como se deve proceder com o dinheiro, como as pessoas, às vezes, tornam-se repentinamente estúpidas e desgostosas. Ele entendia que falavam com ele. Falavam com ele sobre ele mesmo, e ele não gostava. Dia ruim. No final da tarde, reunião com a professora do Tiaguinho. Criança revoltada que desistiu de aprender. Sete anos. Criança estranha que não conversa com os amigos e agride a professora.

Dia ruim, noite ruim. Telefonou-lhe a ex-esposa. Uma outra, que tinha dentes de ciso e os olhos caídos. Não a morta, uma outra. Falou-lhe dos filhos, que sentiam saudade e não lembravam mais quem era o pai. E que precisavam de dinheiro, todos os três. E a Vanessa precisa usar óculos o quanto antes e precisa de dinheiro para fazê-los. Noite ruim. Acordou com o alarme do carro gritando, desesperadamente, que queriam roubá-lo. Polícia, boletim de ocorrência. Três da manhã. Saudade da esposa morta.

De manhã, a surpresa. Encontram-no morto. Não em casa. Não. No cemitério. As unhas partidas, cheias de terra; a cara boa. Cara boa de criança que encontra presente de natal antes do natal. Cara boa. A minha, se encontro algum dinheiro perdido na gaveta. Estranho. Foto no jornal popular. Morto agarrado à morta. Triste cena a do Juliano abraçado ao punhado de ossos cobertos por fina camada de pele cinza.

Não havia cheiro de podre.

(Na gaveta desde abril de 2007)

9 comentários:

Marina Melz disse...

Ritmo gostoso de se ler. Quanto a desviar de pessoas na rua, se acalme. Quase todas elas escondem suas raquetes de um jeito tão especial, que acabam por nem lembrar que elas existem. Só malucos saem tentando acertar os outros, já que na maioria das vezes se encontra só o vento e nenhuma cara pra bater.

Marina Melz disse...

Olha, interessante. Acho que é a primeira vez que um ilustre desconhecido me fala sobre querer (ou não) desviar de mim na rua. Minhas raquetes (ou o que quer que elas sejam) começaram a fazer efeito em pessoas que eu não conheço e não só nas que evitam as conversas mais delicadas comigo na vida real, palpável. De qualquer forma, hoje não tentarei te atacar e acredito que não vamos nos cruzar por aí. Ande tranquilo.

Marina Melz disse...

Curioso?

Marina Melz disse...

Se te consola, mesmo a que tenta te acalmar sabe exatamente quem ela é.

Marina Melz disse...

E o mais engraçado é que eu já passei por você.

Marina Melz disse...

Qual é a injustiça?

Marina Melz disse...

É o meu lado A. Você também pode achar que uso vestidos e trançinhas. Mas é bom, me sinto menos perigosa. Ou pelo menos escondo bem o perigo.

Marina Melz disse...

Um dia nos encontraremos e o problema estará resolvido, ilustre desconhecido. Ou, quem sabe, na próxima vez que estiveres sentado a escadaria do Ibes e eu passar, você seja o primeiro a me reconhecer pelo Lado B.

Marina Melz disse...

Não sei se ainda serve, mas aqui estão eles: Rodrigo - 99525870 e Daniel - 9928-6409.

(para o Gabriel Cortilho) eles têm aparelhos muito audaciosos muito modernosos eles têm aparelhos e técnicas inovadas eles têm dinheiro têm ...