5 de fev de 2009

Acidente

“Putaquepariu!”, foi o que tive tempo de exclamar, e já era encontrado pelo carro que vinha em minha direção e que não tive tempo de reconhecer a marca. Assim que voei, não sei o que passava pela minha cabeça, mas tive a impressão de que tinha feito merda e que, se estava mesmo voando, não queria saber do meu pouso. Rápido, claro que sim, já estava caído no asfalto, todo arranhado e possivelmente sangrando. Podia, com minha racionalidade, facilmente presumir que me encontrava todo quebrado. Mas não tive tempo de concluir esse pensamento, não. Desmaiava em seguida.

Segundos antes, eu acabava de sair de uma encrenca. E feia. Não sou casado, mas ela é. Porra!, casamento não é isso! Onde já se viu uma mulher trabalhar tanto, ser tão atenciosa com a família, tão cuidadosa com os filhos e não receber amor do marido? Foi aí que entrei, com o amor. Não faz muito tempo, questão de meses. E uma mulher que passa a ser realmente amada, muda. Ela mudou a ponto de o marido estranhar: sorria. Ontem eles discutiram, ele disse o que pensava, do que desconfiava, deu três tapas na cara dela e foi dormir.

Hoje foi que nos encontramos. Fiquei muito irritado quando vi seus hematomas e virei macho, de verdade. Disse a ela que largasse aquela tralha toda; família, marido, os moleques, o cachorro, tudo!, e viesse ser feliz ao meu lado. Bem que eu queria mesmo que ela dissesse não. Apesar do exagero da hora, penso que não estou preparado para ter esposa e me incomodar com essas histórias de morar junto. E a resposta foi mesmo negativa. Para não perder a pose, disse a ela que procurasse outro para despejar em cima suas mágoas de mulher insatisfeita, que eu tinha mais com o que me preocupar, que nunca mais me procurasse e essas coisas todas que são ditas em horas nervosas. Entrei no carro e saí, a mil. Mais por pose do que por pressa. Olhei rapidamente para trás para ver se ela me seguia, mesmo que com o olhar, mas não, já tinha sumido. Quando voltei a olhar a estrada é que apareceu aquele imbecil, que atravessou sem olhar para os lados.

— Dá um beijinho, Paulinha!

Faz tempo que estou nessa com a Paulinha. Como diz o Guto, essa é comestível e intocada. E gostosa, muito gostosa. E eu, volta e meia trago, ela aqui pra praça pra me dar aulinha de inglês. Qualé! Meus pais me tiveram em Londres e eu cresci no Canadá; aulinha de inglês? Quero mesmo é vê-la pronunciando thanks, thought, think; lingüinha entre os dentes, oh coisa maravilhosa. Quando eu deixei de ficar safado com ela, Paulinha começou a me dar atenção. Fiquei duas semanas sem falar em aula de inglês, pra ver se ela me chamava — e me chamou.

Era o que eu esperava. Pois que nem falamos de inglês, coisa nenhuma. Batemos papo lá por umas duas horas. Quando o papo esfriava e eu tinha a chance de me aproveitar do silêncio, sentei mais perto da Paulinha e pedi um beijinho. Foi o tempo de fecharmos os olhos lentamente para abri-los com espanto. Não vi o cara ser atropelado, mas vi ele rolando no asfalto. Paulinha começou a chorar e lá se foi uma tarde inteira perdida.

Caetano nunca foi supérfluo. Lá pra mulher dele, até pode ser. Porque, amigo, a gente sempre gosta mais do que família. E eu gostava de Caetano como um irmão, justamente por que não era meu irmão. A gente se conheceu por aqui, pela pracinha, quando ainda era novo. Ele mais novo que eu. Ensinei muita coisa ao Caetano: jogar xadrez, escapar da patroa, discutir política. E foi o que a gente fez bem uns quarenta anos. Pois que, um dia, engracei com uma senhora, viúva como eu, e não tinha mais tempo pro Caetano. Paixão é assim que é. O pobre caiu na tristeza profunda, de dar pena, foi o que disseram. Então, depois, ele se atirou lá da varanda dele, do apartamentinhozinho que ele tinha, chegaram a falar que era por causa da muita idade e da aposentadoria pouca. Mas eu não acredito, porque falei com a viúva dele, que me disse que ele se atirou foi de solidão. Não tinha mais amigo, que era eu, pra jogar conversa fora, falar mal da vida e do governo, e nenhum filho dele sabia jogar xadrez.

Atirou-se, eu fiquei sabendo do pessoal aqui da vizinhança, com a cabeça na calçada que trincou o osso e saiu muito sangue. Por isso eu fiquei tão magoado quando vi o rapaz caído atrás do carro. Lembrei do Caetano, meu amigo velho, que se estrebuchou também, aqui mais pra frente, não tem nem um mês ainda.

2 comentários:

Viegas Fernandes da Costa disse...

Labes, parabéns!
Gostei!

Marina Melz disse...

E como já conversamos: Caetano tinha todas as cores. Faltava-lhe apenas, consolidar as primárias.

um inventário com todos os mortos inclusive aquele jovem velado pelo pai de barba muito branca na sala de casa eu disse a carminha: morreu o...